sábado, 28 de março de 2026

SOBRE A COLETORIA DE RENDAS DE TAIPU


O prédio onde se situa a prefeitura de Taipu foi inicialmente destinado a Coletoria Federal de Rendas, ou seja, uma repartição pública fedral, responsavel por coletar os impostos de ordem federal, notadamente na Estrada de Ferro Sampaio Correia, entre outros.

A Coletoria de Rendas de Taipu

Em 01/09/1955 o Presidente da República sancionou, a resolução legislativa do Congresso Nacional, que criara coletorias federais em numerosos municípios de todo o País, dentre as quais a da cidade de Taipu.[1]

A criação dessa coletoria estava baseada em exposição de motivos do Ministério da Fazenda, que mencionava a necessidade de ampliar a rede fiscal da União nas unidades federadas.

O  referido decreto previu a criação de 600 funções de auxiliares de coletoria, o que  daria margem à admissão de extranumerários mensalistas.

A administração Pública: a expansão do Estado em Taipu

O documento sobre a criação das Coletorias Federais contextualiza a integração da cidade à rede fiscal e administrativa da União.

Fortalecimento fiscal. A sanção do decreto pelo Presidente da República visava ampliar a "rede fiscal da União", criando 600 novas funções de auxiliares de coletoria em todo o país.

  Impacto local. Para uma cidade como Taipu, a presença de uma Coletoria Federal significava maior relevância administrativa e a formalização das atividades econômicas locais perante o Governo Federal.

 Geografia administrativa: Este tipo de documento é fundamental para entender como o Estado brasileiro se "interiorizou" e como municípios do Rio Grande do Norte foram integrados a essa nova estrutura burocrática no século passado.

                   

       No inicio da década de 1980 o prédio da coletoria de rendas foi transformado na sede da prefeitura de Taipu, situação que perdura até o presente momento.

Sobre o prédio

O edifício da antiga coletoria de rendas de Taipu que abriga atualmente a prefeitura apresenta uma arquitetura intrigante que reflete um período de transição no Brasil, possivelmente entre as décadas de 1930 e 1950. Embora pareça modesto em comparação com as grandes obras metropolitanas, ele exibe clareza e funcionalidade, com traços claros de dois estilos principais:

Platibanda e simetria (influência Neoclássica/Eclética):

A fachada principal exibe uma forte simetria, com o corpo central elevado onde está a porta principal, ladeado por duas alas laterais com janelas. Essa composição é típica da tradição neoclássica e eclética, que buscava ordem e solenidade para os edifícios públicos.

 O uso da platibanda (o muro que esconde o telhado) é um elemento chave. Ele foi muito popularizado no final do século XIX e início do XX para "modernizar" as fachadas, eliminando a visão dos beirais coloniais e dando uma aparência mais robusta e urbana.

Geometria e despojamento (Influência Art Déco/Protometropolitana):

A influência mais marcante é a do Art Déco, visível na simplificação das formas e na ornamentação geométrica sutil.

A inscrição "PREFEITURA" (à esquerda) e "MUNICIPAL" (à direita) em letras de relevo geometricamente precisas é um traço quintessencial do Art Déco. O letreiro não é um mero apêndice, mas parte integrante da composição da fachada.

Corpo central

O ressalto geométrico sobre a porta principal, que quebra a horizontalidade da platibanda, é um detalhe geométrico simples que adiciona interesse visual e destaca a entrada, comum no Art Déco.

Janelas

As janelas eram simples, com molduras retas, sem a ornamentação rebuscada dos estilos anteriores. Elas serviam a um propósito funcional de iluminação e ventilação, mas mantêm a coerência geométrica.

Contexto e significado

Este prédio não é apenas uma estrutura; é um símbolo de um período de "modernização" das cidades do interior do Brasil. A escolha do Art Déco para um edifício público, mesmo que em uma escala modesta, representava a aspiração ao progresso e à organização burocrática e urbana.

A escadaria frontal

A escadaria de acesso elevado e centralizado acentua a formalidade do prédio, criando uma separação entre a "rua" e a "autoridade" municipal.

A colorização e a interpretação do passado

A colorização foi baseada em estudos de padrões cromáticos históricos comuns para edifícios públicos dessa fase.

Tons de bege ou creme eram comuns para as paredes, com detalhes em branco para molduras e elementos de relevo. O rodapé escuro e a porta em tom de madeira trazem contraste e realçam a base da estrutura.

