Crônicas taipuenses
Taipu é uma terra pequena, onde, dos devaneios de nossos avós, amores dos nossos pais e sonhos enluarados da infância, fazem dela o relicário da nossa meninice, tão longe e tão perto do coração. Dir-se-ia que naquele rincão descansava a felicidade no meio da carência de tudo. Luís Viana, poeta taipuense.
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terça-feira, 3 de novembro de 2026
SOBRE A CRIAÇÃO DO CLUBE RECREATIVO ESTRELA DO NORTE DE TAIPU
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
SOBRE A FESTA DE NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO
Existem manifestações que ultrapassam os limites de uma celebração religiosa e se incorporam profundamente à história, à cultura e à identidade de uma comunidade.
Em Taipu a Festa de Nossa Senhora do Livramento representa uma dessas expressões.
Ao longo de gerações, a devoção à padroeira tem reunido famílias, fortalecido vínculos comunitários e preservado uma tradição religiosa que ocupa lugar especial na memória coletiva do município.
A cada ano, quando se aproxima o período dos festejos, Taipu vivencia um momento singular.
A Igreja Matriz se transforma no centro das atenções, os preparativos mobilizam os fiéis, as comunidades se organizam e os devotos renovam sua confiança na proteção de Nossa Senhora do Livramento. As novenas, celebrações eucarísticas, procissões e demais atividades religiosas constituem momentos de espiritualidade, confraternização e reencontro.
Entretanto, a importância dessa festa não pode ser compreendida apenas a partir de suas manifestações contemporâneas. É necessário voltar ao passado, conhecer as origens da devoção, identificar os primeiros registros das celebrações e reconhecer o trabalho daqueles que contribuíram para a continuidade dessa tradição.
A documentação histórica revela que os festejos em honra a Nossa Senhora do Livramento possuem uma trajetória que remonta às primeiras décadas do século XX.
Notícias publicadas na imprensa potiguar registram diferentes programações religiosas, incluindo tríduos, missas cantadas, sermões, comunhões e procissões. Esses testemunhos documentais demonstram que a festividade já constituía uma importante manifestação da religiosidade local naquele período.
A história da festa também se confunde com a própria trajetória da Igreja Católica em Taipu. A formação da comunidade religiosa, a construção e ampliação do templo, a criação da paróquia e a atuação dos sacerdotes são elementos fundamentais para compreender a consolidação da devoção à padroeira.
Merece destaque, igualmente, o reconhecimento das pessoas que fizeram e continuam fazendo a festa acontecer: sacerdotes, religiosos, coordenadores, integrantes das equipes de organização, músicos, colaboradores, famílias e devotos anônimos. Muitas dessas pessoas, embora nem sempre mencionadas nos registros oficiais, desempenharam papel indispensável na manutenção dos festejos e na transmissão da devoção às novas gerações.
A Festa de Nossa Senhora do Livramento também possui uma dimensão afetiva. Para muitos taipuenses que vivem fora do município, o período festivo representa a oportunidade de retornar à terra natal, reencontrar familiares e amigos e reviver experiências que permanecem guardadas na memória.
A procissão pelas ruas da cidade, os cânticos e as orações despertam lembranças de outros tempos e reafirmam os laços que unem os devotos à sua padroeira.
Preservar essa história é reconhecer o valor do patrimônio religioso e imaterial de Taipu. É compreender que a fé também produz história, constrói identidades e estabelece relações de pertencimento que atravessam gerações.
Ao leitor, esta obra oferece-se a oportunidade de conhecer não apenas a história de uma festa religiosa, mas também parte da trajetória de uma comunidade que encontrou na devoção a Nossa Senhora do Livramento um dos seus mais importantes símbolos de união e identidade.
Nossa Senhora do Livramento, padroeira de Taipu, permanece no coração e na história de seu povo.
O GRUPO ESCOLAR JOAQUIM NABUCO AMEAÇAVA CAIR EM 1961
Em 1961 os professores do Grupos Escolar Joaquim Nabuco de Taipu enviam telegramas ao Governador dando conta que o o prédio do referido grupo escolar ameaçava cair sobre alunos.
