quarta-feira, 28 de outubro de 2026

BAIXA VERDE SOB O OLHAR DO ENGENHEIRO AGRONOMO ALVARO FERREIRA NEVES EM 1947

    Abaixo encontra-se a transcrição integral do texto histórico pelo engenheior agronomo Àlvaro Ferreira Neves ao visitar a cidade de Baixa Verde em 17/06/1947  e publicado no jornal A Ordem.

    Quem viaja pelo interior de São Paulo, Distrito Federal, Estado do Rio, etc. Acostuma-se áquele dinamismo ensurdecedor das máquinas, usinas, transportes, etc. À proporção que vai aproximando do Norte, porém, este costume vai-se diluindo na apatia nostálgica das cidades pobres.

    No Nordeste, então, a apatia atinge ao inverosímil, ante a estática invariável do seu interior, aliada a um quadro panorâmico que nunca muda, senão quando cai uma casa carcomida pelo desgaste do tempo... Graças a Deus, porém, que as exceções quebram o ritmo desta moderna perpétua, com a mesma frequência com que a Terra é visitada pelo Comêta de Halley...

 BAIXA VERDE E SEU PROGRESSO

    Quem visita Baixa Verde, conclue logo tratar-se de uma cidade habitada por um povo sacudido. Com efeito, logo que o dia amanhece os "Cabras" jogam-se de um lado para outro em uma azafama danada, como se o mundo estivesse para se acabar: — abrem-se as portas das casas de Comércio, recolhem-se os gaos que já foram ordenhados ainda pela madrugada, o sino repica, fabrica apita, foguete estala no ar, carroça vai, caminhão vem, Trem apita na Estação, meninos correm para todo o lado carregados de livros, e lá se vai tudo...

Vista da PRça Getúlio Vargas em Baixa Verde.Vamos Ler,1945,p.56.

Restauração feita por inteligência artificial.

Colorização feita por inteligÊncia artificial.

    Dai o motivo, decerto, porque Baixa Verde é, sem favor, uma daquelas cidadezinhas do Nordeste que podem-se alinhar com outras tantas do sul: — ruas alinhadas, calçadas novas, vários prédios novos e majestosos, outros que estão em construção, inclusive a Igreja, que é um futuro belo monumento artístico.

        A Prefeitura Municipal ocupa um prédio amplo, moderno, limpo. Ali só se vê entrar e sair gente de todo o matiz: uns carregados de papeis outros de bolsas e pastas, alguns ccm talões de imposto, com a cara mais feia do mundo...

Edificio da prefeitura de Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945,p.56.

Colorização feita por inteligência artificial.

      A Estação da Estrada de Ferro, ao chegar o Trem é uma espécie de inferno, tal a azafama de gente, vacas, caixões frutas, tabuleiros, esmoleres, uma negrada danada a berrar como se estivesse com o diabo na barriga ...

     Ainda bem não escurece a Usina elétrica começa a papuoucar, num soluçar gigantesco, enquanto uma luz magnifica inunda a cidade, fazendo brilhar os seus encantos, como noiva ataviada para as bodas Transformam-se, então os panoramas— famílias que passam para a Igreja, namorados que passeiam de mãos dadas, palestras alegres que se travam nas calçadas, onde as cadeiras vão se distribuindo á proporção que vão chegando as visitas. Daqui a pouco uma orquestra animada anuncia o inicio de um balle mais alem uma reunião familiar, festejando um aniversario, e, lá para o lado dos matos, papoca uma sanfona fanhosa como fantasma em noite de assombração ...

    È a alegria que se expande como justo premio de um dia bem aproveitado.

    Visitando os arredores da cidade fui deparar com um vale cuja formidável verdura indicou-me logo ser a causa do nome do lugar. Culturas diversas expandiam-se em toda a sua direção, enquanto um fio d’água cristalina precipita-se, desde a margem da estrada de ferro, nas proximidades do Açudinho, de onde se origina, até a distancia considerável. Fartura alli é mato ...

Trecho da rua Capitão José da Penha em Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56.

Restauração feita por inteligÊncia artificial.

Colorização feita por inteligência artificial.

Matriz de Baixa Verde em construção em 1945.Vamos Ler,1945, p.56.


Restauração feita por inteligência artificial.


Colorização feita por inteligÊncia artitficial.


