sábado, 6 de junho de 2026

SOBRE O MUNICIPIO DE SÃO JOSÉ DE CAMPESTRE EM 1956


O Município de São José de Campestre foi criado na reforma da divisão administrativa de 1938, após memorável luta parlamentar sustentada na Assembleia Legislativa, pelo então deputado Theodorico Bezerra.

De acordo com a propaganda publicada no jornal Tribuna do Norte ”São José de Campestre foi uma das comunas que mais se desenvolveram nestes últimos tempos”.[1]

Encravado na zona seca do Estado, as suas terras eram próprias para o cultivo do algodão, onde a produção veio aumentando gradativamente, de ano para ano. Desta data que o seco ao município tomou de fato, aspecto de grande com as suas largas artérias e construção de mais de 200 casas, comercial e estilo moderno.

Na imagem a baixo aspectos da cidade de São José de Campestre com destaque para a igreja matriz de São José creditada erroneamente pelo correspondente do jornal Tribuna do Norte como catedral.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

De acordo com a propaganda do jornal Tribuna do Norte esse surto de progresso se deveu, principalmente, as iniciativas do Cel. Lindolfo Dantas, prefeito do município naquele ano de 1956, “incansável defensor dos interesses de sua terra”. Fazendeiro e comerciante de algodão, Cel. Lindolfo se uniu nisto com a colaboração do deputado Theodorico Bezerra, que teve destaque em prol do engrandecimento do município.

Assim é que obras federais vinham sendo realizadas naquele município, graças a influência do representante de Santa Cruz no Parlamento Nacional. O moderno edifício do Grupo Escolar local e o majestoso prédio da maternidade, conforme fotografias que ilustravam a reportagem, atestavam “a operosidade e o zelo do governador da cidade pelo bem-estar coletivo”.

Na imagem a baixo o prédio da maternidade de São José de Campestre em construção.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.


Cooperativa

Instalada em 1950, por iniciativa do deputado Theodorico Bezerra e contando sempre com a orientação técnica do deputado Dantas Guedes, a Cooperativa de Campestre era na verdade um estabelecimento que preenchia as finalidades a que se propuseram esses trabalhadores do progresso e do desenvolvimento daquela região.

O seu Presidente era, desde a fundação, o sr. Lindolfo Damião de Souza, que, “com tirocínio e capacidade de trabalho, vem procurando incrementar o comércio e a riqueza agropastoril de São José do Campestre”.

Como prova de tudo isso, era o bastante lembrar que, com um capital de apenas Cr$ 139 mil cruzeiros, houve um movimento em 1955, de 3 milhões e 300 mil cruzeiros, além dos empréstimos por letras que ascenderam a cifra de 320 mil cruzeiros.

Além das atividades normais de financiamento sob diversas modalidades, e no setor destinado a aquisição de implementos agrícolas e inseticidas para o combate às pragas da lavoura, pretende a administração da Cooperativa, ampliar as suas transações, com um empréstimo pecuário, para compra de bois mansos, destinados ao serviço de tração nos campos do município.

Água, problema cruciante de Campestre

Debatia-se a administração municipal com o mais crescentes de seus problemas, que é o abastecimento d’água, á população citadina.

Desprovida de qualquer fonte d’água potável, a sede do município vinha obtendo o precioso liquido no açude "Trairí", no município de Santa Cruz, distante dali 18 km.

Para esse fim, a Prefeitura adquiriu um caminhão tanque pela importância de 160 mil cruzeiros, que faz o transporte durante todo o dia depositando numa cisterna da Prefeitura toda a água que se destina á distribuição pública aos munícipes, tudo de fôrma gratuita.

Na imagem a baixo pessoas esperando a chegada do caminhão tanque com água.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

Não fossem as providencias tomadas pelo Prefeito Lindolfo Damião e seus auxiliares, certo era que São José de Campestre, não poderia merecer o título de cidade, nem subsistir as inclemências das secas sertanejas.

Mercado público

Obra de grande vulto orçada em um milhão e 500 mil cruzeiros, erguia-se, no centro da cidade, o majestoso edifício de Mercado Público, cuja inauguração estava prevista para os primeiros meses daquele ano de 1956.

Na imagem a baixo o mercado público de São José de Campestre em construção.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

O edifício de belo efeito arquitetônico, contaria com todos os requisitos do higienismo moderno, com uma área coberta de 50 por 15 de largura. Para ele, a Prefeitura já comprou a iluminação interna e externa, inclusive na construção de uma cisterna, com capacidade para 320 mil litros d’água.

Com a construção desse moderno edifício para o mercado público, melhora sensivelmente o aspecto da municipalidade, observando-se mesmo um crescimento até certo ponto diferente das outras cidades, onde o processo de desenvolvimento via de regra, é feito com uma certa morosidade.

Economias e finanças

A arrecadação no ano que se expira, até o mês de Novembro foi de Cr$ 690.256,30 esperando-se no mês de Dezembro de 1956 uma entrada para mais de 100 mil cruzeiros.

Não obstante os parcos recursos de que dispõe, mantem o Prefeito Lindolfo Damião o funcionalismo em dia com os seus vencimentos, tendo liquidado também todas os compromissos com o comércio e fornecedores da edilidade.

Educação

No setor educacional, podemos apontar São José de Campestre desfrutando de uma das melhores situações, haja vista o número de escolas municipais que já se elevam a 13 todas em pleno funcionamento e condignamente instalados.

