Dudé Elias (Joselias Medeiros, Taipu 1957, São Paulo,2013) foi um escultor reconhecido por sua arte em todo Estado do Rio Grande do Norte, menos, é claro, na sua cidade de origem, a "doce e amada Taipu" (contém ironia), terra onde só se valoriza o “povo de fora”, como diz um velho ditado das terras do papagaios.
 |
| Tribuna do Norte, 22/11/1979,p.18. |
Em 22/11/1979 o jornal Tribuna do Norte publicou uma matéria a respeito do referido artista taipuense e sua arte. Eis a seguir o texto completo da matéria.
Elias: criatividade a serviço de uma arte maior
Todo material utilizado para se fazer uma escultura tem a característica de ser duro, resistente e de proporcionar um tipo de polimento como nenhum outro material. Isto significa que o escultor, quando pretende usar a luz como elemento de composição, só encontra na junção entre cimento e barro um instrumento adequado de trabalho. Assim, Elias José Medeiros vai recriando/transformando barro e cimento em artesanato, para desenvolver seus trabalhos expressivos.
Elias, como é conhecido, em Natal, escultor que no momento exibe um elenco de peças em diversas residências da cidade, é um artesão que consegue retirar proveito de cimento com extrema maestria. As sombras e a luminosidade trabalhadas no material contribuem para a construção das formas, dotando-as de um certo ar de mistério. Aqui fica evidente sua preocupação artesanal na transformação de elementos quase-químicos, num resultado final artístico de grande nível.
TRIDIMENSIONAL
Ao se tocar com as mãos a superfície das esculturas, na parede de uma residência na Praia do Meio, elas são irradiavelmente frias, mas olhando-as, parecem irradiar calor. A luminosidade que surge do polimento das áreas das peças cria massas de luz, que sob a lei da pregnância — uma linha seccionada por traços tem a característica de mostrar como uma linha contínua — constrói a forma tridimensional, embora a matéria seja escavada e côncava ou insinue ligeiramente um volume. Tudo na obra de Elias é intencional, e isto prova a variedade de temas que ele aborda, mesmo tendo como base os trabalhos de seu grande influenciador, Jordão, com quem trabalhou durante algum tempo.
O artista, portanto, trabalha a luz como uma forma virtual da escultura. Fora esta qualidade artesanal, é preciso ainda salientar a suavidade com que Elias elabora as linhas ondulantes — inspiradas no desenho do corpo humano —, que se seguem em movimentos circulares, criando sempre uma forma doce, e ao mesmo tempo interligando os espaços abertos e fechados. Essas linhas têm ritmo natural e conferem um quê de erótico às esculturas. Algumas áreas das peças são corroídas, em oposição a outras muito polidas: o contraste valoriza mais a superfície polida das esculturas.
As esculturas de Elias insinuam a imagem, sugerem formas, deixando ao espectador a tarefa de complementá-las, e até mesmo de recriá-las. Cada indivíduo vê aquilo que lhe parece, embora a fantasia mitológica sempre parta do objeto real do projeto artístico feito pelo escultor. Elias sabe como ninguém recriar temas e abordagens que sugere todo um lado vivencial, de magia e lenda: são sereias e mitos que sobrevivem em nossas mentes e tem uma ligação direta com os mistérios do mar potiguar.
O artista oferece ao público, fora a fruição estética, é claro, uma visão excelente de artesanato profissional do escultor. Isto fica evidente quando ele acrescenta: "Procuro fazer um trabalho sempre com bases na minha vivência. Não acredito em saturação de mercado dentro deste campo. As pessoas que procuram comprar ou mandar fazer artes são pessoas que possuem um nível cultural elevado. Daí não vejo porque o medo de saturação de mercado. E se existir algo busco na madeira uma fonte de novo caminho-escultural."
CARREIRA
Iniciando sua carreira dentro deste processo criativo em 1977, Elias acredita que o andamento de sua trajetória criativa pode estar vinculada ao processo evolutivo que o artista vai sofrendo no percurso de tempo. Para ele "o artista é a continuação da vida" ligado no desenvolvimento de suas propostas mais urgente. Optando por um caminho mais livre e criativo ele aceita que sua obra possa ser comparada com a de artistas que se posiciona diante da realidade mais precisa. "O artista é a continuidade do homem, em qualquer situação mais abrangente".
