sexta-feira, 3 de julho de 2026

SOBRE O MERCADO PÚBLICO DE PAU DOS FERRO EM 1956

         As imagens a baixo mostram o registro histórico do Mercado Público de Pau dos Ferros em 1956, elas preservam  a memória visual do edifício do Mercado Público de Pau dos Ferros.

   As características arquitetônicas do edificio destaca a fachada clássica da construção, evidenciando o frontão ornamentado central e as linhas sóbrias que caracterizam o estilo arquitetônico do período.

      Nos aspectos urbanos a presença das árvores alinhadas na calçada, o calçamento da via e as sombras projetadas oferecem um vislumbre de como era a ocupação urbana e a paisagem ao redor do mercado naquela época.

    A restauração por meio de inteligência artificial permitiu maior clareza nos detalhes da fachada e na legibilidade dos textos que acompanham o registro, facilitando a análise de sua importância histórica para o município.

Restauração por inteligência aritficial.

                                                                     Tribuna do Norte, 21/12/1956, p.5.

Colorização por inteligência artificial.



SOBRE A PRIMEIRA PREFEITA DA REGIÃO DO MATO GRANDE

         A primeira mulher eleita em Bento Fernandes e por extensão, a primeira prefeita da região do Mato Grande foi Joana Ferreira da Cruz (dona Noca). Em 1969 foram candidatos a prefeito no município de Bento Fernandes Lidio Fernandes de Oliveira e Francisco Luiz do Amaral, ambos da ARENA e Joana Ferreira da Cruz e Jaime Ferreira de Andrade, também da ARENA.[ Diário de Natal,03/11/1969,p.2]

      O TRE declarou os candidatos Lidio Fernandes de Oliveira e Francisco Luiz do Amaral como inelegíveis.[O primeiro por não ter se afastado 6 meses antes da eleição do cargo de Agente Fiscal e Chefe da Agência de Bento Fernandes (Cargo público) e o segundo por ser genro do então prefeito do município.[Cf.Tribuna do Norte, 08/11/1969,p.5.], por isso a eleição naquele ano em Bento Fernandes ocorreu em chapa única.

      Foi eleita então Joana Ferreira de Andrade e Jaime Ferreira de Andrade, prefeita e vice-prefeito, respectivamente.

      A época da eleição o município de Bento Fernandes contava com 4.679 habitantes, dos quais 875 na cidade e  2. 240 homens e 2.118 mulheres e apenas 1.501 eleitores.[ Diário de Natal, 02/09/1970, p. 14 e Tribuna do Norte, 09/09/1970,p.1, rescpectivamente.]

    Na eleição de 1969 votaram apenas 980 eleitores em Bento Fernandes. [Tribuna do Norte,17/11/1970,p.5]. Em 1972 constavam já 2.256 eleitores.[ Diário de Natal, 13/10/1972, p.3.].

      O primeiro mandato de Joana Ferreira de Andrade ocorreu entre 1970 e 1973.Já em 1976 ela voltaria a concorrer ao cargo novamente tendo vencido o pleito naquele ano para o seu segundo mandato.

     O ano de 1976 foi ano das mulheres candidatas no Rio Grande do Norte.Ao menos 7 prefeitas foram eleitas naquele ano, sendo elas: Marize Bento da Silva (ARENA, Saão Bento do Trairi); Zélia Alves (MDB, Angicos); Maria do Socorro Targino (ARENA, Messias Targino); Joana Ferreira Fernandes (ARENA, Bento Fernandes); Anália Mauricio (ARENA, Sen. Eloi de Souza); Francisca Ferreira de Carvalho (ARENA, Sitio Novo) e Maria das Neves Rodrigues (ARENA, Cel. Ezequiel).[Cf. O Poti, 21/11/1976, p.1.]

     Da primeira gestão de Joana Ferreira da Cruz tem-se que o Tribunal de Contas deu parecer favorável prévio em 1975 para a aprovação das contas da prefeitura de Bento Fernandes relativos ao ano de 1972. [ Diário de Natal,24/06/1975,p.5.]