Na imagem a baixo o prédio do Grupo Escolar de São José de Campestre.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

No Orçamento para 1956, encontrava-se uma verba de 30 mil cruzeiros para construção de prédios escolares, o que demonstrava o interesse do  Prefeito pela instrução e ensino em sua terra.

Amparando o ensino particular, além das escolas do município, a Prefeitura subvencionava ainda 6 escolas particulares, possibilitando ainda bolsas de estudos a rapazes pobres nos colégios 7 de Setembro e de Ceará-Mirim.

Por nós ainda foram feitas fotos dos ótimos prédios escolares rurais, tudo fruto do esforço do dinâmico prefeito Lindolfo Damião de Souza, que vem sabendo honrar o mandato com que o povo de sua terra lhe outorgou.

Linha telefonica

Estava sendo construída a linha que ligaria em definitivo, a rede telefônica, para o que já foram adquiridos os aparelhos e todo material necessário.

Por outro lado, já havia sido pagos 125 mil cruzeiros a Companhia Força e Luz por conta da instalação de luz e força para a cidade.

Desse trabalho a Prefeitura já procedeu a construção dos postes, estando já com a maior parte do material em mãos para a ligação dos aparelhos, o que viria dar um novo ritmo de vida aos munícipes, que passarão a dispor de energia elétrica dia e noite.

Energia elétrica

 

Para a iluminação do Município, a edilidade local já estava contando com uma nova usina de força e luz dotada de um motor elétrico de marca "CATERPILLAR" com capacidade para 20 mil velas de força e 44 HP, já em funcionamento.

Segundo as informações, o funcionamento e rendimento dessas usinas era perfeitamente regular, vindo suprir uma falha antiga de que necessitava o desenvolvimento de um grande município, este cuja capacidade para satisfazer as exigências do progresso daquela grande região.

Contextualizando

O trecho mais impactante do documento trata da crise hídrica. A descrição de São José do Campestre como uma cidade "desprovida de qualquer fonte d'água potável" ilustra a dura realidade do interior semiárido nordestino na década de 1950.

A Logística da Sobrevivência: Para que a cidade não colapsasse frente às "inclemências das secas sertanejas", a prefeitura dependia de uma operação rodoviária pesada: buscar água no Açude Trairí, no município vizinho de Santa Cruz, a 18 quilômetros de distância.

No setor de investimento público o gasto de Cr$ 160 mil cruzeiros (uma quantia vultosa para a época) em um caminhão-tanque e a distribuição gratuita do líquido centralizado em uma cisterna pública eram, literalmente, a linha que separava a manutenção da cidade da sua total evacuação.

O texto da referida propaganda iniciava destacando a Cooperativa de Campestre, fundada em 1950. Este trecho é uma evidência clara da forte influência política de Theodorico Bezerra, um dos maiores e mais lendários chefes políticos (e "coronéis") da história do Rio Grande do Norte.

A modernização agrícola controlada onde a cooperativa atuava como o motor econômico local, financiando a lavoura e combatendo pragas.

Um detalhe muito curioso da época é o plano de usar crédito pecuário para comprar "bois mansos" para o serviço de tração nos campos. Isso mostra que, apesar do desejo de modernização, a base da agricultura local ainda dependia fortemente da força animal e de métodos tradicionais.

A construção do novo Mercado Público (orçado em Cr$ 1,5 milhão de cruzeiros) era tratada como o grande símbolo arquitetônico da evolução da cidade.

O jornal citava que o prédio seguia os "requisitos do higienismo moderno". Na metade do século XX, os mercados públicos centrais eram os principais termômetros de desenvolvimento de uma cidade, pois organizavam o comércio de carnes e vegetais de forma a evitar epidemias e problemas sanitários.

 O mercado foi projetado com uma imensa cisterna de 320 mil litros. Isso demonstra uma engenharia adaptada à seca: aproveitar a enorme área de teto coberto do mercado (50x15 metros) para captar e armazenar água da chuva.

Para um município de pequeno porte no interior potiguar nos anos 50, os índices e projetos educacionais apresentados pelo prefeito Lindolfo Damião de Souza eram ousados.

 A existência de 13 escolas municipais em funcionamento e o planejamento de novas construções indicavam um forte esforço de interiorização do ensino primário.

 A prefeitura não apenas mantinha suas escolas, mas financiava o ensino privado local (subvencionando 6 escolas particulares) e criava um sistema de bolsas de estudos para jovens de baixa renda estudarem em centros maiores, como Ceará-Mirim e Natal (Colégio 7 de Setembro).

Com uma arrecadação anual estimada em cerca de Cr$ 800 mil cruzeiros, o prefeito conseguia manter as contas equilibradas, pagando fornecedores e mantendo o funcionalismo público rigorosamente em dia — algo que nem sempre era a regra nas pequenas comunas da época.

A transição para a modernidade é selada com a compra de um motor Caterpillar de 44 HP e o pagamento à Companhia Força e Luz para a instalação da rede elétrica. A promessa de ter "energia elétrica dia e noite" representava uma revolução na vida cotidiana, no comércio e no início da industrialização local.

Em resumo o documento retratava São José do Campestre em um momento de transição acelerada. Sob a liderança de Lindolfo Damião, e sob as bênçãos políticas do clã Bezerra, o município tentava se consolidar institucionalmente. O texto deixa claro que governar aquela região exigia um duplo esforço: o de combater as vulnerabilidades climáticas extremas (falta de água) ao mesmo tempo em que se tentava implantar os símbolos da modernidade do século XX (eletricidade, telefonia, educação estruturada e prédios higiênicos).



[1] Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.Todas as demais citações entre aspas foram retiradas do referido jornal.

