sexta-feira, 3 de julho de 2026

SOBRE A PRIMEIRA PREFEITA DA REGIÃO DO MATO GRANDE

         A primeira mulher eleita em Bento Fernandes e por extensão, a primeira prefeita da região do Mato Grande foi Joana Ferreira da Cruz (dona Noca). Em 1969 foram candidatos a prefeito no município de Bento Fernandes Lidio Fernandes de Oliveira e Francisco Luiz do Amaral, ambos da ARENA e Joana Ferreira da Cruz e Jaime Ferreira de Andrade, também da ARENA.[ Diário de Natal,03/11/1969,p.2]

      O TRE declarou os candidatos Lidio Fernandes de Oliveira e Francisco Luiz do Amaral como inelegíveis.[O primeiro por não ter se afastado 6 meses antes da eleição do cargo de Agente Fiscal e Chefe da Agência de Bento Fernandes (Cargo público) e o segundo por ser genro do então prefeito do município.[Cf.Tribuna do Norte, 08/11/1969,p.5.], por isso a eleição naquele ano em Bento Fernandes ocorreu em chapa única.

      Foi eleita então Joana Ferreira de Andrade e Jaime Ferreira de Andrade, prefeita e vice-prefeito, respectivamente.

      A época da eleição o município de Bento Fernandes contava com 4.679 habitantes, dos quais 875 na cidade e  2. 240 homens e 2.118 mulheres e apenas 1.501 eleitores.[ Diário de Natal, 02/09/1970, p. 14 e Tribuna do Norte, 09/09/1970,p.1, rescpectivamente.]

    Na eleição de 1969 votaram apenas 980 eleitores em Bento Fernandes. [Tribuna do Norte,17/11/1970,p.5]. Em 1972 constavam já 2.256 eleitores.[ Diário de Natal, 13/10/1972, p.3.].

      O primeiro mandato de Joana Ferreira de Andrade ocorreu entre 1970 e 1973.Já em 1976 ela voltaria a concorrer ao cargo novamente tendo vencido o pleito naquele ano para o seu segundo mandato.

     O ano de 1976 foi ano das mulheres candidatas no Rio Grande do Norte.Ao menos 7 prefeitas foram eleitas naquele ano, sendo elas: Marize Bento da Silva (ARENA, Saão Bento do Trairi); Zélia Alves (MDB, Angicos); Maria do Socorro Targino (ARENA, Messias Targino); Joana Ferreira Fernandes (ARENA, Bento Fernandes); Anália Mauricio (ARENA, Sen. Eloi de Souza); Francisca Ferreira de Carvalho (ARENA, Sitio Novo) e Maria das Neves Rodrigues (ARENA, Cel. Ezequiel).[Cf. O Poti, 21/11/1976, p.1.]

     Da primeira gestão de Joana Ferreira da Cruz tem-se que o Tribunal de Contas deu parecer favorável prévio em 1975 para a aprovação das contas da prefeitura de Bento Fernandes relativos ao ano de 1972. [ Diário de Natal,24/06/1975,p.5.]

Sobre o segundo mandato de Joana Ferreira da Cruz

     Conforme o jornal Tribuna do Norte “Mais uma mulher, vai disputar a eleição de novembro. Desta vez, em Bento Fernandes, onde Dona Joana Ferreira da Cruz será por uma das alas da ARENA, enquanto pela ARENA II, Francisco Luiz do Amaral, foi o escolhido. O vice de Dona Joana, ainda não foi definido, assim como o de Francisco Luiz”.[Tribuna do Norte, 27/07/1976,p.12.].

       O recorte do referido jornal fornecem um aspecto importante da história política e social do município de Bento Fernandes, abrangendo um período que transita entre as décadas de 1960, 1970 e meados de 1980.

      Trata-se da trajetória Política de Joana Ferreira da Cruz, identificada como a primeira prefeita de Bento Fernandes. Sua influência política é destacada em diferentes momentos: desde a menção de sua gestão até a notícia de sua candidatura pela ARENA em um pleito de novembro.

     Os textos dos jornais da época mencionam a presença marcante da ARENA (Aliança Renovadora Nacional), o partido de sustentação do regime militar, indicando que a dinâmica política local na época era pautada por divisões internas dentro dessa mesma sigla, como o confronto entre a "ala de Dona Joana" e a "ARENA II" liderada por Francisco Luiz do Amaral.

     O município, desmembrado de Taipu em 1959 com a denominação de Barreto, buscava consolidar sua identidade e autonomia.

      O registro histórico reverencia a memória de Bento Fernandes de Macedo, cuja trajetória de vida e morte trágica está profundamente ligada à fundação e à memória afetiva da cidade.

      A dependência de serviços externos, como a assistência religiosa provida pela paróquia de João Câmara, ilustra a integração regional do município naquela época.

     O conjunto dessas fontes compõe um valioso retrato de uma administração municipal sob o regime militar, focada em obras de infraestrutura básica e na manutenção do controle político local através das estruturas partidárias permitidas na época.

Sobre o município de Bento Fernandes em 1977

   Em 1977 o jornal Diário de Natal apresentou um panorama do município de Bento Fernandes, pelo qual podemos ter uma noção de como se apresentava o mesmo no segundo mandato de Joana Ferreira da Cruz.

     Prefeita: Joana Ferreira da Cruz.

     Vice-Prefeito: José Pinheiro da Silva.

     Vereadores: Arena: Lídio Barbosa de Miranda, Antônio Victor do Nascimento, Luiz Canela de Lima, Silvino Inácio de Melo, Cícero Vitorino da Silva, Wilson Lopes Galvão, João Nicácio Filho.

