O
escritor e cronista potiguar (imortal da Academia Brasileira de Letras, vulgo puxadinho
do PT) Humberto Peregrino, escreveu uma crônica na revista Careta em 1949 a
qual faz uma interessante retrato da então vila de Estremoz que ele havia visitado,
vejamos:
“Antes não tivesse ido a Extremoz para ver
o que vi. Do que outrora era a bela igreja e o colégio dos primeiros tempos da
colonização, restam de pé, apenas, umas poucas paredes. Tanto cavaram á volta,
em busca dos tesouros que teriam sido escondidos pelos jesuítas, que a
construção colonial desapareceu substituída por uma igreja pobre, reles. O
cruzeiro, é verdade, ainda resiste, porém troncho, ameaçado, também não passa
de uma ruína. Nas ruas penduram-se fios elétricos sem função. Seriam para dar
luz elétrica ao lugar. Promessa eleitoral que estacou nos fios... Contudo a política
sempre deixou algo: um diretor de estrada de ferro, Sampaio Correia, que queria
fazer-se deputado (e o alcançou) colocou água encanada, derivada da farta caixa
d’água de abastecimento dos trens.
Aspectos de Estremoz no inicio do século XX.Cartão postal.
A Cadeia velha, outra construção
colonial, também foi suprimida. Restou, apenas, uma fatia de parede, agora
servindo de muro ao quintal do padre, como excêntrico apêndice á igreja. E como
humilha a construção moderna aquele resíduo da passada!...
O Mercado é novo, estilo cafona.
Sortimento não tem, a não ser de bebidas, no que é farto, principalmente quanto
a cachaça, cerveja, vermute.
Na atual Extremoz, desfigurada pelos
cobiçosos que lhe destruíram as construções coloniais fazendo escavações infrutíferas,
e ludibriada pelos políticos que lhe acenavam com progressos materiais cuja
concessão se interrompeu no momento exato em que os votos foram obtidos, nessa Extremoz
atual, desfigurada e ludibriada, de bom mesmo só encontrei a vendinha de d. Luísa
Morais, instalada bem ao lado do Mercado, sob a sombra generosa de uma imensa
mangueira antiga. Simpática e viva, d. Luisa sabe informar e agradar.
Dignos das tradições de Extremoz são
também os grudes de d. Joana do Café, a quem visitei em busca dos ditos. E
fiquei pensando, enquanto os devorava com delicia, que nada mais restará de Extremoz
no dia em que deixarem de existir, também, os grudes de d. Joana do Café”.[1]
O texto transcrito a cima é uma crônica
de viagem contundente e melancólica, na já citada revista Careta em 1959por Humberto
Peregrino. O autor relata sua visita à histórica então vila de Estremoz com um
tom que mistura desilusão, crítica político-social e um profundo saudosismo
cultural.
O autor abre o texto com um desabafo
forte: "Antes não tivesse ido a Extremoz para ver o que vi". O
motivo de seu choque é a degradação do patrimônio colonial.
Ele relata que a antiga e bela igreja e
o colégio jesuítico foram praticamente destruídos porque as pessoas
"cavaram à volta" em busca de supostos tesouros enterrados pelos
padres. Essa lenda do "ouro jesuíta" era muito comum no Brasil e,
infelizmente, causou a ruína de muitos monumentos históricos.
O cronista lamenta que a arquitetura
imponente do passado tenha sido substituída por uma igreja "pobre,
reles" e um mercado de estilo "cafona", restando apenas ruínas
(como o cruzeiro troncho e um pedaço da antiga cadeia que virou muro de
quintal).
Um dos pontos mais interessantes do
texto é a denúncia do cenário político da época, que hoje reconhecemos como o
clássico clientelismo e o voto de cabresto.
Os fios elétricos "sem
função" pendurados nas ruas servem como uma metáfora visual perfeita para
as promessas de campanha que "estacaram nos fios" assim que as
eleições passaram.
O autor cita nominalmente o engenheiro e
político Sampaio Correia, ironizando que a política "sempre deixou
algo". A instalação da água encanada na cidade não foi um projeto de
saneamento planejado, mas sim um subproduto da infraestrutura ferroviária usada
pelo candidato para se autopromover e conseguir se eleger deputado.
A
cidade foi "ludibriada pelos políticos
que lhe acenavam com progressos materiais cuja concessão se interrompeu no
momento exato em que os votos foram obtidos".
Após pintar um quadro sombrio de
destruição e corrupção, o cronista encontra o verdadeiro valor de Extremoz nas
pessoas comuns e nas tradições que resistem à margem da política oficial.Ele
destaca a "vendinha de d. Luisa Morais", descrita como um espaço
agradável e acolhedor sob a sombra de uma mangueira antiga.
O ápice afetivo do texto está nos
famosos grudes de dona Joana do Café. O grude (uma iguaria tradicional da
região, feita à base de goma de mandioca e coco) é visto pelo autor como a
última fronteira da identidade local.
O texto termina com uma reflexão quase
profética e poética: "nada mais restará de Extremoz no dia em que
deixarem de existir, também, os grudes de d. Joana do Café".
O autor conclui que, quando a história
material (os prédios, as igrejas) é destruída pela ganância e pelo descaso do
Estado, a alma de um lugar passa a residir estritamente no seu patrimônio
imaterial — nos afetos, na memória e nos sabores preservados pelo seu povo. É
um registro histórico valioso sobre a transição dolorosa de uma antiga vila
colonial para a modernidade negligenciada do interior brasileiro.
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