O Governador Aluizio Alves estava em Mossoró quando recebeu o telegrama assinado pela diretoria e professores do Grupo Escolar de Taipu, dando conta de que o primeiro semestre escolar daquele estabelecimento funcionou em casas particulares, em virtude do péssimo estado de conservação do Grupo Escolar. O prédio ameaçava cair sobre os alunos e os professores pediam urgentes medidas do governo, no sentido de iniciar reparos no prédio.(Tribuna do Norte, 27/07/1961, p.6).
O governador mandou realizar a reforma do prédio tendo sido a inauguração da reforma do Grupo Escolar Joaquim Nabuco ocorrida em 30/01/1962 pelo governador Aluzio Alves. (Tribuna do Norte, 21/01/1962, p.5).
O prédio do Grupo Escolar Joaquim Nabuco havia sido inaugurado em 1919 tendo sido aquela a primeira reforma por qual passara o prédio do mais antigo estabelecimento de ensino de Taipu.Nova reforma o prédio só viria a passar em 1976.
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| Prédio do Grupo Escolar Joaquim Nabuco.Data ignorada.Biblioteca IBGE.. |
CRONOLOGIA HISTÓRICA DA IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO DE TAIPU
Cronologia histórica da igreja matriz de Nossa Senhora do Livramento de Taipu
A cronologia a seguir reúne os principais acontecimentos relacionados à devoção a Nossa Senhora do Livramento, à construção da antiga capela, à criação da paróquia, às transformações arquitetônicas da igreja e à preservação de seu patrimônio histórico.
As datas foram organizadas com base nos registros paroquiais e nas pesquisas históricas disponíveis.
1839 - Registro da devoção a Nossa Senhora do Livramento em Taipu do Meio. Durante visita pastoral, Dom João da Purificação Marques Perdigão recebeu solicitação para a construção de uma capela dedicada à santa.
29 de outubro de 1861- Bernardo José da Costa Gadelha e sua esposa, Maria Inácia do Carmo, formalizaram a doação de 125 braças em quadro para constituir o patrimônio de Nossa Senhora do Livramento e permitir a construção da capela. Vila Taipu
11 de novembro de 1861- Autorização eclesiástica para que fosse realizada a bênção da primeira pedra da capela, conforme registro do Livro Tombo nº 1 da paróquia.
Por volta de 1867 - Data apontada por pesquisas históricas locais como início efetivo da construção da capela. Há divergências sobre o início e a conclusão da obra. Memória+1
1877 - A capela de Taipu aparece mencionada entre as capelas filiais da Paróquia de Ceará-Mirim, em referência histórica atribuída a Manoel Ferreira Nobre. Crônicas Taipuenses
1891-Taipu foi elevada à categoria de vila, consolidando sua organização político-administrativa. A igreja já constituía importante referência do núcleo urbano.
1896–1897 - A capela de Taipu voltou a funcionar temporariamente como sede da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Ceará-Mirim, por determinação de Dom Adauto de Miranda Henriques, em contexto de conflito naquela localidade. Crônicas Taipuenses
18 de abril de 1913- Criação da Paróquia de Nossa Senhora do Livramento de Taipu, por decreto de Dom Joaquim Antônio de Almeida, primeiro bispo de Natal.
1º de maio de 1913 - Instalação solene da paróquia e posse do primeiro pároco, padre Jeferson Urbano Rodrigues da Rocha. A antiga capela passou à condição de igreja matriz.
1914 - Início de intervenções para adaptar a antiga capela à condição de matriz, sob a atuação do padre Celso Cicco. Foram realizadas modificações na nave, na capela-mor e nos altares laterais. Crônicas Taipuenses
Década de 1940 - Novas intervenções no templo. O altar-mor teve sua construção iniciada em 1942, com conclusão posterior.
1948 -O padre João Correia de Aquino registrou a situação física da matriz, descrevendo suas dimensões, o piso da nave e as condições do forro.
19 de outubro de 1949 - Conclusão da pavimentação da igreja com piso em mosaico.
1950- Realização de melhorias na matriz, incluindo pintura externa nas cores creme e branco e instalação de forro. Crônicas Taipuenses
1955 - Construção de novo patamar de entrada em mosaico, com a inscrição “Esta é a casa de Deus”.
1956 - O padre José Luís da Silva iniciou uma grande reforma e ampliação da igreja.
1957–1958 - As obras ficaram interrompidas após a saída do padre José Luís da Silva, aguardando retomada.