Sobre o segundo mandato de Joana Ferreira da Cruz

     Conforme o jornal Tribuna do Norte “Mais uma mulher, vai disputar a eleição de novembro. Desta vez, em Bento Fernandes, onde Dona Joana Ferreira da Cruz será por uma das alas da ARENA, enquanto pela ARENA II, Francisco Luiz do Amaral, foi o escolhido. O vice de Dona Joana, ainda não foi definido, assim como o de Francisco Luiz”.[Tribuna do Norte, 27/07/1976,p.12.].

       O recorte do referido jornal fornecem um aspecto importante da história política e social do município de Bento Fernandes, abrangendo um período que transita entre as décadas de 1960, 1970 e meados de 1980.

      Trata-se da trajetória Política de Joana Ferreira da Cruz, identificada como a primeira prefeita de Bento Fernandes. Sua influência política é destacada em diferentes momentos: desde a menção de sua gestão até a notícia de sua candidatura pela ARENA em um pleito de novembro.

     Os textos dos jornais da época mencionam a presença marcante da ARENA (Aliança Renovadora Nacional), o partido de sustentação do regime militar, indicando que a dinâmica política local na época era pautada por divisões internas dentro dessa mesma sigla, como o confronto entre a "ala de Dona Joana" e a "ARENA II" liderada por Francisco Luiz do Amaral.

     O município, desmembrado de Taipu em 1959 com a denominação de Barreto, buscava consolidar sua identidade e autonomia.

      O registro histórico reverencia a memória de Bento Fernandes de Macedo, cuja trajetória de vida e morte trágica está profundamente ligada à fundação e à memória afetiva da cidade.

      A dependência de serviços externos, como a assistência religiosa provida pela paróquia de João Câmara, ilustra a integração regional do município naquela época.

     O conjunto dessas fontes compõe um valioso retrato de uma administração municipal sob o regime militar, focada em obras de infraestrutura básica e na manutenção do controle político local através das estruturas partidárias permitidas na época.

Sobre o município de Bento Fernandes em 1977

   Em 1977 o jornal Diário de Natal apresentou um panorama do município de Bento Fernandes, pelo qual podemos ter uma noção de como se apresentava o mesmo no segundo mandato de Joana Ferreira da Cruz.

     Prefeita: Joana Ferreira da Cruz.

     Vice-Prefeito: José Pinheiro da Silva.

     Vereadores: Arena: Lídio Barbosa de Miranda, Antônio Victor do Nascimento, Luiz Canela de Lima, Silvino Inácio de Melo, Cícero Vitorino da Silva, Wilson Lopes Galvão, João Nicácio Filho.

      Juiz de Direito: Dr. Manuel dos Santos.

      Promotor: Dr. Jair Álvares Vilar.

      Delegado: 3º Sargento Geraldo Nunes da Silva.

     Microrregião: Serra Verde.

     Área: 359 Km².

     População residente: 5.257 habitantes (estimativa/1975).

   Bento Fernandes tinha ligação com os seguintes Municípios através das seguintes Rodovias: João Câmara - RN 120 a 19 Km de distância (30 minutos); Poço Branco - carroçável municipal a 36 Km de distância (45 minutos); Taipu - carroçável municipal a 28 Km de distância (40 minutos); Ielmo Marinho - BR 304, RN 120, RN 064 e carroçável municipal, a 36 Km de distância (40 minutos); São Paulo do Potengi - RN 120 a 30 Km de distância (40 minutos); Caiçara do Rio do Vento - BR 304 e RN 120, a 25 Km de distância (30 minutos); Jardim de Angicos - carroçável municipal a 18 Km de distância (30 minutos); Natal - BR 304, BR 226 e RN 120, a 101 Km de distância (1 h e 30 minutos).

   As atividades econômicas eram: culturas agrícolas, pecuária e indústria de transformação.Produtos exportados: algodão e farinha de mandioca. Produtos importados: gêneros alimentícios e tecidos.

