quarta-feira, 25 de março de 2026

PROJETO DO EDIFICIO DA DIRETORIA REGIONAL DO DEPARTAMENTO DOS CORREIOS E TELEGRÁFOS DE NATAL

 


Os autores do projeto

         O projeto arquitetônico para o novo prédio regional dos correios e telegáfos de Natal foi apresentado em 1933, sendo o mesmo de autoria de Mário Fertin e Paulo Candiola.

Mario Fertin

Diplomado pela Escola Nacional de Belas Artes em 1917 com grande medalha de prata. Classificado em 2º e 1º lugar respectivamente no concurso de projetos para as portas norte e sul da Exposição do Centenário; e recompensado com medalha de Premiando no Salão de Bellas Artes com Menção Honrosa.

Obteve 1º logar no  concurso do “Lar Brasileiro” de projetos para residências. Destacou-se pela operosidade e pela competência profissional, tão sobejas vezes confirmada.[1]

Paulo Candiota

Diplomado pela Escola Nacional de Belas Artes em 1926 com pequena medalha de ouro. Premiado com Menção Honrosa no 3º Congresso Pan-Americano de Arquitetos e grande Medalha de Ouro no IV Congresso.

Premiado no Salão de Belas Artes com os seguintes prêmios: Prêmio Minerva, Menção Honrosa do 2º e 1º grau e Medalha de Bronze. Sócio correspondente da sociedade de arquitetos de Buenos Aires, Montevideo e Cuba, e membro do Conselho Deliberativo do Instituto Central de Arquiitetos do Rio de Janeiro.[2]

O projeto

O edificio projetado destinava-se á instalação da Diretoria Regional dos Correios e Telegráfoos do Rio Grande do Norte em Natal.

O terreno destinado a receber a construção era de forma retangular e ficava situado em uma esquina formada por uma ampla avenida e uma rua de menos importância, que ia em direção perpendicular ao cais do rio Potengi e por onde aquela época circulava uma linha de estrada de ferro medindo por aquela 34,25 e por esta 31,15.

Para que ficasse a construção mais ou menos dentro dos limites da verba de 400:000000, reservada para tal fim, a Diretoria do Material do Departamento dos Correios e Telégrafos, estabeleceu previamente que fosse fixado em 35.0000 por metro quadrado de pavimento o custo provavel da construção.

Foi o edificio projetado mais ou menos dentro destes limites, somando as áreas dos dois pavimentos 627m², exceto a garagem que mediria 41m² e cuja base de preço por metro quadrado era menor.

Quanto ao partido aquiitetônico de fachada a adotar, por si só a situação do terreno, indicava, pela grande diferença de importância entre as artérias nas quais ele ficaria situado.

O partido aquiitetônico de ângulo, isto é aquele no qual esta parte do edificio dominasse, fazendo-se por ai o acesso principal ao mesmo, não seria plausivel, em vista de ficar esta parte em posição oposta á direção da parte central da cidade.

Por  isso foi escolhido como partido mais lógico o do completo domínio da fachada da Avenida, em cujo eixo foi localizada a entrada principal.

O projeto do edifício foi estudado de forma a oferecer, não só ao público como aos funcionários que nele trabalhariam, o máximo de conforto e comodidade como ainda completa independência da parte procurada pelo público daquela destinada aos funcionários ou de serviço.

Para o público foi colocado na frente o grande “hall” com entrada direta para as Agencias, acesso fácil e imediato a todos os guichês, sem ter entretanto contato direto com a circulação dos funcionários, o que em regra geraria perturbação bastante do serviço.

A parte de serviço estava dividida em quatro grupos, compreendendo a Diretoria Geral, Serviço Postal, Serviço Telegráfico e Seção de Valores ou Tesouraria.

A Direção Geral, formada pelo gabinete do Diretor Regional e seus auxiliares, sala de espera, expediente e seção econômica, e ainda a Biblioteca e a Contadoria Regional, estaria localizada no 2º pavimento, na parte da fachada principal, com acesso pela escada principal á direita de quem entraria ao edificio.

O serviço postal estava todo ele localizado na ala esquerda do 1º pavimento, com ligação direta para os guichês e dependências, das caixas de assinantes, "colis", registrados sem valor, posta-restante, aereo-expressa e coleta.

O serviço telegráfico, que compreendia seções completamente distintas, como sejam: expedição e recepção de telegramas, sala de aparelhos e usina elétrica estava distribuido pelos dois pavimentos do edificio.

Os guichês de recepção e expedição estavam no 1º pavimento no "hall" do público e a seção de expedição e estafetas. A sala de aparelhos ocuparia a parte dos fundos da ala da frente do edificio, no 2º pavimento, com os respectivos gabinetes do chefe do tráfego telegráfico e chefe de linhas e instalações e com ligação por meio de tubos e elevador manual com o guichê de recepção e a sala de expedição do 1º pavimento.

 A usina elétrica ficaria na parte dos fundos do 2º pavimento e na ala direita estariam localizados o aquivo e sala de inspetores e guarda-fios, praticantes e rádio.

Na parte central do edificio, dando para a pátio interno, estariam localizados os aparelhos sanitários para ambos os sexos, varanda para café, e pequena oficina e arquivo do dia ligados á sala de aparelhos.

A Tesouraria ou seção de valores, estaria situada no 1º pavimento e por trás dos guichês de valores com seu arquivo e casa forte.

Haveria duas escadas de acesso ao 2º pavimento, sendo uma principal á direita de quem entrasse no edificio, com fácil acesso pelo "hall" público, tendo ao lado a portaria e informações, e outra de serviço nos fundos da ala direita, no "hall" de serviço, com entrada pela rua de menor importância.

Na mesma posição dos serviços sanitários do 2º pavimento achariam-se os do 1º. A circulação dos automóveis de serviço far-se-ia com toda a facilidade no pátio interno com entrada situada na avenida, sendo o material ou correspondência descarregados diretamente no almoxarifado que ficaria nos fundos do 1º pavimento ou na sala de conferência.

A circulação dos funcionários far-se-ia por meio de galerias que no 1º pavimento ligariam o "hall" de serviço com as demais dependências e no 2º pavimento ligam o "hall" ás duas escadas.

              Maquete do projeto do prédio dos correios de Natal



Fonte: revista da Diretoria de engenharia, nº 5, 1933, p.7.


Análise e descrições técnicas da volumetria da maquete

A análise da maquete do projeto da diretoria regional dos correios e telégrafos de Natal revela um projeto de Art Déco racionalista extremamente bem resolvido para o clima e as necessidades de Natal na época.

O texto justifica a escolha de não usar o "ângulo" (esquina) para o acesso principal, preferindo a orientação para o centro da cidade.

Na  maquete vemos claramente o corpo central avançado (o avant-corps), onde se localiza o "hall" do público. Os três grandes vãos de entrada na maquete correspondem exatamente ao ponto de maior importância da fachada principal.

A escada principal, mencionada como estando "á direita de quem entra", ficaria logo atrás dessa primeira linha de vãos.

Setorização Funcional (pavimentos)

Setor

Localização no Texto

Correspondência na Maquete

Público / Postal

1º Pavimento (Hall e Guichês)

O térreo com amplas aberturas para atendimento.

Administração

2º Pavimento (Diretoria e Biblioteca)

O andar superior, com janelas em fita que garantem luz natural.

Telegrafia

2º Pavimento (Fundos da ala da frente)

O bloco que se estende para trás, acima do pátio interno.

Serviço/Valores

1º Pavimento (Fundos/Casa Forte)

Área protegida, com menos aberturas externas visíveis.

Logística e comunicação interna

Pátio Interno: a maquete mostra um recuo central em "U". O texto confirma que este é o pátio interno, essencial para a entrada de automóveis da avenida e para a ventilação das galerias de circulação dos funcionários.

Ala Direita: o texto cita que na "ala direita" estão o arquivo, sala de rádio e guardas-fios. Na maquete, esse é o volume lateral que possui uma entrada de serviço independente pela "rua de menor importancia".

Verticalidade: as torres estilizadas que vemos na restauração da maquete não são apenas decorativas; elas geralmente abrigavam as caixas d'água ou os sistemas de comunicação por tubos e o elevador manual mencionados.

Este edifício é um exemplo primoroso de como a arquitetura institucional de Natal estava alinhada com a modernidade técnica da época (usina elétrica própria, elevadores, tubos de sucção).

Essa imagem apresenta uma arquitetura fascinante, que é um exemplo clássico do Modernismo com forte influência do Art Déco e do Racionalismo.

