terça-feira, 21 de abril de 2026

SOBRE A MATRIZ DE MARTINS

 

Analisando a foto publicada na revista Vida Doméstica de 1948 e  restaurada e colorizada da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Martins podemos traçar uma análises de sua arquitetura.

Diferente de outras igrejas marcadas pela verticalidade neogótica, a Matriz de Martins possui características que refletem a transição do colonial para o neoclássico, com toques barrocos no interior.


Reconstituição digital por Inteligência Artificial e Vida Doméstica, março de 1948, p.99, respectivamente.


A igreja possui duas torres sineiras laterais com coroamento piramidal. Note que, na restauração da imagem, as torres seguem o padrão de cores do corpo da igreja (creme e branco), o que confere uma unidade visual típica das igrejas serranas do interior potiguar.

A fachada é mais sóbria e horizontalizada. O frontão central é trabalhado com volutas, e o uso de três portas frontais com molduras em arco garante a simetria clássica.

Histórico

 A paróquia de Martins é uma das mais antigas da região oeste, tendo sido elevada à categoria de Matriz em 1840. O templo que vemos hoje é fruto de várias reformas ao longo dos séculos XIX e XX, que buscaram manter a imponência da padroeira no topo da serra.

 Embora a foto mostre o exterior, registros históricos mencionam que o interior abriga altares em estilo gótico e imagens barrocas em madeira de valor inestimável, sendo uma das heranças sacras mais importantes da Diocese de Mossoró.

A arquitetura dessas matrizes conta a história da expansão do catolicismo pelo interior do Estado.

Observação sobre a restauração da imagem

A aplicação das cores creme e branco na restauração que fizemos ajuda a destacar os cunhais (os cantos das torres) e as molduras das janelas, que são elementos estruturais que definem o desenho da fachada. Em cidades de clima serrano como Martins, essas cores claras também ajudam a destacar o monumento em meio à neblina e à vegetação local.

SOBRE A REFORMA DA MATRIZ DE CEARA MIRIM ENTRE 1944 E 1945

 

Entre 1944 e 1945 a matriz de Ceará-Mirim passou por significativas reformas e melhoramentos sob o paroquiato do mons. Celso Cicco.

Em artigo sobre o assunto em questão o jornal A Ordem expos um artigo em que afirmava

“O aspecto dos templos são como as fisionomias das Paróquias: todos se parecem uns com os outros. Todos os Templos se parecem. No entanto há os modestos e humildes; enquanto outros são mais belos, mais solenes, mais austeros.

A Matriz de Ceará-Mirim é, sem favor, o maior e o mais belo Templo católico do nosso Estado. Situada em ótimo local, bem no centro da Cidade dos Canaviais, as torres altas, erguem-se sobranceiras e dominam majestosamente todo o perímetro urbano do Municipio.

E' uma suntuoso edifício de linhas simples, mas graves e imponentes que, sobre lhe darem aspecto de rara beleza, oferecem aos que a contemplam a nítida sensação das coisas que não passam, que se eternizam. Não resta duvida que o motivo é de justa alegria para uma cristandade o possuir tal Igreja. Porque as Igrejas são, na realidade, verdadeiros símbolos nas Paróquias. Simbolo de Catolicismo, de fé viva, de zelo decidido, de ardente tenacidade.

E a Matriz de Ceará-Mirim é bem o símbolo mais sugestivo dos ideais cristãos dos seus filhos”.[1]


Reconstituição digital por Inteligência Aritficial e Vida Doméstica, março de 1948, p.99, respectivamente. 

Em pouco mais de dez anos, que era o tempo de paroquiato de Monsenhor Celso Cicco em Ceará-Mirim, em que ele tinha despendido tantas energias e o melhor do seu zelo sacerdotal, o referido Templo passou, internamente, por profundas reformas exigidas, “já por imperativos arquitetônicos e estéticos, já pelo progresso dos novos tempos, que o transformaram completamente, emprestando-lhe uma aparência inédita, uma visão absolutamente diferente da imagem do passado. De tal modo transformam os monumentos a estética e o bom gosto amparados numa vontade enérgica”.[2]

Quase concluído o plano de embelezamento interno, voltava-se agora o Monsenhor Cicco, com toda a alma, para a urgência dos reparos externos da Matriz do seu povo.

