Segundo propaganda jornalística exibida
na Tribuna do Norte em 25/03/1956 "Depois
de uma administração que absolutamente não correspondeu a expectativa pública,
o município de Afonso Bezerra está em boas mãos administrado agora pelo
competente e honesto prefeito Wanderlinden Xavier de Souza, que tem dado o
melhor de seus esforços para cada vez elevar mais alto o nome do município pelo
qual é responsável”.[1]
Encravado na zona central do Estado, fora criado 3 anos antes, em 1953, limitando-se com Angicos, Ipanguaçu, Assu, Pedro Avelino e Macau. Sua população era de 6.500 habitantes. Sua principal fonte de renda estava na cera de carnaúba, oiticica e algodão. “É uma das cidades mais limpas do Estado tendo o atual Prefeito gasto mais de cinquenta contos nos serviços de remoção de monturos e matos”.[2]
| Prédio da Usina de Luz de Afonso Bezerra em 1956. Reconstituição digital por inteligência artificial. |
| Prédio da Usina de Luz de Afonso Bezerra em 1956. Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43. |
O município de Afonso Bezerra foi
criado por lei de 27 de outubro de 1953, de autoria do deputado pedecista
Batista Montenegro, tendo sido nomeado prefeito o tenente Luiz Gonzaga de
Freitas, que administrou até 31 de janeiro de 1955, quando assumiu então o
prefeito eleito Wanderlinden de Souza e o vice-prefeito Arlindo da Rocha
Bezerra.
A Câmara Municipal estava composta de 10
vereadores assim dividida: Américo Bernardo de Souza, Antônio Galdino da Cruz, Olegário
Xavier, José Oséas Corrêa, Maria de Lourdes Bezerra e Victor Modesto de
Oliveira, do PDC; Avelino de Andrade, da UDN; Manoel Felipe Rodrigues do PR;
Candido de Assunção Bezerra, do PTB e Adauto Solano Bezerra, do PSD.[3]
A
atuação do prefeito Wanderlinden
Após sua eleição, Wanderlinden iniciou
a sua grande campanha de moralização administrativa e a sua luta pelo bem-estar
da coletividade.
Adquiriu um possantíssimo Motor Lister,
com capacidade para fornecer energia elétrica a todo o município. Mandou fazer
todo serviço de posteação do melhor tipo possível em todas as ruas e travessas,
ficando a cidade bem servida, sem nenhum recanto escuro.
O setor educacional também preenche as
necessidades do município, com um Grupo Escolar, quatro escolas rurais e uma
municipal todas em funcionamento com grande frequência.
O Prefeito que o havia antecedido
construiu o prédio da Prefeitura municipal pelo estilo funcional, porém o
material empregado foi o pior possível, já estando ameaçando ruir, apresentando
grandes rachões nas paredes.
Possuía ainda Afonso Bezerra um grande
mercado público construído pelo prefeito Francisco Torres Peres, quando ainda o
prédio da prefeitura aquele município pertencia a Angicos e era Governador do
Estado José Augusto Varela.
Nesta mesma época foram construídos também
um poço tubular, um matadouro, e a estrada que liga Afonso Bezerra a Deodoro da
Fonseca, povoado distante 54 km da cidade.
A previsão orçamentaria para 1956 era de
758.500 cruzeiros, inclusive a quota federal de 500, a quota de competência do
Estado de 5.000,00 para uma despesa igual, não havendo portanto, superavit nem déficit.
Era, conforme a referida propaganda do
referido jornal, um município
progressista, “que está fadado a uma posição de destaque na vida econômica e
social do Estado, principalmente se permanecer em mãos de homens como
Wanderlinden de Souza e a Família Montenegro."
Matadouro de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.Mercado público de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.
Está claro que a propaganda foi
encomendada para ser publicada no jornal Tribuna do Norte pelo referido
prefeito para promover a sua administração afrente da prefeitura.
O texto daquela propaganda, no entanto,
oferece um vislumbre fascinante do cenário político, socioeconômico e
estrutural do município de Afonso Bezerra (Rio Grande do Norte) em meados da
década de 1950.
O texto contextualiza a recente
emancipação do município (criado em 1953 e instalado em 1955), mencionando o
primeiro prefeito nomeado (Tenente Luiz Gonzaga de Freitas) e a transição para
o primeiro eleito, Wanderlinden Xavier de Souza.
A composição da Câmara Municipal revela
o antigo sistema multipartidário brasileiro antes do bipartidarismo da Ditadura
Militar. É citada uma divisão entre vereadores do PDC (Partido Democrata
Cristão), UDN (União Democrática Nacional), PR (Partido Republicano), PTB
(Partido Trabalhista Brasileiro) e PSD (Partido Social Democrático).
O texto adotava uma postura fortemente
laudatória e parcial em favor do prefeito Wanderlinden, classificando-o como
"competente e honesto" em contraste com a gestão anterior, o que era
muito comum no jornalismo político regional daquele período.
O texto exaltava a compra de um "possantíssimo
Motor Lister" para gerar energia elétrica e o serviço de posteamento.
A imagem que restauramos anteriormente, o "Prédio da Usina de Luz",
era justamente o coração desse avanço tecnológico que tirou a cidade do
"escuro".
Fica registrado que a força econômica
da região na década de 1950 girava em torno da cera de carnaúba, da oiticica e
do algodão (o "ouro branco" do Nordeste nesse período), ou seja, o município
tinha sua força motriz na agricultura extrativista.
Há uma menção curiosa sobre o gasto de
"cincoenta contos" de réis/cruzeiros para a remoção de matos e
"monturos" (lixões/entulhos), enfatizando o esforço para manter a
cidade limpa.
O trecho final traz uma crítica severa
à construção do prédio da Prefeitura (o mesmo da primeira foto que colorizamos,
com o jipe na frente). O texto diz que, apesar do estilo funcional, o material
era "o pior possivel" e a estrutura já sofria com "grandes
rachões nas paredes".
O texto faz justiça histórica ao
mencionar que o Mercado Público, o matadouro, um poço tubular e a estrada para
o povoado de Deodoro da Fonseca foram obras herdadas do período em que a região
ainda pertencia ao município de Angicos.
A previsão orçamentária de 758.500
cruzeiros com exato equilíbrio entre receita e despesa ("não havendo
portanto, superavit nem deficit") mostra a escala modesta e o controle
rígido das finanças de um município que estava literalmente dando os seus
primeiros passos.
Prédio da prefeitura de Afonso Bezerra em 1956.
Tribuna do Norte,25/03/1956, p.43.
| Prédio da prefeitura de Afonso Bezerra em 1956. Reconstituição digital por inteligência artificial. |
Esse documento, junto com as fotos do
jipe na Prefeitura, do Mercado Público de terra batida e da Usina de Luz,
compõe um excelente "álbum de fundação" que ilustra as dores e os
orgulhos do desenvolvimento do interior nordestino no século XX.
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