Previstas para serem concluídas em maio
as ações do Comando da Esperança só ficaram prontas em setembro de 1962.
Segundo o jornal O Poti o Governo do
Estado acabava de inaugurar a sua primeira realização no campo da
descentralização administrativa, com os serviços em Touros e Barra de
Maxaranguape, onde atuou, durante 150 dias, o "Comando da Esperança",
sob a supervisão direta do Conselho Estadual de Desenvolvimento.[1]
A promoção constituiu um verdadeiro
teste para a capacidade daquele novo órgão da administração estadual, posto que
foi incumbido de operar em uma das áreas mais subdesenvolvidas do Rio Grande do
Norte, a despeito de suas vastas possibilidades naturais.
Possuindo alguns vales úmidos e terras
laboráveis com bons índices de produtividade a agricultura da região era das
mais incipientes, moldada ainda nos métodos mais primitivos.
A outra área de atividades — a pesca, —
se bem que exercida numa das mais ricas faixas pesqueiras do país, se processava,
igualmente, sem a rentabilidade de esperar, dados os recursos rudimentares que
vinha desafiando o desenvolvimento natural do homem, rumo ao progresso.
A situação sanitária era das piores, alcançando a xistossomose nível dos mais elevados de par com outros males oriundos da verminose, malária e outras enfermidades que, agravadas pela subalimentação, proliferavam em grande escala.
Na
imagem abaixo tipo de sanitário público dos que foram constuidos pelo governo Aluizio
Alves na cidade de Touros. Sanitários constituíam das maiores necessidades do município,
no campo da saúde pública, como meio de evitar a propagação do cistosoma.
| O Poti, 23/09/1962,p.2. |
Na
imagem abaixo uma caixa d´água, catavento e poço tubular público de Rio do Fogo,
então distrito do municipio de Maxaranguape, construído pelo Comando da
Esperança em cooperação do o SESP.
Com a criação do "Comando da
Esperança" técnicos do CED se transportaram para a região e ali iniciaram
o levantamento da área sob os seus múltiplos aspectos, implantando, em pouco
mais de quatro meses, novas condições para o desenvolvimento de Touros e Barra
de Maxaranguape.
Foram implantados dois sistemas de
saneamento: o primeiro, em Touros (2.200 habitantes) do tipo usual nas grandes
cidades, com depuradora OMS ligada à rede coletora e instalação de banheiros
nos 414 prédios da cidade, que passou a ser a única no Brasil totalmente
saneada; o segundo, em Barra de Maxaranguape, constituído por fossas
individuais, atendendo a 172 residências.
O setor educacional mereceu particular
atenção, com a recuperação do Grupo Escolar "Gen. Florencio do Lago",
em Touros, e das escolas Rurais de Vila de Maxaranguape, Boacica, Maracajaú e
Barra de Maxaranguape, conclusão e ampliação das escolas de Cajueiro e Peroba,
melhoramento das escolas de Carnaubinho, Cana Brava, Tábua, Boqueirão, São José
do Sal e Zumbi, instalação de escolas em Bebida Velha, Reduto, Rio do Fôgo e
Pititinga e adaptação de um prédio para a escola de Baixinha.
Por outro lado, confeccionou-se 25 birôs
e 170 carteiras, enquanto outras 230 eram recuperadas nas oficinas do Comando.
Intensivo trabalho foi feito para o
melhoramento da rede de estradas carroçáveis da região, com piçarramento e
outros serviços nas seguintes estradas: Touros-Cajueiro-São Miguel do
Gostoso-Parazinho, Touros-Boacica-Vila de Maxaranguape-Ceará Mirim, Touros-Punau-Ceará
Mirim, Touros-Boqueirão, Rio do Fôgo-Santa Luzia, Pititinga-Maracajaú-Paz e
Barra de Maxaranguape-Muriú, abrangendo um total de mais de 350 km.
Tendo em vista a pequena área cultivada
do Município, o Comando procedeu à abertura do escoadouro da lagoa Boqueirão,
com o aproveitamento de mais 120 hectares de terras cultiváveis.
