segunda-feira, 2 de julho de 2018

RARIDADES SOBRE A ESTRADA DE FERRO CENTRAL DO RIO GRANDE DO NORTE



       Quando você acha que nada mais há sobre o que você  mais pesquisa eis que surge como por encanto as imagens a seguir, raridades raríssimas ( com o perdão do pleonasmo) sobre a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte.As imagens foram postadas na página de Junior Oliveira a quem agradecemos pela pesquisa e achamento dessas relíquias.     
        Para se entender as imagens a seguir necessário se faz o texto a baixo para situar o dileto leitor no contexto.
A estrada de ferro do Ceará-Mirim
         Uma ferrovia que ligasse  a capital ao vale do rio Ceará-Mirim era uma aspiração antiga dos produtores da região.
         Inicialmente foi levantada a hipótese de se construir a ferrovia como um ramal da Estrada de Ferro Natal a Nova Cruz ainda no período imperial, tendo sido aprovado o projeto, porém nenhuma empresa se habilitou a construir o ramal mesmo com as garantias de juros de 7% dado pelo governo imperial.
         Já na República o governo estadual do Rio Grande do Norte deu uma concessão para se construir a Estrada de Ferro do Ceará-Mirim.O  projeto da Estrada de Ferro de Ceará-Mirim achava-se aprovado em 1890 e pronto para começarem os serviços de sua construção (GAZETA DO NATAL, 16/08/1890 p. 2).
            A ferrovia teria 43,12 km e ligaria a capital potiguar ao vale do Ceará-Mirim, vale este de aptidão agrícola da cultura da cana-de açúcar e que naquele vale era plantada e beneficiada em diversos engenhos e usinas.Segundo dados oficiais o vale do Ceará-Mirim era em todo Rio Grande do Norte a região que concentrava maiores elementos de prosperidade agrícola.
Características técnicas
         Segundo o projeto da estrada de ferro de Ceará-Mirim a ferrovia constava de estações em Natal, na margem esquerda do rio Potengi, Ceará-Mirim e Paraíso e paradas em Aldeia Velha, vila de Extremoz, Raposa e Cruzeiro.Em Ceará-Mirim seriam construídas as oficinas.
         Haveria na ferrovia obras de arte importantes tais como: ponte-trapiche na Coroa com 100 metros de comprimento e 10 de largura onde os navios poderiam atracar e serem abastecidos, uma ponte viaduto em Extremoz e ponte sobre o rio Ceará-Mirim.O orçamento da construção foi de 1.405:000$000.
         A Comissão de Construções, empresa que havia ganhado a concessão pouco avançou nos trabalhos o que ocorreu a rescisão do contrato por que a empresa não cumpriu o prazo para finalizar a obra.A construção da ferrovia ficou então paralisada.
A Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte
A lei 1.145, de 31 de dezembro de 1903, autorizou o governo a mandar proceder aos estudos duma estrada que, partindo do ponto mais conveniente do litoral do estado do Rio Grande do Norte, fosse ter aos sertões desse estado, penetrasse nos da Paraíba, Pernambuco e Ceará, e aí, ligando-se à Estrada de Ferro de Baturité, no ponto mais conveniente, completasse em parte o plano geral de viação férrea do Norte do Brasil.
         Feitos esses estudos, verificou o governo que a linha férrea de penetração que mais convinha aos interesses gerais era a que fosse construída em prolongamento da antiga Estrada de Ferro de Natal a Ceará-Mirim, já então estudada, não só por ser o porto de Natal o mais apropriado para centro de convergência da futura rede de estradas de ferro do Rio Grande do Norte, como também por ser esse traçado o que melhores condições técnicas apresentavam, como se verificou dos estudos de reconhecimento efetuados em diversos vales dos principais rios da região.
         Pelo decreto nº 5.703 de 4 de outubro de 1905, foram então aprovados o projeto geral da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte e os estudos definitivos do primeiro trecho, cuja construção foi imediatamente iniciada pelo governo.
A intenção do governo federal  ao criar a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte era fornecer trabalho aos retirantes que se amontoavam em Natal fugidos da grande seca daquele ano.
Uma comissão chefiada pelo engenheiro Sampaio Correia chegou a Natal em 1904 para se iniciar a elaboração do projeto da ferrovia.
         A comissão achou que o traçado mais viável para a EFCRN seria o traçado que já havia sido iniciado pela Estrada de Ferro de Ceará-Mirim, ou seja, partindo da margem esquerda do rio Potengi passando por Igapó ou Aldeia Velha atingindo Extremoz e chegando ao vale do Ceará-Mirim na cidade homônima. O que a comissão de Sampaio Correia fez foi apenas acrescentar o traçado além de Ceará-Mirim projetando a ferrovia para alcançar a região do seridó tendo como ponto final a cidade de Caicó
         A comissão de construção da EFCRN havia executado até o mês de julho de 1905 obras importantes para o assentamento do leito da estrada de ferro de Ceará-Mirim.
        A construção da Coroa estava avançada e deveria em breve ficar pronta, foram concluídas as muralhas do aterro do Salgado, ficaram prontos bueiros na estaca 618x13 e o pontilhão do sangradouro do açude do Vilar na estaca 379x45 (A NOTICIA, 22/08/1905, p. 2).
      No km 4 foi construída uma caixa d’água com moinho de vento para acionamento da bomba de alimentação de fornecimento de agua. A ponte de Extremoz foi concluída e iniciada a colocação do estrado menor já bem adiantado. Do corte nº 1 foi extraído cerca de 4,5 toneladas de terras (A NOTICIA, 22/08/1905, p. 2).
 A Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte foi oficialmente inaugurada em 13/06/1906 com a presença do então presidente da República Afonso Pena.
  Como visto a EFRCN aproveitou a estrutura já iniciada da Estrada de Ferro do Ceará-Mirim[1].

A estação de Extremoz
A estação de Extremoz foi construída no km 21 da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte tendo sido inaugurada em 13/06/1906.
A época Extremoz era um distrito de Ceará-Mirim, embora sua edificação remontasse ao século XVII, quando ali foi criada uma aldeia missionária pelos padres da Companhia de Jesus, os jesuítas, com o intuito de catequizar os índios que tinha ali suas tabas.
 Extremoz alcançou autonomia política e administrativa somente em 1963, de modo que a estação passa a ser efetivamente deste município a partir desse ano, antes disso era pertencente ao município de Ceará-Mirim. 
     Os seus habitantes mantinham-se de pequenas lavouras cultivadas a margem da lagoa que lhe dava nome. Já havia alcançado a condição de vila e sede do município, na época da chegada da ferrovia, achava-se em decadência.
       A lagoa de Extremoz era o principal atrativo do então distrito de mesmo nome, com seus 18 km de extensão. As construções antigas do século XVII, como  a igreja e o antigo convento dos jesuítas estavam em ruínas, causado pelo a abandono, fruto da transferência da sede municipal e da paróquia.
 O distrito de Extremoz tinha em 1906 cerca de 60 casas e 300 habitantes.
Sobre a inauguração da estação ferroviária de Extremoz
A estação de Extremoz fazia parte da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte-EFCRN, posteriormente Estrada de Ferro Sampaio Correia-EFSC, e está situada no km 21 da ferrovia. A inauguração ocorreu em 13/06/1906, na época Extremoz ainda era distrito de Ceará-Mirim.
A solenidade de inauguração do trecho entre Natal e Ceará-Mirim na qual foi inaugurada a estação de Extremoz teve início as 09h30min do dia 13/06/1906, ao ato esteve presente o então Presidente Afonso Pena e assistido pelo governador, chefes de repartições públicas e grande número de convidados.
Do relato da inauguração de Extremoz nos jornais locais tem-se o seguinte “O ato teve lugar na parada de Extremoz, onde serviu-se uma mesa de finas massas, doces, vinhos, champanhe, café etc” (DIÁRIO DO NATAL, 14/06/1906, p. 1). O engenheiro Carneiro da Rocha proferiu importante discurso findo o qual declarou inaugurada a estrada.
Depois de inaugurada a estação e Extremoz partiu o trem para a cidade de Ceará-Mirim e de lá a comitiva retornou a Natal as 16h30min.
A estação de Ceará-Mirim
        A estação da cidade de Ceará-Mirim foi inaugurada em 13 no km 39 da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte.
O município compreendia os distritos de Ceará-Mirim, Extremoz, Capela, Genipabu, Carnaubal e Muriú. A paróquia dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Sede comarca. Cultivava-se extraordinariamente a cana de açúcar. A população era de 26.000 habitantes e 796 eleitores.
       A cidade sede do município, se situa a margem direita do rio com o mesmo nome, foi elevada a esta categoria em 09/07/1882, tinha 680 casas, 2.720 habitantes.
    Os distritos tinham a seguinte demografia: Extremoz: 60 casas e 300 habitantes; Genipabu: 30 casas e 180 habitantes aproximadamente; Jacumã: 42 casas e 220 habitantes; Muriú: 55 casas e 330 moradores; Queri: 31 casas e 150 moradores; Capela: 40 casas e 26 moradores e Jacoca: 35 casas e 180 moradores.
     O município possuía 2.800 km² de extensão. Limitava-se a época com Touros ao norte, a leste com Oceano Atlântico, São Gonçalo a sul e Taipu a oeste.
Economia
O município era considerado o mais fértil do estado, onde se cultiva em grande escala além da cana de açúcar, feijão, milho e algodão.
O grande vale do Ceará-Mirim devidamente cultivado seria uma fonte perene de recursos para os sertanejos nos tempos de calamidade, porém, havia grande falta de investimentos, sobretudo de capitais, onde a lavoura se achava em verdadeira penúria de longo tempos.
  No vale havia 51 engenhos onde se fabricavam açúcar, rapadura, mel e aguardente, destes, 34 eram movidos a vapor e 17 por tração animal. Havia 100 casas de farinha e uma fabrica de descaroçar algodão movido a vapor. O plantio de cereais e outras culturas era feito em cerca de 400 roçados que em épocas de invernos regulares a safra atingia a marca de 200 mil sacos, a de algodão 2.000 sacos, 2.000 de milho e feijão.
 Com relação ao comércio havia a importação de fazendas, ferragens e gêneros de estivas, com movimentação em torno de 300 contos. Existiam 35 estabelecimentos comerciais e uma fundição.


