quarta-feira, 6 de maio de 2026

SOBRE A MEMÓRIA DE K-XIMBINHO

 

Reconstituição digital de Inteligência Artificial

                                                   O Cruzeiro, ed.48, 1955, p.60.


    Uma jam session consiste no seguinte: reúnem-se alguns músicos de jazz em local combinado e, estabelecido um tema, improvisam seus solos, dentro, naturalmente, das características básicas do gênero.

     A  organização do 1º Grande Concerto Brasileiro de Jazz, realizado no Golden Room do Copacabana, teve o sabor genuíno de jam session. (O CRUZEIRO, 23-7).

      O evento realizado no Copacabana Palace teve a participação de K-Ximbinho.

 

                                            A Cena Muda, ed 21,1947, p.30.

 


Reconstituição digital de Inteligência Artificial.

    Segundo  a legenda da revista Cena Muda:

    “SEBASTIÃO DE BARROS, o popularíssimo "K-Ximbinho", clarinetista de primeira linha, compositor e autor do choro SONOROSO, um dos grandes sucessos da música popular brasileira”.(A CENA MUDA, 27/05/1947, p.30).

    A transcrição desse pequeno trecho da revista A Cena Muda, de 1947, oferece um recorte valioso sobre a carreira de K-Ximbinho (Sebastião de Barros) e a valorização da música instrumental brasileira na época.

 Reconhecimento de excelência

    Clarinetista de primeira linha. O texto estabelece imediatamente o alto nível técnico do músico. Naquela década, a clarineta e o saxofone eram instrumentos centrais tanto no choro quanto nas grandes orquestras de rádio, e o destaque dado a ele reforça sua posição como um dos virtuosos do período.

    "Popularíssimo": O uso do superlativo indica que K-Ximbinho não era apenas respeitado pelos pares, mas gozava de amplo reconhecimento do público geral, algo notável para um instrumentista.

O sucesso de "Sonoroso"

    A citação direta ao choro "Sonoroso" é fundamental. Esta composição é considerada uma das obras-primas do gênero, marcada por uma melodia sinuosa e sofisticada que exigia (e ainda exige) grande habilidade do solista.

    Ao classificar a música como "um dos grandes sucessos da música popular brasileira", o texto valida a importância do choro como um pilar da identidade musical nacional, mesmo em uma época em que o samba e o rádio dominavam as paradas.

 Identidade e nome artístico (Sebastião de Barros vs. K-Ximbinho)

      A transcrição liga o nome de batismo ao pseudônimo artístico, que se tornou sua marca registrada. O nome "K-Ximbinho" tem raízes na sua infância (derivado de "Ximba") e na sua atuação em grupos de jazz e orquestras, onde o uso de iniciais ou nomes estilizados era comum.

 Contexto histórico: revista "A Cena Muda"

    Publicado em 27 de maio de 1947, o texto pertence a uma das revistas de cinema e artes mais influentes do Brasil. A presença de um músico como K-Ximbinho nas páginas da revista mostra como a música instrumental estava integrada ao circuito cultural de prestígio, ao lado das estrelas de cinema e do rádio.

    O trecho é um testemunho da "Era de Ouro" da música brasileira, capturando o momento em que K-Ximbinho era celebrado tanto pela técnica impecável quanto pela sua contribuição composicional, imortalizada pelo choro "Sonoroso".

     A  transcrição do texto escrito à mão na parte superior esquerda da foto a baixo consta do seguinte:

    "Ao Sylvio Cardoso, uma lembrança de K-Ximbinho e sua Constellation Orquestra.Rio, Novembro de 1947."

        Já na legenda da foto na revista (Parte inferior central)

        "CONSTELLATION ORCHESTRA. Mais uma vitória de K-Ximbinho”.

      Esta imagem é um registro histórico de enorme valor para a música brasileira, capturando a Constellation Orquestra sob o comando de K-Ximbinho em novembro de 1947.