 

SOBRE O MUNICÍPIO DE PEDRO AVELINO EM 1956

 
     Na imagem a baixo um vila construida pela administração municipal de Pedro Avelino.

                                           Tribuna do Norte, 25/03/1956, p.32.

Colorização por inteligência artificial.

 Na imagem a baixo o prédio do clube-teatro municipal de Pedro Avelino em construção.

Tribuna do Norte, 25/03/1956, p.32.

Em 25/03/1956 a Tribuna do Norte exibiu uma propaganda da prefeitura de Pedro Avelino a qua destacava as realizações efetuadas pela a administração municipal daquele municipio.

De cara a referida propaganda começava criticando a administração anterior (como sempre ocorre até hoje).”Depois da desastrosa administração de José Nestor de Gouveia, o município reencontrou-se com o progresso”.[1]

Dizia a mesma que recuperadas as finanças da comuna com a administração do prefeito Geraldo Bezerra de Souza, economicamente o município progredira com um programa de modernização levado a efeito com  grandes melhoramentos em um ano e oito meses de administração.

Desmembrado do município de Angicos, em dezembro de 1948, a primeiro de janeiro de 1949 se instalou o município de Pedro Avelino. Criado na administração do então governador José Augusto Varela, foi um dos municípios novos criados que fugiram aos requisitos exigidos pela Constituição Federal.

Tudo, praticamente, teve que ser começado do nada, porque as condições de subsistência da nova comuna eram das mais precárias.

Nomeado pelo Chefe do Executivo potiguar, a pedido expresso das forças políticas que se formaram no município. Foi assim que chegou à nova comuna o major Luiz Cesar Gonzaga de Paiva, brilhante oficial da Polícia Militar.

Sua administração foi excelente. Obras de vulto foram entabuladas com os recursos proporcionados pelas verbas federais e com a incipiente arrecadação que o município proporcionava.

O progresso foi rápido e já hoje, o município apesar de pequeno, atingia o meio milhão de cruzeiros em arrecadação anual, os quais ajuntados a cota federal do Imposto de Renda tem proporcionado meios a que o município consiga uma situação de quase estabilidade, apesar dos débitos que ainda pesam no seu orçamento.

O Primeiro desastre administrativo

Segundo a propaganda publicada no jornal Tribuna do Norte administração do major Cesar que tantos benefícios causou a Pedro Avelino, cessou com a escolha do novo prefeito José Nestor de Gouveia. “Cessou o excelente estabelecimento do major Cesar e com isso pararam, ou descaíram todos os empreendimentos que colocavam a cidade na linha das comunas que haviam encontrado o caminho do progresso”.

A atividade pública de Pedro Avelino parou e o município foi atingindo uma situação deplorável, em todos os seus setores de administração. Uma situação quase de bancarrota, foi o que encontraram na Prefeitura, os srs. Geraldo Bezerra de Souza e Raimundo Cavalcanti de Albuquerque, eleitos prefeito e vice-prefeito do município, em 1952 e empossados em abril do ano seguinte.

Limpeza pública

A administração de Geraldo Bezerra de Souza começou tendo o novo edil pela frente, os mais diferentes e complicados problemas a resolver. Um estudo sistematizado foi realizado pelo prefeito de Pedro Avelino, resultando num plano de trabalho, que produziu os mais proveitosos frutos para toda a população do município.

A limpeza pública foi o primeiro problema enfrentado. Toda a cidade e regiões da comuna foram alvo de uma campanha de limpeza que alcançou absoluto êxito, tirando Pedro Avelino da deplorável situação em que se encontrava, para ser apontada como uma das mais limpas cidades do nosso "hinterland".

A recuperação econômica

Da limpeza pública da cidade, para o saneamento das irregularidades nas finanças do município foi um passo.

Empregou-se o prefeito Geraldo Bezerra na recuperação econômica e financeira de sua comuna, não somente orientando seu trabalho no sentido de dividir em suspenso, como empregando racionalmente em benefício do próprio município, as cotas federais e auxílios que ia recebendo.

 A situação chegou quase a se equilibrar, de modo que na nova administração do sr. Raimundo Cavalcanti de Albuquerque, apenas foi necessário a continuação do programa econômico para se chegar a uma situação praticamente normal. As dívidas, em sua maioria, foram saldadas e hoje o município deve tão somente a importância de 150 mil cruzeiros que deverão ser saldados, quando do recebimento da cota federal deste ano.

A arrecadação do município, que vem subindo de ano para ano, contribuirá definitivamente, para a total estabilização da situação econômica e financeira de Pedro Avelino.

Atividade produtiva

A par do interesse que demonstrou pelo soerguimento econômico e financeiro de sua cidade, o prefeito Geraldo Bezerra de Souza ia executando um programa de realizações que muito contribuiu para que ele, em vinte meses, merecesse definitivamente a admiração de seus munícipes.

A Vila Popular construída às expensas da prefeitura veio modernizar a cidade, substituindo velhos mocambos que tanto afeavam Pedro Avelino. Nove unidades foram entregues aos antigos ocupantes de mocambos, sem que isto lhes custasse um real.

A zona beneficiada apresentava novo aspecto agradável e com a administração empenhada na construção de mais nove unidades, totalizando em 18 o número de casas, seria um plano que continuaria em marcha, naturalmente dentro dos recursos que o município venha a dispor.

A construção de uma grande cisterna municipal com a capacidade de 330 mil litros de água no grupo municipal Senador João Câmara representou outra grande realização no município.

