A remodelação da igreja matriz de Macaíba, dedicada a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, marcou um dos momentos mais significativos da história urbana e religiosa do município no século XX.
Iniciada em 1935, a obra refletia o desejo de modernizar o templo, adequando-o ao crescimento da cidade e à intensificação da vida paroquial. A antiga estrutura, já limitada diante do aumento de fiéis, começou a passar por intervenções que buscavam ampliar o espaço interno, reforçar a estrutura e conferir maior imponência arquitetônica à igreja, que sempre ocupou posição central na identidade macaibense.
No ano seguinte, em 1936, surgiu uma iniciativa ainda mais ambiciosa: a tentativa de construção de torres frontais. Esse projeto visava alinhar a matriz aos padrões estéticos de igrejas mais monumentais, comuns em outras cidades nordestinas, onde as torres simbolizavam não apenas fé, mas também progresso e prestígio local. A proposta indicava um momento de otimismo e projeção urbana, no qual a comunidade buscava afirmar sua relevância regional.
Entretanto, a construção das torres enfrentou dificuldades — possivelmente financeiras, técnicas ou estruturais — e não foi plenamente concretizada naquele momento. Ainda assim, a tentativa em si revela muito sobre o espírito da época: uma conjugação de fé, identidade comunitária e aspiração por desenvolvimento.
Os católicos macaibenses, orientados pelo Vigario da Freguesia, estavam seriamente empenhados em mosaicar a matriz da cidade. Já se achava em Macaíba o mosaico exigido para o ladrilho da nave principal do templo, notando-se muito boa vontade do povo católico da Paróquia em contribuir para tão importante melhoramento.(A Ordem, 03/09/1935,p.4).
Em 15/08/1936 o Vigário da Freguesia acabava de dirigir aos seus paroquianos a seguinte carta circular:
“Macaíba, 15 de Agosto de 1936. Prezado paroquiano e amigo. Louvado seja N. S. Jesus Christo.Os macaíbenses vão ficar plenamente jubiloso com a almiscareira noticia de que, por todo o mêz de Setembro próximo, deverão ser reiniciados os melhoramentos de nossa Matriz.Permitta-me, prezado paroquiano, falar-lhe com toda franqueza: em paróquia alguma tenho encontrado gente mais generosa do que na de Macaíba.
Estão aí como provas eloquentes e incontestáveis dois meses de Maio lindíssimos, uma encantadora festa da Padroeira e o ladrilho a mosaico da nave principal da matriz, em pouco mais de um ano!! E não houve ainda um só filho desta terra que desse uma resposta negativa ao menor apelo do seu Pastor.
De posse, pois, de um testemunho tão enobrecedor do carácter religioso do povo macaíbense, é que venho hoje, em nome da Virgem da Conceição, estender a V. S. as minhas mãos, implorando um auxilio que certo não será negado, em beneficio dos inadiaveis trab lhos do nosso majestoso templo paroquial.
Segurando a minha pena eu sinto a mão da Santa Padroeira da Freguesia, a Virgem da Conceição, que tamanha confiança deposita nos católicos macaíbenses, que para não melindrar os corações obedientes e generosos, os deixa em plena liberdade na escolha da quantia que cada um lhe tem de ofertar.
E certo de que os filhos de Macaíba, mais uma vez, hão de desmentir aos seus gratuitos menos cabadores,cumpre-me, desde já, prevenir ao prezado paroquiano e amigo que o seu distinto nome, bem como a sua generosa oferta, serão lidos do alto da tribuna sagrada por ocasião das missas dominicais.
E Nossa Senhora da Conceição, rainha dos brasileiros e do coração do povo de Macaíba, lhe há de retribuir com uma bênção maternal e carinhosa ao seu honrado lar, aos seus bens honestamente adquiridos e á nossa tradicional Paróquia.Subscrevo me penhoradissimo — Pe. Pedro Paulino Duarte da Silva”.(A ordem, 17/09/1936,p.3. Grifo do orginal).
Os bons católicos da terra de Auta de Souza, não querendo desmentir o seu honroso passado de amor e dedicação ás suas crenças religiosas estavam atendendo com bastante gentileza e generosidade ao justo appello do seu operoso Pároco.