 

 


 

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.



                                             A Cena Muda, ed.48, 1949, p.29.

 

 O ambiente: estúdio de rádio ou gravação

A disposição dos músicos e os elementos técnicos indicam que a foto foi tirada em um estúdio profissional, possivelmente em uma grande rádio (como a Rádio Nacional) ou gravadora do Rio de Janeiro.

O grande microfone prateado pendurado em um braço mecânico (girafa) no centro da cena é típico das gravações da "Era de Ouro". Ele está posicionado estrategicamente para captar a mistura acústica de toda a orquestra.

As paredes ao fundo parecem ter tratamento acústico (painéis perfurados), reforçando a ideia de um ambiente controlado para alta qualidade sonora.

 

A Formação da Orquestra

A "Constellation Orquestra" reflete a influência das Big Bands americanas no Brasil, mas com o tempero do choro e do samba instrumental.

Seção de Sopros: vemos uma linha de frente robusta com saxofones (tenor e alto) e trompetes ao fundo. K-Ximbinho era um mestre em arranjar para esses instrumentos, fundindo a precisão do jazz com a malícia brasileira.

Seção rítmica e harmônica: à esquerda, vemos um piano de cauda e, logo atrás, um contrabaixo acústico. A postura dos músicos é de total concentração, típica de uma sessão de leitura de partitura.

O Maestro em ação: no canto direito, vemos um músico (provavelmente o regente ou um solista em destaque) com o braço erguido, marcando o tempo ou orientando uma entrada, o que dá dinamismo e vida à fotografia.

 

A dedicatória: um laço de amizade musical

O texto manuscrito "Ao Sylvio Cardoso, uma lembrança de K-Ximbinho..." é um detalhe crucial. Sylvio Túlio Cardoso foi um dos mais importantes críticos de música e divulgadores de jazz no Brasil. Essa dedicatória prova o respeito mútuo entre os músicos e a crítica especializada da época, mencionada inclusive no texto de Ary Vasconcelos que transcrevemos anteriormente.

 

 Estética e identidade

     Os músicos estão impecavelmente vestidos com camisas claras e gravatas, refletindo o profissionalismo e o prestígio social das grandes orquestras de rádio na década de 40.

    O nome "Constellation" evoca modernidade e progresso (remetendo aos famosos aviões Lockheed Constellation da época), sugerindo uma orquestra que mirava o futuro e o som internacional.

Significado histórico

    Esta foto registra o ápice da carreira de K-Ximbinho como líder de conjunto. Em 1947, ele estava consolidando sua transição de um instrumentista de regional de choro para um arranjador de mão cheia, capaz de conduzir formações complexas e modernas.

    A imagem não é apenas o retrato de um grupo musical; é o registro de um momento em que a música brasileira estava em diálogo direto com o jazz mundial, mantendo sua essência através de músicos geniais que dominavam tanto a técnica erudita quanto a popular.





                                                                      A Cigarra, ed.8, 1956, p.117.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

SOBRE A RÁDIO EDUCADORA DE NATAL

     A Radio Educadora de Natal foi a primeira emissora de rádio criada na capital potiguar criada em 21/01/1939 conforme indica o informativo de sua criação registrado no jornal A Ordem.

    De acordo com o referido jornal:

    “Natal, 21 de Janeiro de 1939.Ilmo. Sr.Tenho o prazer de comunicar a V. S. que nesta data foi criada nesta Capital, uma sociedade civil denominada Radio Educadora de Natal, tendo como objetivo principal o estabelecimento de uma Estação de Radio Difusora.Sua diretoria efetiva cujos nomes se encontram abaixo, é de antemão, uma garantia da vitória de seus desígnios.Certo de que V. S. lhe dispensará o concurso do seu apoio e simpatia, sirvo me da oportunidade para lhe apresentar as mais respeitosas saudações.Atenciosamente.Silvio de Souza — 1º Secretário.Conselho administrativo —Presidente, João Galvão Filho; Vice-Presidente, Dr. Januário Cicco; 1º Secretário, Dr. Silvio de Souza; 2º Secretário, Dr. José Gurgel; 1º Tesoureiro, José E. dos Santos; 2º Tesoureiro, Moisés Meireles; Orador, Dr. Paulo Viveiros; Procurador, Dr. Ivo Filho.Comissão fiscal —Davi Cunha, João Meireles, Adalberto Marques, José A. dos Santos, Severino A. Bila.Conselho técnico — Diretor de Radio, Carlos Lamas.

