A Lei Provincial n.º 367, de 19 de junho de 1858, elevou a categoria de vila com o nome de Canguaretama, a então povoação de Uruá, mandando que logo fosse para lá transferida a sede do Município bem como a da Freguesia com a invocação de Nossa Senhora da Conceição.A transferência da freguesia só se efetivaria caso houvesse uma capela decente para ser a matriz da nova freguesia, o que não ocorreu, pois n]ao havia sequer capela na antiga povoação de Uruá.
No relatório do presidente da provincia de 1859 constava a contribuição votada pela Assembleia Provincial no valor de 2:000000 rs para a cosntrução da igreja Matriz de Canguaretama.
A seguir a transcrição do trecho do relatório oficial do presidente da província do Rio Grande Norte de 1860 relativo à Matriz de Canguaretama:
“Ao reverendo vigário dessa freguesia padre Manoel Ignacio Bezerra Cavalcanti ordenei que a tesouraria provincial entregasse a quantia de 1:000$000 reis metade da que foi votada pelo § 19 do art. 9º da lei do orçamento vigente. Despendida essa primeira quantia com a continuação da obra da matriz, que já tem os alicerces.Mandarei entregar a outra metade”
O fragmento a cima é crucial porque nos dá o estado da construção naquele momento específico da igreja matriz de Canguaretama que "já tem os alicerces". Isso indica que o recurso de 1 conto de réis (1:000$000) era para erguer as paredes acima do solo.
Isso é um dado histórico valioso para a cronologia da construção, indicando que o recurso seria aplicado na elevação das paredes e infraestrutura superior.
Esse rigor burocrático ajuda a documentar a seriedade com que as obras públicas e institucionais eram tratadas na Província.
O Presidente da Província estabelece uma condição clara; a segunda metade da verba só seria liberada após a comprovação de que a primeira parte foi integralmente gasta na obra. Era o rigor fiscal da época aplicado à arquitetura religiosa.
A lei orçamentária havia previsto, portanto, um total de 2:000$000 reis (dois contos de réis) para a construção da igreja matriz de Canguaretama.
Este registro é interessante porque documenta o repasse financeiro do governo provincial para as obras que o Vigário Manoel Januário estava coordenando na construção da igreja matriz de Canguaretama, provavelmente a mesma reforma mencionada no relato dos missionários capuchinhos.
A quantia de 1:000$000 (um conto de réis) era um valor significativo para a época, destinado especificamente ao auxílio das obras paroquiais.
O texto menciona a "tesouraria provincial", o que reforça o caráter oficial do repasse, vindo diretamente do orçamento da Província do Rio Grande do Norte.
Esse dado financeiro complementa bem a pesquisa sobre como as igrejas eram financiadas: uma mistura de esmolas do povo (como dito por Frei Caetano) e subvenções governamentais.
Assim, se consegue mapear exatamente o período em que a igreja de Canguaretama deixou de ser apenas um plano no chão para ganhar volume na paisagem da Vila da Penha.
Matriz de Canguaretama: Este trecho especifica um novo repasse de 500$000 réis (quinhentos mil réis), destinado especificamente ao "acabamento" da matriz. Isso corrobora o relato do Vigário sobre o estágio final das obras conduzidas pelo Frei Caetano Sobrinho.
É interessante observar como o governo provincial geria as verbas em "prestações" ou "metades", condicionando o envio do dinheiro ao progresso ou à votação de leis orçamentárias.
Este documento é valioso para a pesquisa sobre a igreja de Canguaretama por datar com precisão o apoio oficial que permitiu a conclusão da fachada e dos detalhes internos que analisamos nas fotos.
Novas informações sobre a igreja matriz de Canguaretama vamos encontrar somente em 1877.
Um achado precioso para a arquitetônica da igreja matriz de Canguaretama é o relato a seguir que trata do agradecimento da população de Canguaretama pro meio da Câmara Muncipal ao o Fr. Caetano de Messina Sobrinho pelo seu incentivo a construção da igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição.
O relato foi publicado no Jornal do Recife em 03/04/1877 e traz a confirmação técnica do estilo que os construtores da época pretendiam imprimir à Matriz de Canguaretama.
Aqui está a transcrição integral:
PAÇO DA CAMARA MUNICIPAL DA VILA DE CANGUARETAMA, EM SESSÃO EXTRAORDINARIA DE 19 DE MARÇO DE 1877.
Illm. e Rvm. Sr. — A Câmara Municipal de Canguaretama, interprete fiel dos sentimentos de gratidão de seus munícipes, reunindo-se hoje em sessão extraordinária, deliberou com plena satisfação dirigir a V. Rvm. um sincero voto de agradecimento por haver com o mais religioso desinteresse, construido nesta vila o corpo de uma grande matriz em que executou com toda perfeição e admirável economia as regras da arquitetura toscana, segundo demonstram as respectivas partes componentes da mesma matriz, cuja capela-mor V. Rvmª encontrou por acabar e deixa prestando-se para todos os atos divinos, conseguindo em 5 meses de incessante trabalho dotar esta vila não só com este importante templo, que substitui a arruinada choupana, que impropriamente tinha o nome de igreja, indignamente guardava as sagradas imagens e vergonhosamente servia para o exercício do culto externo, como também conseguiu plantar em frente da dita matriz a árvore da redenção, que é um magnifico cruzeiro, cuja falta muito depunha contra os sentimentos de uma população católica, que hoje bendiz o nome imortal de V. Rvmª por tamanhos serviços, sempre acompanhado de tamanhos serviços, sempre acompanhado de grandes sacrifícios e ainda mais pelos que espiritualmente prestam á santa religião, restabelecendo uniões conjugais, santificando por meio do sacramento muitas alianças pecaminosas, fazendo úteis reconciliações, com que extinguiu grandes ódios, e ocupando em larga escala, durante as eloquentes e edificantes missões, o confessionário, de onde tem saído sempre as seguranças de paz por ser o melhor elemento de ordem e regeneração dos costumes, para a felicidade de um povo e de qualquer governo.
