domingo, 7 de junho de 2026

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE EM 1962 (PARTE IV)

 

Encerrando a série sobre o Comando da Esperança nos municípios de Touros e Maxaranguape em 13/06/1962 a Tribuna do Norte registrou “vimos Touros — Barra Maxaranguape, dois pedaços de terra dividida, visão de mar, solidão e pobreza, que nos últimos trinta e cinco anos só duas vezes conhecera Governo do Estado trabalhando, pois, o ano todo e cada ano, dele só se apresentavam o fiscal dos impostos, arrecadando as últimas poupanças, o delegado, às vezes garantindo, às vezes ameaçando, e o agente político subornando consciência na véspera das eleições. Fora dessa rotina melancólica, só o Governo José Augusto (1927) construindo um Grupo escolar, e o Governo José Varella (1947) algumas escolas isoladas no interior e uma estrada. O resto era silêncio, na dor oprimida de um povo ao qual os homens públicos só abriam um caminho: vender-se em cada pleito eleitoral, como mercadoria cada dia mais desvalorizada, nas mãos dos chefes políticos eles próprios também vítimas”.[2]

       O Comando da Esperança levantou os seus problemas imediatos, em todos os setores da cidade e do interior.

      Ainda em junho de 1962, o Comando da Esperança convidaria a Assembleia Legislativa a descobrir, “na face ressurgida do povo, o encontro de suas esperanças, tantas vezes enganadas”.[3]

       Com esse programa de serviços de 100 dias foram realizados:

      No setor de estradas, praticamente inexistentes na região vias de comunicações, salvo carroçáveis em péssimo estado para o tráfego normal, mormente na estação chuvosa. Inicialmente, foi previsto o melhoramento das estradas, a fim de que ficasse assegurado o trânsito na quadra chuvosa. Posteriormente, face ao exame mais detalhado das mencionadas vias de comunicação, ficou resolvido a ampliação dos serviços.

        Assim, foram executadas as seguintes obras no setor:

  1. Touros-Cajueiro-São Miguel do Gostoso-Parazinho,

a) — piçarrado o trecho Touros-Cajueiro, no qual foi também, retificado parte do traçado;

b) — colocadas duas barreiras e melhorados os trechos Cajueiro-São Miguel do Gostoso-Parazinho;

  1. Touros-Boacica-Vila de Maxaranguape (Pureza)-Ceará Mirim

a) — piçarrado o trecho Touros-Boacica;

b) — melhorados os trechos Boacica-Vila de Maxaranguape-Ceará Mirim

  1. Touros-Punaú-Ceará Mirim

a) — piçarrados trechos nas alturas dos vales do Fonseca, Punaú e Catolé

b) — melhorados os demais trechos, construídas duas pontes e três boeiras

  1. Rio de Fogo-Santa Luzia de Touros (Saco) — Recuperada
  2. Pititinga-Maracajaú-Paz — recuperadas, construídos cêrca de três kms. de aterros e colocadas boeiras.
  3. Barra de Maxaranguape-Muriú

a) — construídos dois kms.

b) — melhorado e recuperado o restante

  1. Melhorados mais 200 kms. de estradas.

      O sistema escolar encontrava-se nas piores condições. Os prédios escolares estavam semidestruídos, muitas escolas estavam fechadas, outras com a construção paralisada, não existindo, além do mais, escolas em muitas localidades.

        Foram melhoradas as Escolas Isoladas de Carnaubinha (do Estado), Cana Brava, Tábua, Boqueirão, São José, Lagôa do Sal, Zumbi e outras.Em vias de instalação as escolas de Zumbi, Bebida Velha, Morros.Foram construídas Escolas Reunidas em São Miguel de Gostoso, Santa Luzia, Rio de Fogo e Pititinga e adquirido e adaptado um prédio em Baixinha.

      Os poucos móveis encontrados nas escolas foram recuperados e feitos ainda bureaux, carteiras e outros nas oficinas do Comando ou fornecidos pelo Departamento de Educação, dentre as quais novas carteiras para o Grupo Escolar de Touros.

            Na imagem abaixo a Escola Pública Estadual de Pititinga, uma das quatro construidas pelo governo Aluizio Alves, através do Comando da Esperança.

o O Poti, 23/09/1962,p.2.

Colorização por inteligência artificial.

       Com a intenção de melhorar as condições sanitárias da região, assolada pela cistosoma, helmitose, malária e outras enfermidades, foi inteiramente saneada Barra de Maxaranguape, com um sistema de fossas individuais, em 170 casas, estando em fase de conclusão o saneamento da cidade de Touros, a primeira cidade do Brasil totalmente servida por tal serviço.