28 de janeiro de 1959 - O cônego Rui Miranda retomou os trabalhos de ampliação, determinando a reconstrução de partes que apresentavam problemas de alinhamento. Crônicas Taipuenses
1960 - A parte interna da igreja encontrava-se concluída, enquanto a torre estava levantada, ainda sem reboco. Foram realizados serviços de forro e pavimentação.
1961–1962 - Prosseguimento dos serviços complementares, incluindo intervenções no patamar, no coro e no forro. As fontes históricas apontam 1962 como ano de conclusão de etapas importantes da ampliação. Crônicas Taipuenses
1963 -A nova configuração da matriz aparece como concluída em referências históricas locais, consolidando a estrutura arquitetônica que caracteriza o templo atual.
25 de fevereiro de 1964 -Chegada das Irmãs do Imaculado Coração de Maria a Taipu, iniciando uma importante etapa de atuação pastoral, educativa e social ligada à paróquia. RN
1969 - Criação do Grupo de Escoteiros Dom Bosco, ligado ao trabalho comunitário desenvolvido pelas religiosas e pela paróquia. RN
1985 - Construção do Centro Pastoral Imaculado Coração de Maria, em espaço anteriormente ocupado pela Coletoria Estadual de Rendas.
1º de maio de 1986 - Inauguração do Centro Pastoral, que passou a receber atividades religiosas e eventos sociais e culturais.
1995 - Realização de novas obras na matriz durante a administração do padre Cláudio Régio da Silva Bezerra, incluindo substituição do forro, construção de espaços devocionais, aquisição de bancos, ampliação da sacristia e pintura.
2000–2003 - Restauração da imagem de Nossa Senhora do Livramento, escultura em madeira policromada do século XIX, sob responsabilidade da Fundação José Augusto.
2001 - Reconhecimento da imagem de Nossa Senhora do Livramento como patrimônio artístico e cultural do Rio Grande do Norte.
2005- Construção da sacristia pelo Pe. Claúdio Régio.
2012- Inicio da ampliação da igreja matriz na parte posterior pelo Pe. Helenildo Marques.
2013- Centenário de criaçaõ de paróquia.
2018 - inicio da remodelação da parte interna da matriz com construção de nvos altares e nicho laterais.
2020- Remodelação externa da matriz.
2022 - Celebração da 183ª Festa de Nossa Senhora do Livramento, reafirmando a continuidade da tradição religiosa e cultural de Taipu.
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
BAIXA VERDE SOB O OLHAR DO ENGENHEIRO AGRONOMO ALVARO FERREIRA NEVES EM 1947
Abaixo encontra-se a transcrição integral do texto histórico pelo engenheior agronomo Àlvaro Ferreira Neves ao visitar a cidade de Baixa Verde em 17/06/1947 e publicado no jornal A Ordem.
Quem viaja pelo interior de São Paulo, Distrito Federal, Estado do Rio, etc. Acostuma-se áquele dinamismo ensurdecedor das máquinas, usinas, transportes, etc. À proporção que vai aproximando do Norte, porém, este costume vai-se diluindo na apatia nostálgica das cidades pobres.
No Nordeste, então, a apatia atinge ao inverosímil, ante a estática invariável do seu interior, aliada a um quadro panorâmico que nunca muda, senão quando cai uma casa carcomida pelo desgaste do tempo... Graças a Deus, porém, que as exceções quebram o ritmo desta moderna perpétua, com a mesma frequência com que a Terra é visitada pelo Comêta de Halley...
BAIXA VERDE E SEU PROGRESSO
Quem visita Baixa Verde, conclue logo tratar-se de uma cidade habitada por um povo sacudido. Com efeito, logo que o dia amanhece os "Cabras" jogam-se de um lado para outro em uma azafama danada, como se o mundo estivesse para se acabar: — abrem-se as portas das casas de Comércio, recolhem-se os gaos que já foram ordenhados ainda pela madrugada, o sino repica, fabrica apita, foguete estala no ar, carroça vai, caminhão vem, Trem apita na Estação, meninos correm para todo o lado carregados de livros, e lá se vai tudo...
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| Vista da PRça Getúlio Vargas em Baixa Verde.Vamos Ler,1945,p.56. |
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| Restauração feita por inteligência artificial. |
Dai o motivo, decerto, porque Baixa Verde é, sem favor, uma daquelas cidadezinhas do Nordeste que podem-se alinhar com outras tantas do sul: — ruas alinhadas, calçadas novas, vários prédios novos e majestosos, outros que estão em construção, inclusive a Igreja, que é um futuro belo monumento artístico.
A Prefeitura Municipal ocupa um prédio amplo, moderno, limpo. Ali só se vê entrar e sair gente de todo o matiz: uns carregados de papeis outros de bolsas e pastas, alguns ccm talões de imposto, com a cara mais feia do mundo...
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| Edificio da prefeitura de Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945,p.56. |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
A Estação da Estrada de Ferro, ao chegar o Trem é uma espécie de inferno, tal a azafama de gente, vacas, caixões frutas, tabuleiros, esmoleres, uma negrada danada a berrar como se estivesse com o diabo na barriga ...
Ainda bem não escurece a Usina elétrica começa a papuoucar, num soluçar gigantesco, enquanto uma luz magnifica inunda a cidade, fazendo brilhar os seus encantos, como noiva ataviada para as bodas Transformam-se, então os panoramas— famílias que passam para a Igreja, namorados que passeiam de mãos dadas, palestras alegres que se travam nas calçadas, onde as cadeiras vão se distribuindo á proporção que vão chegando as visitas. Daqui a pouco uma orquestra animada anuncia o inicio de um balle mais alem uma reunião familiar, festejando um aniversario, e, lá para o lado dos matos, papoca uma sanfona fanhosa como fantasma em noite de assombração ...
È a alegria que se expande como justo premio de um dia bem aproveitado.
Visitando os arredores da cidade fui deparar com um vale cuja formidável verdura indicou-me logo ser a causa do nome do lugar. Culturas diversas expandiam-se em toda a sua direção, enquanto um fio d’água cristalina precipita-se, desde a margem da estrada de ferro, nas proximidades do Açudinho, de onde se origina, até a distancia considerável. Fartura alli é mato ...
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| Trecho da rua Capitão José da Penha em Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56. |
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| Restauração feita por inteligÊncia artificial. |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
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| Matriz de Baixa Verde em construção em 1945.Vamos Ler,1945, p.56. |
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| Colorização feita por inteligÊncia artitficial. |
O GRUPO ESCOLAR
Baixa Verde é dotada de um prédio magnifico onde se acha instalado o Grupo Escolar "Capitão José da Penha". Este modelar estabelecimento é dirigido pela ilustre professora Maria Guimarães, que alia á sua reconhecida capacidade profissional, uma superior educação cívica, manifestada para com as colegas os visitantes e seus alunos. Ela acumula a direção do Grupo á catedra do 5.° ano, cuja turma conta com 19 alunos de ambos os sexos.
Entre as suas auxiliares destaca-se a prof. Maura Santos, que é uma daquelas capacidades profissionais apaixonadas pela profissão. Ela lecciona o 1.° ano, cuja turma consta de 43 alunos de ambos os sexos.
À disciplina da turma chama a atenção imediatamente; o progresso dos seus alunos entusiasma qualquer visitante, notando-se, mesmo, um esforço titanico dos alunos em aprender o que ensina a extraordinaria Mestra. Mas, ha um tal de Raul, especie de azougue sobre papel, que causaria inveja até ao CAPIROTO...
A turma do 2.° ano é dirigida pela prof. Maria Fernandes da Mota e Silva; a do 3.° e 4.° ano, pela prof. Glaucia Amelia de Paiva. A 1a. consta de 31 alunos; a 2.ª de 51. Numa ligeira demonstração, feita em minha presença, provaram serem detentoras de capacidade profissional superior ao cargo. Tive vontade de ser aluno daquele Grupo, ao menos para ajudar o Raul a quebrar os vidros e as telhas...
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| Grupo Escolar Capitão José da Penha de Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56. |
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| Restaurção feita por intligÊncia artificial. |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
O Estabelecimento está dotado de abundante e derno material escolar, afirmando a Diretora que todos os pedidos feitos para o Diretor Geral do Departamento de Educação tem sido satisfeito com toda a prestesa.
O Curso de alfabetização está funcionando sob a orientação tecnica da Sta. Engracia Varela, cuja frequencia, porem, deixa a desejar.
A FABRICA DE ÓLEOS DA FIRMA "JOÃO CÂMARA & IRMÃOS"
Em frente e a certa distancia fica situado um prédio enorme do qual grossos rolos de fumaça enegrece tudo: — é a Fabrica de Oleos da firma "João Camara & Irmãos" que, de longe, parece um imenso cortiço de abelhas tal o movimento continuo de gente transporte, sacos, que se veem acotovelando-se.
