Os
autores do projeto
O projeto arquitetônico para o
novo prédio regional dos correios e telegáfos de Natal foi apresentado em 1933,
sendo o mesmo de autoria de Mário Fertin e Paulo Candiola.
Mario
Fertin
Diplomado
pela Escola Nacional de Belas Artes em 1917 com grande medalha de prata.
Classificado em 2º e 1º lugar respectivamente no concurso de projetos para as
portas norte e sul da Exposição do Centenário; e recompensado com medalha de
Premiando no Salão de Bellas Artes com Menção Honrosa.
Obteve 1º
logar no concurso do “Lar Brasileiro” de
projetos para residências. Destacou-se pela operosidade e pela competência
profissional, tão sobejas vezes confirmada.[1]
Paulo
Candiota
Diplomado
pela Escola Nacional de Belas Artes em 1926 com pequena medalha de ouro. Premiado
com Menção Honrosa no 3º Congresso Pan-Americano de Arquitetos e grande Medalha
de Ouro no IV Congresso.
Premiado
no Salão de Belas Artes com os seguintes prêmios: Prêmio Minerva, Menção
Honrosa do 2º e 1º grau e Medalha de Bronze. Sócio correspondente da sociedade
de arquitetos de Buenos Aires, Montevideo e Cuba, e membro do Conselho
Deliberativo do Instituto Central de Arquiitetos do Rio de Janeiro.[2]
O
projeto
O
edificio projetado destinava-se á instalação da Diretoria Regional dos Correios
e Telegráfoos do Rio Grande do Norte em Natal.
O terreno
destinado a receber a construção era de forma retangular e ficava situado em
uma esquina formada por uma ampla avenida e uma rua de menos importância, que
ia em direção perpendicular ao cais do rio Potengi e por onde aquela época
circulava uma linha de estrada de ferro medindo por aquela 34,25 e por esta
31,15.
Para que
ficasse a construção mais ou menos dentro dos limites da verba de 400:000000, reservada
para tal fim, a Diretoria do Material do Departamento dos Correios e Telégrafos,
estabeleceu previamente que fosse fixado em 35.0000 por metro quadrado de
pavimento o custo provavel da construção.
Foi o
edificio projetado mais ou menos dentro destes limites, somando as áreas dos
dois pavimentos 627m², exceto a garagem que mediria 41m² e cuja base de preço
por metro quadrado era menor.
Quanto ao
partido aquiitetônico de fachada a adotar, por si só a situação do terreno,
indicava, pela grande diferença de importância entre as artérias nas quais ele
ficaria situado.
O partido
aquiitetônico de ângulo, isto é aquele no qual esta parte do edificio
dominasse, fazendo-se por ai o acesso principal ao mesmo, não seria plausivel,
em vista de ficar esta parte em posição oposta á direção da parte central da
cidade.
Por isso foi escolhido como partido mais lógico o
do completo domínio da fachada da Avenida, em cujo eixo foi localizada a
entrada principal.
O projeto
do edifício foi estudado de forma a oferecer, não só ao público como aos
funcionários que nele trabalhariam, o máximo de conforto e comodidade como
ainda completa independência da parte procurada pelo público daquela destinada
aos funcionários ou de serviço.
Para o
público foi colocado na frente o grande “hall” com entrada direta para as
Agencias, acesso fácil e imediato a todos os guichês, sem ter entretanto
contato direto com a circulação dos funcionários, o que em regra geraria
perturbação bastante do serviço.
A parte de
serviço estava dividida em quatro grupos, compreendendo a Diretoria Geral,
Serviço Postal, Serviço Telegráfico e Seção de Valores ou Tesouraria.
A Direção
Geral, formada pelo gabinete do Diretor Regional e seus auxiliares, sala de
espera, expediente e seção econômica, e ainda a Biblioteca e a Contadoria
Regional, estaria localizada no 2º pavimento, na parte da fachada principal,
com acesso pela escada principal á direita de quem entraria ao edificio.
O serviço
postal estava todo ele localizado na ala esquerda do 1º pavimento, com ligação
direta para os guichês e dependências, das caixas de assinantes,
"colis", registrados sem valor, posta-restante, aereo-expressa e coleta.
O serviço
telegráfico, que compreendia seções completamente distintas, como sejam: expedição
e recepção de telegramas, sala de aparelhos e usina elétrica estava distribuido
pelos dois pavimentos do edificio.
