domingo, 7 de junho de 2026

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE (PARTE V)

 

Previstas para serem concluídas em maio as ações do Comando da Esperança só ficaram prontas em setembro de 1962.

Segundo o jornal O Poti o Governo do Estado acabava de inaugurar a sua primeira realização no campo da descentralização administrativa, com os serviços em Touros e Barra de Maxaranguape, onde atuou, durante 150 dias, o "Comando da Esperança", sob a supervisão direta do Conselho Estadual de Desenvolvimento.[1]

A promoção constituiu um verdadeiro teste para a capacidade daquele novo órgão da administração estadual, posto que foi incumbido de operar em uma das áreas mais subdesenvolvidas do Rio Grande do Norte, a despeito de suas vastas possibilidades naturais.

Possuindo alguns vales úmidos e terras laboráveis com bons índices de produtividade a agricultura da região era das mais incipientes, moldada ainda nos métodos mais primitivos.

A outra área de atividades — a pesca, — se bem que exercida numa das mais ricas faixas pesqueiras do país, se processava, igualmente, sem a rentabilidade de esperar, dados os recursos rudimentares que vinha desafiando o desenvolvimento natural do homem, rumo ao progresso.

A situação sanitária era das piores, alcançando a xistossomose nível dos mais elevados de par com outros males oriundos da verminose, malária e outras enfermidades que, agravadas pela subalimentação, proliferavam em grande escala.

      Na imagem abaixo tipo de sanitário público dos que foram constuidos pelo governo Aluizio Alves na cidade de Touros. Sanitários constituíam das maiores necessidades do município, no campo da saúde pública, como meio de evitar a propagação do cistosoma.

O Poti, 23/09/1962,p.2.

         Na imagem abaixo uma caixa d´água, catavento e poço tubular público de Rio do Fogo, então distrito do municipio de Maxaranguape, construído pelo Comando da Esperança em cooperação do o SESP.

O Poti, 23/09/1962,p.2.

Com a criação do "Comando da Esperança" técnicos do CED se transportaram para a região e ali iniciaram o levantamento da área sob os seus múltiplos aspectos, implantando, em pouco mais de quatro meses, novas condições para o desenvolvimento de Touros e Barra de Maxaranguape.

Foram implantados dois sistemas de saneamento: o primeiro, em Touros (2.200 habitantes) do tipo usual nas grandes cidades, com depuradora OMS ligada à rede coletora e instalação de banheiros nos 414 prédios da cidade, que passou a ser a única no Brasil totalmente saneada; o segundo, em Barra de Maxaranguape, constituído por fossas individuais, atendendo a 172 residências.

O setor educacional mereceu particular atenção, com a recuperação do Grupo Escolar "Gen. Florencio do Lago", em Touros, e das escolas Rurais de Vila de Maxaranguape, Boacica, Maracajaú e Barra de Maxaranguape, conclusão e ampliação das escolas de Cajueiro e Peroba, melhoramento das escolas de Carnaubinho, Cana Brava, Tábua, Boqueirão, São José do Sal e Zumbi, instalação de escolas em Bebida Velha, Reduto, Rio do Fôgo e Pititinga e adaptação de um prédio para a escola de Baixinha.

Por outro lado, confeccionou-se 25 birôs e 170 carteiras, enquanto outras 230 eram recuperadas nas oficinas do Comando.

Intensivo trabalho foi feito para o melhoramento da rede de estradas carroçáveis da região, com piçarramento e outros serviços nas seguintes estradas: Touros-Cajueiro-São Miguel do Gostoso-Parazinho, Touros-Boacica-Vila de Maxaranguape-Ceará Mirim, Touros-Punau-Ceará Mirim, Touros-Boqueirão, Rio do Fôgo-Santa Luzia, Pititinga-Maracajaú-Paz e Barra de Maxaranguape-Muriú, abrangendo um total de mais de 350 km.

Tendo em vista a pequena área cultivada do Município, o Comando procedeu à abertura do escoadouro da lagoa Boqueirão, com o aproveitamento de mais 120 hectares de terras cultiváveis.

