sexta-feira, 5 de junho de 2026

SOBRE O MUNICIPIO DE AFONSO BEZERRA EM 1956

 

Segundo propaganda jornalística exibida na Tribuna do Norte  em 25/03/1956 "Depois de uma administração que absolutamente não correspondeu a expectativa pública, o município de Afonso Bezerra está em boas mãos administrado agora pelo competente e honesto prefeito Wanderlinden Xavier de Souza, que tem dado o melhor de seus esforços para cada vez elevar mais alto o nome do município pelo qual é responsável”.[1]

Encravado  na zona central do Estado, fora criado 3 anos antes, em 1953, limitando-se com Angicos, Ipanguaçu, Assu, Pedro Avelino e Macau. Sua população era de 6.500 habitantes. Sua principal fonte de renda estava na cera de carnaúba, oiticica e algodão. “É uma das cidades mais limpas do Estado tendo o atual Prefeito gasto mais de cinquenta contos nos serviços de remoção de monturos e matos”.[2]

Prédio da Usina de Luz de Afonso Bezerra em 1956.
Reconstituição digital por inteligência artificial.

Prédio da Usina de Luz de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

O município de Afonso Bezerra foi criado por lei de 27 de outubro de 1953, de autoria do deputado pedecista Batista Montenegro, tendo sido nomeado prefeito o tenente Luiz Gonzaga de Freitas, que administrou até 31 de janeiro de 1955, quando assumiu então o prefeito eleito Wanderlinden de Souza e o vice-prefeito Arlindo da Rocha Bezerra.

A Câmara Municipal estava composta de 10 vereadores assim dividida: Américo Bernardo de Souza, Antônio Galdino da Cruz, Olegário Xavier, José Oséas Corrêa, Maria de Lourdes Bezerra e Victor Modesto de Oliveira, do PDC; Avelino de Andrade, da UDN; Manoel Felipe Rodrigues do PR; Candido de Assunção Bezerra, do PTB e Adauto Solano Bezerra, do PSD.[3]

A atuação do prefeito Wanderlinden

Após sua eleição, Wanderlinden iniciou a sua grande campanha de moralização administrativa e a sua luta pelo bem-estar da coletividade.

Adquiriu um possantíssimo Motor Lister, com capacidade para fornecer energia elétrica a todo o município. Mandou fazer todo serviço de posteação do melhor tipo possível em todas as ruas e travessas, ficando a cidade bem servida, sem nenhum recanto escuro.

O setor educacional também preenche as necessidades do município, com um Grupo Escolar, quatro escolas rurais e uma municipal todas em funcionamento com grande frequência.

O Prefeito que o havia antecedido construiu o prédio da Prefeitura municipal pelo estilo funcional, porém o material empregado foi o pior possível, já estando ameaçando ruir, apresentando grandes rachões nas paredes.

Possuía ainda Afonso Bezerra um grande mercado público construído pelo prefeito Francisco Torres Peres, quando ainda o prédio da prefeitura aquele município pertencia a Angicos e era Governador do Estado José Augusto Varela.

Nesta mesma época foram construídos também um poço tubular, um matadouro, e a estrada que liga Afonso Bezerra a Deodoro da Fonseca, povoado distante 54 km da cidade.

A previsão orçamentaria para 1956 era de 758.500 cruzeiros, inclusive a quota federal de 500, a quota de competência do Estado de 5.000,00 para uma despesa igual, não havendo portanto, superavit nem déficit.

Era, conforme a referida propaganda do referido jornal,  um município progressista, “que está fadado a uma posição de destaque na vida econômica e social do Estado, principalmente se permanecer em mãos de homens como Wanderlinden de Souza e a Família Montenegro."


Matadouro de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

Mercado público de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

Está claro que a propaganda foi encomendada para ser publicada no jornal Tribuna do Norte pelo referido prefeito para promover a sua administração afrente da prefeitura.

O texto daquela propaganda, no entanto, oferece um vislumbre fascinante do cenário político, socioeconômico e estrutural do município de Afonso Bezerra (Rio Grande do Norte) em meados da década de 1950.

O texto contextualiza a recente emancipação do município (criado em 1953 e instalado em 1955), mencionando o primeiro prefeito nomeado (Tenente Luiz Gonzaga de Freitas) e a transição para o primeiro eleito, Wanderlinden Xavier de Souza.

A composição da Câmara Municipal revela o antigo sistema multipartidário brasileiro antes do bipartidarismo da Ditadura Militar. É citada uma divisão entre vereadores do PDC (Partido Democrata Cristão), UDN (União Democrática Nacional), PR (Partido Republicano), PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) e PSD (Partido Social Democrático).

O texto adotava uma postura fortemente laudatória e parcial em favor do prefeito Wanderlinden, classificando-o como "competente e honesto" em contraste com a gestão anterior, o que era muito comum no jornalismo político regional daquele período.

O texto exaltava a compra de um "possantíssimo Motor Lister" para gerar energia elétrica e o serviço de posteamento. A imagem que restauramos anteriormente, o "Prédio da Usina de Luz", era justamente o coração desse avanço tecnológico que tirou a cidade do "escuro".

Fica registrado que a força econômica da região na década de 1950 girava em torno da cera de carnaúba, da oiticica e do algodão (o "ouro branco" do Nordeste nesse período), ou seja, o município tinha sua força motriz na agricultura extrativista.

Há uma menção curiosa sobre o gasto de "cincoenta contos" de réis/cruzeiros para a remoção de matos e "monturos" (lixões/entulhos), enfatizando o esforço para manter a cidade limpa.

O trecho final traz uma crítica severa à construção do prédio da Prefeitura (o mesmo da primeira foto que colorizamos, com o jipe na frente). O texto diz que, apesar do estilo funcional, o material era "o pior possivel" e a estrutura já sofria com "grandes rachões nas paredes".

O texto faz justiça histórica ao mencionar que o Mercado Público, o matadouro, um poço tubular e a estrada para o povoado de Deodoro da Fonseca foram obras herdadas do período em que a região ainda pertencia ao município de Angicos.

A previsão orçamentária de 758.500 cruzeiros com exato equilíbrio entre receita e despesa ("não havendo portanto, superavit nem deficit") mostra a escala modesta e o controle rígido das finanças de um município que estava literalmente dando os seus primeiros passos.

Prédio da prefeitura de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

Prédio da prefeitura de Afonso Bezerra em 1956.
Reconstituição digital por inteligência artificial.

Esse documento, junto com as fotos do jipe na Prefeitura, do Mercado Público de terra batida e da Usina de Luz, compõe um excelente "álbum de fundação" que ilustra as dores e os orgulhos do desenvolvimento do interior nordestino no século XX.



[1] Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.

[2] Op.Cit.

[3] Op.Cit.

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