 O GRUPO ESCOLAR

     Baixa Verde é dotada de um prédio magnifico onde se acha instalado o Grupo Escolar "Capitão José da Penha". Este modelar estabelecimento é dirigido pela ilustre professora Maria Guimarães, que alia á sua reconhecida capacidade profissional, uma superior educação cívica, manifestada para com as colegas os visitantes e seus alunos. Ela acumula a direção do Grupo á catedra do 5.° ano, cuja turma conta com 19 alunos de ambos os sexos.

    Entre as suas auxiliares destaca-se a prof. Maura Santos, que é uma daquelas capacidades profissionais apaixonadas pela profissão. Ela lecciona o 1.° ano, cuja turma consta de 43 alunos de ambos os sexos.

    À disciplina da turma chama a atenção imediatamente; o progresso dos seus alunos entusiasma qualquer visitante, notando-se, mesmo, um esforço titanico dos alunos em aprender o que ensina a extraordinaria Mestra. Mas, ha um tal de Raul, especie de azougue sobre papel, que causaria inveja até ao CAPIROTO...

        A turma do 2.° ano é dirigida pela prof. Maria Fernandes da Mota e Silva; a do 3.° e 4.° ano, pela prof. Glaucia Amelia de Paiva. A 1a. consta de 31 alunos; a 2.ª de 51. Numa ligeira demonstração, feita em minha presença, provaram serem detentoras de capacidade profissional superior ao cargo. Tive vontade de ser aluno daquele Grupo, ao menos para ajudar o Raul a quebrar os vidros e as telhas...

Grupo Escolar Capitão José da Penha de Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56.

Restaurção feita por intligÊncia artificial.


Colorização feita por inteligência artificial.

        O Estabelecimento está dotado de abundante e derno material escolar, afirmando a Diretora que todos os pedidos feitos para o Diretor Geral do Departamento de Educação tem sido satisfeito com toda a prestesa.

     O Curso de alfabetização está funcionando sob a orientação tecnica da Sta. Engracia Varela, cuja frequencia, porem, deixa a desejar.

 A FABRICA DE ÓLEOS DA FIRMA "JOÃO CÂMARA & IRMÃOS"

    Em frente e a certa distancia fica situado um prédio enorme do qual grossos rolos de fumaça enegrece tudo: — é a Fabrica de Oleos da firma "João Camara & Irmãos" que, de longe, parece um imenso cortiço de abelhas tal o movimento continuo de gente transporte, sacos, que se veem acotovelando-se.

     Bocas de fogo, a avermelharem tudo como tecido gangrenado, — enquanto esguicha agua por todos os lados — dão ao visitante a impressão de que está diante do Inferno: — é uma autentica Tenda de Molock, em cuja boca enorme davam-se os homens a comer, porque não podiam devorar uns aos outros...

    Entretanto, ali trabalham centenas de chefes de familias numerosas, de onde tiram o pão honesto para alimentarem os filhinhos, enquanto ensacam-se os residuos que vão servir de comida para as vacas...

    Baixa Verde ! — Ès o Sul encravado no Nordeste ! ...

    Em 17 / 6 / 1947. (A Ordem, 08/07/1947,p.3-4.).

 

Francisco Bittencourt, prfeito de Baixa Verde em 1945.Vamos 

Restauração feita por inteligÊncia artificial.

Colorização feita por inteligência aritficial.

        As imagens que ilustram a crônica de Àlvaro Ferreira Neves foram publicadas pela revista de circulação nacional Vamos Ler em 1945, foi justamente assim que o ilustre visitante encontrou Baixa Verde em sua visita a cidade dois anos depois.

Nossas considerações

     Este artigo do engenheiro agronomo Álvaro Ferreira Neves publicado no jornal A Ordem, datado de 17 de junho de 1947, constitui uma das crônicas mais ricas, vividas e dinâmicas sobre a transformação urbana, social e económica da antiga Baixa Verde (atual João Câmara).

    A  análise aprofundada dos principais pontos e contrastes abordados no texto permitem entrever o que segue.

O contraste regional e o ufanismo do progressismo

    O texrto apresneta uma ruptura com o estereótipo sertanejo. O autor começa por descrever o contraste entre o dinamismo do Sul/Sudeste e a suposta "apatia" do interior nordestino, apenas para colocar Baixa Verde como uma exceção vibrante — apelidando-a de "o Sul encravado no Nordeste".