      Juiz de Direito: Dr. Manuel dos Santos.

      Promotor: Dr. Jair Álvares Vilar.

      Delegado: 3º Sargento Geraldo Nunes da Silva.

     Microrregião: Serra Verde.

     Área: 359 Km².

     População residente: 5.257 habitantes (estimativa/1975).

   Bento Fernandes tinha ligação com os seguintes Municípios através das seguintes Rodovias: João Câmara - RN 120 a 19 Km de distância (30 minutos); Poço Branco - carroçável municipal a 36 Km de distância (45 minutos); Taipu - carroçável municipal a 28 Km de distância (40 minutos); Ielmo Marinho - BR 304, RN 120, RN 064 e carroçável municipal, a 36 Km de distância (40 minutos); São Paulo do Potengi - RN 120 a 30 Km de distância (40 minutos); Caiçara do Rio do Vento - BR 304 e RN 120, a 25 Km de distância (30 minutos); Jardim de Angicos - carroçável municipal a 18 Km de distância (30 minutos); Natal - BR 304, BR 226 e RN 120, a 101 Km de distância (1 h e 30 minutos).

   As atividades econômicas eram: culturas agrícolas, pecuária e indústria de transformação.Produtos exportados: algodão e farinha de mandioca. Produtos importados: gêneros alimentícios e tecidos.

      Bento Fernandes tinha em 1977 um Posto de Saúde Municipal. Os alunos de 2º Grau se deslocavam para João Câmara em transporte custeado pela Prefeitura. Havia no município de Bento Fernandes, experiência de eletrificação rural: a fauna da Belo Horizonte foi a primeira. ia ser construído um açude, que prestaria para o saneamento básico da cidade, com capacidade de 1.500.000,00m³ de água.A assistência religiosa em Bento Fernandes era feita pela paróquia de João Câmara.[ Diário de Natal,02/09/1977,p.14.].

     O referido jornal já destacava a época que Dona Joana Ferreira, a então atual Prefeita, fora também a primeira Prefeita de Bento Fernandes, mas que naquele ano de 1977 exercia já o seu segundo mandato.[ Op.Cit.].

     Esse   pequeno perfil enciclopédico ou informativo do município de Bento Fernandes,  é um documento  valioso por  destacar a gestão de Joana Ferreira da Cruz, citada como a primeira prefeita da cidade. O documento também preserva nomes de figuras públicas da época, como juízes, promotores e vereadores, o que é relevante para registros históricos municipais.

    Detalha as dificuldades de infraestrutura rodoviária da época, enfatizando o uso de estradas "carroçáveis" para acessar municípios vizinhos, além de descrever o cenário econômico centrado na agricultura e pecuária.

Marco na história politica de Bento Fernandes e do Mato Grande

      A história política de Bento Fernandes, registra assim um marco importante com a eleição de Joana Ferreira da Cruz em 1969, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita do município e por extensão primeira mulher a exercer esse cargo na região do Mato Grande. 

   Sua vitória representou não apenas uma mudança na administração municipal, mas também um avanço significativo para a participação feminina na política local, em uma época em que as mulheres ainda enfrentavam grandes obstáculos para conquistar espaços de poder.

    Joana Ferreira da Cruz foi eleita para governar o município no pleito realizado durante o período do regime militar, assumindo a Prefeitura em 31 de janeiro de 1970. Filiada à ARENA, partido que dava sustentação ao governo federal, tornou-se a sexta chefe do Poder Executivo municipal e a primeira mulher a administrar Bento Fernandes. 

    Sua primeira administração ocorreu entre 1970 e 1973, período em que as prefeituras do interior do Rio Grande do Norte conviviam com severas limitações financeiras e forte dependência dos repasses estaduais e federais. Nesse contexto, o trabalho do gestor municipal exigia capacidade de articulação política, planejamento e atenção permanente às necessidades básicas da população.

   Após concluir seu primeiro mandato, Joana Ferreira da Cruz voltou ao comando da Prefeitura ao vencer novamente as eleições, exercendo um segundo período administrativo entre 1977 e 1983. Com isso, consolidou-se como uma das principais lideranças políticas da história de Bento Fernandes, permanecendo por mais de oito anos à frente do Executivo municipal.

   Sua trajetória política demonstra que a presença feminina na administração pública começou a ganhar espaço gradativamente no interior potiguar. Embora o ambiente político da época fosse predominantemente masculino, Joana conquistou a confiança do eleitorado e mostrou que a competência administrativa não dependia do gênero, abrindo caminho para que outras mulheres participassem da vida política municipal.

     Sua eleição também deve ser compreendida dentro da tradição pioneira do Rio Grande do Norte na participação feminina na política brasileira. O estado foi responsável pela eleição da primeira prefeita do Brasil e da América Latina, Alzira Soriano, em 1928, fato que contribuiu para fortalecer o protagonismo das mulheres na política potiguar ao longo das décadas. 

   Mesmo que parte da documentação sobre sua administração ainda seja escassa, a permanência de Joana Ferreira da Cruz por dois mandatos evidencia seu reconhecimento político junto à população. Sua gestão integra uma fase importante da consolidação administrativa de Bento Fernandes, quando o município buscava ampliar sua infraestrutura, fortalecer os serviços públicos e acompanhar as transformações sociais e econômicas ocorridas no Rio Grande do Norte.

    Hoje, Joana Ferreira da Cruz ocupa lugar de destaque na memória política de Bento Fernandes e da região do Mato Grande. Seu nome permanece associado à conquista da representação feminina no Executivo municipal e constitui referência para estudos sobre a história política local, demonstrando que a participação das mulheres foi fundamental na construção das instituições públicas e no desenvolvimento do município.


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