A empresa era arrojada e o projeto já havia sido ultimado, elevando-se a receita para mais de Cr$ 40.000,00. “Todos os óbices, porém, serão sobrepujados, as dificuldades todas serão vencidas”. [3]

Porque o Monsenhor Vigario contava com a boa vontade dos seus numerosos paroquianos. “Como de todas as outras vezes em que se fez mister sua ajuda, eles acolheram, com um franco e resoluto apoio, a ideia tão necessária quão justa e impreterível de uma reforma exterior da Igreja em que receberam o Batismo e a Primeira Comunhão, da Matriz que muito estremecem e que já conta, nas suas vetustas paredes, uma tradição gloriosa”.

E todos, ricos e pobres, aprestaram-se a trazer ao dinâmico Vigário a sua generosa contribuição, sem a qual, diga-se de passagem, impossível seria levarem-se a bom termo os trabalhos do novo empreendimento.

É de salientar-se o gesto do Sr. Milton Varela que ofereceu ao Monsenhor Cicco todo o mosaico necessário para as calçadas. “Tendo-se em vista a extensão do piso em metros quadrados, que sem duvida ascende a mais de 300, podemos avaliar a generosidade da oferta, que chamamos de presente régio”.

Aliás, não era essa a primeira vez que o sr. Milton Varela tinha tido desses gestos. Foi ele também que, anos atrás, com sua esposa brindou o altar mor de Nossa Senhora da Conceição, com um custoso e belíssimo sacrário de mármore branco.

E era assim que, dentro em breve, depois de ter experimentado uma reforma que ia do revestimento das torres com cimento colorido ao piso do grande patamar e das calçadas de mosaico, surgiria, “inteiramente renovado, na cristianíssima Cidade de Ceará-Mirim, o mais belo monumento que ela possui, para gaudio da fé e alegria dos olhos do seu povo cristão e educado”.[4]

Contribuição dos fieis para a limpeza externa da Matriz

Contribuição dos fieis para a limpeza externa da Matriz, revestimento das torres a cimento colorido, reboco total de uma das fachadas, rodapé geral de cimento rústico, meio-fio e mosaico no patamar e calçadas, inclusive a pintura de portas e janelas.

Em  12/07/1944 Monsenhor Celso Cico, Vigário de Ceará-Mirim divulgou no jornal A Ordem os nomes das pessoas que contribuíram para os trabalhos de reformas da matriz.[5]

Doador

Oferta

Milton Varela

Todo o mosaico para o patamar e calçadas [300m²]

D. Maria Cavalcanti de Oliveira Correia

Cr$ 2.000,00

Dr. José Varela

Cr$ 1.200,00

saldo da festa da Padroeira e juros vencidos

Cr$ 1.200,00

Contribuintes

Cr$ 1.000,00

Manoel Emidio de França, Heraclio Ribeiro Filho, Luiz Lopes Varela, Paulo Lopes Varela e Ubaldo Bezerra

Cr$ 500,00

Simeão Barreto, Antonio Basilio, Vital Correia, Onofre Soares, D. Maria Ester Varela, e João Severiano da Camara;

Cr$ 450,00

F. Correia & Cia

Cr$ 400,00

J. Coutinho & Cia

Cr$ 300,00

Enéas Cavalcanti, Francisco Leopoldino Cavalcanti, Antonio Gentil Fonseca e Euclides Cavalcanti

Cr$ 250,00

Manoel Pereira e Brasilicio Francisco Campos

Cr$ 200,00

Dr. Arino Barreto, Dr. João Vicente da Costa, Pedro Varela, João Teixeira de Farias, Davi França, João Juvenal Ribeiro Dantas, D. Fefa Cavalcanti Rocha, Dr. Olavo Montenegro, Ernani Cabral, Aguinaldo Tinoco, Dr. Fabio Dantas, José Varela Sobrinho e Virgilio Luiz de Melo

Cr$ 100,00

Francisco Dantas, Cleto Brandão, José Carrilho da Fonseca e Silva, José Paulo da Rocha e D. Maria Anunciada Carrilho

Cr$ 50, 00

A Ordem, 15/O7/1944, p.4.