      Bento Fernandes tinha em 1977 um Posto de Saúde Municipal. Os alunos de 2º Grau se deslocavam para João Câmara em transporte custeado pela Prefeitura. Havia no município de Bento Fernandes, experiência de eletrificação rural: a fauna da Belo Horizonte foi a primeira. ia ser construído um açude, que prestaria para o saneamento básico da cidade, com capacidade de 1.500.000,00m³ de água.A assistência religiosa em Bento Fernandes era feita pela paróquia de João Câmara.[ Diário de Natal,02/09/1977,p.14.].

     O referido jornal já destacava a época que Dona Joana Ferreira, a então atual Prefeita, fora também a primeira Prefeita de Bento Fernandes, mas que naquele ano de 1977 exercia já o seu segundo mandato.[ Op.Cit.].

     Esse   pequeno perfil enciclopédico ou informativo do município de Bento Fernandes,  é um documento  valioso por  destacar a gestão de Joana Ferreira da Cruz, citada como a primeira prefeita da cidade. O documento também preserva nomes de figuras públicas da época, como juízes, promotores e vereadores, o que é relevante para registros históricos municipais.

    Detalha as dificuldades de infraestrutura rodoviária da época, enfatizando o uso de estradas "carroçáveis" para acessar municípios vizinhos, além de descrever o cenário econômico centrado na agricultura e pecuária.

Marco na história politica de Bento Fernandes e do Mato Grande

      A história política de Bento Fernandes, registra assim um marco importante com a eleição de Joana Ferreira da Cruz em 1969, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita do município e por extensão primeira mulher a exercer esse cargo na região do Mato Grande. 

   Sua vitória representou não apenas uma mudança na administração municipal, mas também um avanço significativo para a participação feminina na política local, em uma época em que as mulheres ainda enfrentavam grandes obstáculos para conquistar espaços de poder.

    Joana Ferreira da Cruz foi eleita para governar o município no pleito realizado durante o período do regime militar, assumindo a Prefeitura em 31 de janeiro de 1970. Filiada à ARENA, partido que dava sustentação ao governo federal, tornou-se a sexta chefe do Poder Executivo municipal e a primeira mulher a administrar Bento Fernandes. 

    Sua primeira administração ocorreu entre 1970 e 1973, período em que as prefeituras do interior do Rio Grande do Norte conviviam com severas limitações financeiras e forte dependência dos repasses estaduais e federais. Nesse contexto, o trabalho do gestor municipal exigia capacidade de articulação política, planejamento e atenção permanente às necessidades básicas da população.

   Após concluir seu primeiro mandato, Joana Ferreira da Cruz voltou ao comando da Prefeitura ao vencer novamente as eleições, exercendo um segundo período administrativo entre 1977 e 1983. Com isso, consolidou-se como uma das principais lideranças políticas da história de Bento Fernandes, permanecendo por mais de oito anos à frente do Executivo municipal.

   Sua trajetória política demonstra que a presença feminina na administração pública começou a ganhar espaço gradativamente no interior potiguar. Embora o ambiente político da época fosse predominantemente masculino, Joana conquistou a confiança do eleitorado e mostrou que a competência administrativa não dependia do gênero, abrindo caminho para que outras mulheres participassem da vida política municipal.

     Sua eleição também deve ser compreendida dentro da tradição pioneira do Rio Grande do Norte na participação feminina na política brasileira. O estado foi responsável pela eleição da primeira prefeita do Brasil e da América Latina, Alzira Soriano, em 1928, fato que contribuiu para fortalecer o protagonismo das mulheres na política potiguar ao longo das décadas. 

   Mesmo que parte da documentação sobre sua administração ainda seja escassa, a permanência de Joana Ferreira da Cruz por dois mandatos evidencia seu reconhecimento político junto à população. Sua gestão integra uma fase importante da consolidação administrativa de Bento Fernandes, quando o município buscava ampliar sua infraestrutura, fortalecer os serviços públicos e acompanhar as transformações sociais e econômicas ocorridas no Rio Grande do Norte.

