O Comando da Esperança foi uma ação do governo do Estado
do Rio Grande do Norte pelo governador Aluízio Alves, tendo como coordenador Geraldo
Melo, o qual viria a ser igualmente governador em 1986.
O objetivo do programa era realizar ações
emergenciais em municípios cuja situação socioeconômica beiravam ao colapso,
como foi o caso dos municípios de Touros e Maxaranguape, que foram os municípios
pilotos do programa.
A
situação de Touros
Conforme a Tribuna do Norte com uma
população que vivia da pesca, pela pesca e para a pesca, Touros havia parado no
tempo e no espaço. [1]
A cidade tinha três ruas principais e
alguns aglomerados de casas de barro onde viviam cerca de dois mil habitantes
em condições sub-humanas de existência.
A última presença do governo estadual
na cidade foi em 1927; o então Governador José Augusto Bezerra de Medeiros
construiu um grupo escolar que em 1962 estava em ruínas.
Desde 1927, os pescadores de Touros só receberam
visitas de autoridades e candidatos a autoridades nas épocas de eleições. E,
desde então, viviam de promessas e esperanças.
Em março de 1962, no entanto, as
esperanças da população estavam se transformando em realidade, com a instalação
do programa do Comando da Esperança, do Conselho Estadual de Desenvolvimento-CED.
Após um levantamento completo da
região, jovens sob a direção de Geraldo José de Melo, diretor do CED, atacaram
as obras e estavam realizando-as "com a cara e a coragem", segundo o
jornal Tribuna do Norte. [2]
De quatro horas da madrugada até sete da noite, trabalhavam sem parar, construindo estradas, furando poços artesianos, abrindo valas para o saneamento, reconstruindo grupos escolares e, principalmente, dando um novo sentido de vida aos pescadores de Touros, a cidade abandonada.
A
situação de Maxaranguape
O mesmo fenômeno atingiu a cidade de
Maxaranguape, que era ainda menor do que Touros. Em Maxaranguape havia 800
habitantes que viviam, praticamente, da pesca.
Duas ruas formavam o quadro urbano. A
semelhança de Touros, seus habitantes raramente viam dinheiro. A economia
funcionava quase exclusivamente na base do escambo, da troca de gêneros
alimentícios. E, como Touros, não tinha o menor vestígio de presença do governo
estadual. Sua rede escolar era a pior possível, não havia postos de saúde, água
só em cacimbas e as estradas carroçáveis só funcionavam no verão.
Enquanto em Touros havia juiz,
promotor, padre e delegado, Maxaranguape nada disso tinha. E, como o juiz, o
promotor, e o padre de Touros moravam fora da cidade, os dois municípios ficavam
sem qualquer assistência material ou espiritual, segundo constava no jornal
Tribuna do Norte.[3]
Filosofia
de Ação
Foi essa a situação encontrada pelos
jovens do Conselho Estadual do Desenvolvimento (média de idade era 25 anos) ao
ser instalado o Comando da Esperança nas sedes dos dois municípios.
E era essa também a razão da dedicação
e do entusiasmo que guiavam os trabalhos do Comando da Esperança: salvar essa
população da miséria, do analfabetismo, da doença. Dar um novo sentido de vida
e de comunidade aos pescadores que pareciam conformados "com a miséria que
Deus nos deu".
Para os jovens comandantes da
esperança, a vitória de Aluízio Alves rompeu toda a tradicional estrutura
política do Estado, onde o coronelismo imperava, dominando a enxada e comprando
o voto.
Foi essa vitória que possibilitou uma
experiência revolucionária como o de Touros e Maxaranguape, em que todos os
métodos e padrões normais da administração foram postos de lado em favor da
execução.
E eles sabiam que essa era a grande
oportunidade de se firmarem como técnicos, fazendo algo pelo Rio Grande do
Norte e pelo governo Aluízio Alves. Daí o entusiasmo com que se dedicavam à
luta pela libertação de Touros da miséria e do analfabetismo, trabalhando até
gratuitamente no mutirão, abrindo fossos ou reconstruindo a estrada.