Em colaboração com órgãos federais, foram recuperados ou perfurados poços tubulares em Barra de Maxaranguape, Maracajaú, Pititinga, Rio do Fogo e Touros, para garantir o abastecimento d'água à população.

Face à inexistência de qualquer assistência médica, o Comando da Esperança, a título provisório, fez instalar um Posto de Saúde em prédio da Divisão de Caça e Pesca em Touros, que seria proximamente substituído por um dos postos móveis recentemente adquiridos pelo Governo, com gabinete médico e dentário, possibilitando assistência mais eficiente às populações rurais.

Embora em número limitado, concedeu-se financiamento a pequenos lavradores e pescadores, a título de incentivo a melhoria de sua produtividade, enquanto 74 máquinas foram distribuídas a costureiras pobres, com financiamento em quinze meses.

Vestuário e calçado foram distribuídos à 750 alunos do Grupo de Touros e das Escolas Reunidas de Boacica, Maracajaú, Vila de Maxaranguape e Barra de Maxaranguape.

O jornal O Poti documentava assim uma importante ação governamental de desenvolvimento regional e interiorização dos serviços públicos no Rio Grande do Norte, conduzida pelo "Comando da Esperança" sob a supervisão do Conselho Estadual de Desenvolvimento (CED).

É um testemunho histórico valioso sobre as dinâmicas socioeconômicas e as políticas públicas de meados do século XX no Nordeste brasileiro.

A atuação do "Comando da Esperança" por um período determinado (150 dias) reflete uma estratégia de choque de gestão. Em vez de esperar pelo crescimento orgânico ou por burocracias lentas, o Estado deslocou técnicos diretamente para o campo para realizar diagnósticos e aplicar soluções imediatas em várias frentes simultaneamente (saneamento, educação, saúde e infraestrutura).

O Poti traçava um perfil contundente das dificuldades estruturais da região de Touros e Barra de Maxaranguape antes da intervenção:

  • Economia arcaica: Uma agricultura moldada em "métodos mais primitivos" e uma atividade pesqueira sem rentabilidade, apesar do enorme potencial natural da costa.
  • Crise sanitária e social: Relata-se um cenário grave de saúde pública, com altos índices de esquistossomose (xistosomose"), malária, verminoses e desnutrição ("subalimentação").

Um dos pontos mais impactantes do relato do referido jornal  é a afirmação de que a cidade de Touros se tornou "a única no Brasil totalmente saneada" naquele momento, após a instalação de uma rede coletora com depuradora da OMS (Organização Mundial da Saúde) e banheiros em todos os 414 prédios urbanos. Para a época, garantir 100% de saneamento em uma sede municipal era um feito raríssimo no país, especialmente no interior do Nordeste.

O "Comando" atacou dois gargalos históricos da região:

  • Isolamento geográfico: A abertura e o piçarramento de mais de 350 quilômetros de estradas carroçáveis interligando distritos e municípios vizinhos (como Ceará-Mirim e São Miguel do Gostoso) foram fundamentais para o escoamento da produção e mobilidade da população.
  • Segurança hídrica: A perfuração e recuperação de poços tubulares em parceria com órgãos federais demonstram a necessidade de combater a escassez de água potável na região litorânea/agreste.

Além das grandes obras, o Poti mostra uma preocupação com a economia doméstica e a dignidade social através de:

  • Doação de roupas e calçados para estudantes.
  • Distribuição de máquinas de costura para "costureiras pobres" mediante financiamento, estimulando a geração de renda local.
  • Crédito/financiamento para pequenos lavradores e pescadores.

A matéria do jornal O Poti mostrava o otimismo técnico e o modelo de planejamento centralizado que marcaram as décadas de 1960 e 1970 no Brasil, onde o Estado assumia o papel de "indutor da modernização" em áreas historicamente esquecidas pelo poder público.

É um registro memorável da transição daquela região de um estado de "estagnação" para a integração econômica estadual.



[1] O Poti, 23/09/1962, p. 2 e 8.

[2] Tribuna do Norte,13/06/1962, p.3.

Tribuna do Norte,13/06/1962,p.3.

[3] Op.Cit.

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE EM 1962 (PARTE IV)

 

          Na foto abaixo caminhões do DER abrindo estradas entre Touros e Maxaranguape.