    Hoje, Joana Ferreira da Cruz ocupa lugar de destaque na memória política de Bento Fernandes e da região do Mato Grande. Seu nome permanece associado à conquista da representação feminina no Executivo municipal e constitui referência para estudos sobre a história política local, demonstrando que a participação das mulheres foi fundamental na construção das instituições públicas e no desenvolvimento do município.


sexta-feira, 26 de junho de 2026

SOBRE A ANTIGA CAPELA DE ESPÍRITO SANTO

      A imagem abaixo trata-se da antiga  um registro histórico da Igreja Matriz de Espírito Santo.

  A imagem colorizada resgata os detalhes arquitetônicos típicos dos templos históricos da região, destacando: a fachada simples e tradicional. As portas e janelas de madeira detalhadas com arcos marcados na cor bege/ocre sobre as paredes claras.

       A igreja apresenta aspecto rústico.As marcas do tempo no reboco lateral e o rodapé de pedras escuras ganham muito mais realismo e contraste na versão em cores.

       No entorno a preservação de elementos antigos, como o poste de madeira com a fiação elétrica e as ruas de paralelepípedo, ajudam a contextualizar a pacata e histórica atmosfera do município potiguar.

   Uma excelente recordação da história e da identidade religiosa e cultural do Rio Grande do Norte!

     A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, localizada no município de Espírito Santo, carrega uma profunda bagagem histórica intimamente ligada às origens e à identidade da comunidade espiritossantense.


Colorização por Inteligência Artificial.

A Padroeira e a devoção

 A vida religiosa e o crescimento da localidade se estruturaram ao redor do culto a Nossa Senhora da Piedade, cuja imagem é venerada há mais de um século pelos fiéis. A tradicional festa da padroeira, celebrada anualmente no dia 2 de fevereiro, constitui o principal marco de união, fé e resgate cultural do município, atraindo a comunidade e devotos da região do Rio Jacu e do Agreste potiguar.

 Traços arquitetônicos

     O templo preserva as linhas ladeadas do estilo colonial tardio e eclético tradicional do interior do Nordeste. A simplicidade de sua fachada, com portas em arco pleno e janelas em formato de coroamento que se abrem para o coro, reflete a sobriedade das antigas capelas do século XIX e início do século XX, erguidas com o esforço comunitário.


Antiga capela de Espírito Santo, autoria e data ignoradas.

 Vínculo institucional

    A paróquia integra aArquidiocese de Natal, inicialmente fazia parte do território da paróquia de Nossa Senhora dos Prazeres de Goianinha como uma de suas capelas filiais, permanecendo ativa como o coração histórico do Centro da cidade — situada na atual Rua Monsenhor Armando de Paiva.

      Recentemente a igreja matriz de Nossa Senhora da Piedade de Espinho Santo foi elevada a dignidade de santuário arquidiocesano, por decreto do arcebispo metropolitano de Natal, Dom João Santos Cardoso, reforçando a importância histórico, cultural e religioso do referido templo.

    Através das restaurações digitais (como as versões colorizada e reformada nas cores creme e branca), é possível valorizar esse precioso patrimônio arquitetônico e iconográfico que testemunho.


Restauração de imagem feita por Inteligência Artificial.




segunda-feira, 22 de junho de 2026

ASPECTOS DE JOÃO CÂMARA EM 1979

             A imagem abaixo mostra um aspecto da cidade de João Câmara registrada pelo jornal Tribuna do Norte em 1979. Já a restauração digital em cores gerada a partir da fotografia antiga é um registro urbano e social extraordinário da região do Mato Grande potiguar no final da década de 1970.

          A  cidade de João Câmara sempre funcionou como o grande polo geopolítico, comercial e logístico dessa porção do Estado, sendo, inclusive, o ponto de conexão rodoviária fundamental (via BR-406) para quem se deslocava da capital para o Litoral Norte.

