domingo, 7 de junho de 2026

SOBRE A INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO DE AFONSO BEZERRA

 

SOBRE A INAUGURAÇÃO DA ESTAÇÃO DE AFONSO BEZERRA

De acordo com o Diário de Natal em 16/11/1950 na linha norte da Estrada de Ferro Sampaio Correia, esperava-se entregar ao tráfego, em 30 de novembro, o trecho de 15 km de Pedro Avelino a Afonso Bezerra.[1]

Estavam sendo concretadas as vigas das principais pontes e já estando toda linha assentada e quase concluído o edifício da estação Afonso Bezerra.

Na edição do dia 28/11/1950 o jornal Tribuna do Norte registrou: "Será inaugurada amanhã a estação de Afonso Bezerra, novo ramal da Estrada de Ferro 'Sampaio Correia' no município de Angicos”.[2]

Assim, a estação ferroviária de Afonso Bezerra foi inaugurada em 29/11/1950.


Foto: Enciclopédia dos Muncipios Brasileiros,IBGE, 1958.


Colorização por inteligência artificial.

Ainda segundo o referido jornal, “estendendo a sua linha até aquela localidade, a Estrada vai impulsionar ainda mais a prosperidade econômica e social do distrito que tem o nome de um dos seus ilustres filhos desaparecidos”.[3]

Correriam até Afonso Bezerra três trens semanais de Natal, ás segundas, quartas e sextas.

A iniciativa da construção desse ramal foi de José Augusto Varela, quando deputado federal, apresentou emenda ao Orçamento Federal correspondente a primeira verba.

A Tribuna do Norte congratulava-se com o povo de Afonso Bezerra pelo grande melhoramento.

Este relato da inauguração da estação de Afonso Bezerra é uma relíquia histórica valiosa sobre o desenvolvimento da infraestrutura no interior do Rio Grande do Norte e registra o momento exato em que a modernidade sobre trilhos chega à região, trazendo uma série de detalhes econômicos, políticos e geográficos fundamentais.

Um detalhe crucial no início do texto é a menção de que Afonso Bezerra ainda era um distrito no município de Angicos, o qual somente em outubro de 1953 o distrito foi elevado à categoria de município.

O trem chegou quando a localidade ainda lutava para crescer sob a tutela de Angicos, funcionando como o principal motor para a sua futura emancipação política.

A Tribuna do Norte celebra a expansão da malha ferroviária através desse novo ramal. Na primeira metade do século XX, as ferrovias eram o equivalente às nossas principais rodovias duplicadas de hoje: o único meio viável, rápido e seguro de escoar grandes produções e transportar passageiros pelo interior do Nordeste.

A promessa de três trens semanais de Natal, segundas, quartas e sextas-feiras representava uma revolução na rotina dos moradores, encurtando drasticamente a distância cultural e comercial até a capital do Estado.

A previsão do jornal Tribuna do Norte de que a estrada iria impulsionar ainda mais a prosperidade econômica e social era certeira, posto que a economia local dependia fortemente do algodão, da cera de carnaúba e da oiticica. O trem permitiria que esses produtos chegassem rapidamente aos portos ou centros de distribuição, injetando capital na economia local.

O texto credita a emenda orçamentária federal para o início das obras ao então deputado federal José Augusto Varela (que mais tarde viria a ser governador do Rio Grande do Norte, entre 1947 e 1951). Isso demonstra o peso do "voto de bancada" na infraestrutura da época.

O trecho menciona sutilmente que o distrito trazia "o nome de um dos seus ilustres filhos desaparecidos". Trata-se de uma homenagem a Afonso Bezerra, jovem jornalista, estudante de direito e membro da Congregação Mariana de Natal, que faleceu em 08/03/1930 causando grande comoção a época após grave enfermidade.

A Tribuna do Norte se congratulando com o povo pelo "grande melhoramento" reforça o clima de festa e otimismo que a chegada de uma locomotiva causava no interior do país. Era o símbolo máximo do progresso alcançado.

 

Sobre a estação

As imagens a cima mostram respectivamente a estação de Afonso Bezerra em 1958 e colorizada por meio de inteligência artificial.

O prédio apresenta um belíssimo exemplar da arquitetura ferroviária do Rio Grande do Norte na década de 1950.

O edifício da estação segue as diretrizes tipológicas das construções ferroviárias institucionais da primeira metade do século XX no interior do Nordeste, caracterizando-se por uma sobriedade funcional, mas com marcantes elementos ornamentais.

A fachada principal exibe uma transição discreta para o ecletismo com influência do neocolonial, visível no frontão triangular centralizado e nas platibandas retas nas laterais, que ocultam parcialmente o telhado.

Logo acima do letreiro indicativo com o nome "AFONSO BEZERRA", destaca-se no frontão um relevo geométrico em formato de estrela ou monograma estilizado, elemento muito comum para identificar a administração ferroviária da época (frequentemente associado à Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, naquele ano transformada em Estrada de Ferro Sampaio Correia).

 As janelas e portas de madeira e vidro em formato retangular verticalizado preservam uma pintura azul-royal vibrante, que contrasta com o tom areia/bege das paredes e o barrado inferior mais escuro, projetado originalmente para camuflar o desgaste causado pela poeira e pelo movimento de passageiros e cargas.

A arquitetura ferroviária é essencialmente pragmática, e cada setor do edifício visível na imagem cumpre um papel claro na logística de transporte.

A grande cobertura em balanço (alpendre) com telhas cerâmicas do tipo canal é sustentada por robustas mãos-francesas de madeira texturizada. Essa estrutura era vital para proteger os passageiros do sol forte do semiárido potiguar e resguardar as mercadorias durante o embarque e desembarque nos dias de chuva.

A plataforma de alvenaria apresenta uma elevação em relação ao leito da via (rampa e cais), calculada milimetricamente para se alinhar ao piso dos vagões de passageiros e de carga, facilitando o fluxo de pessoas e o manuseio de fardos (como o algodão, historicamente o grande motor econômico da região).

Em primeiro plano, embora os trilhos de aço e os dormentes de madeira tenham sido removidos ou cobertos, o contorno do leito ferroviário de terra batida permanece perfeitamente visível, desenhando a icônica curva que margeava a plataforma.

Estado atual

         A estação foi desativada em 1998 quando fechamento do ramal macau-Natal onde desde então passou por estados de abandono que levaram a consequente ruina e quase desaparecimento do edifício.



[1] Diário de Natal,16/11/1950, p.2.

[2] Tribuna do norte,28/11/1950, p.6.

[3] Op. Cit.

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