Análise detalhada dos elementos principais:

O edifício exibe uma estética Art Déco tardia (frequentemente chamada de Streamline Moderne ou Protomodernismo).

O elemento central e as torres laterais possuem um desenho escalonado ("zigurate"), que confere uma sensação de imponência e direção vertical, equilibrando a horizontalidade do restante do prédio.

A composição é quase perfeitamente simétrica, o que transmite ordem, autoridade e estabilidade — características comuns em prédios institucionais ou públicos da primeira metade do século XX.

As molduras que se estendem acima das janelas (platibandas e marquises finas) enfatizam a horizontalidade e criam sombras lineares que dão profundidade à fachada.

A repetição de janelas quadradas com caixilharia quadriculada cria um ritmo constante e funcionalista, típico do racionalismo arquitetônico, onde a forma segue a função.

A ausência de ornamentos orgânicos ou rebuscados foca a atenção na pureza do volume e na cor clara da alvenaria, que contrasta dramaticamente com o verde denso da colina ao fundo.

Integração com o entorno

O uso de tons off-white ou creme faz com que a estrutura "salte" visualmente contra a vegetação escura.

Essa arquitetura lembra muito as obras do período do Estado Novo em no Brasil, onde o estilo era usado para transmitir modernidade e progresso.

Esse edifício é um dos marcos mais emblemáticos da arquitetura Art Déco em Natal, no Rio Grande do Norte.

O Edifício Sede dos Correios e Telégrafos, localizado na Ribeira (na esquina da Avenida Hildebrando de Góis com a rua Olavo Bilac), é uma peça fundamental para entender a modernização urbana da cidade na década de 1930.

Inaugurado em 1936, o prédio foi projetado num período em que Natal passava por uma transição do estilo eclético para o modernista. O uso do Art Déco para os Correios não era apenas estético, mas político: simbolizava a eficiência, a velocidade da comunicação e o progresso do Estado.

Muitos historiadores da arquitetura no Nordeste referem-se a esta variante como um "Déco simplificado" ou robusto. Note-se como a torre central escalonada funciona como um farol ou um relógio urbano, marcando a importância institucional do edifício.

As frisas verticais e os volumes que avançam e recuam criam um jogo de luz e sombra muito forte sob o sol do Nordeste.

O contexto da Ribeira

A escolha da localização na Ribeira foi estratégica, pois o bairro era o centro económico e portuário de Natal. O edifício dos Correios, junto com outros prédios da época, ajudou a consolidar a imagem "moderna" que a elite da cidade desejava projetar para o exterior, especialmente dada a proximidade com o porto e a futura base aérea durante a Segunda Guerra Mundial.

Desde o inicio das linhas aéreas regulares, costeiras, continentais, e transoceânicas, a cidade de Natal, tornou-se um dos centros postais mais importantes, o mais movimentado do país.

Era onde se distribuia a correspondência para o norte e para o sul do Brasil e do continente. E por isto, a renda da Diretoria de Correios e Telégrafos natalense era maior do que a de muitas outras de categoria superior, o que reforça o papel estratégico de Natal como o "Trampolim da Vitória" e centro de conexões aéreas globais na primeira metade do século XX.

Preservação e Memória

Este edifício é uma das joias do património arquitetônico potiguar. A sua volumetria limpa e a ausência de ornamentos rebuscados (substituídos por formas aerodinâmicas) fazem dele um dos exemplos mais puros do estilo no Rio Grande do Norte.

Projeto modificado?

         Ao analisar as imagens da maquete original do projeto de 1933, a do jornal A Ordem de 1936 e a do prédio atualmente percebe-se que se trata de  realidades opostas.      A foto do jornal a Ordem demonstra que o projeto foi executado conforme a maquete, porém, ao ver o prédio atualmente vê-se que a arquitetura do mesmo foi modifica.

              Reconstituição digital da maquete do novo prédio dos correios de Natal







                                Prédio dos correios e telégrafos de Natal

                         Fonte: A Ordem, 05/11/1936, p.1.


                               Prédio dos correios de Natal 

Fonte: Google maps, 2026.


                                           Mário Fertin


                                            
                                           Paulo  Candiota




[1] Vida Domestica, junho,1933, p.17.

[2] Op.Cit.

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