    Transparece a abertura e modernização urbana. O texto exalta o planeamento urbano (ruas alinhadas, calçadas novas, edifícios modernos) e destaca a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens, classificando-a já nessa altura como um "futuro belo monumento artístico".


Trecho da rua Getúlio Vargas em Baixa Verde em 1945.Vamos Ler, 1945, p.56.

Restauração feita por inteligência artificial

Colorização feita por inteligência artificial.


 A vida quotidiana, a ferrovia e a sociabilidade

     A descrição do despertar da cidade é quase cinematográfica: a ordenha do gado, o repicar do sino, o apito das fábricas, o comboio a chegar e os estudantes nas ruas.

     A estação ferroviária é retratada como o epicentro do movimento e do comércio local, um ponto de encontro frenético de pessoas, mercadorias e feirantes.

    Ao cair da noite, com a chegada da iluminação da usina elétrica, a cidade transforma-se num espaço de convivência social: famílias na igreja, namorados a passear, conversas nas cadeiras à porta de casa, bailes e o som da sanfona ao longe.

A educação: o Grupo Escolar "Capitão José da Penha"

     O cronista dedica uma secção detalhada ao ambiente escolar, elogiando a dedicação das professoras (com destaque para a diretora Maria Guimarães e as professoras Maura Santos, Maria Fernandes da Mota e Silva, Gláucia Amélia de Paiva e Engrácia Varela).

     O referido autor apresenta ainda o humor no quotidiano escolar.O texto ganha leveza ao mencionar o aluno Raul, retratado de forma bem-humorada como uma "espécie de azougue" e irrequieto da turma.

 A indústria do algodão e o trabalho

     Àlvaro Ferreira Neves faz a descrição da  Fábrica de Óleos da firma "João Câmara & Irmãos". A descrição da fábrica utiliza metáforas impressionantes (comparando o fumo e o calor das caldeiras a uma "Tenda de Molock" ou ao "Inferno").

       Apesar da imagem dura da fábrica, o cronista reconhece o seu papel vital na economia local, sustentando centenas de famílias de trabalhadores e impulsionando a prosperidade do município pela A força do trabalho.

      Em resumo, trata-se de um documento histórico excecional que capta a transição de Baixa Verde de um simples povoado sertanejo para uma cidade próspera, moderna e cheia de vida social, cultural e económica nas meados do século XX.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

A PARÓQUIA PAPAL E INAMOVIVEL DE BAIXA VERDE

         Nos 25 anos de criação da paróquia de Baixa Verde a mesma foi elevada a dignidade de “paróquia inamovível” e “paróquia papal”.

      De 5 a 14/11/1954, precedida de solene novenário, realizou-se, em Baixa Verde, a festa da Padroeira Nossa Senhora Mãe dos Homens bem como as bodas de prata da criação da paróquia.

    A data destas solenidades era sempre no último domingo do mês de outubro; mas, ocorrendo, naquele ano, as bodas de prata da fundação da paróquia, o Pároco de Baixa Verde transferiu para aquela data, todos os festejos, para assim dar mais realce à comemoração do 25º aniversário do decreto diocesano que separou Baixa Verde da Freguesia de Taipu com os mesmos limites com que fora criado o município de Baixa Verde, ocorrido no ano anterior.

     Foi a 1ª Paróquia criada por D. Marcolino Dantas; sendo “a sua filha primogênita para quem o querido Antistite sempre revelou particular estima e consideração”. (Tribuna do Norte, 18/11/1954, p.3).

      Em 13/11/1954, data da criação da Paróquia, por ocasião da novena, pelas 19h, na Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens, o Mons. Alves Landim leu do púlpito o decreto da criação da Freguesia, datado de 13 de novembro de 1929, assinado pelo Bispo D. Marcolino Dantas, e subscrito pelo Secretário do Bispado, Cônego Luiz Gonzaga Monte, e seguidamente leu também o decreto do referido Antistite, naquele ano de 1954 já Arcebispo Metropolitano, subscrito, pelo secretário do Arcebispado, Cônego Eimar L’Aristre pelo qual, após várias considerações encomiásticas ao Mons. Vicente Freitas, elevou a Paróquia à classe das inamoviveis da Arquidiocese de Natal e confirmou como 1º vigário inamovível o Mons. Vicente Freitas, a cujo nome se deve a construção da grandiosa e estética matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens “que é o maior galardão do 1º Vigário Inamovível, agraciado, há dois anos, com o honroso titulo de Monsenhor pelo Santo Padre, o Papa Pio XII." (Op.Cit).

     O Mons. Landim explicou ao povo, que enchia literalmnete todas a naves do majestoso templo, o significado do que acabara de falar, ou seja,  o que eram uma paróquia inamovível e o Vigário Inamovível, que correspondia ao que, no antigo Direito Canônico, se chamava Vigário Colado. Sendo assim, nem a Paróquia poderia ser extinta, nem o Pároco poderia dela ser afastado, era pois, um regime de vitalicidade.

      Acrescentou ainda, que, sendo o seu Vigário Inamovível da Família Papal, a paróquia se tornou Papal e que caso o atual Vigário dela se afastasse espontaneamente ou para aceitar melhor beneficio, o novo pároco seria escolhido e provisionado pelo Sumo Pontifice.

     O Mons. Landim disse ainda dos parabéns que mereciam o povo e o Vigário de Baixa Verde pela distinção que lhes dera o Arcebispo de Natal, dom Marcolino Dantas, o mesmo que 25 anos criara a paróquia, “sua filha predileta”.

       Terminada a leitura do decreto, soaram os sinos da matriz trovejando folguedos, a banda de Música Municipal Francisco Bitencourt, tocou durante a solene missa  entoando o canto coral e fez coroar o hino da Padroeira.

      Na missa solene do dia 14/11/1954 as 9h30, o Mons. Landim fez o panegírico da Mãe dos Homens:

      "Dada  por Jesus a toda a humanidade [...] que Nossa Senhora é mais Mãe dos Homens do que das senhoras. A psicologia maternal é tangível ao mais leviano observador. O coração de uma mãe é o mesmo para todos os filhos, mas os filhos varões tem sempre melhor partilha. Os homens precisam mais de Nossa Senhora e esta é bem compreensiva para lhes distribuir mais carinho e bênçãos, sem que a ninguém sonegue o aconchego de seu manto". (op.Cit).

      Ao final foi dada, então, a bênção solene do SS Sacramento. A Banda de Música Municipal Francisco Bitencourt foi cumprimentar os sacerdotes na Casa Paroquial onde falou Mons. Freitas que foi abraçado pelo povo.

      Foi encarregado da festa o sr. João Urbano de Araújo, o mesmo que ficou encarregado de cosntruir as torres da igreja matriz.

      Era  Mestre da referida Banda Municipal o Maestro Geraldo Alves da Cheiroa.

    Pelo coro local, acompanhando a orquestra constituída de músicos da própria Banda Municipal foi interpretada a Missa São Joaquim do maestro compositor Joaquim Capochi.

       Até aquele ano de 1954 a paróquia de Baixa Verde já havia tido 7 Vigários:

Nº de ordem

Vigário

Observação

1

Mons. Celso Cico

Naquele  ano de 1954 Pároco de Ceará-Mirim

2

Padre Francisco Mario Damasceno

Naquele  ano, pertencente ao clero da diocese de Mossoró

3

Padre Luiz Teixeira de Araújo

Naquele  ano capelão na Capital Pernambucana

4

Padre Antonio Avelino

Naquele  ano Vigário no Distrito Federal (Rio de Janeiro)

5

Padre Antonio de Melo Chacon

Naquele  ano, Vigário de Macaíba

6

Padre Misael de Carvalho

Naquele  ano já falecido

7

Mons. Vicente Freitas

Naquele ano Pároco Inamovível

Fonte:  Tribuna do Norte, 18/11/1954, p.3.

       É um relato histórico fascinante e de imenso valor para a memória de João Câmara (antiga Baixa Verde).

      A leitura deste relato publicado no jornal Tribuna do Norte resgata um momento solene e apoteótico na trajetória da Igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens: as bodas de prata da criação da paróquia, celebradas em novembro de 1954, onde podemos  tecer destaques históricos e teológicos, como:

     A Filha Primogênita de Dom Marcolino: A paróquia de Baixa Verde foi a primeira a ser criada por Dom Marcolino Dantas após sua assunção episcopal, o que justificava o carinho especial ("particular estima e consideração") do prelado pela comunidade.