Esta análise e restauração oferecem uma janela para o passado de Taipu, mostrando como a cidade abraçou a modernidade em sua arquitetura administrativa.

O prédio passou por alterações ao longo do tempo o que descaracterizou sua arquitetura original.



[1] Jornal do Brasil,02/09/1955,p.7.

 



SOBRE A CRIAÇÃO DA MATERNIDADE APAMI PELO CENTRO SOCIAL DOM BOSCO DE TAIPU


A Maternidade da APAMI de Taipu representa um dos marcos mais importantes da história da saúde no município. Mais do que um equipamento de atendimento médico, a instituição se consolidou como símbolo de cuidado, solidariedade e construção coletiva ao longo das décadas.

Origem e contexto histórico

A criação da APAMI em Taipu está inserida em um movimento mais amplo ocorrido no Brasil ao longo do século XX, quando associações filantrópicas surgiram com o objetivo de suprir a carência de serviços públicos de saúde, especialmente voltados à maternidade e à infância.

Em um período em que o acesso à assistência médica era limitado no interior do Rio Grande do Norte, a maternidade da APAMI tornou-se essencial para garantir partos mais seguros e acompanhamento básico às gestantes. Sua implantação refletiu o esforço conjunto de lideranças locais, profissionais de saúde e da própria comunidade.

Realizou-se no dia 09/12/1956 na cidade de Taipu a instalação da sociedade promotora da construção da Maternidade local.Trata-se da Associação de Proteção a Maternidad e Infância de Taipu-APAMI.[1]

Participaram da solenidade o Bispo Auxiliar de Natal, Dom Eugênio de Araújo Sales; o Prefeito Tamires Miranda e autoridades municipais, havendo na ocasião uma sessão com a presença de toda sociedade de Taipu.

Em comemoração ao acontecimento realizou-se ainda no mesmo dia, em Taipu, um jantar festivo onde participaram as figuras mais representativas do Município.

A instalação da Sociedade pró-construção da Maternidade  foi fruto da iniciativa do Centro Social Dom Bosco, entidade ligada a Paróquia de Nossa Senhora do Livramento de Taipu, em 1953.

Função social e importância local

Durante muitos anos, a maternidade foi o principal local de nascimento de gerações de taipuenses. Ali, histórias de vida começaram, consolidando um vínculo afetivo profundo entre a instituição e a população.

Entre suas principais funções, destacavam-se:

  • Atendimento a gestantes em condições de vulnerabilidade
  • Realização de partos e cuidados neonatais básicos
  • Apoio à saúde da mulher e da criança
  • Acolhimento humanizado em momentos decisivos

A atuação da APAMI contribuiu diretamente para a redução de riscos no parto e para a melhoria dos indicadores de saúde no município.

A Maternidade da APAMI de Taipu representou um capítulo significativo da história local, evidenciando a importância da organização comunitária na construção de serviços essenciais.





Mais do que um edifício, ela simbolizou cuidado, nascimento e pertencimento , elementos fundamentais para a identidade de uma cidade.

  O papel do Centro Social

A informação a cim além de indentificar uma ação importante para o municipio de Taipue no campo da saúde, reforça a importância do Centro Social de Taipu Dom Bosco como o motor por trás das grandes obras sociais da cidade.

 A articulação política e religiosa

         A presença do Bispo Auxiliar de Natal e do Prefeito em um jantar festivo mostra como a elite e o clero trabalhavam em conjunto para o desenvolvimento institucional de Taipu.

A ação social do Centro Social e da Maternidade

Em 1958 uma equipe de técnicos de educadores da Campanha Nacional de Educação Rural, encabeçada pela Sra. Maria de Lourdes Vieira visitou a cidade de Taipu onde conheceram o trabalho desenvolvido pelo Centro Social Dom Bosco e pela Maternidade APAMI.

Segundo o Jornal do Comércio: “em Taipu, após visitarmos a residência do presidente do Centro Social, pessoa moça, de certa cultura e boa situação financeira, fomos, em sua companhia, visitar a Maternidade, que é uma dependência do Centro. A Maternidade era uma das grandes aspirações da comunidade, e, para concretizar esse ideal, o Centro contou com a colaboração do prefeito local. [2]

A Maternidade funcionava com três leitos, duas salas para o médico e para curativos, e injeções, com bom estoque de medicamentos. Duas encarregadas trabalhavam, pois o médico só comparecia ali uma vez por semana.

