domingo, 22 de março de 2026

A INAUGURAÇÃO DO PRÉDIO DA DELEGACIA FISCAL DO TESOURO FEDERAL EM NATAL

 

No dia 10/07/1955 foi oficialmente inaugurado o novo prédio da Delegacia Fiscal do Tesouro Federal no Rio Grande do Norte, na Esplanada Silva Jardim, do novo edifício da Delegacia Fiscal no Estado do Rio Grande do Norte, o qual viria servir, também, de sede para todas as repartições fazendárias federais existentes no Estado, com exceção, apenas, da Alfândega que já dispunha de prédio próprio.

Pelo Bispo Auxiliar, Dom Eugênio Sales, foi oficiada a Benção da Igreja ás 15,00 horas. “Logo após ao hasteamento do Pavilhão Nacional Dom Eugenio Sales, Bispo Auxiliar dará a benção da Igreja ás novas instalações, seguindo-se as solenidades do acontecimento de hoje."[1]

O edifício, que foi construído pela Empresa de Construções Civis, dirigida pelo sr. Roberto Freire, em quatro pavimentos, e poderia ser considerado um dos mais belos edifícios da capital potiguar a época.

Para a solenidade de inauguração, se encontravam em Natal, Mário Camara, chefe da Casa Civil do Presidente da Republica e  representante no ato e o sr. Adalberto Garcia, que representava o Ministro da Fazenda no ato inaugural.


Ato de inauguração do edificio da Delegacia Fiscal do Tesouro Federal em Natal.
Foto: O Poti,17/07/1955, p.14.

A inauguração do novo prédio da Delegacia Fiscal do Rio Grande do Norte foi um acontecimento de grande repercussão nos meios fazendários de todo o país. No clichê o sr. Jurandir Sitaro da Costa quando pronunciava um discurso alusivo à data, vendo-se também o Mário Câmara, ex-interventor federal, que veio ao Estado como representante do Presidente da Republica"

O homem discursando ao microfone é  Jurandir Sitaro da Costa, e ao lado dele (provavelmente o senhor de terno cinza ao centro) está o Mário Câmara, representante oficial do Presidente da República. À esquerda, de vestes litúrgicas, vemos Dom Eugênio Sales.

A presença de Mário Câmara (Chefe da Casa Civil de Getúlio Vargas na época) e de figuras como Teodorico Bezerra mostra que esta era uma das obras federais mais importantes de Natal naquele período.

Na solenidade de inauguração em apreço estiveram presentes também o Governador Silvio Pedroza, deputados federais Eider Varela, José Arnaud e Teodorico Bezerra e ainda autoridades federais, estaduais e municipais.

Pontos de interesse

Construtora e responsável: a Empresa de Construções Civís, dirigida pelo Sr. Roberto Freire, como a responsável pela obra.

Divergência de Pavimentos: É curioso notar que o primeiro texto menciona "dois andares", enquanto o relato do dia da inauguração refere "quatro pavimentos". Isto pode dever-se à inclusão do embasamento e de um eventual sótão ou recuo na contagem técnica.

Representação Federal: a presença de Mário Câmara, ex-interventor federal no Rio Grande do Norte na década de 1930 (representando o Presidente da República) e Adalberto Garcia (pelo Ministro da Fazenda) demonstra a relevância nacional que a obra teve para a infraestrutura de Natal na época.

Instituições Abrigadas: o edifício foi projetado para centralizar todas as repartições fazendárias, exceto a Alfândega, que já possuía sede própria (também na Ribeira).

Responsabilidade Técnica: a confirmação da Empresa de Construções Civís, sob direção de Roberto Freire, é um dado crucial para o seu levantamento sobre a execução da obra.

Personagens Políticos: a presença de figuras como o Governador Silvio Pedroza e os deputados Eider Varela e Teodorico Bezerra situa o evento no auge da importância política da Ribeira.

Divergência de Descrição: Note que um texto cita "dois andares" e o outro "quatro pavimentos". Isso geralmente ocorre quando se conta apenas os andares de escritórios versus a estrutura total (incluindo térreo/embasamento e possivelmente um pavimento recuado ou subsolo).