   A elevação a Paróquia Inamovível e Papal: Por ato de Dom Marcolino (já Arcebispo Metropolitano em 1954), a paróquia foi elevada a uma categoria especial de estabilidade (inamovível), o que garantia jurídica e historicamente que nem o território paroquial poderia ser extinto, nem o pároco (Mons. Vicente de Paula Freitas) poderia ser removido arbitrariamente — um regime de vitalicidade semelhante ao antigo Vigário Colado.

    O título Papal: Como o Monsenhor Vicente de Paula Freitas havia sido agraciado dois anos antes com o título de Monsenhor pelo Papa Pio XII, a paróquia adquiriu o prestígio de ser ligada à Família Papal ("Paróquia Papal"), significando que futuros sucessores poderiam ter provisão ligada diretamente ao Sumo Pontífice.

    O Legado de Mons. Vicente de Freitas: O texto exalta a grandiosa e estética matriz construída sob a batuta do Monsenhor Vicente, coroando décadas de dedicação espiritual e material àquela terra do Mato Grande potiguar.

    O Mons Vicente Freitas já se encontrava, há 18 anos à frente dos destinos espirituais de Baixa Verde, sendo sua primeira provisão datada de 9 de agosto de 1936.Permaneceu na paróquia de Baixa Verde até o ano de 1958, quando entregou a paróquia ao seu subtituto Pe. Luiz Lucena Dias.

        O Mons. Vicente de Paula Freitas faleceu em 31/08/1959, ao meio dia, na Casa de Saude São Lucas, na capital.

      Segundo o obituário publicado no jornal Tribuna do Norte, o ilustre sacerdote ocupava posição de relevo no clero potiguar pela sua inteligência e pelas virtudes eclesiásticas. (Tribuna do Norte, 01/09/1959, p.4).

      O seu sepultamento foi realistado no dia 01/09/1959, no cemitério do Alecrim, saindo o feretro da Catedral Metropolitana, ás 8h30, após a missa de corpo presente que foi celebrada pelo bispo auxiliar de Natal, dom Eugênio Sales.

     O extinto, deixou uma irmã solteira, a srta. Rafaela de Freitas, funcionária do Hospital Miguel Couto, atual Hospital Onofre Lopes.

       Foi Vigário da paróquia de Nossa Senhora Mãe dos Homens de Baixa Verde por 22 anos, tendo nela recebido o titulo de Monsenhor e 1º Vigário Inamovível, recebido este por ocasião do 25º ano de criação da paróquia em 1954.Seu maior feito na paróquia foi a construção da atual igreja matriz da cidade.

     Quanto ao Pe. Luiz Lucena Dias não temos conhecimento se o mesmo teve a nomeação e o provisionamento dado pelo Papa conforme preconizava o decreto de 1954, o fato é que o Pe. Luiz Lucena Dias, também agraciado com o titulo de Monsenhor, superou seu antecessor permanecendo por mais de 50 anos a frente da paróquia, sendo um dos mais longevos paroquiato no território da Arquidiocese de Natal.

        Quanto a  dignidade de “Paróquia Papal” também não sabemos se permanece atualmente o titulo honorifico concedido a paróquia de João Câmara naquele ano de 1954.

A "grandiosa e estética matriz de Nossa Senhor Mãe dos Homens  que é o maior galardão do 1º Vigário Inamovível". Foto restaurada por inteligência artificial a partir de foto de 1958 publicada na Enciclopédia dos Municipios Brasileiros do IBGE.



Mons. Vicente Freitas, 1º Vigário Inamovivel de Baixa Verde.
Foto: Vida doméstica,1936,p.4
.

Mons. Vicente Freitas.Restauração feita por inteligência artificial.

Largo da matriz de João Câmara em cujo largo foi construida a praça Mons. Vicente Freitas.Tribuna do Norte, 27/12/1986, p.5.



domingo, 13 de setembro de 2026

SOBRE O ANTIGO MERCADO PÚBLICO DE BAIXA VERDE

      Esta fotografia registra o antigo Mercado Público de Baixa Verde, povoado que deu origem ao atual município de João Câmara, na região do Mato Grande.