O controle é feito por meio de fichas e papeletas. Havia, ainda, em funcionamento, um gabinete dentário e o Posto Médico, que funcionava numa das salas do Centro Social Dom Bosco, cujo encarregado visitava as localidades todos os sábados.

Na visita a sede do Centro Social a referida equipe encontrou o clube juvenil reunido, onde estavam trabalhando num projeto novo, de trabalhos manuais em palha, em seguida, dariam início ao tricô.

O aprendizado era feito entre as jovens do clube. No Centro Social havia, funcionado, no ano de 1957, um jardim de infância.

Segundo  citado jornal “o movimento de Taipu é intenso e o Centro mantém, com circulação periódica, um jornalzinho, "O Papagaio".

Este recorte é um testemunho do esforço comunitário e político para dotar a cidade de infraestrutura básica de saúde.

A transição para a gestão religiosa (Anos 60)

Um marco fundamental na história do Centro Social e da Maternidade de Taipu ocorreu em 1964.

    Sob a orientação de Dom Eugênio Sales, a administração dessas instituições (e da própria paróquia) foi entregue às Irmãs da Congregação do Imaculado Coração de Maria.

    Entre as figuras de maior destaque nesse período está a Irmã Natalina Maria Rossetti. Ela não apenas administrou a saúde e o social, mas tornou-se uma figura histórica mundial por ser uma das primeiras mulheres autorizadas pelo Vaticano a realizar batismos e casamentos devido à escassez de padres.

O papel do Centro Social na comunidade

A presidência do Centro não cuidava apenas da burocracia, mas de um complexo que incluía:

    Comunicação: A manutenção do jornal "O Papagaio", que circulava periodicamente.

    Saúde: A gestão da Maternidade de Taipu e do posto médico que atendia as localidades rurais aos sábados.

    Educação e Cultura: O Jardim de Infância e o clube juvenil de trabalhos manuais.

    Fase Civil (Anos 40-50): Liderada por jovens da elite local (o presidente "moço e culto").

    Fase das Irmãs (Pós-1964): A gestão da Irmã Natalina, que colocou Taipu no radar do Vaticano e expandiu o Centro Social para o modelo que muitos ainda lembram hoje.

 



[1] O Poti,12/12/1956,p.4.

[2] Jornal do Comércio (RJ),25/05/1958,p.4.

sexta-feira, 27 de março de 2026

O COLOSSO DO MATO GRANDE: A PONTE DO UMARI EM TAIPU


 

        No coração da região do Mato Grande, ergueu-se uma obra que transcende sua função prática e se transformou em símbolo de identidade, memória e desenvolvimento: a Ponte do Umari, em Taipu, construida no km 60 da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte-EFCRGN.

        A obra em apreço merece o epiteto de “Colosso do Mato Grande”, pois além de ser uma grandiosa estrutura de engenharia ferroviária,  essa estrutura não apenas conectava margens, mas também histórias, pessoas e gerações.É  uma das mais impressionantes obras de engenharia da história regional.  essa estrutura se consolidou como símbolo do avanço ferroviário e do processo de integração territorial no interior potiguar.

        Foi a maior obra de engenharia ferroviária da EFCRGN até 1916 quando foi inaugurada na mesma ferrovia a ponte de Igapó em Natal.

Uma obra de integração regional

    A Ponte do Umari desempenhou um papel fundamental na mobilidade local, facilitando o deslocamento entre comunidades rurais e a sede do município de Taipu, além de conectar o municipio entre as localidades da região do Mato Grande e do sertão potiguar.

    Por meio dela a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte-EFCRG estendeu seus trilhos e levou o progresso a região em tela.

Com a construção da ponte, houve uma transformação significativa na dinâmica da região. O escoamento da produção agrícola tornou-se mais eficiente, o acesso a serviços essenciais, como saúde e educação, foi ampliado, e a integração entre localidades ganhou um novo ritmo.

 Engenharia e imponência

         A grandiosidade da Ponte do Umari justifica o apelido de “colosso”. Sua estrutura robusta, pensada para resistir às variações do regime hídrico do rio, evidencia a importância estratégica da obra.

    Construida com 5 vãos de 50 metros cada, totalizando 250 metros de extensão em estrutura de ferro e pilares de concreto na altura de 8 metros entre o leito do rio e o assoalho da ponte, tendo sido inaugurada em 10/09/1910.

