Abaixo encontra-se a transcrição integral do texto histórico pelo engenheior agronomo Àlvaro Ferreira Neves ao visitar a cidade de Baixa Verde em 17/06/1947 e publicado no jornal A Ordem.
Quem viaja pelo interior de São Paulo, Distrito Federal, Estado do Rio, etc. Acostuma-se áquele dinamismo ensurdecedor das máquinas, usinas, transportes, etc. À proporção que vai aproximando do Norte, porém, este costume vai-se diluindo na apatia nostálgica das cidades pobres.
No Nordeste, então, a apatia atinge ao inverosímil, ante a estática invariável do seu interior, aliada a um quadro panorâmico que nunca muda, senão quando cai uma casa carcomida pelo desgaste do tempo... Graças a Deus, porém, que as exceções quebram o ritmo desta moderna perpétua, com a mesma frequência com que a Terra é visitada pelo Comêta de Halley...
BAIXA VERDE E SEU PROGRESSO
Quem visita Baixa Verde, conclue logo tratar-se de uma cidade habitada por um povo sacudido. Com efeito, logo que o dia amanhece os "Cabras" jogam-se de um lado para outro em uma azafama danada, como se o mundo estivesse para se acabar: — abrem-se as portas das casas de Comércio, recolhem-se os gaos que já foram ordenhados ainda pela madrugada, o sino repica, fabrica apita, foguete estala no ar, carroça vai, caminhão vem, Trem apita na Estação, meninos correm para todo o lado carregados de livros, e lá se vai tudo...
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| Vista da PRça Getúlio Vargas em Baixa Verde.Vamos Ler,1945,p.56. |
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| Restauração feita por inteligência artificial. |
Dai o motivo, decerto, porque Baixa Verde é, sem favor, uma daquelas cidadezinhas do Nordeste que podem-se alinhar com outras tantas do sul: — ruas alinhadas, calçadas novas, vários prédios novos e majestosos, outros que estão em construção, inclusive a Igreja, que é um futuro belo monumento artístico.
A Prefeitura Municipal ocupa um prédio amplo, moderno, limpo. Ali só se vê entrar e sair gente de todo o matiz: uns carregados de papeis outros de bolsas e pastas, alguns ccm talões de imposto, com a cara mais feia do mundo...
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| Edificio da prefeitura de Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945,p.56. |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
A Estação da Estrada de Ferro, ao chegar o Trem é uma espécie de inferno, tal a azafama de gente, vacas, caixões frutas, tabuleiros, esmoleres, uma negrada danada a berrar como se estivesse com o diabo na barriga ...
Ainda bem não escurece a Usina elétrica começa a papuoucar, num soluçar gigantesco, enquanto uma luz magnifica inunda a cidade, fazendo brilhar os seus encantos, como noiva ataviada para as bodas Transformam-se, então os panoramas— famílias que passam para a Igreja, namorados que passeiam de mãos dadas, palestras alegres que se travam nas calçadas, onde as cadeiras vão se distribuindo á proporção que vão chegando as visitas. Daqui a pouco uma orquestra animada anuncia o inicio de um balle mais alem uma reunião familiar, festejando um aniversario, e, lá para o lado dos matos, papoca uma sanfona fanhosa como fantasma em noite de assombração ...
È a alegria que se expande como justo premio de um dia bem aproveitado.
Visitando os arredores da cidade fui deparar com um vale cuja formidável verdura indicou-me logo ser a causa do nome do lugar. Culturas diversas expandiam-se em toda a sua direção, enquanto um fio d’água cristalina precipita-se, desde a margem da estrada de ferro, nas proximidades do Açudinho, de onde se origina, até a distancia considerável. Fartura alli é mato ...
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| Trecho da rua Capitão José da Penha em Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56. |
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| Restauração feita por inteligÊncia artificial. |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
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| Matriz de Baixa Verde em construção em 1945.Vamos Ler,1945, p.56. |
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| Colorização feita por inteligÊncia artitficial. |
O GRUPO ESCOLAR
Baixa Verde é dotada de um prédio magnifico onde se acha instalado o Grupo Escolar "Capitão José da Penha". Este modelar estabelecimento é dirigido pela ilustre professora Maria Guimarães, que alia á sua reconhecida capacidade profissional, uma superior educação cívica, manifestada para com as colegas os visitantes e seus alunos. Ela acumula a direção do Grupo á catedra do 5.° ano, cuja turma conta com 19 alunos de ambos os sexos.
Entre as suas auxiliares destaca-se a prof. Maura Santos, que é uma daquelas capacidades profissionais apaixonadas pela profissão. Ela lecciona o 1.° ano, cuja turma consta de 43 alunos de ambos os sexos.
À disciplina da turma chama a atenção imediatamente; o progresso dos seus alunos entusiasma qualquer visitante, notando-se, mesmo, um esforço titanico dos alunos em aprender o que ensina a extraordinaria Mestra. Mas, ha um tal de Raul, especie de azougue sobre papel, que causaria inveja até ao CAPIROTO...