Restauração por inteligência artificial 

Restauração por inteligência artificial 

Imagem original sem indicação de data e autoria 

     O mercado original teve seu prédio novo inaugurado em setembro de 1927 e ainda pertencente ao município de Taipu. Na época, a vila de Baixa Verde vivia um grande crescimento econômico impulsionado pela chegada da ferrovia em 1910 e pela expansão do cultivo do algodão.

Detalhes da imagem 

     É possível observar ao fundo o casario comercial típico do início do século XX, incluindo estabelecimentos como o da tradicional firma local "José Câmara & Irmãos" (à direita). Na praça em frente, o movimento intenso reflete as feiras livres que reuniam produtores, feirantes e moradores de toda a região.

 Transformação urbana

      O antigo prédio ficava onde hoje é a Praça Baixa Verde. O mercado público original permaneceu no local até 1981, quando foi demolido para reordenação urbana, sendo transferido para um novo prédio na Praça Antônio Justino de Souza. Em 1953, o município de Baixa Verde passou a se chamar oficialmente João Câmara.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

MEMÓRIA DA SAÚDE EM BAIXA VERDE: AS RAÍZES DO CUIDADO EM JOÃO CÂMARA

    Falar sobre a história de Baixa Verde (que mais tarde, em 1953, adotaria o nome de João Câmara em homenagem à sua figura mais ilustre),  é revisitar um tempo em que o desenvolvimento do interior potiguar se confundia com a coragem de sua gente. Entre os desafios enfrentados pelos pioneiros da região, o acesso à saúde e ao bem-estar social ocupava um lugar central e, muitas vezes, dramático.

Os desafios iniciais: da medicina caseira ao isolamento

    Nos primórdios do povoamento e após a emancipação política em 1928, o município de Baixa Verde contava com uma estrutura de saúde extremamente rudimentar.

    Como era comum no sertão nordestino da época, os primeiros socorros dependiam fortemente de práticas caseiras, benzedeiros e de parteiras tradicionais que realizavam os partos nas zonas rurais e no acanhado centro urbano.

    Profissionais formados e unidades de saúde estruturadas eram raridades. Para casos mais graves, os doentes precisavam enfrentar longas viagens em lombos de animais ou nos primeiros trens da Estrada de Ferro até Natal ou centros maiores.

    A saúde pública nos moldes atuais não existia; o suporte vinha muitas vezes de iniciativas religiosas, da solidariedade vicentina e de redes de assistência voluntária que tentavam amparar as famílias em situação de extrema vulnerabilidade.

 A evolução do cuidado e a chegada de novas estruturas

     Com o passar das décadas, o município deu passos importantes para superar esse cenário de isolamento sanitário. A transição de Baixa Verde para João Câmara marcou também uma nova fase na organização urbana e social da cidade.

    A fundação de núcleos de atendimento e o avanço gradual de postos de saúde locais começaram a desenhar a rede de atendimento que hoje culmina no suporte do Hospital Regional Josefa Alves Cordeiro e nas clínicas modernas da região.

     Registros fotográficos e documentos antigos revelam que estruturas precárias deram lugar, a custo de muita luta comunitária e política, a um sistema de saúde mais robusto e acessível para a população camarense.

Legado e transformação

     Hoje, olhar para o passado de Baixa Verde nos faz valorizar cada conquista na área da saúde. O que antes era restrito a condições precárias e improvisadas transformou-se em uma rede que busca atender aos milhares de habitantes de João Câmara e região, honrando a memória daqueles que resistiram e construíram a história do município.

O ambulatório da L.B.A

    O estabelecimento de saúde, até o momento, mais antigo em Baixa Verde trata-se do ambulatório fundado pela Legião da Boa Assistência-L.B.A em convênio com o Serviço de Estadual Reeducação e Assistência Social-SERAS do governo do Estado em 1944.

    Em 03/03/1944 o jornal A Ordem registrou que haviam sido fundados e estavam em funcionamentos os ambulatórios de Assu, Baixa Verde, Macaiba, Santa Cruz, Currais Novos, Florânia, Acari, Lajes e Touros.(A Ordem,03/03/1944,4).