    Mais do que concreto e aço, a ponte representava um marco de engenharia adaptado às necessidades do território e às condições naturais da região.

     Sua presença na paisagem também chama atenção: imponente, ela se destaca como um elemento visual forte, monumental, que reforça o sentimento de pertencimento da população local.




Ponte do Umari, 1913.Acervo do IHGRN.Colorizada digitalemente.

        A Ponte do Umari destaca-se por sua estrutura metálica robusta, característica das grandes obras ferroviárias do período. Projetada com base em técnicas de engenharia importadas e adaptadas às condições locais, a ponte evidencia o nível de sofisticação alcançado na época.

         Sua extensão e altura, aliadas ao cenário natural do vale, conferem à obra um aspecto monumental — justificando plenamente o apelido de “colosso”. Mais do que uma simples travessia, trata-se de um marco visual e técnico que impressiona até os dias atuais.

 A expansão ferroviária e o contexto histórico

     No início do século XX, o Rio Grande do Norte vivia um período de transformações impulsionadas pela expansão das ferrovias. A EFCRGN tinha como objetivo ligar o litoral ao interior, facilitando o transporte de mercadorias, especialmente produtos agrícolas, e promovendo o desenvolvimento econômico da região.

         Foi nesse contexto que surgiu a necessidade de transpor o rio Ceará-Miria, na altura da localdiade de Umari em Taipu, um obstáculo natural que dificultava a continuidade da linha férrea.A solução veio com a construção de uma ponte de grandes proporções, capaz de suportar o peso das locomotivas e garantir a segurança da operação ferroviária.

 Importância econômica e social

        Durante décadas, a ponte desempenhou papel fundamental no funcionamento da malha ferroviária potiguar. Por ela passaram cargas, passageiros, histórias e expectativas de progresso. A ferrovia encurtou distâncias, integrou comunidades e dinamizou a economia do Mato Grande.A Ponte do Umari, nesse sentido, foi peça-chave para o escoamento da produção e para a circulação de pessoas, contribuindo diretamente para o desenvolvimento de Taipu e de toda a região.

 Memória e patrimônio

     Com o declínio do transporte ferroviário ao longo do século XX, muitas estruturas foram abandonadas ou perderam sua função original. Ainda assim, a Ponte do Umari permanece como testemunho material de um período marcante da história.]

    Hoje, ela é reconhecida como um patrimônio histórico e afetivo, despertando o interesse de pesquisadores, historiadores e moradores locais. Sua preservação é fundamental para manter viva a memória da ferrovia no Rio Grande do Norte.

    O “Colosso do Mato Grande” não é apenas uma obra de engenharia: é um símbolo de uma época em que os trilhos representavam progresso, conexão e transformação. Construída pela EFCRGN entre 1907 e 1910, a Ponte Ferroviária do Umari segue imponente, lembrando a todos da importância histórica da ferrovia para o desenvolvimento do interior potiguar.

    Valorizar essa estrutura é reconhecer o papel das infraestruturas históricas na construção da identidade regional e na preservação da memória coletiva.

Memória, patrimônio e identidade regional

        Para além de sua função logística, a ponte carrega um profundo valor simbólico. Ela é testemunha das transformações sociais e econômicas do Mato Grande, acompanhando o crescimento de Taipu e o fortalecimento das relações entre suas comunidades.A  ponte surgiu como símbolo de superação e progresso.

        A Ponte do Umari já pode ser considerada um patrimônio afetivo da população de Taipu. Sua relevância ultrapassa o aspecto funcional, consolidando-se como um elemento de identidade regional. Ela representa a capacidade de transformação de uma obra pública quando alinhada às reais necessidades da população.

        Preservar sua história, seja por meio de registros fotográficos, relatos orais ou iniciativas de valorização cultural, é também preservar a memória do Mato Grande e de seu povo.

        O “Colosso do Mato Grande” não é apenas uma ponte. É um marco de desenvolvimento, um elo entre passado e presente, e um símbolo da força de uma região que constrói, dia após dia, sua própria história.

        Valorizar a Ponte do Umari é reconhecer a importância das infraestruturas que moldam o território e impactam diretamente a vida das pessoas. Em Taipu, ela não apenas ligou margens,  ela conectou vidas.