A turma do 2.° ano é dirigida pela prof. Maria Fernandes da Mota e Silva; a do 3.° e 4.° ano, pela prof. Glaucia Amelia de Paiva. A 1a. consta de 31 alunos; a 2.ª de 51. Numa ligeira demonstração, feita em minha presença, provaram serem detentoras de capacidade profissional superior ao cargo. Tive vontade de ser aluno daquele Grupo, ao menos para ajudar o Raul a quebrar os vidros e as telhas...
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| Grupo Escolar Capitão José da Penha de Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56. |
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| Restaurção feita por intligÊncia artificial. |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
O Estabelecimento está dotado de abundante e derno material escolar, afirmando a Diretora que todos os pedidos feitos para o Diretor Geral do Departamento de Educação tem sido satisfeito com toda a prestesa.
O Curso de alfabetização está funcionando sob a orientação tecnica da Sta. Engracia Varela, cuja frequencia, porem, deixa a desejar.
A FABRICA DE ÓLEOS DA FIRMA "JOÃO CÂMARA & IRMÃOS"
Em frente e a certa distancia fica situado um prédio enorme do qual grossos rolos de fumaça enegrece tudo: — é a Fabrica de Oleos da firma "João Camara & Irmãos" que, de longe, parece um imenso cortiço de abelhas tal o movimento continuo de gente transporte, sacos, que se veem acotovelando-se.
Bocas de fogo, a avermelharem tudo como tecido gangrenado, — enquanto esguicha agua por todos os lados — dão ao visitante a impressão de que está diante do Inferno: — é uma autentica Tenda de Molock, em cuja boca enorme davam-se os homens a comer, porque não podiam devorar uns aos outros...
Entretanto, ali trabalham centenas de chefes de familias numerosas, de onde tiram o pão honesto para alimentarem os filhinhos, enquanto ensacam-se os residuos que vão servir de comida para as vacas...
Baixa Verde ! — Ès o Sul encravado no Nordeste ! ...
Em 17 / 6 / 1947. (A Ordem, 08/07/1947,p.3-4.).
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| Francisco Bittencourt, prfeito de Baixa Verde em 1945.Vamos |
As imagens que ilustram a crônica de Àlvaro Ferreira Neves foram publicadas pela revista de circulação nacional Vamos Ler em 1945, foi justamente assim que o ilustre visitante encontrou Baixa Verde em sua visita a cidade dois anos depois.
Nossas considerações
Este artigo do engenheiro agronomo Álvaro Ferreira Neves publicado no jornal A Ordem, datado de 17 de junho de 1947, constitui uma das crônicas mais ricas, vividas e dinâmicas sobre a transformação urbana, social e económica da antiga Baixa Verde (atual João Câmara).
A análise aprofundada dos principais pontos e contrastes abordados no texto permitem entrever o que segue.
O contraste regional e o ufanismo do progressismo
O texrto apresneta uma ruptura com o estereótipo sertanejo. O autor começa por descrever o contraste entre o dinamismo do Sul/Sudeste e a suposta "apatia" do interior nordestino, apenas para colocar Baixa Verde como uma exceção vibrante — apelidando-a de "o Sul encravado no Nordeste".
Transparece a abertura e modernização urbana. O texto exalta o planeamento urbano (ruas alinhadas, calçadas novas, edifícios modernos) e destaca a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens, classificando-a já nessa altura como um "futuro belo monumento artístico".
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| Trecho da rua Getúlio Vargas em Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56. |
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| Restauração feita por inteligência artificial |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
A vida quotidiana, a ferrovia e a sociabilidade
A descrição do despertar da cidade é quase cinematográfica: a ordenha do gado, o repicar do sino, o apito das fábricas, o comboio a chegar e os estudantes nas ruas.
A estação ferroviária é retratada como o epicentro do movimento e do comércio local, um ponto de encontro frenético de pessoas, mercadorias e feirantes.
Ao cair da noite, com a chegada da iluminação da usina elétrica, a cidade transforma-se num espaço de convivência social: famílias na igreja, namorados a passear, conversas nas cadeiras à porta de casa, bailes e o som da sanfona ao longe.
A educação: o Grupo Escolar "Capitão José da Penha"
O cronista dedica uma secção detalhada ao ambiente escolar, elogiando a dedicação das professoras (com destaque para a diretora Maria Guimarães e as professoras Maura Santos, Maria Fernandes da Mota e Silva, Gláucia Amélia de Paiva e Engrácia Varela).
O referido autor apresenta ainda o humor no quotidiano escolar.O texto ganha leveza ao mencionar o aluno Raul, retratado de forma bem-humorada como uma "espécie de azougue" e irrequieto da turma.
A indústria do algodão e o trabalho
Àlvaro Ferreira Neves faz a descrição da Fábrica de Óleos da firma "João Câmara & Irmãos". A descrição da fábrica utiliza metáforas impressionantes (comparando o fumo e o calor das caldeiras a uma "Tenda de Molock" ou ao "Inferno").
Apesar da imagem dura da fábrica, o cronista reconhece o seu papel vital na economia local, sustentando centenas de famílias de trabalhadores e impulsionando a prosperidade do município pela A força do trabalho.
Em resumo, trata-se de um documento histórico excecional que capta a transição de Baixa Verde de um simples povoado sertanejo para uma cidade próspera, moderna e cheia de vida social, cultural e económica nas meados do século XX.




















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