    Criada em 1942 por Darcy Vargas (esposa do presidente Getúlio Vargas), a Legião Brasileira de Assistência (L.B.A) originou-se com o objetivo inicial de prestar assistência às famílias dos pracinhas e soldados convocados para a Segunda Guerra Mundial, expandindo-se rapidamente para o atendimento social, materno-infantil e de saúde nas comunidades carentes de todo o Brasil.

    No Rio Grande do Norte, a atuação da L.B.A esteve profundamente vinculada a figuras de destaque político e social da época, como Aluízio Alves, que articulou parcerias para a construção de obras de forte impacto assistencial. 

    Essa trajetória reflete os esforços pioneiros para estruturar a rede de saúde e proteção social em municípios do interior e da Grande Natal, transformando realidades marcadas pelo isolamento e pela escassez de recursos médicos nas décadas de 1940 e 1950.

    O ambulatório fundado em Baixa Verde em 1944 buscava fornecer medicamentos e realizar pequenos atendimentos de saúde a pessoas pobres.

A APAMI e a Maternidade: as origens e a necessidade de assistência

     A trajetória da APAMI (Associação de Proteção e Assistência à Maternidade e à Infância) e da maternidade em João Câmara (antiga Baixa Verde) representa um dos capítulos mais importantes da solidariedade e da luta social pela saúde no interior do Rio Grande do Norte.

 O contexto de fundação

    Em 1951 já havia sido criada a Associação de Proteção a Maternidade e a Infância de Baixa Verde, entidade social criada para servir de mantenedora da maternidade de Baixa Verde.

    Naquele ano a referida instituição recebeu do governo federal a verba de Cr$ 100.000,00 (Diário de Natal ,10/12/1951,p.6), essa verba deveria ser utilizada para construção do prédio da maternidade.

    Entretanto, a construção do edifício que seria destinado a abrigar o estabelecimento de sáude tão aguardado na cidade demoraria quase uma década para ser inaugurado.

    Em 1953 o prédio se encontrava com a sua construção paralisada, no mesmo ano em que o município se viu atingido pelos efeitos da grande seca que ocorreu naquele ano, onde milhares de pessoas acorreram a cidade em busca de melhores condições sobrecarregaando as estruturas da cidade.

    Em 1956 o prédio estava quase concluido, porém, enfretava uma situação inusitada, sendo habitado por familias de indigentes.

    Em 1957 assumiu a paróquia o então padre Luis Lucena Dias, que diante da situação inusitada e percebendo a extrema necessidade de serviços na área de saúde no municipio, abdicou de habitar na casa paroquial, doando-a para que ali fosse instalada a maternidade.

    No ano de 1959 a situação do prédio que fora construido para servir de maternidade ainda não havia sido resolvida, mas a diretoria da APAMI s emobilizou para instalar os serviços de ambulatório ainda que de forma précaria.

     A criação da unidade e da associação na região esteve ligada à intensa mobilização comunitária e religiosa, com forte atuação vinculada ao histórico da Paróquia local, para suprir a carência crônica de atendimento médico voltado às gestantes, mães e recém-nascidos.

    A iniciativa ganhou forte impulso na década de 1950 (com registros históricos apontando marcos de estruturação por volta de 1957), servindo como um braço essencial de amparo social em uma época em que o poder público estadual ou federal mal conseguia capilarizar serviços básicos de saúde pelo interior sertanejo.

O Papel da APAMI para João Câmara e Região

    Ao longo das décadas, a Maternidade da APAMI tornou-se o pilar do suporte obstétrico, pediátrico e de clínica médica básica para João Câmara e diversos municípios vizinhos do território do Mato Grande.

    Como muitas instituições filantrópicas de saúde no Brasil, a APAMI enfrentou historicamente inúmeros desafios de custeio, crises financeiras e dependência de convênios ou subvenções públicas para manter as portas abertas à população de baixa renda.

Na imagem o prédio da maternidade de João Câmara ainda em construção, possivelmente em meados da década de 1950.

    Em momentos críticos de sua trajetória, incluindo períodos de paralisação ou risco de fechamento por endividamento, a sociedade civil organizada, lideranças locais e campanhas de doação mobilizaram-se fortemente para salvar e reabrir a unidade, reconhecendo seu valor vital para a salvaguarda de vidas na região.

    O legado da APAMI em João Câmara confunde-se com a própria história de emancipação e cuidado humanitário do antigo vale de Baixa Verde, eternizando o esforço coletivo para garantir o direito básico ao nascimento seguro e à saúde materno-infantil.