O Ante-projeto do edifício da Radio Educadora

    De acordo com o jornal A Ordem em 09/04/1939, às 16 horas, na Avenida Deodoro da Fonseca, com a presença do Interventor Rafael Fernandes foi lançada a pedra fundamental do edifício da Radio Educadora de Natal.

    “Trata-se de um empreendimento de larga envergadura, na qual cabe considerável parcela de representação estudantil e universitária, que têm dado auxílio monetário e apoio moral” registrou o referido jornal.

     Existia grande número de sócios proprietários que subscreveram ações no total de mais de 650:000$. A estação teria uma capacidade de 1 KW ou seja 1.000 Watts e modulação e levaria por isso um raio de ação que abrangeria a maior parte do território nacional.

    Os trabalhos de registro estavam a cargo do Dr. Alberto Bonoti, no Rio, que vinha empregando grande atividade neste sentido.

    O Governo do Estado havia doado um amplo terreno, onde seria localizada a futura estação da Rádio.

    O ato teve a presença do Interventor Federal, Secretário Geral, Diretores de Departamentos, autoridades religiosas e militares, representantes da imprensa, além dos Conselhos Administrativo e Técnico da Sociedade.

    Em nome da Radio Educadora falou o Dr. Paulo Viveiros, orador da mesma, que terminou pedindo ao interventor Rafael Fernandes para considerar lançada a pedra fundamental.

    O interventor proferiu, então, entusiastas palavras sobre a finalidade da novel sociedade, congratulando-se com os seus promotores pela oportunidade da iniciativa.Discursou também o Dr. Celso Ramalho.Foram batidas várias chapas fotográficas.

    O anteprojeto do edifício da Rádio Educadora de Natal, assinado pelo arquiteto Roberto de Miranda Ramos, é um exemplar fascinante da transição para a modernidade na arquitetura potiguar.

    Abaixo, apresentamos uma análise técnica e estética baseada nos elementos visuais das imagens restauradas por Inteligência Artificial: 

Estilo arquitetônico

    O projeto é fortemente influenciado pelo Art Déco, especificamente na vertente Streamline Moderne (ou Marajoara/Navio), que era tendência nas décadas de 1930 e 1940. Note-se as características marcantes: a horizontalidade é enfatizada pelas longas varandas e pelas platibandas (essas molduras que escondem o telhado), conferindo uma sensação de dinamismo e velocidade e os cantos arredondados.

Reconstituição digital por InteligÊncia Artificial.

    O volume frontal curvo é a assinatura desse estilo, remetendo à estética industrial e aerodinâmica da época.

 Composição volumétrica e funcionalidade

    O edifício se organiza em volumes escalonados, o que cria um jogo de sombras interessante e permite o uso de terraços em diferentes níveis.

    O "Farol" é o volume mais alto, centralizado no topo, assemelha-se a uma torre de controle ou cabine de comando. Em um edifício de rádio, isso simboliza a propagação das ondas e a vigilância técnica.

    Fenestração (Janelas). O uso de janelas em fita e grandes vãos envidraçados indica uma preocupação com a iluminação natural e a ventilação, essenciais para o clima de Natal.

Elementos de Linguagem Moderna

    Embora ainda preserve ornamentos sutis, o projeto já apontava para o Modernismo, como:

    Pilotis e espaços vazados.Há uma integração entre o térreo e a rua, sugerida pelo recuo e pelas colunas finas que sustentam o primeiro pavimento.

    Guarda-corpos metálicos.Os tubos horizontais nas varandas reforçam o aspecto náutico e a leveza da estrutura.

    Ausência de telhado aparente.O uso da laje plana é um rompimento com a arquitetura colonial e neoclássica anterior.

 Importância histórica e simbólica

    Projetar uma sede para uma rádio naquele período não era apenas um desafio de engenharia civil, mas de comunicação visual. O edifício precisava parecer "o futuro".

    O uso de uma tipografia geométrica e imponente no topo (como visto na restauração) reforça a identidade institucional.

    O arquiteto Roberto de Miranda Ramos conseguiu equilibrar a sobriedade necessária a um órgão educativo com a ousadia formal que o progresso tecnológico da rádio exigia.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.

    Em resumo, era  um projeto que respirava o otimismo da época. Ele transforma a função técnica de transmitir sinais de rádio em uma declaração arquitetônica de vanguarda, sendo um marco na paisagem urbana e na memória da arquitetura institucional de Rio Grande do Norte.


                                                                         A Ordem, 09/04/1939, p.4.

PS. Permitida a reprodução desde que citado o blog.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

SOBRE A ARQUITETURA DA IGREJA MATRIZ DE CANGUARETAMA

     A análise dessa fotografia de 1936 da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Canguaretama, revela aspectos fascinantes tanto da arquitetura religiosa quanto do contexto social da época.

    A seguir uma decomposição dos elementos principais da imagem:

 Arquitetura e fachada

    A igreja apresenta uma arquitetura típica das matrizes coloniais e do período de transição para o neoclássico no Nordeste.O frontão é elegante, com volutas laterais e um nicho central (onde geralmente se coloca a imagem da padroeira). O desenho sugere uma influência barroca tardia, mas com a sobriedade das linhas retas que ganharam força no século XIX.

     A fachada é rigorosamente simétrica, com uma porta central ladeada por duas janelas (ou portas menores) no pavimento térreo, e janelas correspondentes no nível do coro.

    Estado de Conservação em 1936.A imagem mostra a igreja com um aspecto "vivido". Nota-se que a pintura ou o reboco apresenta manchas de umidade e desgaste, o que era comum em paróquias que dependiam de doações locais para manutenção.

 O Cruzeiro e o Adro

    Um detalhe marcante é o Cruzeiro posicionado à direita (do observador) em primeiro plano:

    O cruzeiro em frente às igrejas servia como marco de fé e, muitas vezes, indicava que ali era um solo sagrado ou um antigo cemitério (comum até meados do século XIX).

    A base do cruzeiro parece ser de alvenaria trabalhada, o que demonstra a importância desse elemento no espaço urbano da cidade.

    O adro (o pátio em frente) aparece como um campo aberto, sem pavimentação sistemática, evidenciando o caráter rural ou de pequena vila que Canguaretama preservava na década de 30.



Reconstituição digital por Inteligência Artificial.



Elementos paisagísticos e entorno

    A presença de palmeiras imperiais ou coqueiros ao fundo reforça a identidade visual das cidades litorâneas e de clima tropical do Rio Grande do Norte.

    À direita, vemos uma casa ou anexo paroquial com platibanda decorada. Esse estilo era o padrão de "modernidade" nas primeiras décadas do século XX no Brasil, substituindo os telhados aparentes coloniais por fachadas mais retas e ornamentadas.

 Contexto histórico de 1936

    Em 1936, o Brasil vivia sob o governo de Getúlio Vargas (período constitucional antes do Estado Novo). Para uma cidade como Canguaretama a Igreja Matriz era o centro absoluto da vida social, política e religiosa.A fotografia capturada nesse ângulo, com o céu límpido e o campo aberto, transmite uma sensação de isolamento e solenidade, típica das fotografias documentais daquela década que buscavam registrar o patrimônio nacional.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.