Bocas de fogo, a avermelharem tudo como tecido gangrenado, — enquanto esguicha agua por todos os lados — dão ao visitante a impressão de que está diante do Inferno: — é uma autentica Tenda de Molock, em cuja boca enorme davam-se os homens a comer, porque não podiam devorar uns aos outros...
Entretanto, ali trabalham centenas de chefes de familias numerosas, de onde tiram o pão honesto para alimentarem os filhinhos, enquanto ensacam-se os residuos que vão servir de comida para as vacas...
Baixa Verde ! — Ès o Sul encravado no Nordeste ! ...
Em 17 / 6 / 1947. (A Ordem, 08/07/1947,p.3-4.).
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| Francisco Bittencourt, prfeito de Baixa Verde em 1945.Vamos |
As imagens que ilustram a crônica de Àlvaro Ferreira Neves foram publicadas pela revista de circulação nacional Vamos Ler em 1945, foi justamente assim que o ilustre visitante encontrou Baixa Verde em sua visita a cidade dois anos depois.
Nossas considerações
Este artigo do engenheiro agronomo Álvaro Ferreira Neves publicado no jornal A Ordem, datado de 17 de junho de 1947, constitui uma das crônicas mais ricas, vividas e dinâmicas sobre a transformação urbana, social e económica da antiga Baixa Verde (atual João Câmara).
A análise aprofundada dos principais pontos e contrastes abordados no texto permitem entrever o que segue.
O contraste regional e o ufanismo do progressismo
O texrto apresneta uma ruptura com o estereótipo sertanejo. O autor começa por descrever o contraste entre o dinamismo do Sul/Sudeste e a suposta "apatia" do interior nordestino, apenas para colocar Baixa Verde como uma exceção vibrante — apelidando-a de "o Sul encravado no Nordeste".
Transparece a abertura e modernização urbana. O texto exalta o planeamento urbano (ruas alinhadas, calçadas novas, edifícios modernos) e destaca a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens, classificando-a já nessa altura como um "futuro belo monumento artístico".
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| Trecho da rua Getúlio Vargas em Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56. |
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| Restauração feita por inteligência artificial |
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| Colorização feita por inteligência artificial. |
A vida quotidiana, a ferrovia e a sociabilidade
A descrição do despertar da cidade é quase cinematográfica: a ordenha do gado, o repicar do sino, o apito das fábricas, o comboio a chegar e os estudantes nas ruas.
A estação ferroviária é retratada como o epicentro do movimento e do comércio local, um ponto de encontro frenético de pessoas, mercadorias e feirantes.
Ao cair da noite, com a chegada da iluminação da usina elétrica, a cidade transforma-se num espaço de convivência social: famílias na igreja, namorados a passear, conversas nas cadeiras à porta de casa, bailes e o som da sanfona ao longe.
A educação: o Grupo Escolar "Capitão José da Penha"
O cronista dedica uma secção detalhada ao ambiente escolar, elogiando a dedicação das professoras (com destaque para a diretora Maria Guimarães e as professoras Maura Santos, Maria Fernandes da Mota e Silva, Gláucia Amélia de Paiva e Engrácia Varela).
O referido autor apresenta ainda o humor no quotidiano escolar.O texto ganha leveza ao mencionar o aluno Raul, retratado de forma bem-humorada como uma "espécie de azougue" e irrequieto da turma.
A indústria do algodão e o trabalho
Àlvaro Ferreira Neves faz a descrição da Fábrica de Óleos da firma "João Câmara & Irmãos". A descrição da fábrica utiliza metáforas impressionantes (comparando o fumo e o calor das caldeiras a uma "Tenda de Molock" ou ao "Inferno").
Apesar da imagem dura da fábrica, o cronista reconhece o seu papel vital na economia local, sustentando centenas de famílias de trabalhadores e impulsionando a prosperidade do município pela A força do trabalho.
Em resumo, trata-se de um documento histórico excecional que capta a transição de Baixa Verde de um simples povoado sertanejo para uma cidade próspera, moderna e cheia de vida social, cultural e económica nas meados do século XX.




