O marco inicial da carreira de Elias está diretamente ligado com o trabalho realizado em Taipu, onde realizou um painel com dez metros focalizando uma sereia. Aqui fica evidente uma busca constante dentro da mitologia brasileira um andamento ligeiro para a conclusão de trabalhos que refletem uma realidade vivencial. "Eu cresci escutando histórias de sereia, peixe grande e outros pontos do folclore potiguar. Então essa temática fica bem clara dentro de nossa posição. Meu trabalho procura fazer esta clareza nos temas que tento focalizar".(Tribuna do norte, 22/11/1979,p.18. Os grifos são nossos).
O texto da mencionada matéria oferece um mergulho profundo na técnica e na filosofia de Elias José Medeiros, revelando como ele elevou o uso de materiais rústicos, como o cimento e o barro, ao status de "arte maior".
Aqui está uma análise dividida pelos eixos principais do artigo:
A alquimia dos materiais e a técnica "quase-química"
O texto destaca uma característica fascinante: a transformação de materiais tradicionalmente frios e brutos (cimento e barro) em algo que irradia calor e mistério.
Domínio da luz
Elias não esculpia apenas a matéria; ele esculpia a luz. O artigo menciona o uso de polimentos estratégicos para criar "massas de luz" e o jogo entre superfícies polidas e áreas "corroídas", o que confere tridimensionalidade e profundidade às peças, mesmo quando são escavadas ou côncavas.
Contraste sensorial
Existe uma dualidade interessante citada — a peça é fria ao toque (pela natureza do cimento), mas transmite calor ao olhar, evidenciando uma maestria técnica que subverte a natureza do material.
A estética: entre o humano e o erótico
A influência das linhas ondulantes do corpo humano é um ponto central. O autor do texto observa que Elias utiliza movimentos circulares para criar formas "doces" e rítmicas, que conferem um tom sutilmente erótico às esculturas. Essa suavidade contrasta com a dureza do material, humanizando o concreto e o barro.
A Mitologia Potiguar e o "lado vivencial"
Este é talvez o ponto mais rico para a história cultural da região. A obra de Elias não é meramente decorativa; ela é narrativa e identitária.
O artista utiliza mitos que "sobrevivem em nossas mentes", como sereias e mistérios marinhos.
Referência a Taipu
O texto identifica um marco geográfico e artístico crucial: o painel de dez metros em Taipu, focado em uma sereia. Isso mostra como Elias transpôs as histórias que ouviu na infância ("peixe grande", "sereias") para monumentos físicos, imortalizando o folclore local em escala monumental.
A filosofia do artista e o mercado
Elias demonstrava uma postura confiante sobre a relevância da arte. Ele rejeita a ideia de saturação de mercado, acreditando que o público de "nível cultural elevado" sempre buscará a expressão artística autêntica.
Ao afirmar que "o artista é a continuidade da vida", ele deixa claro que sua obra é um processo em constante mudança, mencionando inclusive a disposição de transitar para outros materiais, como a madeira, se necessário.
Genealogia artística
O texto estabelece uma linhagem importante ao citar Jordão como seu grande influenciador e mestre. Isso situa Elias dentro de uma tradição de escultores que souberam trabalhar a plasticidade de materiais de construção, transformando-os em patrimônio artístico residencial e público em Natal e no interior do estado.
O artigo apresenta Elias como um artista que domina a Psicologia da Forma (citando inclusive a lei da pregnância). Ele não entrega uma imagem pronta, mas "insinua a imagem", convidando o espectador a completar a obra com sua própria percepção.
Para a história de Taipu e do Rio Grande do Norte, Elias foi o escultor que deu corpo de cimento aos sonhos e lendas do povo potiguar.
Elias foi embora de Taipu, sacudindo a poeira dos sapatos pra nunca mais voltar depois que sua obra prima a Sereia por ele esculpida em cimento armado na praça Dez de Março foi destruida.Sentindo-se desvalorizado em seu trabalho, como tantos outros artistas locais, foi radicar-se em São Paulo onde veio a falecer em 2013.
As autoridades constituidas e eleitas de Taipu (prefeitos e vereadores) nunca repararam o erro cometido tanto ao aritsta como a cidade (a Sereia de Dudé Elias foi o primeiro monumento artistico construido em Taipu), reconstruindo o monumento, ao contrário, ao lono dos anos sempre deixaram a praça mais feia e sem mounumentos artisticos, parecendo o fiofó de quem realizou as reformas da praça ao longo do tempo.
 |
| Colorização por meio de Inteligência Artificial. |