sábado, 6 de junho de 2026

SOBRE O MUNICIPIO DE SÃO JOSÉ DE CAMPESTRE EM 1956


O Município de São José de Campestre foi criado na reforma da divisão administrativa de 1938, após memorável luta parlamentar sustentada na Assembleia Legislativa, pelo então deputado Theodorico Bezerra.

De acordo com a propaganda publicada no jornal Tribuna do Norte ”São José de Campestre foi uma das comunas que mais se desenvolveram nestes últimos tempos”.[1]

Encravado na zona seca do Estado, as suas terras eram próprias para o cultivo do algodão, onde a produção veio aumentando gradativamente, de ano para ano. Desta data que o seco ao município tomou de fato, aspecto de grande com as suas largas artérias e construção de mais de 200 casas, comercial e estilo moderno.

Na imagem a baixo aspectos da cidade de São José de Campestre com destaque para a igreja matriz de São José creditada erroneamente pelo correspondente do jornal Tribuna do Norte como catedral.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

De acordo com a propaganda do jornal Tribuna do Norte esse surto de progresso se deveu, principalmente, as iniciativas do Cel. Lindolfo Dantas, prefeito do município naquele ano de 1956, “incansável defensor dos interesses de sua terra”. Fazendeiro e comerciante de algodão, Cel. Lindolfo se uniu nisto com a colaboração do deputado Theodorico Bezerra, que teve destaque em prol do engrandecimento do município.

Assim é que obras federais vinham sendo realizadas naquele município, graças a influência do representante de Santa Cruz no Parlamento Nacional. O moderno edifício do Grupo Escolar local e o majestoso prédio da maternidade, conforme fotografias que ilustravam a reportagem, atestavam “a operosidade e o zelo do governador da cidade pelo bem-estar coletivo”.

Na imagem a baixo o prédio da maternidade de São José de Campestre em construção.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.


Cooperativa

Instalada em 1950, por iniciativa do deputado Theodorico Bezerra e contando sempre com a orientação técnica do deputado Dantas Guedes, a Cooperativa de Campestre era na verdade um estabelecimento que preenchia as finalidades a que se propuseram esses trabalhadores do progresso e do desenvolvimento daquela região.

O seu Presidente era, desde a fundação, o sr. Lindolfo Damião de Souza, que, “com tirocínio e capacidade de trabalho, vem procurando incrementar o comércio e a riqueza agropastoril de São José do Campestre”.

Como prova de tudo isso, era o bastante lembrar que, com um capital de apenas Cr$ 139 mil cruzeiros, houve um movimento em 1955, de 3 milhões e 300 mil cruzeiros, além dos empréstimos por letras que ascenderam a cifra de 320 mil cruzeiros.

Além das atividades normais de financiamento sob diversas modalidades, e no setor destinado a aquisição de implementos agrícolas e inseticidas para o combate às pragas da lavoura, pretende a administração da Cooperativa, ampliar as suas transações, com um empréstimo pecuário, para compra de bois mansos, destinados ao serviço de tração nos campos do município.

Água, problema cruciante de Campestre

Debatia-se a administração municipal com o mais crescentes de seus problemas, que é o abastecimento d’água, á população citadina.

Desprovida de qualquer fonte d’água potável, a sede do município vinha obtendo o precioso liquido no açude "Trairí", no município de Santa Cruz, distante dali 18 km.

Para esse fim, a Prefeitura adquiriu um caminhão tanque pela importância de 160 mil cruzeiros, que faz o transporte durante todo o dia depositando numa cisterna da Prefeitura toda a água que se destina á distribuição pública aos munícipes, tudo de fôrma gratuita.

Na imagem a baixo pessoas esperando a chegada do caminhão tanque com água.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

Não fossem as providencias tomadas pelo Prefeito Lindolfo Damião e seus auxiliares, certo era que São José de Campestre, não poderia merecer o título de cidade, nem subsistir as inclemências das secas sertanejas.

Mercado público

Obra de grande vulto orçada em um milhão e 500 mil cruzeiros, erguia-se, no centro da cidade, o majestoso edifício de Mercado Público, cuja inauguração estava prevista para os primeiros meses daquele ano de 1956.

Na imagem a baixo o mercado público de São José de Campestre em construção.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

O edifício de belo efeito arquitetônico, contaria com todos os requisitos do higienismo moderno, com uma área coberta de 50 por 15 de largura. Para ele, a Prefeitura já comprou a iluminação interna e externa, inclusive na construção de uma cisterna, com capacidade para 320 mil litros d’água.

Com a construção desse moderno edifício para o mercado público, melhora sensivelmente o aspecto da municipalidade, observando-se mesmo um crescimento até certo ponto diferente das outras cidades, onde o processo de desenvolvimento via de regra, é feito com uma certa morosidade.

Economias e finanças

A arrecadação no ano que se expira, até o mês de Novembro foi de Cr$ 690.256,30 esperando-se no mês de Dezembro de 1956 uma entrada para mais de 100 mil cruzeiros.

Não obstante os parcos recursos de que dispõe, mantem o Prefeito Lindolfo Damião o funcionalismo em dia com os seus vencimentos, tendo liquidado também todas os compromissos com o comércio e fornecedores da edilidade.

Educação

No setor educacional, podemos apontar São José de Campestre desfrutando de uma das melhores situações, haja vista o número de escolas municipais que já se elevam a 13 todas em pleno funcionamento e condignamente instalados.

Na imagem a baixo o prédio do Grupo Escolar de São José de Campestre.

Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.