Tribuna do Norte,24/03/1962, p.23.

A estrada Touros-Maxaranguape

Zona das mais castigadas e desprezadas do Estado, Touros-Maxaranguape era uma das que mais atenção tinha merecido do Governo do Estado em 1962.

Encarregado de abrir uma estrada na região, o Departamento Estadual de Estradas de Rodagens-DER estava executando a tarefa, ajudando o Governo, ainda, na perfuração de poços tubulares e no nivelamento de outras estradas de menor porte, mas de imprescindível necessidade, para ligação entre localidades da área. [1]

Segundo a propaganda do DER a estrada "Touros-Maxaranguape" era uma das obras do Governo Aluízio Alves, na implantação do "Comando da Esperança" nessa área do Estado onde a ação governamental, mais de 20 anos, restringia-se a duas intervenções no setor da Educação.

A propaganda do DER reforçava a estratégia de comunicação e a justificativa geopolítica das ações do governo Aluízio Alves na região do litoral norte potiguar, na qual podemos destacar os seguintes pontos:

  • Integração regional como prioridade: o foco central do recorte era a infraestrutura rodoviária. A abertura da estrada ligando Touros a Maxaranguape, executada pelo Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER), era vista como a chave para quebrar o isolamento econômico crônico daquelas comunidades pesqueiras.
  • O DER além de suas funções tradicionais: é interessante notar que o órgão de estradas também atuava na perfuração de poços tubulares, demonstrando um esforço concentrado e emergencial onde as máquinas disponíveis eram usadas para resolver o problema imediato da falta de água.
  • O contraste com o passado: o texto da propaganda do DER voltava a enfatizar o argumento do "vazio de poder" anterior, afirmando que há mais de 20 anos a ação do Estado ali se restringia a apenas duas intervenções na área da educação. Esse contraponto serve para enaltecer o dinamismo do "Comando da Esperança" frente ao histórico de abandono das gestões passadas.


[1] Tribuna do Norte,24/03/1962,p.23.

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE EM 1962 (PARTE III)

 

Em 14/03/1962 o Governador Aluízio Alves recebeu em despacho os economistas Geraldo José de Mélo e Eider Moura, responsáveis pelo Comando da Esperança instituído pela Comissão Especial de Desenvolvimento e que deram conta ao Chefe do Executivo dos serviços já realizados, em Touros e Barra de Maxaranguape até aquela data, e que foram os seguintes:

Educação: conclusão de nove escolas e ampliação do Grupo Escolar de Barra de Maxaranguape; e equipamento para estas escolas já foi encomendado.

Saúde: já se encontrava em funcionamento o posto de saúde.

 No que tange a fossas sanitárias, o Comando empreendia a construção de 180 em Barra de Maxaranguape, tendo concluído já 30, além da recuperação de 8 poços tubulares.

Estradas: o Comando da Esperança realizava a abertura de estradas ligando Touros a Boa Cica, Touros e Cajueiro e Maracajaú-Pititinga-Paz.

No setor do crédito social, seriam distribuídas 50 máquinas de costura, financiadas pelo Banco do Rio Grande do Norte, que também concederia financiamento de três milhões de cruzeiros a produtores e pescadores.

Em 20/03/1962, o Governador se reuniria com os dirigentes do Comando da Esperança, para examinar novas providências a serem adotadas, devendo no dia seguinte viajar a Touros, para inspecionar os serviços já realizados.[1]

Nas fotos a baixo, aspecto da visita do Governador Aluízio Alves a Touros. No alto, quando falava o Secretário da CED, Economista Geraldo José de Mélo, na reunião realizada pelo Comando da Esperança Touros-Maxaranguape, com a presença do Governador; abaixo, o Chefe do Executivo norteriograndense, durante a inspeção às obras realizadas pelo Comando.

Tribuna do norte,14/03/1962, p.6.


O jornal Tribuna do Norte abandonava um pouco o lirismo e a dramaticidade da miséria para focar em dados concretos de infraestrutura entregues em Touros e Barra de Maxaranguape.

Constrói, no entanto, a imagem política ideal de Aluízio Alves: um governante dinâmico e presente.

