quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Aprovação dos estudo para construção da linha de ligação da estação Central da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte á ponte de Igapó

              O Decreto nº 10.114, de 5 de Março de 1913 aprovou os estudos definitivos e o orçamento da linha de ligação da estação Central da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte á ponte de  Igapó sobre o rio Potengi, na extensão de 8,138 km atendendo ao que requereu a Companhia de Viação e Construções, empreiteira e arrendataria da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, e tendo em vista a clausula I, n. 4, lettra b, do contrato autorizado pelo decreto n. 9.172, de 4 de dezembro de 1911[1].
        Com a aprovação desses estudos definitivos deste trecho, o orçamento foi reduzido á importancia total de 316:956$920, de acordo com os documentos apresentados pelo director geral de Viação da Secretaria de Estado da Viação e Obras Publicas.




[1] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-10114-5-marco-1913-528228-publicacaooriginal-1-pe.html

Construção da variante denominada linha paralela, na Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte

Pelo Decreto nº 13.016, de 4 de Maio de 1918 foi aprovado o projeto apresentado para construcção da variante denominada linha paralela, na Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, a parte inicial compreendida entre o km 3,606 da linha de Natal a Igapó e estaca 116[1].
            O decreto atendia em parte ao que requereu a Companhia de Viação e Construcções, contratante da construção e arrendamento da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte.
            A variante entre o km 3,606 da linha de Natal a Igapó na altura da estaca 116 se ligaria ao trecho que dá accesso á estação provisória de Natal. Com a inclusão deste trecho seria então excluidas das obras de protecção á margem do rio Potengi.
            O orçamento correspondente para esta obra foi orçada na importancia de 263:332$351, sendo executada pela Inspectoria Federal das Estradas de acordo com os documentos assinados pelo diretor geral de Viação.



[1] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-13016-4-maio-1918-528933-publicacaooriginal-1-pe.html

Apontamentos para conhecer a história da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte em Lajes-RN



            O Decreto nº 10.795, de 4 de Março de 1914 aprovou o projeto e orçamento, na importância de 185:800$879, para a construção de um viaduto metálico na travessia da grota, entre as estacas 853-|-8 e 863-|- 18, da 1ª secção de Lajes a Caicó, na Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, em substituição a uma parte de aterro e ao pontilhão projetados para o referido local[1].
            O Decreto nº 10.872, de 29 de Abril de 1914 aprovou os estudos definitivos e o orçamento, na importância de 1.428:527$318 dos primeiros 20 km, a partir de Lajes, do ramal de Lajes a Macau, da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte[2].
            O Decreto nº 11.737, de 6 de Outubro de 1915 aprovou o projeto e o orçamento, na importância de 84:295$404, de uma barragem de terra com núcleo central de alvenaria, em substituição do aterro e ponte projetados para a travessia do riacho Casinha, no trecho de Lajes a Caicó, da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte[3].
            O decreto atendia ao que requereu a Companhia de Viação e Construções empreiteira e arrendatária da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, em consequência, foi reduzido a 2.735:259$108 o orçamento geral do mesmo trecho approvado pelo decreto n. 10.329, de 9 de julho de 1913.
            O Decreto nº 12.115, de 28 de Junho de 1916 aprovou o projeto e orçamento, na importância de 72:811$956, de uma variante entre as estacas 1.482 -/- 10 e 1.523 -/- 14, do traçado aprovado, do trecho de Lajes e Caicó, na Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte[4]
            O Decreto nº 12.853, de 23 de Janeiro de 1918 autorizava que no lugar do corte n. 20 da linha de Lajes a Caicó, da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte fosse construído um túnel e aprovava o projeto deste, bem como o respectivo orçamento na importância de 23:368$320.
            Segundo o que dizia o Artigo único “fica autorizada a construção de um túnel, em lugar do corte n. 29 da linha de Lajes a Caicó, da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, compreendido entre as estacas 597 + 18 e 599 + 10, e aprovados o projeto daquela obra, bem como o respectivo orçamento, na importância de 23:368$329”. O decreto atendeu ao que requereu a Companhia de Viação e construção, empreiteira da Estrada de Ferro Central no Rio Grande do Norte[5].
            Atendendo ao que requereu a Companhia de Viação e Construções, empreiteira e arrendatária da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, o Decreto nº 11.514, de 4 de Março de 1915 aprovou o projeto e orçamento, na importância de 384:158$530, para a construção da estação de Lajes e suas dependências, na Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte.
            Já o Decreto nº 12.137, de 19 de Julho de 1916 aprovou os estudos definitivos de uma variante com a extensão de 12,612 km, compreendida entre os km 31 e 42 do ramal de Lajes a Macau, da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, bem como o respectivo orçamento, no valor de 675.689$340.O decreto atendia ao que requereram os moradores de Angicos e tendo em vista as informações prestadas pela Inspetoria Federal das Estradas, ficando nesta parte alterado o traçado e aumentados de 69.732$444 os orçamentos já aprovados pelos decretos ns. 11.235, de 21 de outubro de 1914, e 11.920, de 26 de janeiro do corrente ano[6].
            Os estudos definitivos do último trecho, foram aprovados pelo Decreto nº 11.920, de 26 de Janeiro de 1916. Esse trecho tinha a extensão de 51, 472 km, do ramal de Lajes a Macau, tendo sido orçados, na importância de 2.667:317$283.Foi assim reduzido o valor de 2.667:317$283, pela exclusão da verba de material rodante, que a estrada já possuía em quantidade suficiente; sendo tudo de acordo com os documentos assinado pelo diretor geral de Viação da respectiva Secretaria de Estado[7].
            O decreto estava de acordo com as plantas e mais documentos assinados pelo diretor geral de Viação da Secretaria de Estado da Viação e Obras Públicas, o projeto para a construção da estação de Lajes e suas dependências, na Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, bem como o respectivo orçamento, no valor total de 384:158$539, sendo 83:252$722 do edifício da estação, 84:250$206 do armazém de mercadorias, 160:854$246 de um depósito de locomotivas, 45:670$072 de um abrigo para carros e 10:131$293 de uma carvoeira[8].
            Pelo Decreto nº 12.880, de 14 de Fevereiro de 1918 foi aprovado o projeto e orçamento, no valor de 24:307$921, para a construção de uma variante entre as estacas 2.122 + 16 e 2.137 + 16,74 = 2.138 + 4 da linha de Lages a Caicó, da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. O decreto atendeu ao que foi requerido pela Companhia de Viação e Construções, empreiteira e arrendatária da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte[9].
            Os estudos definitivos e o orçamento, na importância de 1.063:806$916, do trecho compreendido entre os km 20 e 37, a partir de Lajes, do ramal de Lajes a Macau da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte foram aprovados pelo Decreto nº 11.235, de 21 de Outubro de 1914.Tudo em conformidade com as plantas e mais documentos assinado  pelo diretor geral de Viação da Secretaria de Estado da Viação e Obras Públicas[10].
            O Decreto nº 13.048, de 29 de Maio de 1918 autorizava a modificação dos estudos definitivos aprovados pelo decreto n. 10. 872, de 29 de abril de 1914, na parte relativa á ponte sobre o riacho Faria, na estaca 407 mais 16 metros do ramal de Macau, da Estrada, de Ferro Central do Rio Grande do Norte[11].Com este decreto foram alterados os estudos definitivos do trecho do mesmo ramal que havia sido aprovado pelo decreto n. 10.872, de 29 do abril de 1914.
            Um novo projeto para a estação de Lajes, da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte e o respectivo orçamento, no valor de 55:303$684 foi aprovado pelo Decreto nº 12.233, de 11 de Outubro de 1916, conforme havia sido requerido pela Companhia de Viação e Construções e á proposta da Inspetoria Federal das Estradas, em substituição ao que  foi determinado pelo decreto n. 11.514, de 4 de março de 1915, para o projeto da estação de Lajes de acordo com as plantas e mais documentos assinados pelo diretor geral de Viação da Secretaria de Estado da Viação e Obras Públicas[12].



[1] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-10795-4-marco-1914-528360-publicacaooriginal-1-pe.html

[2] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-10872-29-abril-1914-528371-publicacaooriginal-1-pe.html.