No Orçamento para 1956, encontrava-se uma verba de 30 mil cruzeiros para construção de prédios escolares, o que demonstrava o interesse do  Prefeito pela instrução e ensino em sua terra.

Amparando o ensino particular, além das escolas do município, a Prefeitura subvencionava ainda 6 escolas particulares, possibilitando ainda bolsas de estudos a rapazes pobres nos colégios 7 de Setembro e de Ceará-Mirim.

Por nós ainda foram feitas fotos dos ótimos prédios escolares rurais, tudo fruto do esforço do dinâmico prefeito Lindolfo Damião de Souza, que vem sabendo honrar o mandato com que o povo de sua terra lhe outorgou.

Linha telefonica

Estava sendo construída a linha que ligaria em definitivo, a rede telefônica, para o que já foram adquiridos os aparelhos e todo material necessário.

Por outro lado, já havia sido pagos 125 mil cruzeiros a Companhia Força e Luz por conta da instalação de luz e força para a cidade.

Desse trabalho a Prefeitura já procedeu a construção dos postes, estando já com a maior parte do material em mãos para a ligação dos aparelhos, o que viria dar um novo ritmo de vida aos munícipes, que passarão a dispor de energia elétrica dia e noite.

Energia elétrica

 

Para a iluminação do Município, a edilidade local já estava contando com uma nova usina de força e luz dotada de um motor elétrico de marca "CATERPILLAR" com capacidade para 20 mil velas de força e 44 HP, já em funcionamento.

Segundo as informações, o funcionamento e rendimento dessas usinas era perfeitamente regular, vindo suprir uma falha antiga de que necessitava o desenvolvimento de um grande município, este cuja capacidade para satisfazer as exigências do progresso daquela grande região.

Contextualizando

O trecho mais impactante do documento trata da crise hídrica. A descrição de São José do Campestre como uma cidade "desprovida de qualquer fonte d'água potável" ilustra a dura realidade do interior semiárido nordestino na década de 1950.

A Logística da Sobrevivência: Para que a cidade não colapsasse frente às "inclemências das secas sertanejas", a prefeitura dependia de uma operação rodoviária pesada: buscar água no Açude Trairí, no município vizinho de Santa Cruz, a 18 quilômetros de distância.

No setor de investimento público o gasto de Cr$ 160 mil cruzeiros (uma quantia vultosa para a época) em um caminhão-tanque e a distribuição gratuita do líquido centralizado em uma cisterna pública eram, literalmente, a linha que separava a manutenção da cidade da sua total evacuação.

O texto da referida propaganda iniciava destacando a Cooperativa de Campestre, fundada em 1950. Este trecho é uma evidência clara da forte influência política de Theodorico Bezerra, um dos maiores e mais lendários chefes políticos (e "coronéis") da história do Rio Grande do Norte.

A modernização agrícola controlada onde a cooperativa atuava como o motor econômico local, financiando a lavoura e combatendo pragas.

Um detalhe muito curioso da época é o plano de usar crédito pecuário para comprar "bois mansos" para o serviço de tração nos campos. Isso mostra que, apesar do desejo de modernização, a base da agricultura local ainda dependia fortemente da força animal e de métodos tradicionais.

A construção do novo Mercado Público (orçado em Cr$ 1,5 milhão de cruzeiros) era tratada como o grande símbolo arquitetônico da evolução da cidade.

O jornal citava que o prédio seguia os "requisitos do higienismo moderno". Na metade do século XX, os mercados públicos centrais eram os principais termômetros de desenvolvimento de uma cidade, pois organizavam o comércio de carnes e vegetais de forma a evitar epidemias e problemas sanitários.

 O mercado foi projetado com uma imensa cisterna de 320 mil litros. Isso demonstra uma engenharia adaptada à seca: aproveitar a enorme área de teto coberto do mercado (50x15 metros) para captar e armazenar água da chuva.

Para um município de pequeno porte no interior potiguar nos anos 50, os índices e projetos educacionais apresentados pelo prefeito Lindolfo Damião de Souza eram ousados.

 A existência de 13 escolas municipais em funcionamento e o planejamento de novas construções indicavam um forte esforço de interiorização do ensino primário.

 A prefeitura não apenas mantinha suas escolas, mas financiava o ensino privado local (subvencionando 6 escolas particulares) e criava um sistema de bolsas de estudos para jovens de baixa renda estudarem em centros maiores, como Ceará-Mirim e Natal (Colégio 7 de Setembro).

Com uma arrecadação anual estimada em cerca de Cr$ 800 mil cruzeiros, o prefeito conseguia manter as contas equilibradas, pagando fornecedores e mantendo o funcionalismo público rigorosamente em dia — algo que nem sempre era a regra nas pequenas comunas da época.

A transição para a modernidade é selada com a compra de um motor Caterpillar de 44 HP e o pagamento à Companhia Força e Luz para a instalação da rede elétrica. A promessa de ter "energia elétrica dia e noite" representava uma revolução na vida cotidiana, no comércio e no início da industrialização local.

Em resumo o documento retratava São José do Campestre em um momento de transição acelerada. Sob a liderança de Lindolfo Damião, e sob as bênçãos políticas do clã Bezerra, o município tentava se consolidar institucionalmente. O texto deixa claro que governar aquela região exigia um duplo esforço: o de combater as vulnerabilidades climáticas extremas (falta de água) ao mesmo tempo em que se tentava implantar os símbolos da modernidade do século XX (eletricidade, telefonia, educação estruturada e prédios higiênicos).



[1] Tribuna do Norte, 14/03/1956,p.21.Todas as demais citações entre aspas foram retiradas do referido jornal.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário