terça-feira, 12 de maio de 2026

SOBRE DUDÉ ELIAS: O ARTISTA ESQUECIDO DE TAIPU


    Dudé Elias (Joselias Medeiros, Taipu 1957, São Paulo,2013) foi um escultor reconhecido por sua arte em todo Estado do Rio Grande do Norte, menos, é claro, na sua cidade de origem, a "doce e amada Taipu" (contém ironia), terra onde só se valoriza o “povo de fora”, como diz um velho ditado das terras do papagaios.

Tribuna do Norte, 22/11/1979,p.18.

        Em 22/11/1979 o jornal Tribuna do Norte publicou uma matéria a respeito do referido artista taipuense e sua arte. Eis a seguir o texto completo da matéria.

Elias: criatividade a serviço de uma arte maior

     Todo material utilizado para se fazer uma escultura tem a característica de ser duro, resistente e de proporcionar um tipo de polimento como nenhum outro material. Isto significa que o escultor, quando pretende usar a luz como elemento de composição, só encontra na junção entre cimento e barro um instrumento adequado de trabalho. Assim, Elias José Medeiros vai recriando/transformando barro e cimento em artesanato, para desenvolver seus trabalhos expressivos.

        Elias, como é conhecido, em Natal, escultor que no momento exibe um elenco de peças em diversas residências da cidade, é um artesão que consegue retirar proveito de cimento com extrema maestria. As sombras e a luminosidade trabalhadas no material contribuem para a construção das formas, dotando-as de um certo ar de mistério. Aqui fica evidente sua preocupação artesanal na transformação de elementos quase-químicos, num resultado final artístico de grande nível.

 TRIDIMENSIONAL

        Ao se tocar com as mãos a superfície das esculturas, na parede de uma residência na Praia do Meio, elas são irradiavelmente frias, mas olhando-as, parecem irradiar calor. A luminosidade que surge do polimento das áreas das peças cria massas de luz, que sob a lei da pregnância — uma linha seccionada por traços tem a característica de mostrar como uma linha contínua — constrói a forma tridimensional, embora a matéria seja escavada e côncava ou insinue ligeiramente um volume. Tudo na obra de Elias é intencional, e isto prova a variedade de temas que ele aborda, mesmo tendo como base os trabalhos de seu grande influenciador, Jordão, com quem trabalhou durante algum tempo.

        O artista, portanto, trabalha a luz como uma forma virtual da escultura. Fora esta qualidade artesanal, é preciso ainda salientar a suavidade com que Elias elabora as linhas ondulantes — inspiradas no desenho do corpo humano —, que se seguem em movimentos circulares, criando sempre uma forma doce, e ao mesmo tempo interligando os espaços abertos e fechados. Essas linhas têm ritmo natural e conferem um quê de erótico às esculturas. Algumas áreas das peças são corroídas, em oposição a outras muito polidas: o contraste valoriza mais a superfície polida das esculturas.

        As esculturas de Elias insinuam a imagem, sugerem formas, deixando ao espectador a tarefa de complementá-las, e até mesmo de recriá-las. Cada indivíduo vê aquilo que lhe parece, embora a fantasia mitológica sempre parta do objeto real do projeto artístico feito pelo escultor. Elias sabe como ninguém recriar temas e abordagens que sugere todo um lado vivencial, de magia e lenda: são sereias e mitos que sobrevivem em nossas mentes e tem uma ligação direta com os mistérios do mar potiguar.

        O artista oferece ao público, fora a fruição estética, é claro, uma visão excelente de artesanato profissional do escultor. Isto fica evidente quando ele acrescenta: "Procuro fazer um trabalho sempre com bases na minha vivência. Não acredito em saturação de mercado dentro deste campo. As pessoas que procuram comprar ou mandar fazer artes são pessoas que possuem um nível cultural elevado. Daí não vejo porque o medo de saturação de mercado. E se existir algo busco na madeira uma fonte de novo caminho-escultural."