[3] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-11737-6-outubro-1915-528462-publicacaooriginal-1-pe.html

[4] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-12115-28-junho-1916-528504-publicacaooriginal-1-pe.html
[5] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-12853-23-janeiro-1918-528888-publicacaooriginal-1-pe.html
[6] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-12137-19-julho-1916-528506-publicacaooriginal-1-pe.html

[7] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-11920-26-janeiro-1916-528478-publicacaooriginal-1-pe.html

[8] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-11514-4-marco-1915-528432-publicacaooriginal-1-pe.html

[9] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-12880-14-fevereiro-1918-528896-publicacaooriginal-1-pe.html

[10] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-11235-21-outubro-1914-528412-publicacaooriginal-1-pe.html
[11] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-13048-29-maio-1918-528939-publicacaooriginal-1-pe.html

[12] http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1910-1919/decreto-12233-11-outubro-1916-528522-publicacaooriginal-1-pe.html

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Baixa Verde pelo olhar do engenheiro agrônomo Álvaro Ferreira Neves em 1947

           Abaixo a transcrição de um artigo intitulado ‘o Sul no Nordeste, Baixa Verde e seu progresso’ de autoria do engenheiro agrônomo Álvaro Ferreira Neves e publicado no jornal A Ordem em 1947.
            Baixa Verde é, sem favor, uma daquelas cidades do Nordeste que podem se alinhar com outras tantas do sul: ruas alinhadas, calçadas novas, vários prédios novos e majestosos, outros que estão em construção, inclusive a igreja que é um futuro belo monumento artístico.
            A Prefeitura Municipal ocupa um belíssimo prédio amplo, moderno, limpo. Ali só se vê entrar e sair gente de todo o matiz: uns carregando papéis outros de bolsas e pastas, alguns com talões de impostos com a cara mais feia do mundo...
            A Estação da Estrada de Ferro, ao chegar o Trem é uma espécie de inferno, tal azafama de gente, vacas, caixões de frutas, tabuleiros, esmoleres, um anegrada danada a berrar como se estivesse com o diabo na barriga...
            Ainda bem nem escurece a Usina elétrica começa a papoucar, num soluçar gigantesco, enquanto uma luz magnifica inunda a cidade, fazendo brilhar os seus encantos como noiva ataviada para as bodas.
            Transformaram-se então os panoramas: famílias que passam para a igreja, namorados que passeiam de mãos dadas, palestras alegres que se travam nas calçadas, onde as cadeiras vão se distribuindo a proporção que vão chegando as visitas. Daqui a pouco uma orquestra animada anuncia o início de um baile, mais além uma reunião familiar festejando uma aniversário e lá para os lados do mato papouca uma safona fanhosa como fantasma em noite de assombração... é a alegria que se expande como justo prêmio de um dia de bem aproveitado.
            Visitando os arredores da cidade fui deparar com um vale cuja formidável verdura indicou-me logo ser a causa do nome do lugar. Culturas diversas expandiam-se em toda sua direção, enquanto um fio d’água cristalina precipita-se, desde a margem da estrada de ferro nas proximidades do Açudinho, de onde se origina, até uma distância considerável, fartura ali é mato.
            Baixa Verde é dotada de um prédio magnifico onde se acha instalado o Grupo Escolar Capitão José da Penha. Este modelar estabelecimento é dirigido pela ilustre professora Maria Guimarães, que alia à sua reconhecida capacidade profissional, uma superior educação cívica, manifestada para com as colegas, os visitantes e seus alunos. Entre suas auxiliares destaca-se a professora Maura Santos, que é uma daquelas capacidades profissionais apaixonada pela profissão [...]. Baixa Verde és o sul encravado no Nordeste! Em 17/06/1947.

            Publicado no jornal A Ordem em 08/07/1947, p.4

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Relato de um missionário capuchinho pelo Rio Grande do Norte no século XVIII

            Esse é um dos mais antigos relatos sobre a atividade pastoral de um missionário capuchinho, frei Aníbal de Genova, pelo Rio Grande do Norte em 1762 e por ele podemos ter uma noção de como era a situação da então capitania do Rio Grande do Norte naqueles idos do século XVIII.