O jornal A Ordem havia começado a publicar em 17/-09/1936 as importâncias arrecadadas para o inicio da remodelação da matriz de Macíba:
Nome | Quantia |
D. Francisca Freire | 200$ |
D. Anna Mesquita | 50$ |
Almir Freire | 50$ |
Dr. Odilon Coelho | 50$ |
Odilon Feitosa | 50$ |
Tte. Abel Cabral | 50$ |
Francisco Cabral | 50$ |
Vulpiano Rocha | 50$ |
Manoel Amaro | 500 |
Em outubro de 1936 prosseguiam com grande animação os trabalhos de igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de Macaíba.Segundo o jornal A Ordem havia já sido inaugurado todo o ladrilho compreendendo a nave principal da Matriz, os corredores e as duas sacristias e já estão sendo construidos 14 óculos em forma de cruz.(A Ordem,10/10/1936,p.2).
O Vigario Pe. Pedro Paulino tencionava fazer a limpeza interna e externa do templo e oportunamente construir duas lindíssimas torres, cuja planta já estava em seu poder.Reinava grande entusiasmo na população.
A seguir os nomes dos macaibenses que responderam á circular do Vigário, publicada no jornal A Ordem para ajudar na remodelação do referido templo.
Nome do Doador | Valor ($) |
Vigario Pedro Paulino | 200$000 |
Viuva Aureliano Medeiros | 200$000 |
José Adolpho | 80$000 |
D. Maria Moura | 50$000 |
Francisco Pinheiro | 50$000 |
Desembargador Virgilio Dantas | 25$000 |
D. Elisa Xavier | 25$000 |
Balthazar Marinho | 25$000 |
Manoel Alves | 20$000 |
Luiza Teixeira Galvão | 20$000 |
José Moraes | 20$000 |
D. Maria Leopoldina Marinho | 20$000 |
D. Celeste Garcia | 20$000 |
José Paulo de Souza | 20$000 |
Vicente Altino | 20$000 |
Francisco Cursio | 20$000 |
Julio Dantas | 10$000 |
Paulino Ribeiro | 10$000 |
Francisco Couto | 10$000 |
Pedro Belarmino | 10$000 |
Francisco Costa | 10$000 |
Manoel Patricio | 10$000 |
D. Theodorica Freire | 10$000 |
Antonio Cassiano | 10$000 |
Manoel Paixão | 10$000 |
Francisco Mauricio | 10$000 |
Viuva Manoel Simplicio | 10$000 |
Cleodon Rocha | 10$000 |
João Pinheiro Sobrinho | 10$000 |
Sr. Fagundes | 10$000 |
Francisco Felippe | 10$000 |
Adelino Moreira | 10$000 |
D. Raquel Silva | 10$000 |
Ignacio de Lima | 10$000 |
Joaquim de Souza | 10$000 |
Antonio Leandro | 10$000 |
José Ferreira de Araujo | 10$000 |
Oscar Marinho | 10$000 |
Manoel Vicente | 10$000 |
João Leão | 10$000 |
A remodelação da década de 1930 deixou marcas duradouras na configuração da matriz, consolidando-a como um dos principais marcos arquitetônicos e simbólicos de Macaíba. Mesmo com projetos inacabados, como o das torres, o período representa um capítulo essencial na evolução do patrimônio religioso da cidade.
Sobre o projeto das torres
Como visto a cima havia um projeto do Pe. Pedro Paulino de construir as duas torres da matriz de Macaíba, o qual já tinha em mãos a planta em 1936, porém, o projeto não foi levado a efeito, de modo que a igreja matriz permanence atualmente sem esse elemento ornamental o qual daria ao referido templo uma maior monumentalidade e expressividade estética, concorrendo inclusive com a igreja de Ceará-Mirim em termos de beleza e monumentalidade.
Arquitetonicamente, as torres elevariam o templo a um padrão mais próximo das matrizes de cidades maiores, conferindo verticalidade e destaque na paisagem urbana.
As torres do projeto idealizado em 1936 foi uma tentativa de monumentalização, alinhada ao gosto eclético do início do século XX.
Essa sobreposição é comum em igrejas brasileiras, onde estruturas antigas foram progressivamente adaptadas para refletir novas ambições estéticas e simbólicas da comunidade, expressando um processo de uma igreja colonial modesta para um templo com pretensões monumentais.
As torres, se de fato tivessem sido concluídas, transformariam significativamente sua leitura urbana, aproximando-a do modelo clássico de igreja matriz com forte presença visual e simbólica.
Esta arquitetura refletiria uma Matriz de transição, que buscava a elegância do barroco no frontão, mas já apresenta a austeridade e simetria que antecipam o neoclassicismo.
Se as torres da matriz de Macaíba tivessem sido construidas o templo seria atualmente um modelo clássico das igrejas que comporia o patrimônio histórico do Rio Grande do Norte e outros estados vizinhos.
| Matriz de Macaíba, 1937.A Ordem. |
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