A par de fornecer água para o estabelecimento de ensino, a cisterna hoje atende igualmente, aos funcionários da prefeitura, de acordo com determinação do prefeito Raimundo Cavalcanti de Albuquerque.

Por outro lado, a cisterna, havendo condições suficientes, poderia atender também às necessidades da população de Pedro Avelino, em virtude mesmo de sua capacidade.

Outras obras realizadas

A gestão do prefeito Geraldo Bezerra de Souza, representava, segundo a referida propaganda o jornal Tribuna do Norte, para o município, “os resultados de uma administração bem orientada e que visou na realidade os planos de estabilidade para um avanço posterior para a modernização de toda a vida municipal”.

A sede própria da Cooperativa Agropecuária, construída pela prefeitura, tomou o lugar da antiga sede provisória, realizada para que aquele edifício tomasse novo impulso dentro das finalidades para que foi erguido.

O mercado de Córregos

Estendendo sua administração a outras regiões da comuna que não a sua sede, a administração de Geraldo Bezerra construiu o mercado público de Córregos, com boas acomodações e atingindo realmente, os objetivos de sua construção. “Atende, realmente, as necessidades da população da progressista vila”.

Estradas de rodagem

No período de administração de  Geraldo Bezerra, dos mais interessantes para o município, foi o programa de ação posto em execução, visando a recuperação das rodovias que serviam de ligação de Pedro Velho, para outras rotas do Estado, inclusive a capital.

Melhoramentos sem conto foram introduzidos, colocando as estradas em situação de serem apontadas como das melhores do "hinterland" potiguar.

 Por outro lado, foram construídos 17 km de estrada ligando a cidade de Pedro Avelino à vila de Boqueirão, o que representou sem dúvida um benefício inestimável para a população das duas localidades.

O ensino escolar

O setor do ensino primário, a assistência prestada pelo prefeito de Pedro Avelino, à gente pobre do município, “tem se constituído através dos anos num programa que merece os maiores elogios da população local”.

Comprou e distribuiu livros, possibilitando na medida do possível, vestimentas para a população escolar, a prefeitura tinha conseguido com que aumentasse em muito o total de crianças que diariamente procuravam as escolas, “visando destruir as trevas da ignorância em que vivem”.

O plano de ação escolar da atual Prefeitura para os meses que restavam de sua administração estendia-se para aquele ano de 1956, a construção de mais dois estabelecimentos de ensino primário.

Assistência à maternidade

Era do prefeito Geraldo Bezerra de Souza, ainda, o mérito de haver contribuído de maneira positiva para a construção da Maternidade local, que vinha sendo edificada com o auxílio de verbas federais.

Embora não se tratasse de uma obra municipal, não era desfalecido o interesse do ex-prefeito pela conclusão dos seus trabalhos, uma vez que o seu funcionamento representaria para as mães de Pedro Avelino, uma conquista privilegiada.

Raimundo Cavalcanti na Prefeitura

A renúncia do prefeito Geraldo Bezerra de Souza, conduziu à prefeitura de Pedro Avelino, o sr. Raimundo Cavalcanti de Albuquerque, depois de uma eleição indireta feita pela Câmara Municipal e em que o novo edil conseguiu a totalidade dos votos.

O maior empenho do novo prefeito, que assumiu a 15/11/1954, foi a manutenção do programa de ação do seu antecessor, que tantos benefícios trouxe para a cidade de Pedro Avelino.

A limpeza pública recebeu de início atenção especial do novo prefeito, que se empenhou também na conservação de estradas, contando para isso com a colaboração do Fomento Agrícola que colocou à disposição do município um trator.

Na parte financeira, também o prefeito Raimundo Cavalcanti procurou equilibrar a situação, saldando os compromissos da prefeitura com o funcionalismo chegando assim a colocar os vencimentos dos servidores em dia, bem como dos vereadores.

Outros empreendimentos

Visando dotar um meio de entretenimento para a população, foi adquirido pela prefeitura, um novo serviço de amplificação, já que o antigo se encontrava sem condições de funcionar regularmente.

 Ainda desse programa de ação, foi iniciada a construção do Clube Teatro Municipal, que seria o maior prédio da cidade, com 22 metros e 80 de comprimento por 10 de largura. O Clube disporia de palco de teatro, além de um salão dançante. Nele funcionaria também o estúdio da divulgadora. Sua inauguração estava prevista ainda para o ano de 1956.

Uma garagem municipal estava em vias de conclusão de obras, devendo abrigar os dois veículos da Prefeitura: um jeep e um caminhão, que vinham prestando inestimáveis serviços à edilidade de Pedro Avelino.

Outros problemas que contavam com a atenção do prefeito Raimundo Cavalcanti, foram o cemitério da cidade, bem como o aumento da rede de energia elétrica, o ensino primário, que tem merecido uma assistência toda especial do atual edil.

A par do programa de assistência médica da municipalidade de Pedro Avelino, a prefeitura dava toda a assistência às gestantes do município, que tinha no chefe do executivo, “o mais dedicado protetor”. Esse plano visava prestar à gestante carente toda assistência médica.

Futuras realizações

Complementando seu programa de ação à frente da comuna de Pedro Avelino, o prefeito Raimundo Cavalcanti de Albuquerque já planejava para os próximos meses de 1956, a realização de outras obras de utilidade pública de dois pontos fundamentais de ação de sua administração: continuação do plano de ampliação da vila popular, com a construção de mais nove unidades e, início da construção de novo mercado público, já que o até então atual não atendia às reais necessidades da população.