O cotidiano na aldeia de Mipibu
            O missionário capuchinho descreveu em seus relatórios o regime a que estavam sujeitas as aldeias de índios do Rio Grande do Norte. De acordo com o citado capuchinho: "ao alvorecer percorriam dois tambores o arraial despertando com seus rufos os habitantes, durava essa tamborilagem nada menos de meia hora, depois o sacristão da matriz tocava três Ave-Marias convocando os solteiros, grandes e pequenos de ambos os sexos ao serviço divino. Punham-se os convocados a direita e a esquerda do corredor central da igreja, homens de um lado e mulheres de outro. Recitavam a doutrina cristã e findo esses exercícios começava a missa. Ao se dá a elevação o coro das cunhãs[1] entoava o Tantum Ergo e outros belos cantos espirituais. Finda a missa recolhia-se o sacerdote a casa paroquial onde o capitão-mor diariamente ia ter com ele para receber ordens para a execução do programa do dia".
        A tardinha havia nova convocação à igreja para a recitação da ladainha de Nossa Senhora. As 20h00 horas anunciava-se o toque de recolher: os dois tambores rufavam durante meia hora, fechava-se as portas do quadrado do arraial cujas  chaves o oficial da semana entregava ao pároco.
      Um alferes comandava a ronda com 4 soldados, verificava se havia algum ausente indo de casa em casa, se algum faltasse devia o oficial levar ao conhecimento do missionário.
       O antecessor de frei Aníbal havia o aconselhado que ele não deixasse de ser ríspido com o jurisdicionados e também não demonstrasse muita afabilidade. Nos primeiros meses da presença do capuchinho tudo lhes correra muito bem, mas como não seguiu a risca os conselhos do confrade antecessor, teve muitos aborrecimentos. 
      Começaram misteriosos visitantes a lhe percorrer noturnamente a horta e o galinheiro levando-lhe muitas coisas. Assim o Frei Aníbal viu também diminuir notavelmente o rebanho de 180 bois e cabras pertencentes ao presbitério e apascentados pelos columins[2].O missionário precisou usar de muita energia para reprimir os furtos asperamente castigando os delinquentes apanhados em flagrantes, segundo relatou o mesmo frade.

Má impressão na aldeia de São José de Mipibu
        O missionário teve má impressão do estado de cristianização dos índios de São José de Mipibu. Segundo o relato de frei Aníbal de Genova, os índios iam a missa mais pelo receio de penalidades do que por devoção. 
        Os únicos que levavam terços as igrejas eram o capitão-mor, sua mulher e um capitão da companhia de ordenanças. Os índios só se confessavam no tempo pascal e mesmo assim quase esgotando o prazo para tal e ainda à força de instigações e ameaças, as confissões eram quase todas fementidas[3].
      Os índios quando apanhados em flagrante delito de furto e que eram castigados pelo próprio missionário, negavam, no entanto, de terem se apropriado do alheio. Outra má impressão do frei em Mipibu foi o fato de as mulheres solteiras, as vésperas do parto, que negavam obstinadamente de não haverem infringido o sexto mandamento[4].
         Outra luta do missionário capuchinho era a assistência espiritual aos doentes e moribundos, “tal era a desorganização reinante nas casas dos índios que se o chefe da família adoecesse ficava esta casa reduzida a fome” disse frei Aníbal. Em seu relato frei Aníbal diz também que apenas sabia um desses casos corria a levar carne e farinha a casa dos enfermos, porém, era uma grande dificuldade convencer os doentes tomassem remédios. Os únicos sufrágios eram os que o pároco lhes dedicava por ocasião do enterro; nunca ocorriam aos índios mandar rezar missa pelos seus defuntos.
        Frei Aníbal escandalizou-se pelas superstições de seus aldeados, sendo estas indivisíveis de serem narradas. O missionário fez referência a um caso curioso em que os índios levavam os filhos recém-nascidos a pia batismal, mas ao saírem da igreja para casa rebatizavam os filhos dando-lhes nomes de animais, aves ou quadrúpedes.
       Causou verdadeiro espanto ao capuchinho a pratica da cozvade[5].Os homens saltavam das redes das mulheres recém partejadas e lá passavam os dias bebendo ovos frescos em quantidade que os amigos lhes enviavam, conversando com o dia todo os visitantes que lhes afluíam, “chi rederebbe cose strane, se io stesso non le avessi vedete praticare[6], exclamou o missionário.
      Frei Aníbal narra ainda em seu relato que em São José de Mipibu passou a fazer exercício de paciência durante os quase 19 meses que por lá passou, de abril de 1761 a setembro do ano seguinte.

Testemunha ocular da expulsão dos jesuítas
         Frei Aníbal foi testemunha ocular dos fatos que culminaram com a expulsão dos jesuítas, o mesmo observou o sequestro dos bens da Companhia de Jesus, a prisão dos padres jesuítas e seu embarque para Lisboa. O capitão general Luiz Diogo Lobo da Silva mostrou-se muito rigoroso em executar às ordens pombalinas[7].