 

Descrição do prédio

 A fachada é marcada por uma sequência rítmica de janelas retangulares. O que chama a atenção são as pilastras simplificadas (elementos verticais) que percorrem toda a altura do prédio entre as janelas, conferindo uma sensação de imponência e verticalidade.

Conta com ornamentação sóbria. Abaixo e acima das janelas, nota-se o uso de molduras geométricas e painéis em baixo-relevo, típicos do estilo Art Déco institucional, muito comum em prédios governamentais da década de 40.

O edifício possui uma "quina cortada" (chanfro) onde se localiza a entrada principal ou um conjunto de janelas de destaque, uma solução arquitetônica inteligente para prédios localizados em esquinas ou grandes esplanadas, como a Silva Jardim.


Novo edificio da Delegacia Fiscal do Tesouro Federal em Natal
Foto: O Poti, 10/07/1955,p.24

Rescontituição digital.Gemini, 2026.Pode conter erros.

Rescontituição digital.Gemini, 2026.Pode conter erros.


A foto sugere o uso de massa raspada ou pó de pedra, acabamentos que eram extremamente populares em Natal naquela época por sua durabilidade e estética austera.

As janelas parecem ser de madeira com múltiplas divisões de vidro, o que era o padrão antes da popularização do alumínio e dos grandes panos de vidro.

Relação com o entorno

O prédio foi "encravado" na Esplanada Silva Jardim. Sua arquitetura foi projetada para ser vista de longe, destacando-se como um "majestoso edifício" que representava o poder do Tesouro Nacional e a modernização da Ribeira em relação ao antigo casarão da Cidade Alta.





[1] O Poti,10/07/1955,p.1.

SOBRE O PRÉDIO DA DELEGACIA FISCAL DO TESOURO NACIONAL EM NATAL

 

Em 07/11/1954 o jornal O Poti publicou um foto do prédio e na legenda constava que estavam praticamente concluídas as obras do grande edifício da Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional no Rio Grande do Norte. [1]

Para o citado jornal Mais seria mais um suntuoso edifício em Natal.

Encravado na Esplanada Silva Jardim, bairro da Ribeira, “o bonito prédio veio contribuir para o embelezamento da paisagem urbanística de nossa Capital”.[2]

Além disso, o edifício viria solucionar o problema de sede para as principais Repartições do Ministério da Fazenda que eram: Delegacia Fiscal, Delegacia do Tribunal de Contas da União, Delegacia do Imposto de Rendas e Delegacia do Patrimônio da União.

Ao que estava informado o referido jornal a inauguração desse conjunto teria lugar no começo do ano de 1955, restando os retoques finais de acabamento e a instalação do elevador.

Em sua recente viagem ao Rio de Janeiro o sr. Romulo Tinoco, Delegado Fiscal no Estado, obteve as verbas destinadas ao término dos trabalhos e à aquisição do mobiliário necessário.

Esse edifício é um marco histórico importante para a capital potiguar. O prédio mencionado no recorte é o Edifício Sanatiel Holanda, localizado Esplanada Silva Jardim, na Ribeira.

Aqui estão alguns detalhes históricos fascinantes sobre ele e o contexto da época:

O Edifício e sua Arquitetura

 O prédio é um exemplar do Modernismo, com linhas sóbrias e funcionais que contrastavam com as construções coloniais e ecléticas mais antigas do bairro.

Ele foi construído para centralizar as repartições do Ministério da Fazenda. Até hoje, o prédio é conhecido por muitos como o "Edifício da Fazenda".

Na época (provavelmente final dos anos 40 ou início dos 50), a instalação de um elevador e o acabamento "suntuoso" eram sinais de grande progresso urbano para Natal.


Novo prédio da Delegacia Fiscal do Tesouro Federal em Natal
Foto: O Poti, 07/11/1954, p.24.


Reconstituição digital.Gemini,2026.

Reconstituição digital.Gemini,2026.


