No ano de 1930 o então bispo de Natal, Dom Marcolino Dantas encomendou um projeto ao engenheiro-arquiteto Mário Barreto de Albuquerque Maranhão para o Palácio Episcopal de Natal, o qual seria além da residência oficial do bispo a sede do organismo administativo do Bispado de Natal (Cúria Diocesana).
Para
transformar a aspiração monumental de Dom Marcolino Dantas em realidade física, era
necessário um mestre que dominasse a linguagem do concreto armado, a tecnologia
que estava redefinindo os limites da arquitetura mundial.
Mário Barreto de Albuquerque Maranhão não era apenas um executor de plantas; ele era um intérprete da
modernidade.
A sintonia
entre a Mitra e o Esquadro
A parceria
entre o Bispo e Mário Maranhão foi pautada por um respeito mútuo incomum.
Enquanto Dom Marcolino ditava a "liturgia dos espaços", Mário Maranhão
traduzia essas necessidades em volumes geométricos.
O
engenheiro compreendeu que o Palácio não deveria ser apenas uma residência, mas
uma peça de comunicação institucional.
O traço
de Mário Maranhão para o Palácio Episcopal abandonou os ornatos rebuscados do
passado em favor da "honestidade dos materiais".
Cada
linha vertical, cada recuo escalonado e cada moldura geométrica tinha um
propósito: dar ritmo à fachada e criar uma percepção de altura que superava as
dimensões reais do lote.
Erguer
uma estrutura com a complexidade técnica do Palácio Episcopal em meados da
década de 1930 não seria uma tarefa simples. Mário Maranhão enfrentaria
obstáculos que exigiriam tanto engenho quanto diplomacia:
A escassez
de mão de obra especializada
era um problema a época. O Art Déco exigia uma precisão geométrica
absoluta. As quinas vivas e os frisos paralelos do frontão central não
aceitavam erros de prumo ou de acabamento. Mário Maranhão teria que treinar artesãos
locais para que o concreto e a massa pudessem mimetizar a aparência da pedra
talhada.
Outro
problema era o desafio dos materiais.A Natal
da época dependia de importações para muitos componentes de luxo.
A
logística de trazer ferragens, vidros e acabamentos finos em um período de
instabilidade econômica global exigiu que Dom Marcolino utilizasse seu
prestígio para garantir o fluxo de suprimentos.
A
geometria do sagrado
O maior
trunfo do traço de Mário Maranhão foi o escalonamento rítmico. Ao observar o
projeto, nota-se que as alas laterais funcionariam como degraus que elevariam a
visão para o centro. Esse jogo volumétrico não era apenas estético; serviria
para camuflar as áreas de serviço e destacar a autoridade do Gabinete
Episcopal.
A
"Cruz" seria o grande rasgo
vertical na fachada como o ápice dessa colaboração. Ali, o engenheiro abdicaria
do excesso de concreto para criar um vazio de luz. Ele provaria a Dom Marcolino
que, na arquitetura moderna, o que não é preenchido (o espaço, a sombra, a luz)
é tão sagrado quanto o que é construído.
Em 1930,
a técnica de cálculo estrutural era considerada avançada para os padrões
regionais, permitindo a execução dos "terraços-jardim" e das
coberturas escalonadas sem o uso de telhados aparentes tradicionais.
A estética functional, diferente do
ecletismo, onde a decoração era aplicada sobre a estrutura, no traço de Mário
Maranhão a decoração seria a estrutura. A forma da cruz nasceria da própria
ossatura do edifício.
O
projeto para o Palácio Episcopal de Natal foi
concebido no ano de 1930 pelo engenheiro e arquiteto Mário Maranhão, a pedido do bispo diocesano de Natal Dom Maroclino Dantas.
Seria um
exemplar notável do estilo Art Déco no Brasil. Na época, este estilo
representava o "novo", o "moderno", em contraste com o
ecletismo e as formas coloniais.
Sua
escolha para um palácio episcopal refletiria a modernização da Igreja e sua
presença na paisagem urbana de uma capital em crescimento.
Caracteristicas do projeto
Com
base no modelo do projeto, este edifício
seria um exemplo impressionante de arquitetura eclética
com fortes influências neogóticas e Art Déco, uma combinação comum
em edifícios institucionais ou religiosos da América do Norte e Latina nas
décadas de 1920 e 1930.
Os pontos-chave do projeto
seriam a simetria
e verticalidade (eixo central).
O edifício seria dominado
por um maciço bloco central que projetaria uma
forte sensação de verticalidade.
O
telhado de inclinação íngreme na seção central e os pináculos em forma de
agulha que o flanqueiariam são referências diretas ao gótico
clássico, embora reinterpretados de forma mais geométrica.
Também receberia a influência da Art
Déco (zigurates e geometria), embora o projeto nos detalhes evocassem
o gótico, a massa geral é decididamente Art
Déco. Observa-se o recuo geométrico escalonado (como um zigurate) em torno da
torre central e nas bordas superiores das alas laterais. Os pináculos são
simplificados e angulares, em vez de intrincadamente ornamentados.
As
janelas mostrariam uma transição interessante. Na torre
central, haveria longas frestas verticais que lembrariam
as janelas gradeadas góticas, mas sem os arcos ogivais. Nas alas laterais, as
janelas seriam agrupadas em blocos retangulares mais
modernos, mas recuadas em molduras profundas que criariam
padrões de sombra arquitetônica, típicos do Art Déco.