 CARREIRA

        Iniciando sua carreira dentro deste processo criativo em 1977, Elias acredita que o andamento de sua trajetória criativa pode estar vinculada ao processo evolutivo que o artista vai sofrendo no percurso de tempo. Para ele "o artista é a continuação da vida" ligado no desenvolvimento de suas propostas mais urgente. Optando por um caminho mais livre e criativo ele aceita que sua obra possa ser comparada com a de artistas que se posiciona diante da realidade mais precisa. "O artista é a continuidade do homem, em qualquer situação mais abrangente".

        O marco inicial da carreira de Elias está diretamente ligado com o trabalho realizado em Taipu, onde realizou um painel com dez metros focalizando uma sereia. Aqui fica evidente uma busca constante dentro da mitologia brasileira um andamento ligeiro para a conclusão de trabalhos que refletem uma realidade vivencial. "Eu cresci escutando histórias de sereia, peixe grande e outros pontos do folclore potiguar. Então essa temática fica bem clara dentro de nossa posição. Meu trabalho procura fazer esta clareza nos temas que tento focalizar".(Tribuna do norte, 22/11/1979,p.18. Os grifos são nossos).

        O texto da mencionada matéria oferece um mergulho profundo na técnica e na filosofia de Elias José Medeiros, revelando como ele elevou o uso de materiais rústicos, como o cimento e o barro, ao status de "arte maior".

        Aqui está uma análise dividida pelos eixos principais do artigo:

 A alquimia dos materiais e a técnica "quase-química"

    O texto destaca uma característica fascinante: a transformação de materiais tradicionalmente frios e brutos (cimento e barro) em algo que irradia calor e mistério.

Domínio da luz

        Elias não esculpia apenas a matéria; ele esculpia a luz. O artigo menciona o uso de polimentos estratégicos para criar "massas de luz" e o jogo entre superfícies polidas e áreas "corroídas", o que confere tridimensionalidade e profundidade às peças, mesmo quando são escavadas ou côncavas.

Contraste sensorial

        Existe uma dualidade interessante citada — a peça é fria ao toque (pela natureza do cimento), mas transmite calor ao olhar, evidenciando uma maestria técnica que subverte a natureza do material.

 A estética: entre o humano e o erótico

         A influência das linhas ondulantes do corpo humano é um ponto central. O autor do texto observa que Elias utiliza movimentos circulares para criar formas "doces" e rítmicas, que conferem um tom sutilmente erótico às esculturas. Essa suavidade contrasta com a dureza do material, humanizando o concreto e o barro.

 A Mitologia Potiguar e o "lado vivencial"

         Este é talvez o ponto mais rico para a história cultural da região. A obra de Elias não é meramente decorativa; ela é narrativa e identitária.

         O artista utiliza mitos que "sobrevivem em nossas mentes", como sereias e mistérios marinhos.

Referência a Taipu

         O texto identifica um marco geográfico e artístico crucial: o painel de dez metros em Taipu, focado em uma sereia. Isso mostra como Elias transpôs as histórias que ouviu na infância ("peixe grande", "sereias") para monumentos físicos, imortalizando o folclore local em escala monumental.

 A filosofia do artista e o mercado

         Elias demonstrava uma postura confiante sobre a relevância da arte. Ele rejeita a ideia de saturação de mercado, acreditando que o público de "nível cultural elevado" sempre buscará a expressão artística autêntica.

        Ao afirmar que "o artista é a continuidade da vida", ele deixa claro que sua obra é um processo em constante mudança, mencionando inclusive a disposição de transitar para outros materiais, como a madeira, se necessário.

 Genealogia artística

     O texto estabelece uma linhagem importante ao citar Jordão como seu grande influenciador e mestre. Isso situa Elias dentro de uma tradição de escultores que souberam trabalhar a plasticidade de materiais de construção, transformando-os em patrimônio artístico residencial e público em Natal e no interior do estado.