O bairro da Ribeira: o coração de Natal

A Ribeira era, naquele período, o centro nervoso da cidade:

Porto e Comércio: por estar junto ao Rio Potengi, era por onde tudo chegava e saía.

Vida Social: o bairro abrigava os principais cinemas, teatros e hotéis. O texto menciona o "embelezamento da paisagem", o que mostra que havia um esforço consciente para modernizar a Ribeira e mantê-la como o cartão-postal da capital.

Declínio e Preservação: com o passar das décadas, o eixo comercial se deslocou para a Cidade Alta e, depois, para o bairro de Tirol e Petrópolis. Hoje, a Ribeira é um bairro histórico que luta pela revitalização, abrigando diversos órgãos públicos e centros culturais.

O Sr. Rômulo Tinoco, mencionado como Delegado Fiscal, foi uma figura de destaque na administração pública do Rio Grande do Norte, vindo de uma família influente na política e no direito do estado.

Dentro de poucos dias a Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional será mudada para suas novas instalações, na esplanada Silva Jardim, na Ribeira.

“Irá para seu moderno prédio a Delegacia Fsical”

         Já concluído em 11/06/1955 o majestoso edifício da Esplanada Silva Jardim em magníficas e completas instalações.[3]

O majestoso edifício de dois andares construído em linhas modernas, era um dos melhores prédios públicos da Capital potiguar, estando dotado de salas amplas e confortáveis, nele deveriam funcionar todas as dependências da Delegacia e órgãos anexos, até então distribuídos e sacrificados no velho casarão da praça André de Albuquerque.(atual prédio do Memorial Câmara Cascudo).

Os últimos retoques no prédio estavam sendo dados, esperando o  Delegado Fiscal promover a mudança durante a segunda quinzena daquele mês de junho, cuja transferência teria caráter solene estando presentes autoridade da Fazenda Federal e convidados especiais.

A menção às "linhas modernas" reforça a transição estética pela qual o bairro da Ribeira passava na época, consolidando-se como um centro de modernidade institucional.

O prédio apresenta uma linguagem Eclética de transição para o Modernismo. Embora mantenha a simetria e a robustez das instituições oficiais da época, ele já demonstra uma limpeza ornamental que antecipava a arquitetura moderna. É um bloco maciço, composto por dois pavimentos principais sobre um embasamento (térreo) elevado.



[1] O Poti, 07/11/1954, p.24..

[2] Op.Cit.

[3] O Poti, 11/06/1955,p.8

quinta-feira, 19 de março de 2026

SOBRE O PROJETO DO PALÁCIO EPISCOPAL DE NATAL

 

No ano de 1930 o então bispo de Natal, Dom Marcolino Dantas encomendou um projeto ao engenheiro-arquiteto Mário Barreto de Albuquerque Maranhão para o Palácio Episcopal de Natal, o qual seria além da residência oficial do bispo a sede do organismo administativo do Bispado de Natal (Cúria Diocesana).

Para transformar a aspiração monumental de Dom Marcolino Dantas em realidade física, era necessário um mestre que dominasse a linguagem do concreto armado, a tecnologia que estava redefinindo os limites da arquitetura mundial.

Mário Barreto de Albuquerque Maranhão não era apenas um executor de plantas; ele era um intérprete da modernidade.

A sintonia entre a Mitra e o Esquadro

A parceria entre o Bispo e Mário Maranhão foi pautada por um respeito mútuo incomum. Enquanto Dom Marcolino ditava a "liturgia dos espaços", Mário Maranhão traduzia essas necessidades em volumes geométricos.

O engenheiro compreendeu que o Palácio não deveria ser apenas uma residência, mas uma peça de comunicação institucional.

O traço de Mário Maranhão para o Palácio Episcopal abandonou os ornatos rebuscados do passado em favor da "honestidade dos materiais".

Cada linha vertical, cada recuo escalonado e cada moldura geométrica tinha um propósito: dar ritmo à fachada e criar uma percepção de altura que superava as dimensões reais do lote.