Ele despacha no gabinete para planejar as próximas providências e viaja pessoalmente a Touros para inspecionar os canteiros de obras. Essa proximidade física do líder com o "chão de fábrica" das reformas era o motor do carisma do governador, mostrando que ele não comandava apenas da capital, mas fiscalizava o cumprimento das promessas in loco.

O referido jornal documentava assim o ápice da mecânica do Comando da Esperança: o encontro entre a vontade política (o Governador), o planejamento técnico (os economistas da Comissão de Desenvolvimento) e a resposta rápida às demandas básicas (água, saneamento, estradas e crédito). É um registro clássico da propaganda desenvolvimentista que marcou o período pré-1964 no Brasil.



[1] Tribuna do norte,14/03/1962, p.6.

 

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE (PARTE II)

 

A cobertura jornalística da Tribuna do Norte (fundado por Aluízio Alves) atuava como um propagandista, com foco na atuação do "Comando da Esperança" nos municípios de Touros e Maxaranguape, entretanto, ele registra um momento histórico emblemático do Rio Grande do Norte no início da década de 1960.

O "Aluizismo"

Os textos do referido jornal mencionavam explicitamente que a ação foi uma iniciativa do então governador Aluízio Alves (que governou o estado entre 1961 e 1966). Ele subiu ao poder com um discurso fortemente modernizador, focado em romper com as velhas estruturas do coronelismo oligárquico tradicional (mencionado nos textos como a estrutura onde o "coronelismo imperava, dominando a enxada e comprando o voto").

O "Comando da Esperança" era a materialização desse marketing e dessa ação governamental: levar a presença do Estado, de forma rápida e impactante, a áreas historicamente isoladas e desassistidas.

O retrato do abandono histórico

As reportagens traça um diagnóstico severo da situação socioeconômica do litoral norte potiguar na época como o isolamento e miséria, onde cidades com populações vivendo em condições sub-humanas, dependiam quase que exclusivamente da pesca de subsistência e, no caso de Maxaranguape, de uma economia baseada no escambo (troca direta de mercadorias), sem circulação de moeda.

A ausência do Estado. O jornal Tribuna do Norte  destacava que, em Touros, o último investimento estadual relevante havia ocorrido em 1927 (no governo de José Augusto Bezerra de Medeiros). Havia um vazio institucional crônico — a falta de médicos, saneamento, estradas transitáveis e até a ausência física de autoridades (juiz, promotor e padre moravam fora).

 A mistura de tecnocracia e voluntariado jovem

Um dos pontos mais interessantes da narrativa do jornal Tribuna do Norte é a exaltação da juventude. O Comando era composto por técnicos e funcionários da recém-criada Comissão Estadual de Desenvolvimento com média de idade de 25 anos (liderados nos bastidores por nomes como Geraldo José de Melo, que décadas mais tarde viria a ser governador do estado).

O texto adotava um tom quase épico para descrever a rotina desses jovens, que trabalhavam "com a cara e a coragem", das 4h da manhã às 19h, misturando o rigor técnico do planejamento com o entusiasmo do trabalho comunitário (mutirões).

        Na imagem abaixo o monumento comemorativo do Comando da Esperança em Touros, assinalando os importantes melhoramentos de assistência social e saúde pública realizados pelo governo Aluizio Alves até naquele então esquecido municipio.

O Poti,23/09/1962,p.8.

Colorização por inteligência artificial.

A ideologia do desenvolvimento

As metas descritas nas reportagens refletiam a cartilha do desenvolvimentismo da época como infraestrutura básica (abertura de mais de 300 km de estradas, piçarreamento, poços tubulares); erviços essenciais (reforma e construção de grupos escolares, postos de saúde, saneamento básico) e fomento econômico (linhas de crédito de até Cr$ 50 mil via Banco do Estado para pescadores e agricultores, compra de máquinas de costura).

As matérias eram um reflexo do jornalismo de época alinhado às propostas reformistas. Utilizava termos de forte apelo emocional (como "Comando da Esperança", "libertação da miséria", "novo sentido de vida") para legitimar a intervenção estatal e construir a imagem de um governo dinâmico, realizador e em sintonia com a modernidade, contrastando o "futuro que chegava" com o "passado de abandono".