        O artigo apresenta Elias como um artista que domina a Psicologia da Forma (citando inclusive a lei da pregnância). Ele não entrega uma imagem pronta, mas "insinua a imagem", convidando o espectador a completar a obra com sua própria percepção.

         Para a história de Taipu e do Rio Grande do Norte, Elias foi o escultor que deu corpo de cimento aos sonhos e lendas do povo potiguar.

        Elias foi embora de Taipu, sacudindo a poeira dos sapatos pra nunca mais voltar depois que sua obra prima a Sereia por ele esculpida em cimento armado na praça Dez de Março foi destruida.Sentindo-se desvalorizado em seu trabalho, como tantos outros artistas locais, foi radicar-se em São Paulo onde veio a falecer em 2013.

        As autoridades constituidas e eleitas de Taipu (prefeitos e vereadores) nunca repararam o erro cometido tanto ao aritsta como a cidade (a Sereia de Dudé Elias foi o primeiro monumento artistico construido em Taipu), reconstruindo o monumento, ao contrário, ao lono dos anos sempre deixaram a praça mais feia e sem mounumentos artisticos, parecendo o fiofó de quem realizou as reformas da praça ao longo do tempo.

Colorização por meio de Inteligência Artificial.


SOBRE A CRIAÇÃO DO GINÁSIO DE TAIPU

 

      Em discurso proferido em 17/07/1975 na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, o deputado estadual e taipuense, disse em seu discurso que só dependia tão somente de uma mensagem do Prefeito à Câmara Municipal para que a cidade de Taipu para que a cidade passasse a contar com um Ginásio para o ensino de 1º grau (quatro ultimas séries).

    O  deputado Magnus Kelly  acabava de receber Oficio do Secretário da Educação, João Faustino Ferreira Neto, em resposta a diversos apelos formulados na Assembleia Legislativa para que Taipu tivesse o seu Ginásio.

    Segundo o parlamentar, no Oficio, o Secretário esclareceu os pontos principais da questão, partindo do princípio de que este tipo de ensino é de responsabilidade do Governo Municipal.

    Adiantava Magnus que com a boa vontade do Secretário e uma Mensagem do Prefeito de Taipu à Câmara o problema poderia ser solucionado, uma vez que já existem verbas com esta finalidade destinados pelo Ministério da Educação e até agora não utilizadas. Referidas verbas foram postas no Orçamento pelo parlamentar que afirma "no setor de educação não deve haver discriminação partidária".

    No Oficio ao Deputado Magnus Kelly, o secretário informava reconhecer as limitações financeiras das Prefeituras, não podendo furtar-se a uma participação nos encargos advindos na manutenção, comprometendo-se a colocar com a cessão de professores, fornecimento de equipamentos escolares e material didático e colocar até à disposição da Prefeitura de Taipu, para funcionamento provisório, o prédio do Grupo Escolar Clotilde de Moura Lima, situado no Alto da Bela Vista e assistência técnica, .

    A Secretaria é ainda posta à disposição da Prefeitura para qualquer orientação nesse sentido.

    Acreditava Magnus Kelly que “agora, finalmente, Taipu venha a contar com o seu Ginásio, evitando que os estudantes locais da faixa do 1º grau tenham que se deslocar diariamente para Ceará Mirim, a fim de poderem prosseguir os estudos”. (Tribuna do Norte, 17/07/1975,p.2).

    O discurso do referido deputado sobre o Ginásio de Taipu é um exemplo clássico da política da época.

    Vemos a articulação entre o deputado (Magnus Kelly) e o governo estadual para levar o ensino de 1º grau (atual Fundamental II) para o município.

      A menção de que os alunos precisavam se deslocar para Ceará-Mirim para estudar ressalta o isolamento educacional que essas cidades enfrentavam antes da criação de suas próprias instituições.