Erguer uma estrutura com a complexidade técnica do Palácio Episcopal em meados da década de 1930 não seria uma tarefa simples. Mário Maranhão enfrentaria obstáculos que exigiriam tanto engenho quanto diplomacia:

          A escassez de mão de obra especializada era um problema a época. O Art Déco exigia uma precisão geométrica absoluta. As quinas vivas e os frisos paralelos do frontão central não aceitavam erros de prumo ou de acabamento. Mário Maranhão teria que treinar artesãos locais para que o concreto e a massa pudessem mimetizar a aparência da pedra talhada.

         Outro problema era o desafio dos materiais.A Natal da época dependia de importações para muitos componentes de luxo.

A logística de trazer ferragens, vidros e acabamentos finos em um período de instabilidade econômica global exigiu que Dom Marcolino utilizasse seu prestígio para garantir o fluxo de suprimentos.

A geometria do sagrado

O maior trunfo do traço de Mário Maranhão foi o escalonamento rítmico. Ao observar o projeto, nota-se que as alas laterais funcionariam como degraus que elevariam a visão para o centro. Esse jogo volumétrico não era apenas estético; serviria para camuflar as áreas de serviço e destacar a autoridade do Gabinete Episcopal.

A "Cruz"  seria o grande rasgo vertical na fachada como o ápice dessa colaboração. Ali, o engenheiro abdicaria do excesso de concreto para criar um vazio de luz. Ele provaria a Dom Marcolino que, na arquitetura moderna, o que não é preenchido (o espaço, a sombra, a luz) é tão sagrado quanto o que é construído.

Em 1930, a técnica de cálculo estrutural era considerada avançada para os padrões regionais, permitindo a execução dos "terraços-jardim" e das coberturas escalonadas sem o uso de telhados aparentes tradicionais.

    A estética functional, diferente do ecletismo, onde a decoração era aplicada sobre a estrutura, no traço de Mário Maranhão a decoração seria a estrutura. A forma da cruz nasceria da própria ossatura do edifício.

O projeto para o Palácio Episcopal de Natal foi concebido no ano de 1930 pelo engenheiro e arquiteto Mário Maranhão, a pedido do bispo diocesano de Natal Dom Maroclino Dantas.

Seria  um exemplar notável do estilo Art Déco no Brasil. Na época, este estilo representava o "novo", o "moderno", em contraste com o ecletismo e as formas coloniais.

Sua escolha para um palácio episcopal refletiria a modernização da Igreja e sua presença na paisagem urbana de uma capital em crescimento.

Caracteristicas do projeto

Com base no modelo do projeto, este edifício seria um exemplo impressionante de arquitetura eclética com fortes influências neogóticas e Art Déco, uma combinação comum em edifícios institucionais ou religiosos da América do Norte e Latina nas décadas de 1920 e 1930.

Os pontos-chave do projeto seriam a simetria e verticalidade (eixo central). O edifício seria dominado por um maciço bloco central que projetaria uma forte sensação de verticalidade.

O telhado de inclinação íngreme na seção central e os pináculos em forma de agulha que o flanqueiariam são referências diretas ao gótico clássico, embora reinterpretados de forma mais geométrica.

Também receberia a influência da Art Déco (zigurates e geometria), embora o projeto nos detalhes evocassem o gótico, a massa geral é decididamente Art Déco. Observa-se o recuo geométrico escalonado (como um zigurate) em torno da torre central e nas bordas superiores das alas laterais. Os pináculos são simplificados e angulares, em vez de intrincadamente ornamentados.

As janelas mostrariam uma transição interessante. Na torre central, haveria longas frestas verticais que lembrariam as janelas gradeadas góticas, mas sem os arcos ogivais. Nas alas laterais, as janelas seriam agrupadas em blocos retangulares mais modernos, mas recuadas em molduras profundas que criariam padrões de sombra arquitetônica, típicos do Art Déco.

 O modelo sugeria uma construção em alvenaria pesada. As cores sugeridas na colorização (arenito e calcário) refletiriam os materiais populares da época para edifícios de prestígio, oferecendo uma distinção visual entre as diferentes massas do edifício.

