SOBRE
A INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO DE AFONSO BEZERRA
De acordo com o Diário de Natal em
16/11/1950 na linha norte da Estrada de Ferro Sampaio Correia, esperava-se
entregar ao tráfego, em 30 de novembro, o trecho de 15 km de Pedro Avelino a
Afonso Bezerra.[1]
Estavam sendo concretadas as vigas das
principais pontes e já estando toda linha assentada e quase concluído o
edifício da estação Afonso Bezerra.
Na edição do dia 28/11/1950 o jornal
Tribuna do Norte registrou: "Será inaugurada amanhã a estação de Afonso
Bezerra, novo ramal da Estrada de Ferro 'Sampaio Correia' no município de
Angicos”.[2]
Assim, a estação ferroviária de Afonso Bezerra foi inaugurada em 29/11/1950.
Foto: Enciclopédia dos Muncipios Brasileiros,IBGE, 1958.
Colorização por inteligência artificial.
Ainda segundo o referido jornal, “estendendo
a sua linha até aquela localidade, a Estrada vai impulsionar ainda mais a
prosperidade econômica e social do distrito que tem o nome de um dos seus
ilustres filhos desaparecidos”.[3]
Correriam até Afonso Bezerra três trens
semanais de Natal, ás segundas, quartas e sextas.
A iniciativa da construção desse ramal
foi de José Augusto Varela, quando deputado federal, apresentou emenda ao
Orçamento Federal correspondente a primeira verba.
A Tribuna do Norte congratulava-se com
o povo de Afonso Bezerra pelo grande melhoramento.
Este relato da inauguração da estação
de Afonso Bezerra é uma relíquia histórica valiosa sobre o desenvolvimento da
infraestrutura no interior do Rio Grande do Norte e registra o momento exato em
que a modernidade sobre trilhos chega à região, trazendo uma série de detalhes
econômicos, políticos e geográficos fundamentais.
Um detalhe crucial no início do texto é
a menção de que Afonso Bezerra ainda era um distrito no município de Angicos, o
qual somente em outubro de 1953 o distrito foi elevado à categoria de município.
O trem chegou quando a localidade ainda
lutava para crescer sob a tutela de Angicos, funcionando como o principal motor
para a sua futura emancipação política.
A Tribuna do Norte celebra a expansão
da malha ferroviária através desse novo ramal. Na primeira metade do século XX,
as ferrovias eram o equivalente às nossas principais rodovias duplicadas de
hoje: o único meio viável, rápido e seguro de escoar grandes produções e transportar
passageiros pelo interior do Nordeste.
A promessa de três trens semanais de
Natal, segundas, quartas e sextas-feiras representava uma revolução na
rotina dos moradores, encurtando drasticamente a distância cultural e comercial
até a capital do Estado.
A previsão do jornal Tribuna do Norte de
que a estrada iria impulsionar ainda mais a prosperidade econômica e social era
certeira, posto que a economia local dependia fortemente do algodão, da cera de
carnaúba e da oiticica. O trem permitiria que esses produtos chegassem
rapidamente aos portos ou centros de distribuição, injetando capital na
economia local.
O texto credita a emenda orçamentária
federal para o início das obras ao então deputado federal José Augusto Varela
(que mais tarde viria a ser governador do Rio Grande do Norte, entre 1947 e
1951). Isso demonstra o peso do "voto de bancada" na infraestrutura
da época.
O trecho menciona sutilmente que o
distrito trazia "o nome de um dos seus ilustres filhos desaparecidos".
Trata-se de uma homenagem a Afonso Bezerra, jovem jornalista, estudante de
direito e membro da Congregação Mariana de Natal, que faleceu em 08/03/1930
causando grande comoção a época após grave enfermidade.
A Tribuna do Norte se congratulando com o povo pelo "grande melhoramento" reforça o clima de festa e otimismo que a chegada de uma locomotiva causava no interior do país. Era o símbolo máximo do progresso alcançado.
Sobre
a estação
As imagens a cima mostram respectivamente
a estação de Afonso Bezerra em 1958 e colorizada por meio de inteligência artificial.
O prédio apresenta um belíssimo exemplar
da arquitetura ferroviária do Rio Grande do Norte na década de 1950.
O edifício da estação segue as
diretrizes tipológicas das construções ferroviárias institucionais da primeira
metade do século XX no interior do Nordeste, caracterizando-se por uma
sobriedade funcional, mas com marcantes elementos ornamentais.
A fachada principal exibe uma transição
discreta para o ecletismo com influência do neocolonial, visível no frontão
triangular centralizado e nas platibandas retas nas laterais, que ocultam
parcialmente o telhado.
Logo acima do letreiro indicativo com o
nome "AFONSO BEZERRA", destaca-se no frontão um relevo geométrico em
formato de estrela ou monograma estilizado, elemento muito comum para
identificar a administração ferroviária da época (frequentemente associado à
Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, naquele ano transformada em
Estrada de Ferro Sampaio Correia).
As
janelas e portas de madeira e vidro em formato retangular verticalizado
preservam uma pintura azul-royal vibrante, que contrasta com o tom areia/bege
das paredes e o barrado inferior mais escuro, projetado originalmente para
camuflar o desgaste causado pela poeira e pelo movimento de passageiros e
cargas.
A arquitetura ferroviária é
essencialmente pragmática, e cada setor do edifício visível na imagem cumpre um
papel claro na logística de transporte.
A grande cobertura em balanço
(alpendre) com telhas cerâmicas do tipo canal é sustentada por robustas
mãos-francesas de madeira texturizada. Essa estrutura era vital para proteger
os passageiros do sol forte do semiárido potiguar e resguardar as mercadorias
durante o embarque e desembarque nos dias de chuva.
A plataforma de alvenaria apresenta uma
elevação em relação ao leito da via (rampa e cais), calculada milimetricamente
para se alinhar ao piso dos vagões de passageiros e de carga, facilitando o
fluxo de pessoas e o manuseio de fardos (como o algodão, historicamente o
grande motor econômico da região).
Em primeiro plano, embora os trilhos de
aço e os dormentes de madeira tenham sido removidos ou cobertos, o contorno do
leito ferroviário de terra batida permanece perfeitamente visível, desenhando a
icônica curva que margeava a plataforma.
Estado
atual
A estação foi desativada em 1998 quando fechamento do
ramal macau-Natal onde desde então passou por estados de abandono que levaram a
consequente ruina e quase desaparecimento do edifício.
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