      Como se sabe o embate entre a prefeitura de Taipu e o então deputado estadual, motivado por disputas politicas e egos inflamados, retardou a criação do Ginásio de Taipu, tendo sido o mesmo criado em 1977 e seu prédio definitivo somente inaugurado em 1978, na rua Antonio Gomes da Costa (rua do Fogo).Coisas de Taipu!



Deputado Magnus Kelly em discurso na tribuna da Assembleia Legislativa defendendo a criação do Ginásio de Taipu, atual Escola Estadual Prof. Clotilde de Moura Lima. Tribuna do Norte, 17/07/1975,p.2.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.


O MERCADO DO PEIXE DE MACAU EM 1952

     A imagem restaurada apresenta o antigo Mercado de Peixe da cidade de Macau, um exemplar significativo da arquitetura institucional e comercial do início do século XX na região.

    Abaixo, detalho os principais pontos da análise arquitetônica e histórica:

 Elementos arquitetônicos e estilo

    O edifício exibe uma transição entre o Ecletismo e o Neoclássico Popular, características comuns em prédios públicos de cidades litorâneas e polos comerciais da época.

    O destaque principal é o frontão acima da entrada principal, que apresenta ornamentos em relevo (provavelmente em estuque) e a inscrição "MERCADO DE PEIXE" acompanhando o arco da porta. Os detalhes sugerem uma preocupação estética que elevava a importância funcional do local.

    A fachada lateral revela uma sequência rítmica de janelas altas, fundamentais para a ventilação natural e iluminação — essencial para um mercado de pescados em uma região de clima tropical seco.

     O uso da platibanda (essa parede que esconde o telhado) era um sinal de modernidade na época, substituindo os antigos telhados coloniais com beirais aparentes.


Fonte: Tribuna do Norte, 20/09/1952,p.6.

 Contexto urbano e social

    Macau, conhecida historicamente por sua economia baseada no sal e na pesca, necessitava de infraestruturas como esta para organizar o comércio e garantir normas de higiene básica que começavam a ser implementadas nos centros urbanos.

    A restauração permite notar a transição entre a calçada frontal e a rua, que na época da fotografia original ainda aparentava ser de terra batida ou areia, destacando o mercado como uma das construções mais sólidas e imponentes da vizinhança.

Significado histórico

     Edifícios como este eram o coração da vida social das cidades potiguares. Além da função econômica, o Mercado de Peixe era um ponto de encontro de pescadores, comerciantes e a população local. A preservação visual deste registro é vital para entender a evolução urbana de Macau e a importância da indústria pesqueira na identidade da cidade.

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

SOBRE A MEMÓRIA DE K-XIMBINHO

 

Reconstituição digital de Inteligência Artificial

                                                   O Cruzeiro, ed.48, 1955, p.60.


    Uma jam session consiste no seguinte: reúnem-se alguns músicos de jazz em local combinado e, estabelecido um tema, improvisam seus solos, dentro, naturalmente, das características básicas do gênero.

     A  organização do 1º Grande Concerto Brasileiro de Jazz, realizado no Golden Room do Copacabana, teve o sabor genuíno de jam session. (O CRUZEIRO, 23-7).

      O evento realizado no Copacabana Palace teve a participação de K-Ximbinho.

 

                                            A Cena Muda, ed 21,1947, p.30.

 


Reconstituição digital de Inteligência Artificial.

    Segundo  a legenda da revista Cena Muda:

    “SEBASTIÃO DE BARROS, o popularíssimo "K-Ximbinho", clarinetista de primeira linha, compositor e autor do choro SONOROSO, um dos grandes sucessos da música popular brasileira”.(A CENA MUDA, 27/05/1947, p.30).

    A transcrição desse pequeno trecho da revista A Cena Muda, de 1947, oferece um recorte valioso sobre a carreira de K-Ximbinho (Sebastião de Barros) e a valorização da música instrumental brasileira na época.