Frei Aníbal vigiado
     Frei Aníbal foi avisado de que o capitão-mor do Rio Grande do Norte andava tomando informações secretas a seu respeito, na qual resolveu o frei antecipar a seus desafetos, procedendo a um rigorosíssimo inventário do patrimônio da igreja e presbitério em duas vias com a presença de 7 testemunhas entregando uma cópia ao capitão-mor de Mipibu e partiu com seus dois escravos africanos. 
      Tanto o bispo de Pernambuco (Olinda) como o governador mostraram-se agastados com esse proceder, pelo qual dias depois o bispo decretou que os capuchinhos das aldeias seriam substituídos por padres seculares, a vista disso o guardião do convento dos capuchinhos do Recife determinou que o ex-pároco de Mipibu partisse em missão pelo sertão do nordeste onde  os fiéis reclamavam a presença de sacerdotes [...].

Em Goianinha e Nísia Floresta
      Frei Aníbal partiu de Engenho Grande em Pernambuco em direção a Goianinha distante 35 léguas[8], sendo parado pelo caminho onde houvesse lugarejos. Em suas atividades missionárias, segundo relato do próprio frei Aníbal de Genova, em Goianinha 2.322 pessoas receberam o sacramento da comunhão e 1.774 na paróquia de Nossa Senhora do Ó em Papari [Atual Nísia Floresta].

Em Natal
        De Goianinha o frei se dirigiu a Natal, a qual, segundo Frei Aníbal era uma “cidade que contava pouco mais de sete mil almas, fregueses de uma paróquia única”
       Segundo frei Aníbal as altas autoridades que haviam em Natal eram o capitão-mor da capitania, um provedor e um tesoureiro reais. O frei Aníbal achou o porto espaçoso e bem defendido pelo forte dos Reis Magos. A guarnição da cidade era de 160 praças distribuídas m 2 companhias.
    Em Natal o missionário capuchinho permaneceu 10 dias dos quais sempre atendendo ao confessionário. Ao concluir a missão na capital potiguar o frei Aníbal havia administrado o sacramento da comunhão a 5.123 natalenses. Considerando que a época a comunhão só era distribuída a adultos, eis, uma noção da demografia da capital potiguar no século XVIII.

Em São Gonçalo e Macaíba
       De Natal seguiu o Frei Aníbal a convite para São Gonçalo localizado do outro lado do rio Potengi tendo sido hospedado pelo senhor de engenho Pedro da Nova que o fora buscar em Natal. 
       Foi recebido em São Gonçalo por um distinto número de cavaleiros e pessoas distintas dos arredores. A missão foi ali das mais frutuosas segundo o relato do frei Aníbal. Foram dadas 974 comunhões. 
     De São Gonçalo se dirigiu o missionário para Coité[9], ali esteve por 8 dias pregando e ao encerrar sua missão em Macaíba foram dadas 562 comunhões. Joana Gomes, uma rica fazendeira viúva dos arredores pediu que fosse feita visita ao seu engenho denominado Curral da Junta, ali o frei distribuiu 837 comunhões.
           