Em colaboração com órgãos federais,
foram recuperados ou perfurados poços tubulares em Barra de Maxaranguape,
Maracajaú, Pititinga, Rio do Fogo e Touros, para garantir o abastecimento
d'água à população.
Face à inexistência de qualquer
assistência médica, o Comando da Esperança, a título provisório, fez instalar
um Posto de Saúde em prédio da Divisão de Caça e Pesca em Touros, que seria
proximamente substituído por um dos postos móveis recentemente adquiridos pelo Governo,
com gabinete médico e dentário, possibilitando assistência mais eficiente às
populações rurais.
Embora em número limitado, concedeu-se
financiamento a pequenos lavradores e pescadores, a título de incentivo a
melhoria de sua produtividade, enquanto 74 máquinas foram distribuídas a
costureiras pobres, com financiamento em quinze meses.
Vestuário e calçado foram distribuídos
à 750 alunos do Grupo de Touros e das Escolas Reunidas de Boacica, Maracajaú,
Vila de Maxaranguape e Barra de Maxaranguape.
O jornal O Poti documentava assim uma
importante ação governamental de desenvolvimento regional e interiorização dos
serviços públicos no Rio Grande do Norte, conduzida pelo "Comando da
Esperança" sob a supervisão do Conselho Estadual de Desenvolvimento (CED).
É um testemunho histórico valioso sobre
as dinâmicas socioeconômicas e as políticas públicas de meados do século XX no
Nordeste brasileiro.
A atuação do "Comando da
Esperança" por um período determinado (150 dias) reflete uma estratégia de
choque de gestão. Em vez de esperar pelo crescimento orgânico ou por
burocracias lentas, o Estado deslocou técnicos diretamente para o campo para
realizar diagnósticos e aplicar soluções imediatas em várias frentes
simultaneamente (saneamento, educação, saúde e infraestrutura).
O Poti traçava um perfil contundente
das dificuldades estruturais da região de Touros e Barra de Maxaranguape antes
da intervenção:
- Economia
arcaica: Uma
agricultura moldada em "métodos mais primitivos" e uma atividade
pesqueira sem rentabilidade, apesar do enorme potencial natural da costa.
- Crise
sanitária e social:
Relata-se um cenário grave de saúde pública, com altos índices de
esquistossomose (xistosomose"), malária, verminoses e desnutrição
("subalimentação").
Um dos pontos mais impactantes do
relato do referido jornal é a afirmação
de que a cidade de Touros se tornou "a única no Brasil totalmente
saneada" naquele momento, após a instalação de uma rede coletora com
depuradora da OMS (Organização Mundial da Saúde) e banheiros em todos os 414
prédios urbanos. Para a época, garantir 100% de saneamento em uma sede
municipal era um feito raríssimo no país, especialmente no interior do
Nordeste.
O "Comando" atacou dois
gargalos históricos da região:
- Isolamento
geográfico: A
abertura e o piçarramento de mais de 350 quilômetros de estradas
carroçáveis interligando distritos e municípios vizinhos (como Ceará-Mirim
e São Miguel do Gostoso) foram fundamentais para o escoamento da produção
e mobilidade da população.
- Segurança
hídrica: A
perfuração e recuperação de poços tubulares em parceria com órgãos
federais demonstram a necessidade de combater a escassez de água potável
na região litorânea/agreste.
Além das grandes obras, o
Poti mostra uma preocupação com a economia doméstica e a dignidade social
através de:
- Doação
de roupas e calçados para estudantes.
- Distribuição
de máquinas de costura para "costureiras pobres" mediante
financiamento, estimulando a geração de renda local.
- Crédito/financiamento
para pequenos lavradores e pescadores.
A matéria do jornal O Poti mostrava o
otimismo técnico e o modelo de planejamento centralizado que marcaram as
décadas de 1960 e 1970 no Brasil, onde o Estado assumia o papel de
"indutor da modernização" em áreas historicamente esquecidas pelo
poder público.
É um registro memorável da transição
daquela região de um estado de "estagnação" para a integração
econômica estadual.
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