 Reconhecimento de excelência

    Clarinetista de primeira linha. O texto estabelece imediatamente o alto nível técnico do músico. Naquela década, a clarineta e o saxofone eram instrumentos centrais tanto no choro quanto nas grandes orquestras de rádio, e o destaque dado a ele reforça sua posição como um dos virtuosos do período.

    "Popularíssimo": O uso do superlativo indica que K-Ximbinho não era apenas respeitado pelos pares, mas gozava de amplo reconhecimento do público geral, algo notável para um instrumentista.

O sucesso de "Sonoroso"

    A citação direta ao choro "Sonoroso" é fundamental. Esta composição é considerada uma das obras-primas do gênero, marcada por uma melodia sinuosa e sofisticada que exigia (e ainda exige) grande habilidade do solista.

    Ao classificar a música como "um dos grandes sucessos da música popular brasileira", o texto valida a importância do choro como um pilar da identidade musical nacional, mesmo em uma época em que o samba e o rádio dominavam as paradas.

 Identidade e nome artístico (Sebastião de Barros vs. K-Ximbinho)

      A transcrição liga o nome de batismo ao pseudônimo artístico, que se tornou sua marca registrada. O nome "K-Ximbinho" tem raízes na sua infância (derivado de "Ximba") e na sua atuação em grupos de jazz e orquestras, onde o uso de iniciais ou nomes estilizados era comum.

 Contexto histórico: revista "A Cena Muda"

    Publicado em 27 de maio de 1947, o texto pertence a uma das revistas de cinema e artes mais influentes do Brasil. A presença de um músico como K-Ximbinho nas páginas da revista mostra como a música instrumental estava integrada ao circuito cultural de prestígio, ao lado das estrelas de cinema e do rádio.

    O trecho é um testemunho da "Era de Ouro" da música brasileira, capturando o momento em que K-Ximbinho era celebrado tanto pela técnica impecável quanto pela sua contribuição composicional, imortalizada pelo choro "Sonoroso".

     A  transcrição do texto escrito à mão na parte superior esquerda da foto a baixo consta do seguinte:

    "Ao Sylvio Cardoso, uma lembrança de K-Ximbinho e sua Constellation Orquestra.Rio, Novembro de 1947."

        Já na legenda da foto na revista (Parte inferior central)

        "CONSTELLATION ORCHESTRA. Mais uma vitória de K-Ximbinho”.

      Esta imagem é um registro histórico de enorme valor para a música brasileira, capturando a Constellation Orquestra sob o comando de K-Ximbinho em novembro de 1947.

 

 


 

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.



                                             A Cena Muda, ed.48, 1949, p.29.

 

 O ambiente: estúdio de rádio ou gravação

A disposição dos músicos e os elementos técnicos indicam que a foto foi tirada em um estúdio profissional, possivelmente em uma grande rádio (como a Rádio Nacional) ou gravadora do Rio de Janeiro.

O grande microfone prateado pendurado em um braço mecânico (girafa) no centro da cena é típico das gravações da "Era de Ouro". Ele está posicionado estrategicamente para captar a mistura acústica de toda a orquestra.

As paredes ao fundo parecem ter tratamento acústico (painéis perfurados), reforçando a ideia de um ambiente controlado para alta qualidade sonora.

 

A Formação da Orquestra

A "Constellation Orquestra" reflete a influência das Big Bands americanas no Brasil, mas com o tempero do choro e do samba instrumental.

Seção de Sopros: vemos uma linha de frente robusta com saxofones (tenor e alto) e trompetes ao fundo. K-Ximbinho era um mestre em arranjar para esses instrumentos, fundindo a precisão do jazz com a malícia brasileira.

Seção rítmica e harmônica: à esquerda, vemos um piano de cauda e, logo atrás, um contrabaixo acústico. A postura dos músicos é de total concentração, típica de uma sessão de leitura de partitura.