Uma referência a josé varela

Ao encerrar a propaganda foi feita uma referência ao governado do Estado, “é justo salientar a ação desempenhada pelo dr. José Varela, para a afirmação e desenvolvimento do município de Pedro Avelino. Com sua assistência, com seu apoio, o ex-governador do Estado e atual vice-governador, é o grande baluarte com que Pedro Avelino marcha a passo rápido para o progresso que hoje já se faz notar em todo o território”.

 Contextualizando

O município de Pedro Avelino foi desmembrado de Angicos em dezembro de 1948, sendo formalmente instalado em 1º de janeiro de 1949, durante o governo de José Augusto Varela.

O início da autonomia política foi marcado por extrema escassez. O texto do jornal Tribuna do Norte destacava que a nova comuna foi criada sem preencher todos os requisitos exigidos pela Constituição Federal da época, o que obrigou a administração local a "começar do nada", enfrentando condições de subsistência muito precárias.

A evolução administrativa de Pedro Avelino nesses primeiros anos é narrada através de três gestões bem distintas, evidenciando uma forte polarização nas críticas jornalísticas:

Major Luiz Cesar Gonzaga de Paiva: foi o primeiro gestor, indicado pelo governo estadual. É elogiado pelo jornal por ter impulsionado o progresso rápido através do uso de verbas federais e da arrecadação nascente, elevando as receitas para a casa do meio milhão de cruzeiros e organizando as finanças.

José Nestor de Gouveia: descrito de forma contundente pelo jornal como o "primeiro desastre administrativo". A matéria acusava sua gestão de paralisar as obras, deteriorar os serviços públicos e conduzir o município a uma situação deplorável de quase "bancarrota".

Dr. Geraldo Bezerra de Souza e Raimundo Cavalcanti: eleitos em 1952 como prefeito e vice, são retratados como os salvadores que reorganizaram a prefeitura a partir de abril de 1953. Com a renúncia subsequente de Geraldo Bezerra, Raimundo Cavalcanti assumiu o Executivo em novembro de 1954 por meio de eleição indireta na Câmara Municipal, mantendo a mesma linha política.

O grande foco das reportagens está nas transformações estruturais promovidas pelas gestões de Geraldo Bezerra e Raimundo Cavalcanti, que buscaram alinhar o município ao conceito de modernidade da década de 1950.

A limpeza pública foi tratada como prioridade máxima para reverter o estado de abandono da cidade, logrando êxito ao ponto de Pedro Avelino ser apontada como uma das cidades mais limpas do interior (*"hinterland"*) potiguar.

O abastecimento de água destacava-se pela construção de uma grande cisterna municipal com capacidade para 330 mil litros junto ao Grupo Escolar Senador João Câmara. Essa obra foi vital para garantir o abastecimento da escola, dos prédios públicos e mitigar as crises de seca da população local.

A Vila Popular contra os mocambos sob a ótica do "progresso higienista" da época, a prefeitura atuou na substituição de habitações precárias (mocambos) por casas de alvenaria na chamada Vila Popular. Foram entregues inicialmente 9 unidades sem custos para os moradores carentes, com plano de expansão para mais 9.

No ensino primário houve investimento na distribuição de livros, fardamento escolar e planejamento para a construção de novos prédios voltados ao ensino primário para erradicar o analfabetismo.

Na  assistência Social o texto menciona o apoio à construção da Maternidade local (feita com verbas federais) e o atendimento médico-social direcionado às gestantes carentes.

Para o lazer e urbanismo a construção do Clube Teatro Municipal surge como o maior empreendimento arquitetônico da cidade no período (com quase 23 metros de comprimento), planejado para abrigar peças, um salão dançante e um estúdio de radiodifusão.

O jornal enfatizava que a saúde financeira do município foi restaurada através da aplicação rígida das cotas federais (como a do Imposto de Renda). Isso permitiu amortizar as dívidas herdadas para apenas 150 mil cruzeiros e, fundamentalmente, colocar em dia os salários atrasados do funcionalismo público e dos vereadores.

Por fim, o texto reforça o papel do governador José Varela (ex-governador e então vice-governador do Estado) como o principal padrinho político e "baluarte" do município no cenário estadual, justificando o apoio logístico oferecido por órgãos como o Fomento Agrícola (que cedeu tratores para a abertura e manutenção de estradas locais).




Major luiz  Cesár, primeiro prefeito de Pedro Avelino (1949-1950)
Tribuna do Norte, 25/03/1956,p.32.
 
Reconstituiçõ digital por inteligência artificial.

Prefeito Geraldo Bezerra (1952-1954).
Tribuna do Norte, 25/03/1956,p.32.


Prefeito Raimundo Cavalcanti (1954-1956).
Tribuna do Norte,25/03/1956,p.32.






[1] Tribuna do Norte, 25/03/1956,p.32.Todas as demais citações que se seguem entre aspas foram retiradas do referido jornal.

 


sexta-feira, 5 de junho de 2026

SOBRE O MUNICIPIO DE AFONSO BEZERRA EM 1956

 

Segundo propaganda jornalística exibida na Tribuna do Norte  em 25/03/1956 "Depois de uma administração que absolutamente não correspondeu a expectativa pública, o município de Afonso Bezerra está em boas mãos administrado agora pelo competente e honesto prefeito Wanderlinden Xavier de Souza, que tem dado o melhor de seus esforços para cada vez elevar mais alto o nome do município pelo qual é responsável”.[1]

Encravado  na zona central do Estado, fora criado 3 anos antes, em 1953, limitando-se com Angicos, Ipanguaçu, Assu, Pedro Avelino e Macau. Sua população era de 6.500 habitantes. Sua principal fonte de renda estava na cera de carnaúba, oiticica e algodão. “É uma das cidades mais limpas do Estado tendo o atual Prefeito gasto mais de cinquenta contos nos serviços de remoção de monturos e matos”.[2]

Prédio da Usina de Luz de Afonso Bezerra em 1956.
Reconstituição digital por inteligência artificial.