SOBRE A INAUGURAÇÃO DO PRÉDIO DA PREFEITURA DE GOIANINHA

 

    De acordo com o jornal A Ordem o prefeito Jeronimo Cabral, já havia reassumido em 27/11/1944 as funções de Chefe do executivo municipal, estando empenhado em prosseguir na sua dinâmica administração em benefício de sua terra, que já lhe deve incontaveis melhoramentos, pretendendo inaugurar no mês de dezembro, o novo prédio que estava construindo para a sede da Prefeitura Municipal.

    Conforme telegrama  enviado ao jornal A Ordem em 13/01/1945, foi adiada, sine-die, a solenidade da inauguração do novo edifício da prefeitura local, construído sob a administração do sr. Jeronimo Cabral.

     O  tom de expectativa para a inauguração em dezembro de 1944,  teve qu eser contido em razão do evento precisar ser adiado sine-die.

    O ato que estava marcado para o  dia 20/01/1945, ficou, assim, transferido para outra oportunidade, devido a um desarranjo no motor da usina elétrica.

     O jornal A Ordem reforçava a imagem do prefeito Jerônimo Cabral como um administrador "dinâmico", destacando a construção da sede própria como um dos "incontáveis melhoramentos" de sua gestão em Goianinha.

De acordo com o jornal A Ordem a cidade de Goianinha esteve em festas, no dia 03/02/1945, por ocasião da inauguração do magnifico prédio da Prefeitura Municipal, construído pelo sr. Jeronimo Cabral, operoso prefeito do município.[1]

Ainda segundo o referido jornal o edifício que era bastante espaçoso para a sua finalidade, possuindo ainda uma ala para o Fórum" da Comarca.

Ao ato da inauguração estiveram presentes o professor Francisco Coutinho, diretor do Departamento das Municipalidades, o representante do Interventor Federal, prefeitos dos municípios vizinhos, pessoas de representação da cidade e de Goianinha.

Inicialmente usou da palavra o dr. Lauro Pinto, juiz de direito da Comarca, que terminou pedindo que fosse o edifício inaugurado pelo representante do Interventor após o que, no salão de honra, foi feita a aposição do retrato do general Antonio Fernandes Dantas, chefe do executivo norteriograndense.

Discursou por essa ocasião o acadêmico Nelson Negreiros, promotor público, em agradecimento pela criação da Comarca de Goianinha.

Em seguida realizou-se na residência do prefeito Jeronimo Cabral um lauto almoço, oferecido a todos os convidados. Saudando o prefeito falou o dr. Lauro Pinto, o qual agradeceu ao dr. Nestor dos Santos Lima que levantou o brinde de honra ao Interventor Federal.


Antigo prédio da prefeitura de Goianinha


Sobre o prédio

Analisar a arquitetura da antiga sede da Prefeitura de Municipal de Goianinha, é observar um exemplar clássico da transição entre o estilo colonial e a modernidade nas cidades do interior do Nordeste brasileiro

O prédio apresenta características marcantes do Estilo Eclético com forte influência do Art Déco, que foi muito comum em obras públicas no Brasil entre as décadas de 1930 e 1950.

Principais Elementos Arquitetônicos

A fachada é rigorosamente simétrica, o que transmite uma sensação de ordem, autoridade e equilíbrio — valores desejados para um edifício de administração pública. O corpo central é ligeiramente mais elevado, destacando a entrada principal.

Podemos notar traços do Art Déco em detalhes específicos:

A ausência de ornamentos rebuscados (como os do Barroco) e a preferência por molduras retas acima das janelas e portas.

O uso da platibanda (esse "muro" que esconde o telhado) decorada com frisos horizontais e detalhes em relevo que reforçam a horizontalidade do prédio.

O topo do prédio possui um leve escalonamento central onde se lê "Prefeitura Municipal".

As janelas são amplas e retangulares, pensadas para garantir a ventilação cruzada e a iluminação natural, essenciais para o conforto térmico no clima tropical do Rio Grande do Norte antes da era do ar-condicionado.

É perceptível que o prédio possui um pé-direito alto, o que confere imponência e ajuda a manter o ambiente interno mais fresco, já que o ar quente tende a subir.

Esse tipo de construção simboliza um período de urbanização das cidades potiguares, onde as antigas casas coloniais davam lugar a prédios com "cara de progresso". O uso de tons pastéis (como o bege e o branco vistos na foto) era o padrão para destacar os relevos arquitetônicos sob a luz do sol.

