Conforme se lia no jornal A República
em 09/12/1890 “foi inaugurada no dia 8 deste mês a via férrea de Ceará-Mirim,
com pompa e formalidades de estilos”.
Eis o relato da solenidade segundo o
mesmo jornal.
Das 06h30 as 07h00 começaram a afluir
ao local da festa a população que ali se congregou.Estava a estação da Coroa
verdejantemente ornamentada, tingido na parte que fica em frente a cidade e ao
rio Potengi um bosque denso,assinalado por diversas bandeiras e galardates, que
se estendiam até a parte oposta do edifício.
Aproximadamente as 08h00 o governador
Manoel do Nascimento Castro e Silva, dirigindo-se com o pessoal ao lugar
designado, fez uma rápida e eloquente alocução inaugural, pediu para proclamar
o ato ao engenheiro Brunet, chefe da estrada de ferro do Ceará-Mirim, o qual
depois de confirmar a inauguração, entregou ao governador uma pá dourada, com a
qual ele lançou a primeira pá de terra, seguindo-se-lhe a gentil esposa do
engenheiro Brunet, que inteligentemente disse querer ser das primeiras a dar o
exemplo edificante do trabalho, fazendo todos os circundantes o mesmo.
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Na parte superior da imagem aparece o aterro onde estava situada a estação da Coroa. |
Neste momento foi fotografado pelo
engenheiro João Vieira da Cunha o belo quadro daquela reunião do trabalho e da inteligência.Após
isso voltou-se a estação da Coroa que ficava a vista e ali o engenheiro João
Vieira leu a ata de inauguração daquela futurosa empresa,depois do que o Dr.
Diogenes da Nóbrega felicitou em breve alocução o florescimento da pátria riograndense,
fazendo votos para que esse espírito de iniciativa e de civilização que e
República implantou neste solo abençoado perdurasse sucessivamente em toas as
gerações por vir.
Seguiu-se um lauto banquete, situado
naquele meio pitoresco e de aspecto campestre, circundado de ramos e folhagens,
tomando todos lugar de pé a mesa, ideia original e que causou-se harmoniosamente com a
disposição da festa, durante a qual tocava a, curtos intervalos uma banda de
música.
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No centro da imagem em linha reta o aterro da Coroa de onde partia a Estrada de Ferro do Ceará-Mirim, posteriormente EFCRGN. |
Ao champagne levantaram-se diversos
brindes, sendo o mais notável o do Dr. Braz de Melo ao Governador, salientando
as alevantadas qualidades de seu espírito lucidissimo e de seu caráter limpidissimo
e inquebrantável, delapidado em dez anos de vida pública, que representavam um
esforço continuado em prol da causa pública, sem um momento de hesitação, o Dr.
Agusto aos agricultores do Ceará-Mirim, ali representados pelo Tenente coronel
José Varela; do Dr. Diógenes a mulher ali brilhantemente representada pela
esposa do engenheiro Brunet, do Dr. Chaves filho a patriótica e distinta
representação do Estado, sintetizado no vulto proeminente de seu chefe Dr. Pedro
velho, do Governador Nascimento de Castro ao ínclito generalíssimo Deodoro da Fonseca,
presidente da República a época.
Seguiu-se outras mesas de comidas,
prolongando-se a festa até o meio dia.
Fonte:
A República, 09/12/1890, p.2.
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A estação da Coroa já como estação inicial da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte por volta de 1915. |
Notas:
- A Estrada de Ferro do Ceará-Mirim teve sua primeira concessão dada pelo governo provincial em 1870, pela qual a ferrovia deveria partir da capital potiguar indo até o vale do rio Ceará-Mirim, sendo ela uma antiga reivindicação dos donos de engenhos daquele vale.
- A estação da Coroa mencionada a cima
ficava na margem esquerda do rio Potengi, sendo ela a estação inicial ou
central da Estrada de Ferro do Ceará-Mirim e posteriormente da Estrada de Ferro
Central do Rio Grande do Norte, a partir de 1906.
- A travessia para o porto de Natal na
Ribeira na margem direita do Potengi se fazia por meio de uma balsa da própria ferrovia
que fazia o percurso com os passageiros e as mercadorias transportadas pelos
trens, tal situação perdurou até a inauguração da ponte de Igapó em 1916.
- A
estação não existe mais, foi demolida, no local se encontram as ruínas dela em
meio a vegetação do mangue.