    Na imagem abaixo o Grupo Escolar Coronel Florêncio do Lago, na cidade de Touros, recuperado e melhorado pelo Comando da Esperança.A instrução pública voltou a poder funcionar em local bem equipado em Touros.

O Poti,23/09/1962,p.8.

Colorização por inteligência artificial.




SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE EM 1962 (PARTE I)

 

         O Comando da Esperança foi uma ação do governo do Estado do Rio Grande do Norte pelo governador Aluízio Alves, tendo como coordenador Geraldo Melo, o qual viria a ser igualmente governador em 1986.

         O objetivo do programa era realizar ações emergenciais em municípios cuja situação socioeconômica beiravam ao colapso, como foi o caso dos municípios de Touros e Maxaranguape, que foram os municípios pilotos do programa.

A situação de Touros

Conforme a Tribuna do Norte com uma população que vivia da pesca, pela pesca e para a pesca, Touros havia parado no tempo e no espaço. [1]

A cidade tinha três ruas principais e alguns aglomerados de casas de barro onde viviam cerca de dois mil habitantes em condições sub-humanas de existência.

A última presença do governo estadual na cidade foi em 1927; o então Governador José Augusto Bezerra de Medeiros construiu um grupo escolar que em 1962 estava em ruínas.

Desde 1927, os pescadores de Touros só receberam visitas de autoridades e candidatos a autoridades nas épocas de eleições. E, desde então, viviam de promessas e esperanças.

Em março de 1962, no entanto, as esperanças da população estavam se transformando em realidade, com a instalação do programa do Comando da Esperança, do Conselho Estadual de Desenvolvimento-CED.

Após um levantamento completo da região, jovens sob a direção de Geraldo José de Melo, diretor do CED, atacaram as obras e estavam realizando-as "com a cara e a coragem", segundo o jornal Tribuna do Norte. [2]

De quatro horas da madrugada até sete da noite, trabalhavam sem parar, construindo estradas, furando poços artesianos, abrindo valas para o saneamento, reconstruindo grupos escolares e, principalmente, dando um novo sentido de vida aos pescadores de Touros, a cidade abandonada.

A situação de Maxaranguape

O mesmo fenômeno atingiu a cidade de Maxaranguape, que era ainda menor do que Touros. Em Maxaranguape havia 800 habitantes que viviam, praticamente, da pesca.

Duas ruas formavam o quadro urbano. A semelhança de Touros, seus habitantes raramente viam dinheiro. A economia funcionava quase exclusivamente na base do escambo, da troca de gêneros alimentícios. E, como Touros, não tinha o menor vestígio de presença do governo estadual. Sua rede escolar era a pior possível, não havia postos de saúde, água só em cacimbas e as estradas carroçáveis só funcionavam no verão.

Enquanto em Touros havia juiz, promotor, padre e delegado, Maxaranguape nada disso tinha. E, como o juiz, o promotor, e o padre de Touros moravam fora da cidade, os dois municípios ficavam sem qualquer assistência material ou espiritual, segundo constava no jornal Tribuna do Norte.[3]

Filosofia de Ação

Foi essa a situação encontrada pelos jovens do Conselho Estadual do Desenvolvimento (média de idade era 25 anos) ao ser instalado o Comando da Esperança nas sedes dos dois municípios.

E era essa também a razão da dedicação e do entusiasmo que guiavam os trabalhos do Comando da Esperança: salvar essa população da miséria, do analfabetismo, da doença. Dar um novo sentido de vida e de comunidade aos pescadores que pareciam conformados "com a miséria que Deus nos deu".

Para os jovens comandantes da esperança, a vitória de Aluízio Alves rompeu toda a tradicional estrutura política do Estado, onde o coronelismo imperava, dominando a enxada e comprando o voto.

Foi essa vitória que possibilitou uma experiência revolucionária como o de Touros e Maxaranguape, em que todos os métodos e padrões normais da administração foram postos de lado em favor da execução.