Os guichês
de recepção e expedição estavam no 1º pavimento no
"hall" do público e a seção de expedição e estafetas. A sala de
aparelhos ocuparia a parte dos fundos da ala da frente do edificio, no 2º
pavimento, com os respectivos gabinetes do chefe do tráfego telegráfico e chefe
de linhas e instalações e com ligação por meio de tubos e elevador manual com o
guichê de recepção e a sala de expedição do 1º pavimento.
A usina elétrica ficaria na parte dos fundos
do 2º pavimento e na ala direita estariam localizados o aquivo e sala de inspetores
e guarda-fios, praticantes e rádio.
Na parte
central do edificio, dando para a pátio interno, estariam localizados os
aparelhos sanitários para ambos os sexos, varanda para café, e pequena oficina
e arquivo do dia ligados á sala de aparelhos.
A
Tesouraria ou seção de valores, estaria situada no 1º pavimento e por trás dos
guichês de valores com seu arquivo e casa forte.
Haveria
duas escadas de acesso ao 2º pavimento, sendo uma principal á direita de quem
entrasse no edificio, com fácil acesso pelo "hall" público, tendo ao
lado a portaria e informações, e outra de serviço nos fundos da ala direita, no
"hall" de serviço, com entrada pela rua de menor importância.
Na mesma
posição dos serviços sanitários do 2º pavimento achariam-se os do 1º. A
circulação dos automóveis de serviço far-se-ia com toda a facilidade no pátio
interno com entrada situada na avenida, sendo o material ou correspondência
descarregados diretamente no almoxarifado que ficaria nos fundos do 1º
pavimento ou na sala de conferência.
A circulação dos funcionários far-se-ia por meio de galerias que no 1º pavimento ligariam o "hall" de serviço com as demais dependências e no 2º pavimento ligam o "hall" ás duas escadas.
Maquete do projeto do prédio dos correios de Natal
| Fonte: revista da Diretoria de engenharia, nº 5, 1933, p.7. |
Análise
e descrições técnicas da volumetria da maquete
A análise
da maquete do projeto da diretoria regional dos correios e telégrafos de Natal revela
um projeto de Art Déco racionalista
extremamente bem resolvido para o clima e as necessidades de Natal na época.
O texto
justifica a escolha de não usar o "ângulo" (esquina) para o acesso
principal, preferindo a orientação para o centro da cidade.
Na maquete vemos
claramente o corpo central avançado
(o avant-corps), onde se localiza o "hall" do público. Os três
grandes vãos de entrada na maquete correspondem exatamente ao ponto de maior
importância da fachada principal.
A escada principal, mencionada como estando "á direita de quem entra", ficaria logo atrás dessa primeira linha de vãos.
Setorização
Funcional (pavimentos)
|
Setor |
Localização no Texto |
Correspondência na Maquete |
|
Público / Postal |
1º Pavimento (Hall e
Guichês) |
O térreo com amplas
aberturas para atendimento. |
|
Administração |
2º Pavimento (Diretoria
e Biblioteca) |
O andar superior, com
janelas em fita que garantem luz natural. |
|
Telegrafia |
2º Pavimento (Fundos da
ala da frente) |
O bloco que se estende
para trás, acima do pátio interno. |
|
Serviço/Valores |
1º Pavimento
(Fundos/Casa Forte) |
Área protegida, com
menos aberturas externas visíveis. |
Logística e comunicação
interna
Pátio Interno: a maquete mostra um recuo central em "U". O
texto confirma que este é o pátio interno, essencial para a
entrada de automóveis da avenida e para a ventilação das galerias de circulação
dos funcionários.
Ala Direita: o texto cita que na "ala direita" estão o arquivo,
sala de rádio e guardas-fios. Na maquete, esse é o volume lateral que possui
uma entrada de serviço independente pela "rua de menor importancia".
Verticalidade: as torres
estilizadas que vemos na restauração da maquete não são apenas decorativas;
elas geralmente abrigavam as caixas d'água ou os sistemas de comunicação por tubos e o elevador manual mencionados.
Este
edifício é um exemplo primoroso de como a arquitetura institucional de Natal
estava alinhada com a modernidade técnica da época (usina elétrica própria,
elevadores, tubos de sucção).
Essa imagem apresenta uma arquitetura fascinante, que é um exemplo clássico do Modernismo com forte influência do Art Déco e do Racionalismo.
Análise
detalhada dos elementos principais:
O edifício exibe uma
estética Art Déco tardia (frequentemente chamada de Streamline Moderne ou
Protomodernismo).
O elemento central e as
torres laterais possuem um desenho escalonado ("zigurate"), que
confere uma sensação de imponência e direção vertical, equilibrando a
horizontalidade do restante do prédio.
A composição é quase
perfeitamente simétrica, o que transmite ordem, autoridade e estabilidade —
características comuns em prédios institucionais ou públicos da primeira metade
do século XX.
As molduras que se
estendem acima das janelas (platibandas e marquises finas) enfatizam a
horizontalidade e criam sombras lineares que dão profundidade à fachada.
A repetição de janelas
quadradas com caixilharia quadriculada cria um ritmo constante e funcionalista,
típico do racionalismo arquitetônico, onde a forma segue a função.
A ausência de
ornamentos orgânicos ou rebuscados foca a atenção na pureza do volume e na cor
clara da alvenaria, que contrasta dramaticamente com o verde denso da colina ao
fundo.
Integração
com o entorno
O uso de tons off-white
ou creme faz com que a estrutura "salte" visualmente contra a
vegetação escura.
Essa arquitetura lembra
muito as obras do período do Estado Novo em no Brasil, onde o estilo era usado
para transmitir modernidade e progresso.
Esse edifício é um dos
marcos mais emblemáticos da arquitetura Art Déco em Natal, no Rio Grande do
Norte.
O Edifício Sede dos
Correios e Telégrafos, localizado na Ribeira (na esquina da Avenida Hildebrando
de Góis com a rua Olavo Bilac), é uma peça fundamental para entender a
modernização urbana da cidade na década de 1930.
Inaugurado em 1936, o
prédio foi projetado num período em que Natal passava por uma transição do
estilo eclético para o modernista. O uso do Art Déco para os Correios não era
apenas estético, mas político: simbolizava a eficiência, a velocidade da
comunicação e o progresso do Estado.
Muitos historiadores da
arquitetura no Nordeste referem-se a esta variante como um "Déco
simplificado" ou robusto. Note-se como a torre central escalonada funciona
como um farol ou um relógio urbano, marcando a importância institucional do
edifício.
As frisas verticais e
os volumes que avançam e recuam criam um jogo de luz e sombra muito forte sob o
sol do Nordeste.
O
contexto da Ribeira
A escolha da
localização na Ribeira foi estratégica, pois o bairro era o centro económico e
portuário de Natal. O edifício dos Correios, junto com outros prédios da época,
ajudou a consolidar a imagem "moderna" que a elite da cidade desejava
projetar para o exterior, especialmente dada a proximidade com o porto e a
futura base aérea durante a Segunda Guerra Mundial.
Desde o inicio das
linhas aéreas regulares, costeiras, continentais, e transoceânicas, a cidade de
Natal, tornou-se um dos centros postais mais importantes, o mais movimentado do
país.
Era onde se distribuia a correspondência para o norte e para o sul do Brasil e do continente. E por isto, a renda da Diretoria de Correios e Telégrafos natalense era maior do que a de muitas outras de categoria superior, o que reforça o papel estratégico de Natal como o "Trampolim da Vitória" e centro de conexões aéreas globais na primeira metade do século XX.
Preservação
e Memória
Este edifício é uma das
joias do património arquitetônico potiguar. A sua volumetria limpa e a ausência
de ornamentos rebuscados (substituídos por formas aerodinâmicas) fazem dele um
dos exemplos mais puros do estilo no Rio Grande do Norte.
Projeto
modificado?
Ao analisar as imagens da maquete original do projeto de 1933, a do
jornal A Ordem de 1936 e a do prédio atualmente percebe-se que se trata de realidades opostas. A foto do jornal a Ordem demonstra que o projeto foi executado
conforme a maquete, porém, ao ver o prédio atualmente vê-se que a arquitetura
do mesmo foi modifica.
Prédio dos correios e telégrafos de Natal
Fonte: A Ordem, 05/11/1936, p.1. |
Prédio dos correios de Natal
| Fonte: Google maps, 2026. |
Mário Fertin
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