terça-feira, 21 de abril de 2026

SOBRE A REFORMA DA MATRIZ DE CEARÁ-MIRIM ENTRE 1944 E 1945

 

Entre 1944 e 1945 a matriz de Ceará-Mirim passou por significativas reformas e melhoramentos sob o paroquiato do mons. Celso Cicco.

Em artigo sobre o assunto em questão o jornal A Ordem expôs um artigo em que afirmava

“O aspecto dos templos são como as fisionomias das Paróquias: todos se parecem uns com os outros. Todos os Templos se parecem. No entanto há os modestos e humildes; enquanto outros são mais belos, mais solenes, mais austeros.

A Matriz de Ceará-Mirim é, sem favor, o maior e o mais belo Templo católico do nosso Estado. Situada em ótimo local, bem no centro da Cidade dos Canaviais, as torres altas, erguem-se sobranceiras e dominam majestosamente todo o perímetro urbano do Municipio.

E' uma suntuoso edifício de linhas simples, mas graves e imponentes que, sobre lhe darem aspecto de rara beleza, oferecem aos que a contemplam a nítida sensação das coisas que não passam, que se eternizam. Não resta duvida que o motivo é de justa alegria para uma cristandade o possuir tal Igreja. Porque as Igrejas são, na realidade, verdadeiros símbolos nas Paróquias. Simbolo de Catolicismo, de fé viva, de zelo decidido, de ardente tenacidade.

E a Matriz de Ceará-Mirim é bem o símbolo mais sugestivo dos ideais cristãos dos seus filhos”.[1]


Reconstituição digital por Inteligência Aritficial e Vida Doméstica, março de 1948, p.99, respectivamente. 

Em pouco mais de dez anos, que era o tempo de paroquiato de Monsenhor Celso Cicco em Ceará-Mirim, em que ele tinha despendido tantas energias e o melhor do seu zelo sacerdotal, o referido Templo passou, internamente, por profundas reformas exigidas, “já por imperativos arquitetônicos e estéticos, já pelo progresso dos novos tempos, que o transformaram completamente, emprestando-lhe uma aparência inédita, uma visão absolutamente diferente da imagem do passado. De tal modo transformam os monumentos a estética e o bom gosto amparados numa vontade enérgica”.[2]

Quase concluído o plano de embelezamento interno, voltava-se agora o Monsenhor Cicco, com toda a alma, para a urgência dos reparos externos da Matriz do seu povo.

A empresa era arrojada e o projeto já havia sido ultimado, elevando-se a receita para mais de Cr$ 40.000,00. “Todos os óbices, porém, serão sobrepujados, as dificuldades todas serão vencidas”. [3]

Porque o Monsenhor Vigario contava com a boa vontade dos seus numerosos paroquianos. “Como de todas as outras vezes em que se fez mister sua ajuda, eles acolheram, com um franco e resoluto apoio, a ideia tão necessária quão justa e impreterível de uma reforma exterior da Igreja em que receberam o Batismo e a Primeira Comunhão, da Matriz que muito estremecem e que já conta, nas suas vetustas paredes, uma tradição gloriosa”.

E todos, ricos e pobres, aprestaram-se a trazer ao dinâmico Vigário a sua generosa contribuição, sem a qual, diga-se de passagem, impossível seria levarem-se a bom termo os trabalhos do novo empreendimento.

É de salientar-se o gesto do Sr. Milton Varela que ofereceu ao Monsenhor Cicco todo o mosaico necessário para as calçadas. “Tendo-se em vista a extensão do piso em metros quadrados, que sem duvida ascende a mais de 300, podemos avaliar a generosidade da oferta, que chamamos de presente régio”.

Aliás, não era essa a primeira vez que o sr. Milton Varela tinha tido desses gestos. Foi ele também que, anos atrás, com sua esposa brindou o altar mor de Nossa Senhora da Conceição, com um custoso e belíssimo sacrário de mármore branco.