O modelo sugeria uma
construção em alvenaria pesada. As cores sugeridas na colorização (arenito e
calcário) refletiriam os materiais populares da época para
edifícios de prestígio, oferecendo uma distinção visual entre as diferentes
massas do edifício.
Em
resumo, o edifício representaria uma modernização da
tradição gótica, misturando a solenidade histórica com a geometria limpa e a
monumentalidade do início do século XX.
O
edifício teria um conjunto de volumes geométricos que se
sucederiam e se elevariam em
direção ao centro, uma característica central do Art Déco, remetendo aos
arranha-céus escalonados.
O corpo central teria a peça
mais alta e estreita, com linhas verticais contínuas que alongariam
a estrutura. Isso conferiria monumentalidade e força, além de um
simbolismo ascensional religioso.
A grande cruz monumental
estilizada integrada à massa do frontão central seria a peça
mais dramática e distinta da construção. Não seria
uma cruz aplicada, mas sim escavada e moldada na própria pedra, com o nicho
para o vitral central. Esta integração de forma e símbolo é puramente Art Déco.
O pórtico principal seria
definido por uma série de arcos geométricos e escalonados, um motivo comum que
cria profundidade e direcionalidade.As alas laterais seriam
tratadas de forma mais horizontal, com janelas em fita e galerias, servindo
para emoldurar o corpo central e sugerir funções administrativas ou
residenciais.
As
cores seriam sóbrias e dignas.A
colorização aplicaria uma paleta que buscasse
fidelidade histórica, que poderiam ser:
Pedra Calcária/Arenito Warm: para os corpos
laterais, conferindo solidez.
Creme e Bege Claro: para a torre
central, realçando-a sobre o restante.
Telhados de Lousa/Cimento Escuro: nas áreas escalonadas laterais.
Acento Metálico: na escultura do topo,
sugerindo bronze ou ferro.
O edificio seria ainda emoldurado por uma agulha
em escultura. O topo do
frontão central não terminaria em uma ponta
simples, mas em uma estrutura complexa que suportaria
uma escultura estilizada, possivelmente uma figura angélica ou simbólica. O
tratamento facetado e angular desta peça coroa a composição Art Déco.
| Projeto do Palácio Episcopal de Natal por Mário Maranhão. Reconstituição digital. |
| Projeto do Palácio Episcopal elaborado por Mário Maranhão. Reconstituição digital. |
| Perspectiva noturna do Palácio Episcopal de Natal. |
O
Palácio Episcopal de Natal não seria apenas a residência
do bispo; seria um manifesto de modernidade arquitetônica na capital potiguar. Ele demonstraria que a
Igreja Católica poderia abraçar as novas linguagens estéticas e, ao mesmo
tempo, criar espaços de profundo significado religioso.
Na década de 1930 a cidade de Natal passava por importantes
transformações urbanas refletidas em construções modernas ao estilo Art Decó,
por isso a Diocese de Natal entedia que a construção do Palácio Episcopal
deveria refletir essa realidade.
O projeto do Palácio Episcopal de Natal de Mário Maranhão foi apresentado no Salão de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1933 conseguindo lograr a medalha de prata pelo referido projeto. Na ocasião ele apresentou a maquete em gesso e as respectivas plantas.
Em 1936 foi adquirido um terreno pela Congregação Católica Mariana na rua Jundiaí na Cidade Nova (Tirol), para nele ser erguido o Palácio Episcopal de Natal, contundo, a Diocese de Natal adiou esse plano tendo em vista a adoção de posturas voltadas para o lado social por meio da Ação Católica no inicio da década de 1940.
Naquela época a Diocese de Natal passava por um
momento de expansão significativa demonstradas tanto no âmbito pastoral como no
administrativo, notademente em construções como o Seminário de São Pedro, construido
no bairro da Cidade Nova (Tirol), o Dispensário Sinfrônio Barreto, na Cidade
Alta, o Colégio Santo Antonio, no Centro, o Colégio Nossa Senhora das Neves, no
Alecrim, entre outros empreendimentos.
Contudo, tanto o Palácio Episcopal como a nova Catedral de Natal que seriam as marcas mais significativas do episcopado de Dom Marcolino Dantas não foram construidos, ambos foram postergados por motivos financeiros, onde a Diocese de Natal aguardava melhores condições para suas realizações, o que nunca ocorreu e os projetos que marcaria o episcopado de Dom Marcolino cairam no esquecimento.
Em 1945 foi criada a Escola de Serviço Social de Natal onde em 1948 no terreno onde seria erguido o Palácio Episcopal teve inicio a construção da sede defitiva da referida instituição pertencente a Diocese de Natal.O prédio é atualmente a sede da Câmara Municipal de Natal.
Caso tivesse sido construido o Palácio Episcopal de Natal seria um dos maiores monumentos arquitetônicos do bairro do Tirol em Natal e um simbolo da Arte Deco na capital potiguar.
| Projeto do Palácio Episcopal de Natal elaborado por Mário Maranhão. Reconstituição digital. |
| Possivel planta do Palácio Episcopal de Natal, segundo o projeto elaborado por Mário Maranhão. |
| Engenheiro Mário Maranhão. Reconstituição digital. |
| Engenheiro Mário Maranhão, autor do projeto para o Palácio Episcopal de Natal em 1930. Foto: Diário Carioca, 1938. |
Nenhum comentário:
Postar um comentário