Em edição do dia 13/11/1945 o jornal A Ordem registrou que estavam ainda em trabalhos, a Matriz de Ceará-Mirim.

“Grandes trabalhos vêm sendo executados na Igreja Matriz de Ceará-Mirim, sob a direção do incansável Monsenhor Celso Cicco, pároco arcipreste da circunscrição eclesiástica de Ceará-Mirim”.[6]

O Vigário apelava para a boa vontade dos filhos de Ceará-Mirim, residentes lá e na capital, para prestarem seu auxilio nos empreendimentos que vinha realisando. Estava ele procedendo a colocação do forro das naves laterais, o revestimento da capela-mor, o piso das naves, além da artística pintura a óleo, “tudo convergindo para a beleza do maior templo católico do Rio Grande do Norte”, escreveu o referido jornal.[7]



[1] A Ordem, 15/O7/1944, p.4.

[2] Op.Cit.

[3] Op.Cit.

[4] OpCit.

[5] A Ordem, 15/O7/1944, p.4.

[6] A Ordem, 13/11/1945,p.4.

[7] Op.Cit.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

SOBRE A ANTIGA IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO DE TAIPU

 

No ultimo dia 18/O4/2O26 foi celebrado os 113 anos da criação da paróquia de Nossa Senhora do Livramento de Taipu. A seguir alguns pontos principais da arquitetura da antiga igreja matriz e análise histórica dessa edificação.

A antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora do Livramento de Taipu, possui uma trajetória que se confunde com a própria fundação do município. O templo atual é o resultado de uma evolução que começou em meados do século XIX.

Origens e evolução

A semente da matriz foi a capela construída por volta de 1861, graças à doação de terras de Bernardo José da Costa Gadêlha e sua esposa, Maria do Carmo. No início, era uma estrutura muito simples, com uma única nave e paredes rústicas, sob a jurisdição da freguesia de Estremoz.

Com o crescimento da povoação e a importância econômica da região, a capela foi elevada à categoria de Matriz em 18/O4/1913. Foi nesse período que a estrutura começou a ganhar a robustez que vemos em registros antigos, refletindo o status de Taipu como um centro regional.

 Características arquitetônicas

A antiga igreja matriz de Taipu apresentava um estilo Eclético-Sertanejo.Assim como outras igrejas  a Matriz de Taipu seguiu o padrão das reformas do início do século XX.

Diferente das curvas barrocas, o frontão é reto e triangular, conferindo um ar mais neoclássico e austero à fachada. O detalhe de "dentes" (dentículos) ao longo da inclinação do telhado é um adorno clássico que valoriza a linha de cumeeira.

Diferente das outras igrejas com frontões triangulares, a matriz de Taipu nesta fase exibe um frontão barroco com curvas e contracurvas (volutas) muito bem definidas. Este detalhe confere leveza e elegância à construção, contrastando com a robustez da torre.

No corpo central a fachada é dividida em dois níveis claros. O nível inferior possui três portas de entrada, sendo a central maior, todas com arcos de volta inteira. No nível superior, três janelas de coro (ou janelas de púlpito) garantem a iluminação interna.

As torres em miniaturas são os elementos ornamentais de destaque no frontão, sendo o topo das torres encimado por uma pirâmide curta, o que indica uma construção sólida e funcional, típica das paróquias do interior potiguar que buscavam durabilidade e resistência ao clima.