Prédio da Usina de Luz de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

O município de Afonso Bezerra foi criado por lei de 27 de outubro de 1953, de autoria do deputado pedecista Batista Montenegro, tendo sido nomeado prefeito o tenente Luiz Gonzaga de Freitas, que administrou até 31 de janeiro de 1955, quando assumiu então o prefeito eleito Wanderlinden de Souza e o vice-prefeito Arlindo da Rocha Bezerra.

A Câmara Municipal estava composta de 10 vereadores assim dividida: Américo Bernardo de Souza, Antônio Galdino da Cruz, Olegário Xavier, José Oséas Corrêa, Maria de Lourdes Bezerra e Victor Modesto de Oliveira, do PDC; Avelino de Andrade, da UDN; Manoel Felipe Rodrigues do PR; Candido de Assunção Bezerra, do PTB e Adauto Solano Bezerra, do PSD.[3]

A atuação do prefeito Wanderlinden

Após sua eleição, Wanderlinden iniciou a sua grande campanha de moralização administrativa e a sua luta pelo bem-estar da coletividade.

Adquiriu um possantíssimo Motor Lister, com capacidade para fornecer energia elétrica a todo o município. Mandou fazer todo serviço de posteação do melhor tipo possível em todas as ruas e travessas, ficando a cidade bem servida, sem nenhum recanto escuro.

O setor educacional também preenche as necessidades do município, com um Grupo Escolar, quatro escolas rurais e uma municipal todas em funcionamento com grande frequência.

O Prefeito que o havia antecedido construiu o prédio da Prefeitura municipal pelo estilo funcional, porém o material empregado foi o pior possível, já estando ameaçando ruir, apresentando grandes rachões nas paredes.

Possuía ainda Afonso Bezerra um grande mercado público construído pelo prefeito Francisco Torres Peres, quando ainda o prédio da prefeitura aquele município pertencia a Angicos e era Governador do Estado José Augusto Varela.

Nesta mesma época foram construídos também um poço tubular, um matadouro, e a estrada que liga Afonso Bezerra a Deodoro da Fonseca, povoado distante 54 km da cidade.

A previsão orçamentaria para 1956 era de 758.500 cruzeiros, inclusive a quota federal de 500, a quota de competência do Estado de 5.000,00 para uma despesa igual, não havendo portanto, superavit nem déficit.

Era, conforme a referida propaganda do referido jornal,  um município progressista, “que está fadado a uma posição de destaque na vida econômica e social do Estado, principalmente se permanecer em mãos de homens como Wanderlinden de Souza e a Família Montenegro."


Matadouro de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

Mercado público de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

Está claro que a propaganda foi encomendada para ser publicada no jornal Tribuna do Norte pelo referido prefeito para promover a sua administração afrente da prefeitura.

O texto daquela propaganda, no entanto, oferece um vislumbre fascinante do cenário político, socioeconômico e estrutural do município de Afonso Bezerra (Rio Grande do Norte) em meados da década de 1950.

O texto contextualiza a recente emancipação do município (criado em 1953 e instalado em 1955), mencionando o primeiro prefeito nomeado (Tenente Luiz Gonzaga de Freitas) e a transição para o primeiro eleito, Wanderlinden Xavier de Souza.

A composição da Câmara Municipal revela o antigo sistema multipartidário brasileiro antes do bipartidarismo da Ditadura Militar. É citada uma divisão entre vereadores do PDC (Partido Democrata Cristão), UDN (União Democrática Nacional), PR (Partido Republicano), PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e PSD (Partido Social Democrático).

O texto adotava uma postura fortemente laudatória e parcial em favor do prefeito Wanderlinden, classificando-o como "competente e honesto" em contraste com a gestão anterior, o que era muito comum no jornalismo político regional daquele período.

O texto exaltava a compra de um "possantíssimo Motor Lister" para gerar energia elétrica e o serviço de posteamento. A imagem que restauramos anteriormente, o "Prédio da Usina de Luz", era justamente o coração desse avanço tecnológico que tirou a cidade do "escuro".

Fica registrado que a força econômica da região na década de 1950 girava em torno da cera de carnaúba, da oiticica e do algodão (o "ouro branco" do Nordeste nesse período), ou seja, o município tinha sua força motriz na agricultura extrativista.

Há uma menção curiosa sobre o gasto de "cincoenta contos" de réis/cruzeiros para a remoção de matos e "monturos" (lixões/entulhos), enfatizando o esforço para manter a cidade limpa.

O trecho final traz uma crítica severa à construção do prédio da Prefeitura (o mesmo da primeira foto que colorizamos, com o jipe na frente). O texto diz que, apesar do estilo funcional, o material era "o pior possivel" e a estrutura já sofria com "grandes rachões nas paredes".

O texto faz justiça histórica ao mencionar que o Mercado Público, o matadouro, um poço tubular e a estrada para o povoado de Deodoro da Fonseca foram obras herdadas do período em que a região ainda pertencia ao município de Angicos.

A previsão orçamentária de 758.500 cruzeiros com exato equilíbrio entre receita e despesa ("não havendo portanto, superavit nem deficit") mostra a escala modesta e o controle rígido das finanças de um município que estava literalmente dando os seus primeiros passos.