Matriz de Canguaretama em 1936.


     Esta igreja é um marco importante, pois a paróquia de Canguaretama é uma das mais antigas da região, ligada historicamente aos episódios dos Mártires de Cunhaú (que ocorreram em uma capela próxima, mas cuja administração espiritual sempre gravitou em torno da matriz).

     A  igreja passou por diversas reformas e pinturas, mas a estrutura básica que se vê nessa foto de quase 90 anos atrás permanece como o esqueleto histórico da cidade.


SOBRE A IGREJA MATRIZ DE CANGUARETAMA

     A Lei Provincial n.º 367, de 19 de junho de 1858, elevou  a categoria de vila com o nome de Canguaretama, a então povoação de Uruá, mandando que logo fosse para lá transferida a sede do Município bem como a da Freguesia com a invocação de Nossa Senhora da Conceição.A transferência da freguesia só se efetivaria caso houvesse uma capela decente para ser a matriz da nova freguesia, o que não ocorreu, pois n]ao havia sequer capela na antiga povoação de Uruá.

    No relatório do presidente da provincia de 1859 constava a contribuição votada pela Assembleia Provincial no valor de 2:000000 rs para a cosntrução da igreja Matriz de Canguaretama.

    A seguir a  transcrição do trecho do relatório oficial  do presidente da província do Rio Grande Norte de 1860 relativo à Matriz de Canguaretama:

    “Ao reverendo vigário dessa freguesia padre Manoel Ignacio Bezerra Cavalcanti ordenei que a tesouraria provincial entregasse a quantia de 1:000$000 reis metade da que foi votada pelo § 19 do art. 9º da lei do orçamento vigente. Despendida essa primeira quantia com a continuação da obra da matriz, que já tem os alicerces.Mandarei entregar a outra metade”

    O fragmento a cima é crucial porque nos dá o estado da construção naquele momento específico da igreja matriz de Canguaretama que  "já tem os alicerces". Isso indica que o recurso de 1 conto de réis (1:000$000) era para erguer as paredes acima do solo.

    Isso é um dado histórico valioso para a cronologia da construção, indicando que o recurso seria aplicado na elevação das paredes e infraestrutura superior.

    Esse rigor burocrático ajuda a documentar a seriedade com que as obras públicas e institucionais eram tratadas na Província.

    O Presidente da Província estabelece uma condição clara; a segunda metade da verba só seria liberada após a comprovação de que a primeira parte foi integralmente gasta na obra. Era o rigor fiscal da época aplicado à arquitetura religiosa.

A lei orçamentária havia previsto, portanto, um total de 2:000$000 reis (dois contos de réis) para a construção da igreja matriz de Canguaretama.

Este registro é interessante porque documenta o repasse financeiro do governo provincial para as obras que o Vigário Manoel Januário  estava coordenando na construção da igreja matriz de Canguaretama, provavelmente a mesma reforma mencionada no relato dos missionários capuchinhos.

     A quantia de 1:000$000 (um conto de réis) era um valor significativo para a época, destinado especificamente ao auxílio das obras paroquiais.

     O texto menciona a "tesouraria provincial", o que reforça o caráter oficial do repasse, vindo diretamente do orçamento da Província do Rio Grande do Norte.

    Esse dado financeiro complementa bem a pesquisa sobre como as igrejas eram financiadas: uma mistura de esmolas do povo (como dito por Frei Caetano) e subvenções governamentais.

    Assim, se consegue mapear exatamente o período em que a igreja de Canguaretama deixou de ser apenas um plano no chão para ganhar volume na paisagem da Vila da Penha.

    Matriz de Canguaretama: Este trecho especifica um novo repasse de 500$000 réis (quinhentos mil réis), destinado especificamente ao "acabamento" da matriz. Isso corrobora o relato do Vigário sobre o estágio final das obras conduzidas pelo Frei Caetano Sobrinho.