Indo ao sertão potiguar
    Partiu o frei Aníbal rumo ao sertão potiguar. Era necessário viajar com precaução segundo o frei. Além de dois escravos africanos o frei levou consigo um mastim para se defender das onças pintadas “abundantes naqueles desertos onde encontravam os possantes jaguaretês farta carniças”, escreveu o frei.
      O frei Aníbal resolveu ir até Assú, distantes 80 léguas de Natal, através do sertão e das fazendas de gado “para visitar as pobres almas dispersas naquelas solidões, gente que nem pensava em assistir missa e sequer batizar os filhos" segundo frei Aníbal. Para realizar tal viagem era necessário a autorização do cura de Natal, cuja jurisdição abrangia os sertões em questão, o frei então pediu autorização para celebrar e batizar.
       Depois de percorrer “largo trato de terra absolutamente deserta” a caravana do frei chegou a um lugar chamado Caiçara onde havia uma fazenda quase a beira mar de propriedade de Antônio Machado e ali se hospedou, de Caiçara seguiu para Mangue Seco.
       Para ir de Natal a Assú nesse período havia dois caminhos, um pelo litoral e outro pelo interior, sendo este tão escasso de água que os viajantes “tinham de levar o liquido indispensável em odres de pele de cabra”. Muita pouca mandioca se plantava no sertão norteriograndense afirmou Frei Aníbal em seu relatório, no entanto, a criação de caprinos e suínos era avultada, não se via gente a mendigar e também abundava a caça sobretudo de veados e porcos monteses.
      Entre as 80 léguas que separavam Natal de Assú “não se avistava uma só igreja, sequer uma simples capela, sacerdote algum vivia naqueles desertos” afirmou frei Aníbal. As vezes surgia algum franciscano a fazer pregações, mas não celebrava por que o bispo de Pernambuco havia proibido os altares portáteis.
     Segundo Frei Aníbal “aqueles pobres sertanejos nasciam e morriam sem sacramentos, nem se enterravam em sagrado”[10], notou o missionário que as cruzes espalhadas a beira das estradas lembravam a existência de ossadas.
        Em Mangue Seco, escreveu o missionário capuchinho que era “terra deserta e arenosa do litoral atlântico onde só viviam algumas famílias de criadores onde a água era de mal paladar e semi-salgada”. 
       Por ali esteve o capuchinho por cerca de 14 dias onde confessou 834 pessoas tendo os mesmos recebido a comunhão "ficando edificado com a piedade destes pobres moradores”, e ainda segundo frei Aníbal, apesar do isolamento, eram pessoas religiosas e viviam cristãmente e eram bem instruídos na doutrina da igreja católica.
     Frei Aníbal recebera plenos poderes de missionário apostólico e assim podia realizar o sacramento da crisma. Ali em Mangue Seco crismou 123 pessoas “receberam a benção papal os pobrezinhos  com tantas lágrimas que era coisa de enternecer a todos” escreveu frei Aníbal.
      De Mangue Seco partiu para Pedra Branca, ali administrou os sacramentos a 1.129, partindo daí para a fazenda Cacimbas, do coronel Antônio da Rocha Bezerra, grande criador e lavrador este senhor de terra, onde moravam mais de 2 mil pessoas.
       Em Cacimbas o missionário distribuiu a comunhão a 1.453 pessoas moradores daquelas redondezas. De Cacimbas foi para Olho d’Água onde foram distribuídas 4.421 comunhões a pessoas que ali estiveram nas missões de frei Aníbal de Genova.

Chegando finalmente a Assú
    Chegando finalmente a Assú onde foi o missionário capuchinho recebido estrondosamente. A massa popular estava encabeçada pelo pároco local e os homens bons, principais da vila que esperavam a uma milha do povoado. 
   Esta multidão cantavam a ladainha de Nossa Senhora em procissão. O capuchinho apeou do cavalo e entrou na vila ao repique de sinos e explosão de morteiros, seguindo o missionário, para a igreja matriz onde entrou ao som de órgão e ali realizou pregações. Em Assú o missionário foi ajudado por 5 sacerdotes da região que o ajudaram nas confissões.
     Segundo relatório de frei Aníbal, participaram das missas em Assú “nada menos de 8.763 fiéis”.

Partindo para Apodi
     De Assu o missionário seguiu para Apodi distante 10 léguas. Segundo frei Aníbal de Genova, Apodi era lugar opulento “onde havia muitas famílias de prestigio e ricas de bens”. 
       Do Rio Grande do Norte o missionário capuchinho partiu em direção a terras da Paraíba e do Ceará.

Fonte: relato publicado na revista Excelsior, 1940, p. 70.




[1] Em algumas línguas indígenas, cunhãs se refere a mulheres jovens, adolescentes.

[2] Caboclo ainda jovem.

[3] Que faltou à fé dada; perjuro; falso.

[4] Não pecar contra a castidade.

[5] A síndrome de couvade (do francês couver, "incubar", "chocar") é um mal que afeta alguns homens durante a gravidez de sua mulher. Em geral, a síndrome se manifesta no homem ou pessoas bem próximas à grávida, com a aparição dos sintomas da gravidez próprios da mulher gestante. No âmbito da antropologia, contudo, o termo couvade (cuvád) tem outro sentido, remetendo a um costume dos índios sul-americanos de os maridos se deitarem dias inteiros após o parto de suas esposas.

[6] "Que haviam de se livrar das coisas estranhas se eu não os visse praticando, tradução livre".

[7] No Rio Grande do Norte os jesuítas foram expulsos de Extremoz e Arez.

[8] Após a determinação do bispo de empreender missão pelo sertão o frei Aníbal partiu do convento do Recife percorrendo vários lugares em Pernambuco. Como nosso intento é demonstrar sua missão em terras potiguares nos omitimos dessa parte da missão do frei Aníbal.

[9] Primeiro nome de Macaíba.

[10] Cemitério ou igreja.