Em resumo, o edifício representaria uma modernização da tradição gótica, misturando a solenidade histórica com a geometria limpa e a monumentalidade do início do século XX.

O edifício teria um conjunto de volumes geométricos que se sucederiam e se elevariam em direção ao centro, uma característica central do Art Déco, remetendo aos arranha-céus escalonados.

 O corpo central teria a peça mais alta e estreita, com linhas verticais contínuas que alongariam a estrutura. Isso conferiria monumentalidade e força, além de um simbolismo ascensional religioso.

         A grande cruz monumental estilizada integrada à massa do frontão central seria a peça mais dramática e distinta da construção. Não seria uma cruz aplicada, mas sim escavada e moldada na própria pedra, com o nicho para o vitral central. Esta integração de forma e símbolo é puramente Art Déco.

          O pórtico principal seria definido por uma série de arcos geométricos e escalonados, um motivo comum que cria profundidade e direcionalidade.As alas laterais seriam tratadas de forma mais horizontal, com janelas em fita e galerias, servindo para emoldurar o corpo central e sugerir funções administrativas ou residenciais.

         As cores seriam sóbrias e dignas.A colorização aplicaria uma paleta que buscasse fidelidade histórica, que poderiam ser:

        Pedra Calcária/Arenito Warm: para os corpos laterais, conferindo solidez.

        Creme e Bege Claro: para a torre central, realçando-a sobre o restante.

        Telhados de Lousa/Cimento Escuro:  nas áreas escalonadas laterais.

        Acento Metálico: na escultura do topo, sugerindo bronze ou ferro.

         O edificio seria ainda emoldurado por uma agulha em escultura. O topo do frontão central não terminaria em uma ponta simples, mas em uma estrutura complexa que suportaria uma escultura estilizada, possivelmente uma figura angélica ou simbólica. O tratamento facetado e angular desta peça coroa a composição Art Déco.

Projeto do Palácio Episcopal de Natal por Mário Maranhão.
Reconstituição digital.


Projeto do Palácio Episcopal elaborado por Mário Maranhão.
Reconstituição digital.

Perspectiva noturna do Palácio Episcopal de Natal.

O Palácio Episcopal de Natal não seria apenas a residência do bispo; seria um manifesto de modernidade arquitetônica na capital potiguar. Ele demonstraria que a Igreja Católica poderia abraçar as novas linguagens estéticas e, ao mesmo tempo, criar espaços de profundo significado religioso.

Na década de 1930 a cidade de Natal passava por importantes transformações urbanas refletidas em construções modernas ao estilo Art Decó, por isso a Diocese de Natal entedia que a construção do Palácio Episcopal deveria refletir essa realidade.

O projeto do Palácio Episcopal de Natal de Mário Maranhão foi apresentado no Salão de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1933 conseguindo lograr  a medalha de prata pelo referido projeto. Na ocasião ele apresentou  a maquete em gesso e as respectivas plantas.

Em 1936 foi adquirido um terreno pela Congregação Católica Mariana na rua Jundiaí na Cidade Nova (Tirol), para nele ser erguido o Palácio Episcopal de Natal, contundo, a Diocese de Natal adiou esse plano tendo em vista a adoção de posturas voltadas para o lado social por meio da Ação Católica no inicio da década de 1940.

Naquela época a Diocese de Natal passava por um momento de expansão significativa demonstradas tanto no âmbito pastoral como no administrativo, notademente em construções como o Seminário de São Pedro, construido no bairro da Cidade Nova (Tirol), o Dispensário Sinfrônio Barreto, na Cidade Alta, o Colégio Santo Antonio, no Centro, o Colégio Nossa Senhora das Neves, no Alecrim, entre outros empreendimentos.

Contudo, tanto o Palácio Episcopal como a nova Catedral de Natal que seriam as marcas mais significativas do episcopado de Dom Marcolino Dantas não foram construidos, ambos foram postergados por motivos financeiros, onde a Diocese de Natal aguardava melhores condições para suas realizações, o que nunca ocorreu e os projetos que marcaria o episcopado de Dom Marcolino cairam no esquecimento.