    É interessante observar como o governo provincial geria as verbas em "prestações" ou "metades", condicionando o envio do dinheiro ao progresso ou à votação de leis orçamentárias.

    Este documento é valioso para a pesquisa sobre a igreja de Canguaretama por datar com precisão o apoio oficial que permitiu a conclusão da fachada e dos detalhes internos que analisamos nas fotos.

    Novas informações sobre a igreja matriz de Canguaretama vamos encontrar somente em 1877.

    Um  achado precioso para a arquitetônica da igreja matriz de Canguaretama é o relato a seguir que trata do agradecimento da população de Canguaretama pro meio da Câmara Muncipal ao o Fr. Caetano de Messina Sobrinho pelo seu incentivo a construção da igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição.

    O relato foi publicado no  Jornal do  Recife em 03/04/1877 e traz a confirmação técnica do estilo que os construtores da época pretendiam imprimir à Matriz de Canguaretama.

    Aqui está a transcrição integral:

    PAÇO DA CAMARA MUNICIPAL DA VILA DE CANGUARETAMA, EM SESSÃO EXTRAORDINARIA DE 19 DE MARÇO DE 1877.

    Illm. e Rvm. Sr. — A Câmara Municipal de Canguaretama, interprete fiel dos sentimentos de gratidão de seus munícipes, reunindo-se hoje em sessão extraordinária, deliberou com plena satisfação dirigir a V. Rvm. um sincero voto de agradecimento por haver com o mais religioso desinteresse, construido nesta vila o corpo de uma grande matriz em que executou com toda perfeição e admirável economia as regras da arquitetura toscana, segundo demonstram as respectivas partes componentes da mesma matriz, cuja capela-mor V. Rvmª encontrou por acabar e deixa prestando-se para todos os atos divinos, conseguindo em 5 meses de incessante trabalho dotar esta vila não só com este importante templo, que substitui a arruinada choupana, que impropriamente tinha o nome de igreja, indignamente guardava as sagradas imagens e vergonhosamente servia para o exercício do culto externo, como também conseguiu plantar em frente da dita matriz a árvore da redenção, que é um magnifico cruzeiro, cuja falta muito depunha contra os sentimentos de uma população católica, que hoje bendiz o nome imortal de V. Rvmª por tamanhos serviços, sempre acompanhado de   tamanhos serviços, sempre acompanhado de grandes sacrifícios e ainda mais pelos que espiritualmente prestam á santa religião, restabelecendo uniões conjugais, santificando por meio do sacramento muitas alianças pecaminosas, fazendo úteis reconciliações, com que extinguiu grandes ódios, e ocupando em larga escala, durante as eloquentes e edificantes missões, o confessionário, de onde tem saído sempre as seguranças de paz por ser o melhor elemento de ordem e regeneração dos costumes, para a felicidade de um povo e de qualquer governo.

    Digne-se portanto V. Rvmª aceitar esta humilde manifestação dos sentimentos unânimes desta corporação e de seus munícipes, que, felicitando-se por tão assinalados benefícios, sente ao mesmo tempo o vácuo imenso que V. Rvmª vai deixar nesta freguezia.

    Deus guarde a V. Rvmª por muitos anos.—

    Illm. e Rvm. Sr. Fr. Caetano de Messina Sobrinho, mui digno missionario apostólico.— Manoel Francisco Ferreira da Costa, presidente.— José Joaquim de Oliveira. — Jeremias José de Araujo. — Felinto Rolindo de Vasconcellos. — Rufino Lucas Pereira. — João Antonio de Vasconcellos Fagundes. — Alexandre Ferreira da Silva Mulatinho.O secretário da Camara, Ciriaco Gomes Marinho. 

Matriz de Canguaretama em 1936.