Prédio da prefeitura de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

Prédio da prefeitura de Afonso Bezerra em 1956.
Reconstituição digital por inteligência artificial.

Esse documento, junto com as fotos do jipe na Prefeitura, do Mercado Público de terra batida e da Usina de Luz, compõe um excelente "álbum de fundação" que ilustra as dores e os orgulhos do desenvolvimento do interior nordestino no século XX.



[1] Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

[2] Op.Cit.

[3] Op.Cit.

SOBRE A CRIAÇÃO DO MUNICIPIO DE MONTE ALEGRE

 


         Em 1953 se discutiam na Assembleia Legislativa a criação de novos municípios no Estado e como sempre ocorre, os municípios cedentes faziam propaganda contra os seus desmembramentos.

         Dentre essas discussões estava uma sobre a criação do município de Monte Alegre que seria desmembrado do de São José de Mipibu, que naturalmente era contra esse desmembramento.

         O jornal Tribuna do Norte apresentou artigo em que partidários pró-criação do município em apreço apresentavam razões pela qual o mesmo deveria ser criado, vejamos:

“Necessário se torna que a opinião pública do Estado conheça as evasivas de que lançam mão os adversários do progresso para obstar a emancipação político-administrativa de Monte Alegre.

Monte Alegre é, talvez, a mais próspera vila do Estado, considerada mesmo a terceira em população e a segunda no tocante aos requisitos exigidos pela Lei para constituir-se em Município como pretende, e será declarado dentro em pouco pela Assembleia Legislativa do Estado.

Não se justifica de modo nenhum, essa reação apaixonada de elementos da Cidade de São José de Mipibu contra uma aspiração tão legitima quão merecida, que, ardentemente acalentada no coração de todos os Montealegrenses, vai ter agora sua objetivação neste grito de liberdade, que ha de ecoar certamente nas plagas verdejantes do seu ubérrimo vale”.[1]

De acordo com o referido jornal eis alguns dados esclarecedores “em que se estribam os filhos de Monte Alegre para pleitear a criação do seu Município”: População da vila, 1.219 habitantes; população do distrito 7.078 habitantes; população do futuro Município de Monte Alegre, de acordo com os limites apresentados no projeto de criação: 15.200 habitantes, ficando ainda o Município de S. José de Mipibu, pois, do desmembramento, com uma população de 20.065 habitantes.[2]

A vila de Monte Alegre

Continuando a campanha justificando a criação do município de Monte Alegre o referido artigo demonstrava que a vila de Monte Alegre era maior do que qualquer uma das seguintes cidades do Estado a época: Apodi, Augusto Severo, Florânia, Ipanguaçu, Jardim de Piranhas, Jardim do Seridó, Jucurutu, Luiz Gomes, Portalegre, São João do Sabugi, São Miguel, São Rafael, São Tomé, Serra Negra do Norte, Taipu, isso segundo  dados apresentados pelo Censo Demográfico de 1950.[3]

Principais melhoramentos da Vila de Monte Alegre

A época do pleito pela criação do município existia em Monte Alegre o  Grupo Escolar Rural João de Paiva, construído pelo Governo Federal, no valor de Cr$ 250.000,00; o Mercado Público, prédio próprio municipal; o Prédio Estadual onde funcionou o Grupo Escolar, servindo  para reuniões sociais; a Cadeia Pública, prédio próprio; o Cemitério Público, todo murado e com 3 portas; a Divulgadora Carlos Gomes, municipal; os Correios e Telégrafos; Agência de Rendas Estaduais; Luz elétrica pública e particular (fornecida por Empresa Particular); o Chafariz Público, municipal; Cartório Judiciário; um gabinete dentário; 20 casas comerciais sendo 6 de tecidos, 2 Padarias, uma farmácia e 11 mercearias; a Igreja Católica, das melhores dos Estado; o serviço de transporte para Natal e outros pontos do Estado, sendo: 1 Ônibus, 2 Caminhões Mistos e 3 simples; o serviço de beneficiamento de algodão, o único do município; 5 fábricas de produção de farinha de mandioca; 7 estábulos, que forneciam leite para a Capital do Estado.[4]

A vila tinha emplacamento métrico em todas as ruas e respectivas casas. Além do mencionado, deve-se ressaltar que a feira de Monte Alegre fornecia os melhores produtos para o consumo público da Capital do Estado, ou seja: carne seca, especial, farinha de mandioca, feijão, milho, batata doce, jerimum, banana, verduras e outros produtos da Região.[5]

Toda a população do Distrito de Monte Alegre estava alerta e em permanente vigília cívica, na expectativa da atuação dos líderes políticos das diversas correntes de opinião, no seio da Assembleia Legislativa do Estado, onde o projeto de criação do novo Município teria a sua marcha vitoriosa.

“Não devem prevalecer absolutamente acordos sinuosos, inspirados em intenções abusivas de maquiavelismo político, quando se trata de atender às aspirações mais justas e mais sentidas de um povo que exige liberdade. E não é uma exigência fortuita, descabida, desarrazoada!

Aquele povo tem realmente direito a essa liberdade, que em condições menos favoráveis já foi deferida a outros distritos do Estado, como Ipanguaçu, São João do Sabugi, Serra Caída, etc., etc.

E convictos da nobreza de sua causa os filhos de Monte Alegre lutarão até o ultimo cartucho até que a vejam triunfante e concretizado, desse modo o seu ideal de povo livre, operoso e progressista”. [6]

Este manifesto de imprensa é um documento histórico fascinante sobre a geopolítica e a história do Rio Grande do Norte na década de 1950. Ele registra o caloroso debate e a campanha popular em prol da emancipação política de Monte Alegre, que até então pertencia ao município de São José de Mipibu.