Em 1945 foi criada a Escola de Serviço Social de Natal onde em 1948 no terreno onde seria erguido o Palácio Episcopal teve inicio a construção da sede defitiva da referida instituição pertencente a Diocese de Natal.O prédio é atualmente a sede da Câmara Municipal de Natal.

Caso tivesse sido construido o Palácio Episcopal de Natal seria um dos maiores monumentos arquitetônicos do bairro do Tirol em Natal e um simbolo da Arte Deco na capital potiguar.

Projeto do Palácio Episcopal de Natal elaborado por Mário Maranhão.
Reconstituição digital.

Possivel planta do Palácio Episcopal de Natal,
segundo o projeto elaborado por Mário Maranhão.

Engenheiro Mário Maranhão.
Reconstituição digital.

Engenheiro Mário Maranhão, autor do projeto para o Palácio Episcopal de Natal em 1930.
Foto: Diário Carioca, 1938.













sábado, 14 de março de 2026

SOBRE O PROJETO DA CATEDRAL METÁLICA DE NATAL

 

        Em 1967 Dom Nivaldo Monte, então Arcebispo Metropolitano de Natal, resolveu retomar a construção da nova catedral de Natal, desta vez com um projeto mais moderno, simples funcional, inspirado nas inovações pastorais e litúrgicas do Concilio Vaticano II, as quais preconizavam ambientes litúrgicos mais simples e funcionais visando um maior acolhimento e participação de fiéis nos atos litúrgicos.

         Foi assim que Dom Nivaldo Monte acatou a ideia de a nova Catedral Metropolitana de Natal ser em estilo moderno e funcional, inspirada na arquitetura das grandes construções como ginásios esportivos e fábricas existentes na capital potiguar.

         Dessa forma, os alunos da Escola de Engenharia (UFRN?) elaboraram um projeto para a nova catedral de Natal em estrutura metálica, inspirada no Palácio de Esportes da Praça Pedro Velho, no centro de Natal.

         A seguir uma análise do referido projeto:

O esqueleto metálico e a "pele" da Catedral

Ao utilizar o metal, o projeto deixaria de ser uma estrutura de massa para se tornar um sistema de nervuras e membranas.

Vãos e Esbeltez: O metal permitiria que essas grandes parábolas fossem muito mais finas do que seriam em concreto. As curvas que vemos não seriam "cascas" maciças, mas uma malha de treliças espaciais ou grandes arcos de aço revestidos.

Transparência: Uma estrutura metálica facilitaria a integração dos vitrais, que deixam de ser simples "janelas" e passariam a ser o fechamento quase total da estrutura, criando uma "lanterna" urbana.

Estética "High-Tech" pioneira

No Brasil dos anos 1960, o uso de aço para grandes obras civis era menos comum que o concreto armado devido ao custo e à disponibilidade.

Assim, a Arquidiocese de Natal estaria na vanguarda ao propor uma catedral metálica em Natal que naquele momento indicaria um desejo de modernidade absoluta, inspirada em pavilhões ou na arquitetura de grandes galpões de ginásios esportivos (Palácio dos Esportes ) ou fábricas (Guararapes), mas, com uma roupagem sagrada.

O Campanário como torre de transmissão não seria apenas um adorno, mas uma extensão lógica do sistema construtivo do corpo principal: uma treliça metálica esguia e funcional.

Dinâmica de Montagem

Diferente das formas complexas de madeira exigidas pelo concreto curvo, o metal sugereria pré-fabricação. As peças seriam produzidas e apenas montadas no canteiro de obras, o que daria à construção um caráter de "objeto de precisão" pousado sobre as dunas.

Isso explica a repetição rítmica das laterais, elas seriam pórticos metálicos sequenciais que sustentam o coroamento da nave.

Segundo a concepção do projeto dos alunos da Escola de Engenharia a estrutura dividida em três níveis de altura diferentes simbolizaria o movimento das dunas, uma característica ambiental singular da capital potiguar que é ser circundada por dunas.