O Maestro em ação: no canto direito, vemos um músico (provavelmente o regente ou um solista em destaque) com o braço erguido, marcando o tempo ou orientando uma entrada, o que dá dinamismo e vida à fotografia.

 

A dedicatória: um laço de amizade musical

O texto manuscrito "Ao Sylvio Cardoso, uma lembrança de K-Ximbinho..." é um detalhe crucial. Sylvio Túlio Cardoso foi um dos mais importantes críticos de música e divulgadores de jazz no Brasil. Essa dedicatória prova o respeito mútuo entre os músicos e a crítica especializada da época, mencionada inclusive no texto de Ary Vasconcelos que transcrevemos anteriormente.

 

 Estética e identidade

     Os músicos estão impecavelmente vestidos com camisas claras e gravatas, refletindo o profissionalismo e o prestígio social das grandes orquestras de rádio na década de 40.

    O nome "Constellation" evoca modernidade e progresso (remetendo aos famosos aviões Lockheed Constellation da época), sugerindo uma orquestra que mirava o futuro e o som internacional.

Significado histórico

    Esta foto registra o ápice da carreira de K-Ximbinho como líder de conjunto. Em 1947, ele estava consolidando sua transição de um instrumentista de regional de choro para um arranjador de mão cheia, capaz de conduzir formações complexas e modernas.

    A imagem não é apenas o retrato de um grupo musical; é o registro de um momento em que a música brasileira estava em diálogo direto com o jazz mundial, mantendo sua essência através de músicos geniais que dominavam tanto a técnica erudita quanto a popular.





                                                                      A Cigarra, ed.8, 1956, p.117.



segunda-feira, 27 de abril de 2026

SOBRE A RÁDIO EDUCADORA DE NATAL

     A Radio Educadora de Natal foi a primeira emissora de rádio criada na capital potiguar criada em 21/01/1939 conforme indica o informativo de sua criação registrado no jornal A Ordem.

    De acordo com o referido jornal:

    “Natal, 21 de Janeiro de 1939.Ilmo. Sr.Tenho o prazer de comunicar a V. S. que nesta data foi criada nesta Capital, uma sociedade civil denominada Radio Educadora de Natal, tendo como objetivo principal o estabelecimento de uma Estação de Radio Difusora.Sua diretoria efetiva cujos nomes se encontram abaixo, é de antemão, uma garantia da vitória de seus desígnios.Certo de que V. S. lhe dispensará o concurso do seu apoio e simpatia, sirvo me da oportunidade para lhe apresentar as mais respeitosas saudações.Atenciosamente.Silvio de Souza — 1º Secretário.Conselho administrativo —Presidente, João Galvão Filho; Vice-Presidente, Dr. Januário Cicco; 1º Secretário, Dr. Silvio de Souza; 2º Secretário, Dr. José Gurgel; 1º Tesoureiro, José E. dos Santos; 2º Tesoureiro, Moisés Meireles; Orador, Dr. Paulo Viveiros; Procurador, Dr. Ivo Filho.Comissão fiscal —Davi Cunha, João Meireles, Adalberto Marques, José A. dos Santos, Severino A. Bila.Conselho técnico — Diretor de Radio, Carlos Lamas.

O Ante-projeto do edifício da Radio Educadora

    De acordo com o jornal A Ordem em 09/04/1939, às 16 horas, na Avenida Deodoro da Fonseca, com a presença do Interventor Rafael Fernandes foi lançada a pedra fundamental do edifício da Radio Educadora de Natal.

    “Trata-se de um empreendimento de larga envergadura, na qual cabe considerável parcela de representação estudantil e universitária, que têm dado auxílio monetário e apoio moral” registrou o referido jornal.

     Existia grande número de sócios proprietários que subscreveram ações no total de mais de 650:000$. A estação teria uma capacidade de 1 KW ou seja 1.000 Watts e modulação e levaria por isso um raio de ação que abrangeria a maior parte do território nacional.