 O hospital João Câmara

    Em 1950 O deputado Dioclecio Duarte apresentou para o orçamento de 1951 as emendas concernentes a auxílios e subvenções para instituições do Rio Grande do Norte, dentre as quais estava o Hospital João Câmara de Baixa Verde que receberia a verba de Cr$ 200.000,00.(Diário de Natal, 26/11/1950,p.8).

    Teria o ambulatório criado em 1944 sido transformado em hospital?

    Em 1952 o jornal A Ordem registrou que o referido hospital receberia uma nova a verba de Cr$ 200.000,00. (A Ordem, 23/12/1952,p.1).

    Em 1955 o hospital João Câmara receberia verba de Cr$ 100.000,00 (Tribuna do Norte,13/01/1955,p.4).

    Em 1963 foi apresentado um requerimento do deputado Pedro Lucena no sentido de que fosse feito apelo ao Presidente da República para recuperação do Hospital de João Câmara.(Diário de Natal ,20/06/1963,p.2).

    Em 1971 o deputado Dari Dantas anunciou na Assembleia Legislativa que havia conseguido pelo Funrural  meios para a conclusão do Hospital Regional da cidade de João Câmara que abrangia uma das regiões mais carentes de assistência médico-hospitalar do Estado. Em sua companhia e na do prefeito Manuel Anacleto de Lima, o Governador Cortez Pereira visitára em julho de 1971 o prédio que se levantava com contribuições do Governo Federal na cidade de João Câmara e cujas obras estavam paralisadas. Na oportunidade solicitaram do Governador que  incluísse aquela obra como integrante do seu plano prioritário de assistência hospitalar no interior.(Diário de Natal, 07/08/1971,p.2).

    Eis em breve linhas o resgate da memória sobre os serviços de saúde ao longo do tempo no município de Baixa Verde/João Câmara.A pesquisa não está completa e poderão ser acrescentadas novas informações ao longo de novas descobertas.

Na imagem colorização por inteligência artificial do prédio da maternidade de João Câmara em construção.

 Memória

 

  

Fonte: Cosme Souza, cedidas..

     Nas imagens a casa paroquial de João Câmara que foi cedida pelo Mons.Lucena para ser a maternidade da cidade. O edifício passou por reformas para se adequar a nova finalidade.

Fonte: Cosme Souza, cedida.

         Na imagem possivelmente a inauguração da Maternidade APAMi de João Câmara no final da década de 1950 ou inicio da década de 1960.A maternidade recebeu o nome de Noêmia Lucena, mãe do Mons. Luis Lucena Dias, em agradecimento por ter ele cedido a casa paroquial para nela ser instalada a maternidade.

 

 Nas imagens a cima o prédio da Maternidade APAMI de João Câmara, possivelmente na década de 1980.Fonte: Cosme Souza, cedida.

     

        Na imagem a cima um evento em frente a maternidade APAMI de João Câmara onde é possível vê o Mons. Lucena (de braço erguido) em posição de bêncão. Ainda estão presentes o então arcebispo de Natal, Dom Heitor de Araújo Sales (ao centro), Pe. Cláudio Régio da Silva Bezerra (a esquerda de camisa preta), então Adm. Paroquial de Taipu.Fonte: Cosme Souza, cedida.

 

 

Na imagem pessoas em frente a maternidade APAMI de João Câmara, possivelmente na década de 1990. Fonte: Cosme Souza, cedida.

 

 

Fonte: Cosme Souza, cedidas. 

Nas imagens a cima o prédio do Hospital Dr. Raimundo Peni (Hospital Regional de João Câmara).  

 

                                                Fonte: Cosme Souza, Cedida.

    Na imagem a cima o prédio que fora construido par aser a maternidade APAMI de João Câmara visivelmente em estado de abandono, porém, usado como moradia para retirantes, visto na imagem uma mulher na calçada. 

 

 

 

Fonte: Cosme Souza, cedida. 

Nas imagens a cima detalhes do prédio que seria a  maternidade de João Câmara em construção.

 

 Fonte: Cosme Souza, cedida. 

    Na imagem a cima o prédio que seria a maternidade de  João Câmara já transformado na Escola Estadual Cícero Varela.