       Analisando os elementos visuais da imagem colorizada, podemos destacar vários aspectos marcantes da realidade daquela época:

 A arquitetura e a transição urbana

         A imagem revela uma típica configuração de rua ou praça central de uma cidade de médio porte do interior do Nordeste em 1979:

     Os casarões exibem linhas arquitetônicas simples e platibandas (as molduras que escondem os telhados) típicas de meados do século XX. As tonalidades suaves de bege, ocre e amarelo-claro nas paredes contrastam com portas e janelas pintadas em tons marcantes de azul e marrom, uma identidade visual muito comum nas residências da época.

      Mais ao fundo, observam-se coberturas tradicionais de telha cerâmica canal (tipo colonial), que ajudavam a amenizar o forte calor da região.

 O ritmo de vida e o cotidiano no interior

     A fotografia captura uma atmosfera pacata e um ritmo de vida desacelerado, característico das cidades do interior antes da explosão automobilística e da verticalização:

    O transporte tradicional: em primeiríssimo plano, encostada na calçada, destaca-se uma bicicleta clássica barra forte com guidão alto. Naquele período (como bem pontuado nos recortes de jornais da década de 1970), a ampla maioria da população se deslocava a pé, de bicicleta ou por tração animal; os automóveis eram artigos de luxo restritos a poucas famílias ou autoridades.

    As pessoas na rua: os pedestres ao fundo — vestindo calças de sarja ou algodão em tons terrosos e camisas sociais leves — caminham calmamente pela via. À direita, um pequeno grupo se reúne em torno de uma banca ou pequeno comércio de rua, sugerindo o ponto de encontro clássico para a sociabilidade local.

A infraestrutura pública da época

     O canteiro central e a arborização: no centro da imagem, chama a atenção o planejamento de um canteiro central ou praça. As mudas de árvores recém-plantadas estão protegidas por **grades ou cercados de madeira (tutores)para evitar que animais soltos (como bodes ou cavalos, comuns nas ruas do interior) as destruíssem.

       A rua exibe uma pavimentação mista ou de terra batida com vestígios de calçamento rústico (paralelepípedo), refletindo os desafios de pavimentação que as prefeituras da região enfrentavam no final dos anos 70.

        Em suma, a transição da imagem cinzenta de para a vivacidade de  humaniza a história. Ela nos transporta diretamente para o ano de 1979, mostrando uma João Câmara que equilibrava o seu papel de liderança regional com a calmaria, a simplicidade e a estética marcante do interior potiguar.

Tribuna do Norte, 21/10/1979, p.26.
Colorização por inteligência artificial.


A ODISSEIA DA INSTALAÇÃO DA LUZ ELÉTRICA DE GALINHOS

         Vencendo o desafio das dunas COSERN daria energia a Galinhos em 1975.

       Para chegar a Galinhos, a penúltima cidade a ser eletrificada no Estado do Rio Grande do Norte em 1975, antes da eletrificação de São Bento do Norte, foi preciso botes ou caminhões puxados por tratores, única forma de vencer 13 km de dunas.

    O município de Galinhos é uma faixa de terra entrando no mar (peninsula), no litoral-norte do Estado. Para chegar até lá, a Cosern deslocou operários que trabalharam 20 horas diárias para que fosse possível a inauguração da luz eletrica da cidade em 02/02/1975.

    Como Galinhos, outras cidades, especialmente São Miguel e João Dias, exigiram grandes esforços para receber a energia elétrica de Paulo Afonso. Os caminhões, com os postes de concreto, tiveram de vencer as estradas de pedra e lama das suas serras que deram nome aos municípios.

    Os trabalhos de eletrificação de Galinhos estiveram ameaçados de não ser concluídos. Na última etapa do trabalho, apenas um trator conseguiu vencer as dunas que cercam a cidade, a leste e a sul. Um pescador de Galinhos, vendo tantas dificuldades, chegou a dizer: “no dia que eu vir luz em Galinhos, prometo vestir uma saia”. Hoje, certamente, ele estará na inauguração, registrou o jornal Tribuna do Norte.