    Os trabalhos de registro estavam a cargo do Dr. Alberto Bonoti, no Rio, que vinha empregando grande atividade neste sentido.

    O Governo do Estado havia doado um amplo terreno, onde seria localizada a futura estação da Rádio.

    O ato teve a presença do Interventor Federal, Secretário Geral, Diretores de Departamentos, autoridades religiosas e militares, representantes da imprensa, além dos Conselhos Administrativo e Técnico da Sociedade.

    Em nome da Radio Educadora falou o Dr. Paulo Viveiros, orador da mesma, que terminou pedindo ao interventor Rafael Fernandes para considerar lançada a pedra fundamental.

    O interventor proferiu, então, entusiastas palavras sobre a finalidade da novel sociedade, congratulando-se com os seus promotores pela oportunidade da iniciativa.Discursou também o Dr. Celso Ramalho.Foram batidas várias chapas fotográficas.

    O anteprojeto do edifício da Rádio Educadora de Natal, assinado pelo arquiteto Roberto de Miranda Ramos, é um exemplar fascinante da transição para a modernidade na arquitetura potiguar.

    Abaixo, apresentamos uma análise técnica e estética baseada nos elementos visuais das imagens restauradas por Inteligência Artificial: 

Estilo arquitetônico

    O projeto é fortemente influenciado pelo Art Déco, especificamente na vertente Streamline Moderne (ou Marajoara/Navio), que era tendência nas décadas de 1930 e 1940. Note-se as características marcantes: a horizontalidade é enfatizada pelas longas varandas e pelas platibandas (essas molduras que escondem o telhado), conferindo uma sensação de dinamismo e velocidade e os cantos arredondados.

Reconstituição digital por InteligÊncia Artificial.

    O volume frontal curvo é a assinatura desse estilo, remetendo à estética industrial e aerodinâmica da época.

 Composição volumétrica e funcionalidade

    O edifício se organiza em volumes escalonados, o que cria um jogo de sombras interessante e permite o uso de terraços em diferentes níveis.

    O "Farol" é o volume mais alto, centralizado no topo, assemelha-se a uma torre de controle ou cabine de comando. Em um edifício de rádio, isso simboliza a propagação das ondas e a vigilância técnica.

    Fenestração (Janelas). O uso de janelas em fita e grandes vãos envidraçados indica uma preocupação com a iluminação natural e a ventilação, essenciais para o clima de Natal.

Elementos de Linguagem Moderna

    Embora ainda preserve ornamentos sutis, o projeto já apontava para o Modernismo, como:

    Pilotis e espaços vazados.Há uma integração entre o térreo e a rua, sugerida pelo recuo e pelas colunas finas que sustentam o primeiro pavimento.

    Guarda-corpos metálicos.Os tubos horizontais nas varandas reforçam o aspecto náutico e a leveza da estrutura.

    Ausência de telhado aparente.O uso da laje plana é um rompimento com a arquitetura colonial e neoclássica anterior.

 Importância histórica e simbólica

    Projetar uma sede para uma rádio naquele período não era apenas um desafio de engenharia civil, mas de comunicação visual. O edifício precisava parecer "o futuro".

    O uso de uma tipografia geométrica e imponente no topo (como visto na restauração) reforça a identidade institucional.

    O arquiteto Roberto de Miranda Ramos conseguiu equilibrar a sobriedade necessária a um órgão educativo com a ousadia formal que o progresso tecnológico da rádio exigia.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.

    Em resumo, era  um projeto que respirava o otimismo da época. Ele transforma a função técnica de transmitir sinais de rádio em uma declaração arquitetônica de vanguarda, sendo um marco na paisagem urbana e na memória da arquitetura institucional de Rio Grande do Norte.


                                                                         A Ordem, 09/04/1939, p.4.

PS. Permitida a reprodução desde que citado o blog.