O
Comando da Esperança
Sob a supervisão direta do
secretário-executivo da Comissão Estadual de Desenvolvimento, trabalhavam em
Touros e Maxaranguape 10 funcionários e técnicos. Três jipes, um trator e uma
patrol constituíam a maquinaria pesada da equipe.
De um escritório central, ao lado da
igreja de Touros, saiam as ordens para os comandos que trabalham na recuperação
das rodovias e para as equipes que executam o saneamento, o abastecimento
d'água e a recuperação dos grupos escolares em todo o município.
De acordo com o jornal Tribuna do Norte
a ideia do Comando da Esperança partiu do próprio Governador Aluízio Alves, que
resolveu encarregar a Comissão Estadual de Desenvolvimento da sua execução.
Iniciados
em meados de fevereiro de 1962 os trabalhos afirmavam seus administradores que
antes do prazo fixado pelo Governador Aluízio Alves para 13 de maio de 1962 as
obras seriam entregues.
As
metas
Até o dia 30 de abril de 1962, esperava
o Comando da Esperança entregar as seguintes obras executadas em Touros, nos
setores de educação, saúde e transportes:
- trabalhos
de terraplenagem, alargamento e outro melhoramentos em cerca de 300
quilômetros de estradas;
- reparos
em sete grupos escolares, conclusão de duas escolas, construção de quatro
novos grupos e melhoramentos em quatro outros;
- construção
de poços tubulares em oito vilas do município e recuperação de quatro já
existentes;
- saneamento
para a cidade de Touros (que segundo o programa seria o mais moderno do
Estado, instalado por uma firma de Recife);
- instalação
de um posto de saúde em Touros;
- vendas
de máquinas de costura a crédito, já tendo sido iniciado o alistamento dos
interessados;
- empréstimos
até Cr$ 50 mil feitos pelo Banco do Estado do Rio Grande do Norte para
pequenos produtores (lavradores) e pescadores.
Em Maxaranguape, estavam previstos
melhoramentos em quatro grupos escolares, instalação de um posto de saúde,
perfuração de quatro poços tubulares e recuperação e construção de quatro
rodovias.
O
que foi feito
Das metas acima enunciadas, em abril de
1962 algumas já haviam sido alcançadas totalmente, outras parcialmente, como os
reparos nos grupos escolares de Touros, Maxaranguape, Boacica, Maracajaú,
Perobas e Coqueiro cujas obras estavam quase prontas.
No setor de estradas, a que ia de
Touros a Ceará-Mirim já estava terraplenada e oçarrada numa extensão de 10 km;
a estrada Touros-Punaú-Ceará-Mirim já fora terraplenada até Punaú; a de
Touros-Cajueiro-Gostoso-Parazinho, fora terraplenada até Gostoso.
Os serviços de saneamento de Touros e
Maxaranguape também já haviam sido iniciados e deveriam estar prontos até fins
de abril. E um posto de saúde já havia sido instalado em Touros provisoriamente
no da Caça e Pesca.
Na
imagem a baixo a construção do coletor geral do saneamento de Touros construído
pelo Comando da Esperança.Além da utilidade no campo da saúde pública, embelezou
o urbanismo da cidade de Touros.
Diário de Natal,24/09/1962,p.4. Colorizado por inteligência artificial.
Em 02/03/1962 pela manhã, o Banco do
Estado do Rio Grande do Norte-BANDERN, iniciou a concessão de empréstimos para
os pescadores e pequenos agricultores locais, para compra de material de
trabalho. A importância total dos empréstimos foi de Cr$ 2 milhões, com um teto
de Cr$ 50 mil.
Na
imagem abaixo trecho da rodovia Touros-Maxaranguape-Ceará-Mirim, piçarrada e
nivelada pelo governo Aluizio Alves através do DER e Comando da Esperança.
Diário de Natal,24/09/1962,p.4.
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