    Município desde 26/03/1963, desmembrado de São Bento do Norte, Galinhos tinha como principal atividade econômica a pesca, especialmente a do peixe-voador e a do peixe-galo. No seu perímetro urbano, existiam menos de 200 casas. Nelas, moravam 819 pessoas naquele ano de 1975.

O retrato da realidade

    A cidade não possuia médico nem dentista. Se alguém precisasse de assistência médica era levado de barco a Guamaré e, em seguida, a Macau. A cidade dispunha de apenas três ruas. A sua população orgulhava-se de ter uma praça com o nome de Três Poderes. Nesta praça estavam a igreja, o grupo escolar e a prefeitura.

    Nesta cidade a Cosern teve a maior dificuldade para a implantação da energia elétrica. Para transportar os postes de concreto, que pesavam cinco toneladas, os botes de Guamaré, a 10 km de Galinhos, eram insuficientes. Por isso, as dunas tiveram de ser enfrentadas por tratores. Por essas dunas foram transportados 350 postes.

    Os caminhões atolavam, nos 13 km de dunas. Daí, foram precisos tratores para arrastar os caminhões. Para se ter uma ideia exata de Galinhos, basta saber que a campanha publicitária de apelo a poupança de gasolina não precisou chegar à cidade: lá, os seus habitantes não possuiam automóvel.


                                       Tribuna do Norte,02/02/1975,p.3.

    Os principais aspectos históricos e sociológicos destacados pela instalação da luz elétrica em Galinhos são:

A Geografia como barreira ao progresso

     Galinhos foi descrita com precisão geográfica: uma estreita faixa de terra cercada pelo mar e por imensos campos de dunas móveis. O relato da epopeia de engenharia é impressionante — foi necessário arrastar 350 postes de concreto de cinco toneladas cada ao longo de 13 km de areia movediça.Caminhões atolavam constantemente e necessitavam do auxílio pesado de tratores, exigindo jornadas de trabalho exaustivas de 20 horas por parte dos operários. O nível de descrença da população local diante de tamanha dificuldade geográfica é sintetizado na anedota folclórica do pescador que prometeu vestir uma saia caso o vilarejo de fato recebesse energia elétrica.

O retrato do isolamento e da desigualdade regional

    Os dados apresentados pelo jornal Tribuna do Norte mostram como  Galinhos estava configurada em 1975 e funciona como um valioso censo socioeconômico daquela comunidade na década de 1970. O texto desnuda as duras carências de um município recém-criado (emancipado em 1963 de São Bento do Norte):

    População reduzida: um perímetro urbano com menos de 200 casas e apenas 819 habitantes.

    Infraestrutura mínima: uma cidade constituída de apenas três ruas e uma praça central (a Praça dos Três Poderes, que concentrava as parcas instituições locais).

    Vulnerabilidade social extrema: a total ausência de médicos ou dentistas. Qualquer emergência médica obrigava um doente a ser transportado por vias marítimas até Guamaré e depois por terra até Macau. 

A ironia do subdesenvolvimento

    O parágrafo final da reportagem da Tribuna do Norte encerrava com uma contundente ironia crítica da realidade brasileira da época. O jornalista mencionava que uma campanha do governo federal voltada à economia de combustível (gerada pela Crise Internacional do Petróleo na década de 1970) era completamente inútil e desnecessária em Galinhos, pelo simples fato de que nenhum habitante da cidade possuía um automóvel. O meio de transporte local resumia-se a barcos, tração animal ou caminhada pelas dunas.

    Em conclusão, o documento contido na Tribuna do Norte ilustra o papel da infraestrutura básica (no caso, a energia elétrica da usina hidrelétrica de Paulo Afonso) como o primeiro e mais crucial passo para a integração de comunidades historicamente isoladas ao restante do país.

     A chegada da luz elétrica não apenas iluminou as três ruas de Galinhos, mas abriu as portas para que o município pudesse, nas décadas seguintes, desenvolver seu potencial econômico, o turismo e os serviços de saúde.