Digne-se portanto V. Rvmª aceitar esta humilde manifestação dos sentimentos unânimes desta corporação e de seus munícipes, que, felicitando-se por tão assinalados benefícios, sente ao mesmo tempo o vácuo imenso que V. Rvmª vai deixar nesta freguezia.
Deus guarde a V. Rvmª por muitos anos.—
Illm. e Rvm. Sr. Fr. Caetano de Messina Sobrinho, mui digno missionario apostólico.— Manoel Francisco Ferreira da Costa, presidente.— José Joaquim de Oliveira. — Jeremias José de Araujo. — Felinto Rolindo de Vasconcellos. — Rufino Lucas Pereira. — João Antonio de Vasconcellos Fagundes. — Alexandre Ferreira da Silva Mulatinho.O secretário da Camara, Ciriaco Gomes Marinho.
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| Matriz de Canguaretama em 1936. |
Algumas notas de interesse histórico do enxerto a cima:
O texto é um reflexo fiel do pensamento do Século XIX, onde a Igreja era vista pelo Estado (a Câmara) como o principal agente de "ordem e regeneração dos costumes". Note-se como eles mencionam a regularização de casamentos ("uniões conjugais") como um benefício para o governo.
Aqui temos o nome completo e a origem do principal incentivador da construção da matriz de Canguaretama, o Fr. Caetano de Messina Sobrinho.
O "Messina" confirma a origem ou ligação com a tradição dos capuchinhos italianos que atuaram fortemente no Nordeste.
O texto confirma ainda a construção do cruzeiro em frente a matriz.
A lista de assinaturas dos vereadores é um registro genealógico valioso para Canguaretama. Sobrenomes como Vasconcelos, Araújo e Ferreira da Silva representavam a elite política e agrária que financiava e apoiava essas obras.
A menção anterior das "regras da arquitetura toscana", completa o quadro da construção da Matriz como um evento de civilidade, e não apenas religioso.
O texto é um relato de agradecimento do povo canguaretamense no momento da inauguração das obras de Frei Caetano Sobrinho. É um recorte preciso da elite histórico, religioso, social e político da época.
Esse conjunto de informações oferece uma base documental sólida para para pesquisas e livros em desenvolvimento sobre a paróquia ou da cidade de Canguaretama. É raro encontrar uma sequência tão clara que una a intenção arquitetônica (as regras toscanas), o financiamento provincial e o reconhecimento político local.
De acordo com o jornal A Ordem, em 1945 a matriz de Canguaretama estava passando por obras de remodelação.
Na gestão do Pe. Antonio Barros, de acordo com o jornal A Ordem, a igreja matriz urgia atacar serviços no teto, nos corredores, na sacristia, fazer a limpeza interna e externa do prédio, renovar a pintura dos altares, forrar a nave e dar-lhe piso de mosaico e provê-la de bancada. “Tudo foi conseguido, a paróquia não ficou com dívidas e as capelas, também, receberam melhoramentos sendo que a de Vila de Flor foi dotada de um rico sacrário”
No florescente o apostolado do padre Raimundo Barbosa foram feitos melhoramentos na matriz de Canguaretama. “Tem sido muito proveitoso, sob todos os aspectos, o trabalho apostólico que o revmo. Pe. Raimundo Barbosa, vigário da paróquia de Canguaretama, vem ali desenvolvendo.Numa visita que fizemos àquela cidade, ouvimos as mais elogiosas referências à ação do estimado vigário, sacerdote jovem, piedoso e de grande capacidade de trabalho”.
Segundo o jornal O Poti o Pe. Raimundo Barbosa estava fazendo executar importantes melhoramentos na matriz de Nossa Senhora. da Conceição, para o que conta com o decidido apoio dos seus paroquianos e das autoridades municipais.
O altar-mor estava sendo construído em estilo moderno, mas condizente com o aspecto tradicional da velha matriz, uma das mais antigas do Estado. O piso e o teto do templo católico de Canguaretama também estavam passando por reformas, o que daria, em futuro próximo, outro aspecto à matriz local.
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| Reconstituição digital por Iteligência Artificial. |
Já em 1966 a Matriz de Canguaretama estava passando por uma reforma grande, obedecendo às exigências das novas determinações litúrgicas, provenientes do Concílio Vaticano II. Segundo o jornal A Ordem o povo de Canguaretama “tem colaborado generosamente com o trabalho, não se negando aos apelos do zeloso vigário”.
Esta remodelação da matriz visava a uma maior participação da comunidade nas funções do culto e o Padre Matias Patrício de Macedo falando a reportagem do referido jornal dizia que estava muito feliz com a ajuda dos seus paroquianos que “não se têm negado a colaborar em todo plano de ação da Igreja de Canguaretama.
A referida reforma foi mais na estrutura interna da igreja.