domingo, 7 de junho de 2026

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE (PARTE II)

 

A cobertura jornalística da Tribuna do Norte (fundado por Aluízio Alves) atuava como um propagandista, com foco na atuação do "Comando da Esperança" nos municípios de Touros e Maxaranguape, entretanto, ele registra um momento histórico emblemático do Rio Grande do Norte no início da década de 1960.

O "Aluizismo"

Os textos do referido jornal mencionavam explicitamente que a ação foi uma iniciativa do então governador Aluízio Alves (que governou o estado entre 1961 e 1966). Ele subiu ao poder com um discurso fortemente modernizador, focado em romper com as velhas estruturas do coronelismo oligárquico tradicional (mencionado nos textos como a estrutura onde o "coronelismo imperava, dominando a enxada e comprando o voto").

O "Comando da Esperança" era a materialização desse marketing e dessa ação governamental: levar a presença do Estado, de forma rápida e impactante, a áreas historicamente isoladas e desassistidas.

O retrato do abandono histórico

As reportagens traça um diagnóstico severo da situação socioeconômica do litoral norte potiguar na época como o isolamento e miséria, onde cidades com populações vivendo em condições sub-humanas, dependiam quase que exclusivamente da pesca de subsistência e, no caso de Maxaranguape, de uma economia baseada no escambo (troca direta de mercadorias), sem circulação de moeda.

A ausência do Estado. O jornal Tribuna do Norte  destacava que, em Touros, o último investimento estadual relevante havia ocorrido em 1927 (no governo de José Augusto Bezerra de Medeiros). Havia um vazio institucional crônico — a falta de médicos, saneamento, estradas transitáveis e até a ausência física de autoridades (juiz, promotor e padre moravam fora).

 A mistura de tecnocracia e voluntariado jovem

Um dos pontos mais interessantes da narrativa do jornal Tribuna do Norte é a exaltação da juventude. O Comando era composto por técnicos e funcionários da recém-criada Comissão Estadual de Desenvolvimento com média de idade de 25 anos (liderados nos bastidores por nomes como Geraldo José de Melo, que décadas mais tarde viria a ser governador do estado).

O texto adotava um tom quase épico para descrever a rotina desses jovens, que trabalhavam "com a cara e a coragem", das 4h da manhã às 19h, misturando o rigor técnico do planejamento com o entusiasmo do trabalho comunitário (mutirões).

        Na imagem abaixo o monumento comemorativo do Comando da Esperança em Touros, assinalando os importantes melhoramentos de assistência social e saúde pública realizados pelo governo Aluizio Alves até naquele então esquecido municipio.

O Poti,23/09/1962,p.8.

Colorização por inteligência artificial.

A ideologia do desenvolvimento

As metas descritas nas reportagens refletiam a cartilha do desenvolvimentismo da época como infraestrutura básica (abertura de mais de 300 km de estradas, piçarreamento, poços tubulares); erviços essenciais (reforma e construção de grupos escolares, postos de saúde, saneamento básico) e fomento econômico (linhas de crédito de até Cr$ 50 mil via Banco do Estado para pescadores e agricultores, compra de máquinas de costura).

As matérias eram um reflexo do jornalismo de época alinhado às propostas reformistas. Utilizava termos de forte apelo emocional (como "Comando da Esperança", "libertação da miséria", "novo sentido de vida") para legitimar a intervenção estatal e construir a imagem de um governo dinâmico, realizador e em sintonia com a modernidade, contrastando o "futuro que chegava" com o "passado de abandono".

    Na imagem abaixo o Grupo Escolar Coronel Florêncio do Lago, na cidade de Touros, recuperado e melhorado pelo Comando da Esperança.A instrução pública voltou a poder funcionar em local bem equipado em Touros.

O Poti,23/09/1962,p.8.

Colorização por inteligência artificial.




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