 E eles sabiam que essa era a grande oportunidade de se firmarem como técnicos, fazendo algo pelo Rio Grande do Norte e pelo governo Aluízio Alves. Daí o entusiasmo com que se dedicavam à luta pela libertação de Touros da miséria e do analfabetismo, trabalhando até gratuitamente no mutirão, abrindo fossos ou reconstruindo a estrada.

O Comando da Esperança

Sob a supervisão direta do secretário-executivo da Comissão Estadual de Desenvolvimento, trabalhavam em Touros e Maxaranguape 10 funcionários e técnicos. Três jipes, um trator e uma patrol constituíam a maquinaria pesada da equipe.

De um escritório central, ao lado da igreja de Touros, saiam as ordens para os comandos que trabalham na recuperação das rodovias e para as equipes que executam o saneamento, o abastecimento d'água e a recuperação dos grupos escolares em todo o município.

De acordo com o jornal Tribuna do Norte a ideia do Comando da Esperança partiu do próprio Governador Aluízio Alves, que resolveu encarregar a Comissão Estadual de Desenvolvimento da sua execução.

 Iniciados em meados de fevereiro de 1962 os trabalhos afirmavam seus administradores que antes do prazo fixado pelo Governador Aluízio Alves para 13 de maio de 1962 as obras seriam entregues.

As metas

Até o dia 30 de abril de 1962, esperava o Comando da Esperança entregar as seguintes obras executadas em Touros, nos setores de educação, saúde e transportes:

  1. trabalhos de terraplenagem, alargamento e outro melhoramentos em cerca de 300 quilômetros de estradas;
  2. reparos em sete grupos escolares, conclusão de duas escolas, construção de quatro novos grupos e melhoramentos em quatro outros;
  3. construção de poços tubulares em oito vilas do município e recuperação de quatro já existentes;
  4. saneamento para a cidade de Touros (que segundo o programa seria o mais moderno do Estado, instalado por uma firma de Recife);
  5. instalação de um posto de saúde em Touros;
  6. vendas de máquinas de costura a crédito, já tendo sido iniciado o alistamento dos interessados;
  7. empréstimos até Cr$ 50 mil feitos pelo Banco do Estado do Rio Grande do Norte para pequenos produtores (lavradores) e pescadores.

Em Maxaranguape, estavam previstos melhoramentos em quatro grupos escolares, instalação de um posto de saúde, perfuração de quatro poços tubulares e recuperação e construção de quatro rodovias.

O que foi feito

Das metas acima enunciadas, em abril de 1962 algumas já haviam sido alcançadas totalmente, outras parcialmente, como os reparos nos grupos escolares de Touros, Maxaranguape, Boacica, Maracajaú, Perobas e Coqueiro cujas obras estavam quase prontas.

No setor de estradas, a que ia de Touros a Ceará-Mirim já estava terraplenada e oçarrada numa extensão de 10 km; a estrada Touros-Punaú-Ceará-Mirim já fora terraplenada até Punaú; a de Touros-Cajueiro-Gostoso-Parazinho, fora terraplenada até Gostoso.

Os serviços de saneamento de Touros e Maxaranguape também já haviam sido iniciados e deveriam estar prontos até fins de abril. E um posto de saúde já havia sido instalado em Touros provisoriamente no da Caça e Pesca.

         Na imagem a baixo a construção do coletor geral do saneamento de Touros construído pelo Comando da Esperança.Além da utilidade no campo da saúde pública, embelezou o urbanismo da cidade de Touros.

Diário de Natal,24/09/1962,p.4.

Colorizado por inteligência artificial.

Em 02/03/1962 pela manhã, o Banco do Estado do Rio Grande do Norte-BANDERN, iniciou a concessão de empréstimos para os pescadores e pequenos agricultores locais, para compra de material de trabalho. A importância total dos empréstimos foi de Cr$ 2 milhões, com um teto de Cr$ 50 mil.

    Na imagem abaixo trecho da rodovia Touros-Maxaranguape-Ceará-Mirim, piçarrada e nivelada pelo governo Aluizio Alves através do DER e Comando da Esperança.

                                               Diário de Natal,24/09/1962,p.4.





[1] Tribuna do norte, 03/03/1962, p.1.

[2] Op.Cti.

[3] Op.Cit.