 As três entradas principais e as janelas superiores utilizam o arco de volta inteira (românico), que proporciona uma sensação de estabilidade e peso institucional.

Uma das características marcantes de suas fases anteriores era a torre sineira única, posicionada lateralmente, que servia de guia visual para quem chegava à cidade.

As duas torres laterais, integradas ao corpo da fachada, não possuem cúpulas bulbosas, terminando em pequenos telhados piramidais. Isso é característico de uma arquitetura religiosa mais pragmática e robusta, comum no interior do Nordeste.

Elementos decorativos e simbólicos

A Estrela no tímpano. No centro do grande arco cego da fachada, observa-se o relevo de uma estrela (ou óculo em formato de estrela), um símbolo frequentemente associado à orientação espiritual ou a títulos marianos/santos.

Cunhais e molduras. A pintura em branco sobre o fundo creme destaca as pilastras (cunhais) e as molduras das janelas, criando uma leitura clara da estrutura rítmica do edifício.

Observe os pequenos óculos circulares no corpo da igreja. Eles são remanescentes da arquitetura colonial, mantidos para garantir a circulação de ar cruzada, essencial para o conforto térmico no interior da nave.

A lateral da igreja revela o uso de platibandas (muros que escondem o telhado), o que era uma tendência estética para conferir um aspecto mais "moderno" e urbano às edificações, afastando-as da aparência de casas rurais.


Reconstituição digital por Inteligência  artificial,respectivamente.

Ao longo do tempo a igreja passou por reformas de modernização. Sob o paroquiato de figuras como o Monsenhor Celso Cicco, em 1914 a igreja passou por mudanças significativas no piso e no reboco, buscando se alinhar aos padrões estéticos da época, abandonando a simplicidade das paredes "nuas" do século XIX.

Importância urbana e social

A Matriz sempre foi o "marco zero" da vida social taipuense. Localizada estrategicamente, ela organizava o crescimento das ruas ao seu redor. A transição da capela singela para a igreja atual simboliza o período de progresso local.

Considerando o trabalho de restauração digital, a igreja de Taipu é um excelente desafio, pois sua fachada passou por alterações que hoje exigem um olhar atento de geógrafo e historiador para reconstituir as volumetrias originais que se perderam com o tempo.

A imagem restaurada e colorizada revela a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Livramento, em um momento de celebração popular, possivelmente durante as festividades da padroeira ou uma inauguração de reforma.

A imagem é um registro valioso da vida social em torno da igreja.

Os dois troncos de palmeiras (ou mastros) adornados com folhagens à frente da igreja são elementos típicos de festas de padroeiros no sertão, servindo para o hasteamento de bandeiras ou como marcos festivos.

A presença da multidão vestida de forma solene (homens de terno e chapéu, crianças com roupas claras) reforça a importância da igreja como o principal espaço de convergência social e política da comunidade.

A imagem restaurada é um registro histórico valioso e permite aprofundar a análise da Antiga Matriz de Nossa Senhora do Livramento, em Taipu. Esta fotografia capta a transição entre a capela oitocentista e a configuração mais imponente do início do século XX.

Contexto urbano e social

A segunda fotografia mostra a igreja implantada em um terreno de terra batida, sem o calçamento de paralelepípedos que viria depois. Isso reforça a imagem de uma cidade em formação, onde a Matriz era o primeiro edifício a ser "embelezado" e finalizado.

A presença de vegetação rasteira e a ausência de muros ao redor mostram a igreja como um espaço de acesso livre e total comunhão com o largo, evidenciando sua função como ponto de encontro da comunidade.

Esta imagem é um documento fundamental para entender como a Matriz de Taipu evoluiu de uma capela simples para o templo monumental que se tornou o símbolo do município. Ela ilustra perfeitamente o período em que a cidade consolidava sua identidade em torno da fé e da arquitetura institucional.