E era assim que, dentro em breve, depois de ter experimentado uma reforma que ia do revestimento das torres com cimento colorido ao piso do grande patamar e das calçadas de mosaico, surgiria, “inteiramente renovado, na cristianíssima Cidade de Ceará-Mirim, o mais belo monumento que ela possui, para gaudio da fé e alegria dos olhos do seu povo cristão e educado”.[4]

        Segundo o relatório apresentado pelo Mons. Celso Cicco no jornal A Ordem 27 de outubro de 1944 a contribuição dos fiéis para remodelação externa da Matriz possibilitou os seguintes serviços: revestimento das torres a cimento colorido, reboco total de uma das fachadas, rodapé geral de cimento rustico colorido, alteamento da cruz do frontão, colunas completas nas torres, cornijas nas platibanda da capela-mor e respectiva empena, beirais sobre a nave principal, retelhadura geral, substituição de portas e venezianas, Meio-fio e mozaico no patamar e calçadas, 460 metros de novos degraus, limpeza, pintura de portas e venezianas e demais serviços complementares.

Contribuição dos fieis para a limpeza externa da Matriz

Contribuição dos fieis para a limpeza externa da Matriz, revestimento das torres a cimento colorido, reboco total de uma das fachadas, rodapé geral de cimento rústico, meio-fio e mosaico no patamar e calçadas, inclusive a pintura de portas e janelas.

Em  12/07/1944 Monsenhor Celso Cico, Vigário de Ceará-Mirim divulgou no jornal A Ordem os nomes das pessoas que contribuíram para os trabalhos de reformas da matriz.[5]

Doador

Oferta

Milton Varela

Todo o mosaico para o patamar e calçadas [300m²]

D. Maria Cavalcanti de Oliveira Correia

Cr$ 2.000,00

Dr. José Varela

Cr$ 1.200,00

saldo da festa da Padroeira e juros vencidos

Cr$ 1.200,00

Contribuintes

Cr$ 1.000,00

Manoel Emidio de França, Heraclio Ribeiro Filho, Luiz Lopes Varela, Paulo Lopes Varela e Ubaldo Bezerra

Cr$ 500,00

Simeão Barreto, Antonio Basilio, Vital Correia, Onofre Soares, D. Maria Ester Varela, e João Severiano da Camara;

Cr$ 450,00

F. Correia & Cia

Cr$ 400,00

J. Coutinho & Cia

Cr$ 300,00

Enéas Cavalcanti, Francisco Leopoldino Cavalcanti, Antonio Gentil Fonseca e Euclides Cavalcanti

Cr$ 250,00

Manoel Pereira e Brasilicio Francisco Campos

Cr$ 200,00

Dr. Arino Barreto, Dr. João Vicente da Costa, Pedro Varela, João Teixeira de Farias, Davi França, João Juvenal Ribeiro Dantas, D. Fefa Cavalcanti Rocha, Dr. Olavo Montenegro, Ernani Cabral, Aguinaldo Tinoco, Dr. Fabio Dantas, José Varela Sobrinho e Virgilio Luiz de Melo

Cr$ 100,00

Francisco Dantas, Cleto Brandão, José Carrilho da Fonseca e Silva, José Paulo da Rocha e D. Maria Anunciada Carrilho

Cr$ 50, 00


A Ordem, 15/O7/1944, p.4.

Lista de Contribuintes

Quantia já publicada anteriormente  

   Cr$ 32.720,00

d. Amália Carrilho da Fonseca e Silva

       Cr$ 500,00

José Ribeiro Dantas e dr. Heitor Varela

       Cr$ 200,00

d. Maria Umbelina Sobral, Mario Vilar de Melo, d. Maria da Cruz Batista, Manoel de Melo Pinto, dr. João Batista de Miranda

        Cr$ 100,00

Manoel Negreira

         Cr$ 90,00

Felipe Fernandes Campos, Adelino Barbosa, um catolico, d.      Nenen Dantas, Marino Freire Dantas, Severino Carneiro, Euclides Dantas, João Nezi, João Antonio da Cruz, Padre Vicente Freitas, d. Maria Bezerra de Mélo, Manoel Dantas Barreto, Manoel Eustaquio Ferreira, Horacio Martins de Castro e mais um católico

         Cr$ 50,00

d. Honorina Campos

        Cr$ 60,00

Newton Dantas

         Cr$ 40,00

produto de tijolos servidos

        Cr$ 117,00

Operários  da Usina Ilha Bela por intermédio de Aly da Rocha Paiva;

        Cr$ 256,00

operários do Engenho União por Horacio Castro

        Cr$ 251,60

arrecadado por Julia Roque, Arlinda Pereira e Tereza Conceição

        Cr$ 243,00

nas feiras e arrabaldes por Melquiades Lima, Luiza Alves Rabelo, Clarisse de Gois, Carmelita Cocentino e Clarisse de Oliveira

     Cr$ 1.023,00

De  vários devotos por Abel Correia

        Cr$ 785,00

Contribuição especial Milton Varela doou todo o mosaico para o patamar e calçadas

Fonte: A ordem, 28/10/1944,p.3.