       Ainda com esse objetivo, foi instalado em Touros um posto de saúde, provisório, que será substituído por um dos postos móveis adquiridos pelo Estado, com um raio de ação muito maior.

       Ao lado disto, estavam sendo construídos cinco poços tubulares com a cooperação do SEBP, em Touros, Rio do Fogo, Maracajaú, Pititinga e Barra de Maxaranguape, já tendo sido perfurados os de Touros, Barra de Maxaranguape e Maracajaú.

     Com o levantamento e orçamento já feitos, — com a cooperação do DNOCS, serão recuperados os poços tubulares de Umburana, Angico e Baixinha, todos na zona dos tabuleiros secos.

       Afora os serviços e obras acima referidas, vêm sendo concedidos através do Banco do Rio Grande do Norte, empréstimos a pequenos agricultores e pescadores, devendo serem vendidas, à prestação, 74 máquinas de costura, ao preço unitário de Cr$ 15.000,00, sem joia (penhora) e sem juros.

        Na imagem abaixo a Escola Pública de São Miguel do Gostoso, construida pelo Comando da Esperança no governo Aluizio Alves.

Diário de Natal,24/09/1962,p.4.

Colorização por inteligência artificial.

       Se antes o texto das matérias da Tribuna do Norte tinham um tom mais institucional e jornalístico, estes novos conjuntos de reportagens traz um forte componente político, retórico e social.

      O início do texto é de uma densidade dramática e sociológica impressionante. O autor não poupa críticas à ausência histórica do Estado na região de Touros e Barra de Maxaranguape, resumindo os 35 anos anteriores a três figuras melancólicas e opressivas:

  • O fiscal de impostos: Que aparecia apenas para levar as "últimas poupanças".
  • O delegado: Que agia alternando entre a coerção e o medo ("às vezes garantindo, às vezes ameaçando").
  • O agente político: Que praticava abertamente a compra de votos ("subornando consciência na véspera das eleições").

     O texto denunciava como o cidadão do interior era reduzido a uma "mercadoria cada dia mais desvalorizada" nas mãos de chefes políticos, descrevendo a realidade do voto de cabresto e do clientelismo que sufocavam o Nordeste.

O documento estabelece uma linha do tempo útil para historiadores, citando que apenas duas vezes o Governo do Estado havia atuado ali no passado recente:

  • Governo José Augusto (1927): Com a construção de um Grupo Escolar.
  • Governo José Varella (1947): Com algumas escolas isoladas e uma estrada.

     Ao fazer isso, o governante da época (que executa o plano de 100/150 dias) se coloca explicitamente como o terceiro grande marco de ruptura e progresso da região.

     Enquanto os textos anteriores do referido jornal davam números gerais, este detalha a malha rodoviária que estava sendo criada ou recuperada. A menção ao "piçarramento" e à construção de pontes e bueiros nas alturas dos vales do Fonseca, Punaú e Catolé mostra o esforço técnico para impedir que as comunidades ficassem completamente isoladas durante a "quadra chuvosa".

    Topônimos que hoje são polos turísticos internacionais, como São Miguel do Gostoso, aparecem aqui como vilas isoladas que estavam recebendo suas primeiras ligações rodoviárias estruturadas e suas primeiras "Escolas Reunidas".

    O diagnóstico do sistema escolar era devastador: prédios "semidestruídos", escolas fechadas ou com obras paralisadas. A resposta do programa foi reconverter e adaptar prédios (como em Baixinha) e fabricar móveis nas próprias oficinas do Comando, evidenciando uma operação com traços de economia de guerra ou mutirão emergencial.

     O trecho final revelava que o "Comando" não agiu sozinho, mas funcionou como um articulador de agências de diferentes esferas:

  • SEBP (Serviço Especial de Saúde Pública) atuando na perfuração de poços.
  • DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) mapeando os poços dos "tabuleiros secos" (regiões mais áridas afastadas do litoral).
  • O Banco do Rio Grande do Norte operacionalizando o microcrédito e o financiamento das famosas 74 máquinas de costura (com o valor nominal fixado em Cr$ 15.000,00, sem juros).

     O relato doo jornal Tribuna do Norte  é um manifesto de legitimação política através da ação social. Ele usa o contraste chocante entre o "velho Nordeste" (da opressão fiscal, policial e eleitoreira) e o "novo Nordeste" (do planejamento técnico, estradas e saneamento) para justificar a importância do Conselho Estadual de Desenvolvimento (CED) e o sucesso do plano de emergência de 100 dias.

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