O prédio é um patrimônio que guarda a memória administrativa e política de Goianinha, servindo como um marco visual no centro da cidade.

Atualmente o prédio abriga a secretaria de saúde do município.


[1] A Ordem, 05/02/1945,p.1.

quarta-feira, 25 de março de 2026

PROJETO DO EDIFICIO DA DIRETORIA REGIONAL DO DEPARTAMENTO DOS CORREIOS E TELEGRÁFOS DE NATAL

 


Os autores do projeto

         O projeto arquitetônico para o novo prédio regional dos correios e telegáfos de Natal foi apresentado em 1933, sendo o mesmo de autoria de Mário Fertin e Paulo Candiola.

Mario Fertin

Diplomado pela Escola Nacional de Belas Artes em 1917 com grande medalha de prata. Classificado em 2º e 1º lugar respectivamente no concurso de projetos para as portas norte e sul da Exposição do Centenário; e recompensado com medalha de Premiando no Salão de Bellas Artes com Menção Honrosa.

Obteve 1º logar no  concurso do “Lar Brasileiro” de projetos para residências. Destacou-se pela operosidade e pela competência profissional, tão sobejas vezes confirmada.[1]

Paulo Candiota

Diplomado pela Escola Nacional de Belas Artes em 1926 com pequena medalha de ouro. Premiado com Menção Honrosa no 3º Congresso Pan-Americano de Arquitetos e grande Medalha de Ouro no IV Congresso.

Premiado no Salão de Belas Artes com os seguintes prêmios: Prêmio Minerva, Menção Honrosa do 2º e 1º grau e Medalha de Bronze. Sócio correspondente da sociedade de arquitetos de Buenos Aires, Montevideo e Cuba, e membro do Conselho Deliberativo do Instituto Central de Arquiitetos do Rio de Janeiro.[2]

O projeto

O edificio projetado destinava-se á instalação da Diretoria Regional dos Correios e Telegráfoos do Rio Grande do Norte em Natal.

O terreno destinado a receber a construção era de forma retangular e ficava situado em uma esquina formada por uma ampla avenida e uma rua de menos importância, que ia em direção perpendicular ao cais do rio Potengi e por onde aquela época circulava uma linha de estrada de ferro medindo por aquela 34,25 e por esta 31,15.

Para que ficasse a construção mais ou menos dentro dos limites da verba de 400:000000, reservada para tal fim, a Diretoria do Material do Departamento dos Correios e Telégrafos, estabeleceu previamente que fosse fixado em 35.0000 por metro quadrado de pavimento o custo provavel da construção.

Foi o edificio projetado mais ou menos dentro destes limites, somando as áreas dos dois pavimentos 627m², exceto a garagem que mediria 41m² e cuja base de preço por metro quadrado era menor.

Quanto ao partido aquiitetônico de fachada a adotar, por si só a situação do terreno, indicava, pela grande diferença de importância entre as artérias nas quais ele ficaria situado.

O partido aquiitetônico de ângulo, isto é aquele no qual esta parte do edificio dominasse, fazendo-se por ai o acesso principal ao mesmo, não seria plausivel, em vista de ficar esta parte em posição oposta á direção da parte central da cidade.

Por  isso foi escolhido como partido mais lógico o do completo domínio da fachada da Avenida, em cujo eixo foi localizada a entrada principal.

O projeto do edifício foi estudado de forma a oferecer, não só ao público como aos funcionários que nele trabalhariam, o máximo de conforto e comodidade como ainda completa independência da parte procurada pelo público daquela destinada aos funcionários ou de serviço.

Para o público foi colocado na frente o grande “hall” com entrada direta para as Agencias, acesso fácil e imediato a todos os guichês, sem ter entretanto contato direto com a circulação dos funcionários, o que em regra geraria perturbação bastante do serviço.

A parte de serviço estava dividida em quatro grupos, compreendendo a Diretoria Geral, Serviço Postal, Serviço Telegráfico e Seção de Valores ou Tesouraria.

A Direção Geral, formada pelo gabinete do Diretor Regional e seus auxiliares, sala de espera, expediente e seção econômica, e ainda a Biblioteca e a Contadoria Regional, estaria localizada no 2º pavimento, na parte da fachada principal, com acesso pela escada principal á direita de quem entraria ao edificio.

