terça-feira, 6 de novembro de 2018

O FILHO DO PRESIDENTE AFONSO PENA E A EFCRGN


O jornal do Recife publicou em 1933 uma história daquelas que dá gosto ouvir. Trata-se do filho do ex-presidente da república Afonso Pena (1906-1909) e a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte.
         Segundo o jornal a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte estava uma verdadeira casa de Orates[1].A imprensa chamava-a de estrada dos trilhos de ouro, tal era o desperdício de dinheiro nas construções.O escândalo do canal do Panamá, do petróleo nos Estados Unidos, da Revista do Supremo Tribunal e outros do mesmo quilate, poderiam ser mais avultados na mesma grandeza, mas não  o eram em safadeza como se verificava na EFCRGN.
         Foi quando o governo mandou para lá um filho do presidente da república Afonso Pena, era engenheiro e ainda jovem. Assumiu o exercício e saiu, em seguida sem nada dizer a ninguém, viajando pela EFCRGN, percorrendo todas as suas estações a examinar pessoalmente tudo o que se fazia.
         Mestre Heráclio,  era um pintor de profissão e “comedor de água”[2] por esporte, estava ele pintando nesse dia um dos galpões da EFCRGN em Ceará-Mirim, quando chegou aquele homenzinho e lhe falou:
-Pintando, hein mestre?
Heráclio trepado na escada, de brocha na mão, olhou para o estranho, cuspiu para o lado, sorriu e murmurou:
-Pintando? Eu faço que pinto...
-Como assim?
-Isto por aqui anda a matroca[3]. Mandaram-me pintar isto. É um serviço que eu poderia fazer em três dias, no máximo. Pois já estou com mais de 15 dias...
-E por quê?
-A roubalheira é grande.Todo mundo rouba.eu não tenho o que roubar e me vingo no tempo.Pinto um pouquinho e dou fora.Isto tudo é uma corja!meto nojo!.
O homenzinho puxou conversa. Mestre Heráclio desceu e veio conversar com ele. E contou as bandalheiras que sabia. Disse nomes.Precisou fatos e datas.Declarou quais os maiores ratos.
O homenzinho tomava o maior interesse naquilo. Ouvia, perguntava, fazia sinais de inteligência.
Heráclio prosseguiu:
- O último que saiu quase leva o cofre da companhia.dizem que chegou um novo diretor.Esse vem seco, com certeza.É moço e quererá fazer logo a sua independência.Agora tem uma coisa: ele é filho de Afonso Pena.Se Afonso Pena  bebesse, ele seria cachaceiro.Mas Afonso Pena é um homem honesto bom e direito.Talvez ele puxe ao pai...Mas eu não acredito.
         O homenzinho ouviu aquilo tudo, calmamente, despediu-se e foi embora.
         Mais tarde estourou a bomba. O diretor da EFCRGN estava na terra.E o boato acabou chegando aos ouvidos do mestre Heráclio, que teve a grande surpresa de verificar que o figurão não era mais que o homenzinho com quem conversara pela manhã.
         Em três tempos ele acabou a pintura do galpão, tomou o trem e regressou a Natal.No dia seguinte foi ao chefe de sua seção e pediu demissão.
         - Porque, homem?
         - Estou frito! Eu não sabia quem era o diretor da estrada, meti o pau em todo mundo e nele também.
         - Mas ele não saberá disso!
         -É que eu estava conversando com ele!.
         E explicou o episódio. O chefe insistiu para que Heráclio ficasse, quando veio uma ordem para ele ir envernizar os móveis no gabinete do diretor.
         -Eu não irei!.
         Mas conseguiu obter licença para ir fazer o serviço no dia seguinte, que era domingo. Entretanto foi encontrar o próprio homenzinho a trabalhar no gabinete.Apenas cumprimentos.O diretor, porém, não lhe falou a menor censura.
         Dias depois Heráclio adoeceu e a sua porta foi ter um portador do diretor da EFCRGN, o qual mandava indagar como ia de saúde e perguntar se precisava de alguma coisa.
         Esse diretor, efetivamente, era filho de Afonso Pena. Herdara do pai as tradições de caráter, honestidade e honradez.
         Entretanto durou pouco. Não servia.Os homens de bem nunca prestam para coisa alguma na opinião dos que não o são.
         E a estrada voltou a ser o ninho de piratas que era anteriormente.

Fonte: JORNAL DO RECIFE,25/03/1933, p.1.

Apêndice
     Segundo o historiador camarense Aldo Torquato um filho do ex-presidente Afonso Pena residiu em Baixa Verde durante a construção do trecho entre Taipu e aquele distrito cujo trecho foi inaugurado em 12/10/1910.Trata-se do engenheiro  Otavio Moreira Pena.
Segundo o mesmo historiador:Mais dois engenheiros, também contratantes da Estrada de Ferro, residiam no povoado, Otávio Pena, baixinho, olhos brilhantes sob a armação de um pincenês espelhante”, filho do Presidente da República, Afonso Pena, que havia inaugurado a Estrada de Ferro. E outro engenheiro, Eduardo Parisot, de estatura alta, magro e cortês”. (TORQUATO,Aldo. Baixa-Verde Raízes da nossa história, 2009, p.175).
Otavio Moreira Pena, foi superintendente da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte e, segundo o jornal Pharol, um “engenheiro de bom nome” (PHAROL, MG,07/01/1916, p.1).Em 1916 ele havia sido nomeado para chefe de linha da Rede Sul Mineira.

Engenheiro  Otávio Moreira Pena.





[1] Hospício, manicômio: "..Itaguaí tinha finalmente uma casa de orates..." (Machado de Assis, O alienista).
[2] Na linguagem popular se refere a pessoa que gosta de beber cachaça.
[3]  Desorientação, falta de rumo.

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