 Reflexos e cromatismo

Sendo a estrutura da catedral em metal, a interação com a luz e a maresia de Natal exigiria tratamentos específicos, como a coloração  para o exterior que poderia ser uma pintura protetora (como o branco ou o cinza alumínio) ou mesmo um revestimento metálico que refletiria o sol forte da região, criando um brilho que o concreto não teria.Essa escolha pelo metal reforçaria o caráter experimental desse projeto de 1967.


Projeto para a nova catedral de Natal em estrutura metálica.
Fonte: Gemini, respectivamente.

Para efeito comparativo, caso a catedral fosse construida em concreto.
Fonte: Gemini.

Projeto dos alunos da Escola de Engenharia (UFRN?) apresentado em 1967 a Arquidiocese.
Fonte: Diário de Natal, 16/01/1968, p.1.

Criticas e rejeição ao projeto

O projeto foi aprovado com entusiasmo pelo arcebispo de Natal, que acreditava ser um projeto de fácil execução, mais barato que uma construção em alvenaria ou concreto e de menos tempo de construção, o que acalmaria a impaciência da população natalense e sobretudo dos católicos, devido a demora em se construir da nova catedral de Natal, cuja história remontava ao ano de 1920.

Porém, a opinião pública, os arquitetos e engenheiros e a imprensa teceram inúmeras críticas ao projeto, dentre as quais dizendo que se tratava de um projeto antiestético e antirreligioso.

Alegava-se ainda que por ser em estrutura metálica a catedral seria provisória e não definitiva como deveria ser.

A Arquidiocese, por sua vez, entendia a manifestação popular por entender que a catedral seria uma obra de toda a cidade do Natal, mas acreditava no projeto por ser de fácil execução, ademais o Concilio Vaticano II preconizava a simplicidade em ambientes litúrgicos, ideia já em voga em algumas igrejas pelo Brasil.

O projeto, no entanto, foi rejeitado e surgiriam outros projetos entre 1968 e 1972, sendo aprovado naquele ano o projeto do arquiteto Marconi Grevy para a nova Catedral Metropolitana de Natal, a qual seria construída entre 1973 e 1988.


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A ESCOLA PRIMÁRIA DA POVOAÇÃO DE TAIPU: ORIGEM, FUNÇÃO SOCIAL E SIGNIFICADOS HISTÓRICOS


A escola de instrução primária da povoação de Taipu foi criada pela Lei nº 566, de 21 de dezembro de 1864.A época a povoação integrava o território do municipio de Ceará-Mirim e dava já sinais de desenvolvimento socioeconomico.

Ela inscreve-se no movimento mais amplo de expansão do ensino elementar no Rio Grande do Norte ao longo do século XIX.

Num período em que a instrução pública ainda era rarefeita, sobretudo nas pequenas povoações rurais, a instalação de uma cadeira de primeiras letras representou um marco civilizatório e um ponto de inflexão na história local.

Taipu, então uma comunidade em formação às margens do rio Ceará-Mirim, das rotas de gado e dos pequenos núcleos agrícolas, recebeu a escola como instrumento de ordem, progresso e integração ao projeto provincial de modernização.

O contexto que antecedeu sua criação é revelador. A década de 1860 foi marcada pela preocupação das autoridades provinciais em reduzir o analfabetismo e estabelecer vínculos mais sólidos entre o governo e as comunidades do interior.

Nas vilas e povoações que emergiam a partir da expansão agrícola, surgia a necessidade de garantir formação básica a crianças de famílias dedicadas à pecuária, à lavoura de subsistência e às atividades comerciais incipientes.

A escola de Taipu foi fundada para atender esse público, funcionando inicialmente em casas cedidas por moradores influentes e sustentada por modesta subvenção pública.

O professor nomeado para dirigir a aula de primeiras letras exercia papel central na vida comunitária.