                                          Estação Natal
Imagem original da estação Natal

Imagem editada para mostrar melhor os detalhes da estação

imagem original da estação Natal
imagem editada da estação Natal


   
        A estação Natal era a estação inicial da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, localizada na margem esquerda do rio Potengi, como visto nas imagens ela ficava sobre um aterro que foi feito no mangue de onde partia o leito da ferrovia em direção a então vila de Igapó ou Aldeia Velha como também era conhecida Igapó. A estação Natal também era conhecida como estação da Pedra Preta, do Padre ou Coroa.
        A estação Natal foi inaugurada em 08.12.1890 conforme indica o jornal Gazeta de Natal, segundo o qual no ato da inauguração da Estrada de Ferro de Ceará-Mirim "a concorrência de povo e de cidadãos importantes à estação da Coroa foi enorme ou antes foi esplendida"( GAZETA DO NATAL, 1890,p.2), ainda segundo o mesmo jornal ali foi servido um "lauto almoço oferecido a todos os convivas que se dignaram assistir aquela ruidosa festa do trabalho, progresso e civilização"( GAZETA DO NATAL, 1890,p.2)
Para fazer a travessia da margem esquerda para a margem direita (cais da Tavares de Lira na Ribeira) a EFCRN adquiriu um balsa onde eram feitos os traslados dos passageiros de uma margem a outra, assim como as mercadorias.Essa situação vigorou até a inauguração da ponte de Igapó em 1916.


                                         Estação Igapó
Imagem original da estação Igapó
                                                     
Imagem editada da estação Igapó.


        Segundo o site http://www.estacoesferroviarias.com.br a  estação de Igapó foi inaugurada em 1915 localizada em terra firme no alto de uma colina na zona norte de Natal, no entanto, o jornal A República já cita a estação da Aldeia Velha em 1907 como parada da EFCRN (A REPÚBLICA, 1907, p.1), ou seja já havia uma estação no Igapó anterior a 1915.

                                                       Ponte sobre o rio Salgado
Imagem original

imagem editada

         O rio Salgado é um braço de rio do Potengi e para se prosseguir a ferrovia teve que ser feito um aterro e uma ponte sobre o rio em direção a Extremoz.



                                                             Estação Extremoz
Imagem original
Imagem editada.
         Como visto a cima na inauguração da estação de Extremoz serviu-se uma mesa de finas massas, doces, vinhos, champanhe, café etc” (DIÁRIO DO NATAL, 14/06/1906, p. 1).Na imagem a cima vê-se que há apenas uma estrutura de cobertura em madeira sobre uma plataforma onde se indica que não seria adequado servir um banquete no ato da inauguração que contaria com a presença do presidente da República.
        A conclusão que se chega é que se trata de uma estação ‘provisória’, em construção anterior a inauguração de 13.06.1906.

                                           Viaduto de Extremoz
Imagem original
Imagem editada.
              O viaduto da EFCRN em Extremoz foi erguido no sangradouro da lagoa de Extremoz.Notem ao lado a caixa d'água onde eram abastecidos os trens de locomotiva a vapor e mais tarde com vagões que levavam água para o ser~toa em períodos de secas.A caixa d'água da EFCRN também a tendia a população de Extremoz que foi uma das primeiras localidades do interior do RN a ter um sistema de abastecimento de água feito pelo engenheiro Sampaio Correia da EFCRN com a intenção de se candidatar a deputado federal como de fato o foi e se elegeu.


Imagem original
Imagem editada.



         Igualmente com a de Extremoz a estação de Ceará-Mirim foi inaugurada em 13.06.1906.Notem que os trilhos e os dormentes ainda estavam sendo colocados, de onde podemos concluir que se trata de uma imagem anterior a inauguração.



[1] “do Ceará-Mirim” porque se refere ao vale e não só a cidade, ou seja, a ferrovia seria para todo o vale do rio Ceará-Mirim.

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