O serviço postal estava todo ele localizado na ala esquerda do 1º pavimento, com ligação direta para os guichês e dependências, das caixas de assinantes, "colis", registrados sem valor, posta-restante, aereo-expressa e coleta.

O serviço telegráfico, que compreendia seções completamente distintas, como sejam: expedição e recepção de telegramas, sala de aparelhos e usina elétrica estava distribuido pelos dois pavimentos do edificio.

Os guichês de recepção e expedição estavam no 1º pavimento no "hall" do público e a seção de expedição e estafetas. A sala de aparelhos ocuparia a parte dos fundos da ala da frente do edificio, no 2º pavimento, com os respectivos gabinetes do chefe do tráfego telegráfico e chefe de linhas e instalações e com ligação por meio de tubos e elevador manual com o guichê de recepção e a sala de expedição do 1º pavimento.

 A usina elétrica ficaria na parte dos fundos do 2º pavimento e na ala direita estariam localizados o aquivo e sala de inspetores e guarda-fios, praticantes e rádio.

Na parte central do edificio, dando para a pátio interno, estariam localizados os aparelhos sanitários para ambos os sexos, varanda para café, e pequena oficina e arquivo do dia ligados á sala de aparelhos.

A Tesouraria ou seção de valores, estaria situada no 1º pavimento e por trás dos guichês de valores com seu arquivo e casa forte.

Haveria duas escadas de acesso ao 2º pavimento, sendo uma principal á direita de quem entrasse no edificio, com fácil acesso pelo "hall" público, tendo ao lado a portaria e informações, e outra de serviço nos fundos da ala direita, no "hall" de serviço, com entrada pela rua de menor importância.

Na mesma posição dos serviços sanitários do 2º pavimento achariam-se os do 1º. A circulação dos automóveis de serviço far-se-ia com toda a facilidade no pátio interno com entrada situada na avenida, sendo o material ou correspondência descarregados diretamente no almoxarifado que ficaria nos fundos do 1º pavimento ou na sala de conferência.

A circulação dos funcionários far-se-ia por meio de galerias que no 1º pavimento ligariam o "hall" de serviço com as demais dependências e no 2º pavimento ligam o "hall" ás duas escadas.

              Maquete do projeto do prédio dos correios de Natal



Fonte: revista da Diretoria de engenharia, nº 5, 1933, p.7.


Análise e descrições técnicas da volumetria da maquete

A análise da maquete do projeto da diretoria regional dos correios e telégrafos de Natal revela um projeto de Art Déco racionalista extremamente bem resolvido para o clima e as necessidades de Natal na época.

O texto justifica a escolha de não usar o "ângulo" (esquina) para o acesso principal, preferindo a orientação para o centro da cidade.

Na  maquete vemos claramente o corpo central avançado (o avant-corps), onde se localiza o "hall" do público. Os três grandes vãos de entrada na maquete correspondem exatamente ao ponto de maior importância da fachada principal.

A escada principal, mencionada como estando "á direita de quem entra", ficaria logo atrás dessa primeira linha de vãos.

Setorização Funcional (pavimentos)

Setor

Localização no Texto

Correspondência na Maquete

Público / Postal

1º Pavimento (Hall e Guichês)

O térreo com amplas aberturas para atendimento.

Administração

2º Pavimento (Diretoria e Biblioteca)

O andar superior, com janelas em fita que garantem luz natural.

Telegrafia

2º Pavimento (Fundos da ala da frente)

O bloco que se estende para trás, acima do pátio interno.

Serviço/Valores

1º Pavimento (Fundos/Casa Forte)

Área protegida, com menos aberturas externas visíveis.

Logística e comunicação interna

Pátio Interno: a maquete mostra um recuo central em "U". O texto confirma que este é o pátio interno, essencial para a entrada de automóveis da avenida e para a ventilação das galerias de circulação dos funcionários.

Ala Direita: o texto cita que na "ala direita" estão o arquivo, sala de rádio e guardas-fios. Na maquete, esse é o volume lateral que possui uma entrada de serviço independente pela "rua de menor importancia".

Verticalidade: as torres estilizadas que vemos na restauração da maquete não são apenas decorativas; elas geralmente abrigavam as caixas d'água ou os sistemas de comunicação por tubos e o elevador manual mencionados.

Este edifício é um exemplo primoroso de como a arquitetura institucional de Natal estava alinhada com a modernidade técnica da época (usina elétrica própria, elevadores, tubos de sucção).