        Com base nas informações e dados a cima  podemos realizar uma análise histórica e social detalhada sobre a reforma da Igreja Matriz de Ceará-Mirim em 1944.

        O relato do Mons. Celso Cicco revelam uma intervenção estética e estrutural profunda na Matriz, focada na modernização e conservação. Os principais destaques incluiam acabamentos modernos com o uso de "cimento colorido" e "cimento rústico colorido" aponta para tendências arquitetônicas da época que buscavam durabilidade e uma estética vibrante; as modificações estruturais com o "alteamento da cruz do frontão" e a instalação de "colunas completas nas torres" sugerem uma intenção de tornar o edifício mais imponente.

    O destaque ornamental é enfatizado por elementos específicos como cornijas na platibanda e a substituição de venezianas, indicando um cuidado minucioso com a fachada.

        Houve uma  mobilização social e filantrópica para a reforma da matriz de Ceará-Mirim, em que a lista de contribuintes oferece um panorama da estratificação social e da força da Igreja Católica na região de Ceará-Mirim na década de 40.

            Da elite local e profissionais liberais tem-se a presença de nomes com os títulos "Dr." (como Heitor Varela e João Batista de Miranda) e famílias influentes indicam o apoio da classe alta local.

         Da contribuição operária, um dado fascinante é a doação coletiva de operários da Usina Ilha Bela e do Engenho União. Isso demonstra que a reforma era um projeto comunitário que atravessava classes sociais, do proprietário ao trabalhador rural.

        Como doações de grande vulto, tem-se a contribuição de Milton Varela destacada pelo valor expressivo (Cr$ 9.050,00) e pela doação integral de materiais específicos (mosaicos).

    Os dados  detalham como os fundos eram obtidos, evidenciando uma organização capilarizada.

        Nas coletas populares, as arrecadações ocorriam em "feiras e arrabaldes", lideradas por grupos de mulheres da comunidade, o que reforça o papel feminino na manutenção das instituições religiosas.

        Da venda de insumos, como a menção ao "produto de tijolos servidos" sugere que até o reaproveitamento ou venda de materiais de construção antigos era revertido em fundos para a obra.

           Nesta reforma da igreja matriz de Ceará-Mirim destaca-se a liderança clerical do Monsenhor Celso Cicco, uma figura histórica proeminente na região, cujo nome hoje batiza escolas e logradouros, sublinhando sua importância na gestão da paróquia e da cidade.

            Os valores expressos em Cruzeiros (Cr$) situam os dados a pontados a cima no período após a reforma monetária de 1942, em pleno contexto da Era Vargas e da Segunda Guerra Mundial.

          Essas informações não são apenas um registro contábil, mas um retrato da identidade coletiva de Ceará-Mirim, unindo a elite agrária e a classe trabalhadora em torno de um símbolo comum: a imponente Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

     Cr$ 9.050,00

Em edição do dia 13/11/1945 o jornal A Ordem registrou que estavam ainda em trabalhos, a Matriz de Ceará-Mirim.

“Grandes trabalhos vêm sendo executados na Igreja Matriz de Ceará-Mirim, sob a direção do incansável Monsenhor Celso Cicco, pároco arcipreste da circunscrição eclesiástica de Ceará-Mirim”.[6]

O Vigário apelava para a boa vontade dos filhos de Ceará-Mirim, residentes lá e na capital, para prestarem seu auxilio nos empreendimentos que vinha realisando. Estava ele procedendo a colocação do forro das naves laterais, o revestimento da capela-mor, o piso das naves, além da artística pintura a óleo, “tudo convergindo para a beleza do maior templo católico do Rio Grande do Norte”, escreveu o referido jornal.[7]



[1] A Ordem, 15/O7/1944, p.4.

[2] Op.Cit.

[3] Op.Cit.

[4] OpCit.

[5] A Ordem, 15/O7/1944, p.4.

[6] A Ordem, 13/11/1945,p.4.

[7] Op.Cit.

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