O texto é extremamente rico por revelar os bastidores políticos, a economia e a infraestrutura da época.

O tom do texto é assumidamente combativo e inflamado. O autor classificava o desejo de autonomia como um legítimo "grito de liberdade" e acusa os opositores em São José de Mipibu de tentarem barrar o progresso local com "evasivas", "maquiavelismo político" e "acordos sinuosos". Esse tipo de tensão era muito comum no período de grande fragmentação territorial no Brasil, onde as cidades-mãe resistiam a perder distritos prósperos que geravam impostos.

Para justificar a emancipação perante a Assembleia Legislativa, o artigo usa dados do Censo Demográfico de 1950. É uma excelente fonte documental que apontava que a vila contava com 1.219 habitantes na área urbana, mas o distrito totalizava 7.078 pessoas.

O projeto do novo município previa englobar uma população de 15.200 habitantes.

O autor faz uma comparação direta para mostrar a força de Monte Alegre, afirmando que a vila já era maior do que 15 cidades consolidadas do estado na época, citando exemplos como Apodi, Florânia, Jucurutu e Taipu.

Os dados apresentados funcionavam como um inventário de modernidade para provar que o distrito tinha condições de andar sozinho. O texto lista com orgulho o Mercado Público (prédio próprio municipal); o Grupo Escolar Rural João de Paiva, financiado pelo Governo Federal pelo expressivo valor de Cr$ 250.000,00; os serviços públicos essenciais como Cadeia Pública, Correios e Telégrafos, Agência de Rendas Estaduais, Cartório, Gabinete Dentário, Chafariz e iluminação elétrica (ainda fornecida por empresa particular); o comércio local pulsante, composto por 20 casas comerciais (incluindo 6 lojas de tecidos, 2 padarias, 1 farmácia e 11 mercearias) e o avanço urbano simbolizado pelo "emplacamento métrico em todas as ruas e respectivas casas".

O manifesto revelava ainda o papel crucial de Monte Alegre no abastecimento da capital do estado, Natal. O distrito apresentava uma forte vocação agropecuária, destacando-se pelo  beneficiamento de algodão (o "ouro branco" do Nordeste na época); a presença de cinco fábricas de farinha de mandioca; sete estábulo focados especificamente em fornecer leite para a capital e uma feira livre que enviava produtos de peso para o consumo dos natalenses, como carne seca especial, feijão, milho, batata-doce, jerimum e verduras.

Para escoar tudo isso e transportar passageiros, o texto mencionava uma frota de "1 Ônibus, 2 Caminhões Mistos e 3 Simples".

Em suma, este documento reconstrói com precisão a fotografia socioeconômica de Monte Alegre em 1950. Ele traduz o orgulho de um povoado que cresceu a ponto de se sentir mais forte do que a própria sede e que, através da "vigília cívica", pressionou os deputados estaduais até conquistar a sua tão almejada autonomia política (que se consolidou oficialmente em 1953).

A criação do municipio

Finalmente após os debates acerca da criação de novos municípios no Estado a Assembleia Legislativa resolveu aprovar, em 13/11/1953, por maioria, em terceira discussão, os projetos criando os municípios de São Bento do Norte, desmembrado de Baixa Verde, Monte Alegre, de São José de Mipibu e Panatís. [7]

Em seu despacho de 25/11/1953, o governador sancionou a lei 929, pela qual ficava criado o Município de Monte Alegre. A nova circunscrição, desmembrada de São José de Mipibu, teria por sede a vila do mesmo nome, que passava assim à categoria de cidade.

A administração dos negócios públicos do novo município caberia a um prefeito nomeado pelo chefe do Executivo, até que fossem realizadas eleições municipais. Sua instalação foi designada para 1.º de janeiro de 1954.

Por despacho de 06/01/1954, do Chefe do Executivo, foi nomeado prefeito do Município de Monte Alegre, o coronel da reserva Severino Raul Gadelha, tomando posse em 10/02/1954.

Assim, Monte Alegre foi um dos novos municípios criados pela Assembleia Legislativa, de acordo com o artigo 4. da Lei n. 929 de 25 de Novembro de 1953, e desmembrado do de São José de Mipibu.

De acordo com o jornal Tribuna do Norte, que fora convidado para cobrir a instalação do município e a posse do prefeito, “embora não tenha ainda uma população de densidade acentuada, a cidade de Monte Alegre faz jus á distinção que lhe foi conferida, pois possui um número elevado de casas, muitas delas modernas, vendo-se nisso o espírito de urbanidade dos seus habitantes. De agora por diante, não temos dúvida, a Cidade aumentará a sua febre de crescer, pois o incentivo lhe foi dado.

Basta que o pleito de outubro que se avizinha, os montalegrenses saibam escolher entre os homens de sua terra, aquele que tenha pendor administrativo e capacidade de trabalho, a fim de que novos horizontes se descortinem a um povo laborioso e ordeiro”.[8]

O referido jornal, que fora especialmente convidado, se fez representar na festa de posse do Prefeito Severino Raul Gadelha, a quem desejava votos de uma feliz administração.



[1] Tribuna do Norte,29/09/1953, p.8.

[2] Op.Cit.

[3] Op.Cit.

[4] Op.Cit.

[5] Op.Cit.

[6] Tribuna do Norte,29/09/1953,p.8.

[7] Tribuna do Norte,14/11/1953, p.1

[8] Tribuna do norte,10/02/1954,p.4