Essa imagem apresenta uma arquitetura fascinante, que é um exemplo clássico do Modernismo com forte influência do Art Déco e do Racionalismo.

Análise detalhada dos elementos principais:

O edifício exibe uma estética Art Déco tardia (frequentemente chamada de Streamline Moderne ou Protomodernismo).

O elemento central e as torres laterais possuem um desenho escalonado ("zigurate"), que confere uma sensação de imponência e direção vertical, equilibrando a horizontalidade do restante do prédio.

A composição é quase perfeitamente simétrica, o que transmite ordem, autoridade e estabilidade — características comuns em prédios institucionais ou públicos da primeira metade do século XX.

As molduras que se estendem acima das janelas (platibandas e marquises finas) enfatizam a horizontalidade e criam sombras lineares que dão profundidade à fachada.

A repetição de janelas quadradas com caixilharia quadriculada cria um ritmo constante e funcionalista, típico do racionalismo arquitetônico, onde a forma segue a função.

A ausência de ornamentos orgânicos ou rebuscados foca a atenção na pureza do volume e na cor clara da alvenaria, que contrasta dramaticamente com o verde denso da colina ao fundo.

Integração com o entorno

O uso de tons off-white ou creme faz com que a estrutura "salte" visualmente contra a vegetação escura.

Essa arquitetura lembra muito as obras do período do Estado Novo em no Brasil, onde o estilo era usado para transmitir modernidade e progresso.

Esse edifício é um dos marcos mais emblemáticos da arquitetura Art Déco em Natal, no Rio Grande do Norte.

O Edifício Sede dos Correios e Telégrafos, localizado na Ribeira (na esquina da Avenida Hildebrando de Góis com a rua Olavo Bilac), é uma peça fundamental para entender a modernização urbana da cidade na década de 1930.

Inaugurado em 1936, o prédio foi projetado num período em que Natal passava por uma transição do estilo eclético para o modernista. O uso do Art Déco para os Correios não era apenas estético, mas político: simbolizava a eficiência, a velocidade da comunicação e o progresso do Estado.

Muitos historiadores da arquitetura no Nordeste referem-se a esta variante como um "Déco simplificado" ou robusto. Note-se como a torre central escalonada funciona como um farol ou um relógio urbano, marcando a importância institucional do edifício.

As frisas verticais e os volumes que avançam e recuam criam um jogo de luz e sombra muito forte sob o sol do Nordeste.

O contexto da Ribeira

A escolha da localização na Ribeira foi estratégica, pois o bairro era o centro económico e portuário de Natal. O edifício dos Correios, junto com outros prédios da época, ajudou a consolidar a imagem "moderna" que a elite da cidade desejava projetar para o exterior, especialmente dada a proximidade com o porto e a futura base aérea durante a Segunda Guerra Mundial.

Desde o inicio das linhas aéreas regulares, costeiras, continentais, e transoceânicas, a cidade de Natal, tornou-se um dos centros postais mais importantes, o mais movimentado do país.

Era onde se distribuia a correspondência para o norte e para o sul do Brasil e do continente. E por isto, a renda da Diretoria de Correios e Telégrafos natalense era maior do que a de muitas outras de categoria superior, o que reforça o papel estratégico de Natal como o "Trampolim da Vitória" e centro de conexões aéreas globais na primeira metade do século XX.

Preservação e Memória

Este edifício é uma das joias do património arquitetônico potiguar. A sua volumetria limpa e a ausência de ornamentos rebuscados (substituídos por formas aerodinâmicas) fazem dele um dos exemplos mais puros do estilo no Rio Grande do Norte.

Projeto modificado?

         Ao analisar as imagens da maquete original do projeto de 1933, a do jornal A Ordem de 1936 e a do prédio atualmente percebe-se que se trata de  realidades opostas.      A foto do jornal a Ordem demonstra que o projeto foi executado conforme a maquete, porém, ao ver o prédio atualmente vê-se que a arquitetura do mesmo foi modifica.

              Reconstituição digital da maquete do novo prédio dos correios de Natal







                                Prédio dos correios e telégrafos de Natal

                         Fonte: A Ordem, 05/11/1936, p.1.


                               Prédio dos correios de Natal 

Fonte: Google maps, 2026.


                                           Mário Fertin


                                            
                                           Paulo  Candiota




[1] Vida Domestica, junho,1933, p.17.

[2] Op.Cit.