Algumas notas de interesse histórico do enxerto a cima:

     O texto é um reflexo fiel do pensamento do Século XIX, onde a Igreja era vista pelo Estado (a Câmara) como o principal agente de "ordem e regeneração dos costumes". Note-se como eles mencionam a regularização de casamentos ("uniões conjugais") como um benefício para o governo.

    Aqui temos o nome completo e a origem do principal incentivador da construção da matriz de Canguaretama, o Fr. Caetano de Messina Sobrinho.

    O "Messina" confirma a origem ou ligação com a tradição dos capuchinhos italianos que atuaram fortemente no Nordeste.

    O texto confirma ainda a construção do cruzeiro em frente a matriz.

    A lista de assinaturas dos vereadores é um registro genealógico valioso para Canguaretama. Sobrenomes como Vasconcelos, Araújo e Ferreira da Silva representavam a elite política e agrária que financiava e apoiava essas obras.

     A  menção anterior das "regras da arquitetura toscana", completa o quadro da construção da Matriz como um evento de civilidade, e não apenas religioso.

    O texto é um relato de agradecimento do povo canguaretamense no momento da inauguração das obras de Frei Caetano Sobrinho. É um recorte preciso da elite histórico, religioso, social e político da época.

    Esse conjunto de informações oferece uma base documental sólida para para pesquisas e livros em desenvolvimento sobre a paróquia ou da cidade de Canguaretama. É raro encontrar uma sequência tão clara que una a intenção arquitetônica (as regras toscanas), o financiamento provincial e o reconhecimento político local.

    De acordo com o jornal A Ordem, em 1945 a matriz de Canguaretama estava passando por obras de remodelação.

    Na gestão do Pe. Antonio Barros, de acordo com o jornal A Ordem, a igreja matriz urgia atacar serviços no teto, nos corredores, na sacristia, fazer a limpeza interna e externa do prédio, renovar a pintura dos altares, forrar a nave e dar-lhe piso de mosaico e provê-la de bancada. “Tudo foi conseguido, a paróquia não ficou com dívidas e as capelas, também, receberam melhoramentos sendo que a de Vila de Flor foi dotada de um rico sacrário”

    No florescente o apostolado do padre Raimundo Barbosa foram feitos melhoramentos na matriz de Canguaretama. “Tem sido muito proveitoso, sob todos os aspectos, o trabalho apostólico que o revmo. Pe. Raimundo Barbosa, vigário da paróquia de Canguaretama, vem ali desenvolvendo.Numa visita que fizemos àquela cidade, ouvimos as mais elogiosas referências à ação do estimado vigário, sacerdote jovem, piedoso e de grande capacidade de trabalho”.

    Segundo o jornal O Poti o Pe. Raimundo Barbosa estava  fazendo executar importantes melhoramentos na matriz de Nossa Senhora. da Conceição, para o que conta com o decidido apoio dos seus paroquianos e das autoridades municipais.

     O altar-mor estava sendo construído em estilo moderno, mas condizente com o aspecto tradicional da velha matriz, uma das mais antigas do Estado. O piso e o teto do templo católico de Canguaretama também estavam passando por reformas, o que daria, em futuro próximo, outro aspecto à matriz local.

    

Reconstituição digital por Iteligência Artificial.

    Já em 1966 a Matriz de Canguaretama estava passando por uma reforma grande, obedecendo às exigências das novas determinações litúrgicas, provenientes do Concílio Vaticano II. Segundo o jornal A Ordem o povo de Canguaretama “tem colaborado generosamente com o trabalho, não se negando aos apelos do zeloso vigário”.

    Esta remodelação da matriz visava a uma maior participação da comunidade nas funções do culto e o Padre Matias Patrício de Macedo falando a reportagem do referido jornal dizia que estava muito feliz com a ajuda dos seus paroquianos que “não se têm negado a colaborar em todo plano de ação da Igreja de Canguaretama.

    A referida reforma foi mais na estrutura interna da igreja.