Além de ensinar leitura, escrita, cálculo e elementos de moral e civismo, atuava como mediador entre o poder provincial e os moradores. A escola, embora simples, tornou-se local de reuniões, divulgação de avisos oficiais e resolução de questões práticas da rotina do povoado.

Numa comunidade marcada pela oralidade, o domínio da leitura e da escrita passava a representar distinção e oportunidade.

O cotidiano escolar seguia o método individual, predominante no período, com forte disciplina, uso de cartilhas e exercícios repetitivos. As turmas eram pequenas, variando conforme as safras, o clima e as demandas das famílias agricultoras.

Meninos e meninas frequentavam o mesmo espaço, embora em horários alternados, prática comum em zonas rurais da província para lidar com a escassez de professores e a falta de instalações adequadas.

A presença da escola também provocou mudanças graduais na cultura local. Famílias passaram a valorizar mais a instrução formal, e alguns alunos seguiram caminhos que os conduziram a funções administrativas, cargos públicos ou atividades de comércio, elevando o prestígio da comunidade. O domínio da escrita favoreceu a circulação de documentos, contratos e registros, contribuindo para o ordenamento social e econômico de Taipu.

Ao longo das décadas seguintes, a escola primária fundada em 1864 serviu como semente para outras iniciativas educacionais. A ampliação de matrículas, a chegada de novos professores e a construção de espaços próprios acompanharam o crescimento da povoação, que mais tarde se consolidaria como município.

 A instituição inicial, apesar de rudimentar, estabeleceu o fundamento simbólico e material da educação em Taipu, tornando-se uma referência permanente de memória coletiva.

Não há indicios de onde poderia ter sido o local da escola primária de Taipu, geralmente ela funcionava na casa do professor ou numa casa alugada para essa finalidade pela prefeitura.

Em 1866 foram postas em concurso diversas cadeiras de instrução primária na província, dentres estas a de Taipu, tendo sido plenamente aprovado Tassino Xavier de Menezes para provê-la.[1]

Em 31/01/1871 o professor pimário da povoação de Taipu foi removido para a de Arez.[2]

Não há maiores informações sobre o funcionamento da escola primária de Taipu.

Geralmente as escolas primárias funcionavam nas casas dos respectivos professores ou em casas cedidas para essa finalidade.

Não informação de onde funcionava a escola primária da povoação de Taipu.

         Segundo o relatório do governo provincial as escolas existentes não tinham casas cômodas em que se estabelecessem, nem os alunos bancos para assentar-se e mesas para escrever.

         O emprego de meios para que a promessa constitucional de acesso gratuito ao ensino fosse cumprida e a instrução animada, parecia ao presidente da província não só uma necessidade indeclinável como de rigoroso dever para aqueles , que tinham a missão de velar na guarda da constituição e promover a prosperidade pública.

         Para ele, derramar a instrução e protegê-la, se não era o primeiro dever da autoridade, era a realização de um grande principio eminentemente humanitário e civilizador.

         A gratuidade da instrução primária prometida pela constituição do império ainda não tinha tido inteira aplicação.

         A província pagava ao professor, mas não fornecia ao aluno os meios de adquiri a instrução.[3]

         A escola primária masculina de Taipu funcionou até por volta de 1890, quando pelo decreto nº 95, de 28 de fevereiro de 1891 foi restabelecida a cadeira de instrução primária do sexo masculino  da povoação de Taipu.[4]

A escola primária da povoação de Taipu de 1864 não foi apenas um equipamento público; foi o eixo organizador de um processo de formação cidadã que permaneceria vivo na comunidade.

Sua criação revelou o esforço da povoação em integrar-se ao mundo letrado, fortalecendo identidades, estruturando sociabilidades e abrindo horizontes para gerações que encontrariam na instrução o caminho para seu próprio desenvolvimento.



[1] Exposição do Presidente da Província do Rio Grande do Norte, 1866, p.9.

[2] Relatório do presidente da Província do Rio Grande do Norte, 1871, p.11.

[3] Relatório do Vice-Presidente da Província do Rio Grande do Norte, 1873, p.15.

[4] Decretos do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, 1891, p.146.