À esquerda e à direita, observam-se casas de platibanda (escondendo o telhado), típicas do progresso urbano do século XIX e início do XX. A igreja se destaca por sua altura e largura.Esta fotografia é um documento visual de como a fé e a arquitetura foram os pilares da consolidação urbana de Taipu, unindo a sobriedade das formas com a vibração das tradições populares.


SOBRE A ANTIGA IGREJA MATRIZ DE SANTA CRUZ

 

A imagem apresentada no jornal A Ordem em 1937 e restaurada e colorizada da Igreja Matriz de Santa Rita de Cassia de Santa Cruz,  é um registro valioso da transição arquitetônica e da importância religiosa na região do Trairi.

A seguir está uma análise detalhada baseada nos elementos visuais e no contexto histórico da época.

Arquitetura e estilo

A Matriz de Santa Cruz em 1937 exibia um estilo Colonial Tradicional com forte influência do Barroco Sertanejo.

O elemento mais marcante era o frontão ondulado com volutas simples, que dava um aspecto de "movimento" à fachada. No centro, há um nicho que costuma abrigar a imagem da padroeira ou do padroeiro.

A igreja possuía uma torre única à direita, com um telhado piramidal (agulha) bem definido. Em 1937, o relógio e os sinos eram instrumentos vitais para organizar a rotina de trabalho e oração da cidade.


Restauração digital por Inteligência Artificial e A Ordem,2O/O5/1937, p.1, respectivamente.

As três portas no térreo e as três janelas no coro (nível superior) seguem a regra clássica de simetria, garantindo iluminação natural e ventilação para a nave principal.

Estética e cores

A restauração nas cores branco e marrom (madeira) reflete a sobriedade das construções da época.

O branco das paredes servia não apenas por estética, mas para refletir a forte luz solar da região, mantendo o interior ligeiramente mais fresco.

As portas e janelas de madeira escura contrastam com a alvenaria, destacando o trabalho de marcenaria da época, que era robusto e feito para durar décadas.

Contexto urbano de 1937

Nesta década, Santa Cruz passava por um período de consolidação como polo regional.

 A área em frente à igreja aparece com pedras irregulares ou terra batida, indicando um urbanismo ainda em fase inicial de pavimentação.

A limpeza visual da imagem sugere uma cidade baixa, onde a igreja era, sem dúvida, o edifício mais imponente e o ponto de referência para todos os habitantes.

Simbolismo religioso e social

Em 1937, a Igreja Matriz era o centro de todas as decisões sociais e eventos importantes de Santa Cruz.

Festa de Santa Rita de Cássia. A cidade já nutria uma forte devoção a Santa Rita. A igreja era o palco das grandes promessas e romarias que começavam a moldar o turismo religioso que hoje define a cidade (agora famosa pela estátua gigante).

Olhar para esta foto de 1937 é ver a "raiz" da fé sertaneja. É uma arquitetura que não tenta ser luxuosa, mas sim sólida e acolhedora, como o próprio povo da região.

Esta análise nos mostra que a Matriz de Santa Cruz em 1937 era a representação perfeita do sertão: resiliente, simples em sua forma, mas imponente em sua presença. Ela serviu de base para as futuras ampliações e para a identidade visual que a cidade ostenta até hoje.

É interessante notar como a arquitetura religiosa do RN em 1937 era padronizada para transmitir segurança e tradição em um período de mudanças políticas e sociais no Brasil.

Histórico

A freguesia de Santa Rita de Cássia, na então povoação de Santa Rita da Cachoeira, também conhecida com o nome de Santa Cruz de Inharé foi criada Por lei provincial n. 24, de 27 de março de 1835, que teve como o primeiro vigário o padre João Jerônimo da Cunha, que a regeu durante cinco anos.

Unida como era a igreja ao Estado, os atos de criação de paroquias eram assinados pelo poder civil.

Quatro anos antes da criação,ou seja, em 1831, existia a capela de Santa Rita de Cássia, edificada por Lourenço da Rocha e seu irmão João da Rocha e José Rodrigues da Silva, á qual deram, alem do patrimônio e alfaias, a respectiva imagem e paramentos, obtendo ainda provisão para a celebração de missas.

Um fato importante convém ressaltar, aliás muito comum em todos os núcleos de população do Brasil. E' que foi sob o influxo da Igreja que se verificou o progresso de Santa Cruz. Ainda não havia o Municipio, pois se sabe que este só foi criado em 1876 e já a paróquia funcionava havia quarenta anos.

Essa precedência do fator espiritual sobre o fator político é um dos característicos da nossa tradição histórica, que sempre deve ser lembrada para mostrar que o Brasil, na sua origem, é obra da Igreja Católica.[1]

Coube ao Pe. Benjamin Costa Sampaio celebrar o centenário de criação da paróquia entre 12 e 15/12/1935.




[1] A Ordem, 18/12/1935, p.4.

 


SOBRE A MATRIZ DE CARAUBAS EM 1902

 

A imagem apresentada na Revista da Semana em 1902 e restaurada e colorizada é um registro histórico extraordinário da Igreja Matriz de São Sebastião, em Caraúbas. Esta fotografia captura não apenas a arquitetura, mas a própria alma social do sertão potiguar no início do século XX.

A seguir está uma análise detalhada deste cenário:

Arquitetura da Matriz (transição e sobriedade)

Em 1902, a igreja apresentava uma estética tipicamente colonial, com uma transição para o neoclássico simplificado, comum nas vilas do interior.

Note que, na época, a igreja possuía apenas uma torre (à esquerda de quem olha). Ela termina em uma cúpula arredondada, um detalhe charmoso que contrasta com as torres pontiagudas de Mossoró ou Angicos.

O frontão era barroco. O topo da fachada principal mantinham as curvas (volutas) do barroco brasileiro, simbolizando a herança portuguesa.

 A restauração revela marcas de desgaste nas paredes, o que é natural para a época, mostrando uma construção feita de pedra, cal e óleo de baleia ou materiais locais, enfrentando o clima rigoroso.

 

 O evento social: a procissão da festa do Padroeiro

         A imagem publicada na Revista da Semana retratava a procissão de São Sebastião, o padroeiro de Caraubas, o que indica que a foto foi tirada em 2O/O1/1902.

A força desta imagem está na multidão organizada. A imagem mostra a hierarquia e os trajes da época. As crianças e jovens na frente, vestidas impecavelmente de branco (provavelmente para a Primeira Comunhão ou uma ala específica da procissão), demonstram a importância da pureza e do decoro religioso.

Os homens ao fundo usam paletós escuros e chapéus, o traje formal obrigatório para a elite e cidadãos comuns em dias de festa.

Ao fundo, à esquerda, é possível identificar os andores com santos sendo carregados, confirmando que se trata de uma procissão, o momento máximo da vida comunitária em Caraúbas.

 O urbanismo primitivo

O chão de terra, a praça ainda não possuía calçamento e o solo batido era o cenário por onde passavam fiéis, animais e o comércio.

À direita, vemos casas de telha colonial simples, que serviam de residência para as famílias mais ricas ou para o clero. A restauração destaca o contraste entre o branco das vestes e o tom terroso do ambiente.

Importância histórica

Caraúbas, em 1902, estava se consolidando como um polo importante na região oeste. A Igreja de São Sebastião era o ponto de união entre as diferentes classes sociais.

São Sebastião é o protetor contra a peste, fome e guerra. Em um sertão que enfrentava secas cíclicas, a devoção capturada nesta foto representa a esperança e a resiliência do povo caraubense.

 Comparando com a Caraúbas atual, a igreja passou por várias reformas e ampliações e a modernização da praça, mas esta imagem de 1902 é o testemunho visual mais puro da fundação da fé e da sociedade daquela região.




Reconstituição digital por Inteligência artificial.