quinta-feira, 4 de junho de 2026

SOBRE ESTREMOZ EM 1959

 

        O escritor e cronista potiguar (imortal da Academia Brasileira de Letras, vulgo puxadinho do PT) Humberto Peregrino, escreveu uma crônica na revista Careta em 1949 a qual faz uma interessante retrato da então vila de Estremoz que ele havia visitado, vejamos:

“Antes não tivesse ido a Extremoz para ver o que vi. Do que outrora era a bela igreja e o colégio dos primeiros tempos da colonização, restam de pé, apenas, umas poucas paredes. Tanto cavaram á volta, em busca dos tesouros que teriam sido escondidos pelos jesuítas, que a construção colonial desapareceu substituída por uma igreja pobre, reles. O cruzeiro, é verdade, ainda resiste, porém troncho, ameaçado, também não passa de uma ruína. Nas ruas penduram-se fios elétricos sem função. Seriam para dar luz elétrica ao lugar. Promessa eleitoral que estacou nos fios... Contudo a política sempre deixou algo: um diretor de estrada de ferro, Sampaio Correia, que queria fazer-se deputado (e o alcançou) colocou água encanada, derivada da farta caixa d’água de abastecimento dos trens.


Aspectos de Estremoz no inicio do século XX.Cartão postal.


A Cadeia velha, outra construção colonial, também foi suprimida. Restou, apenas, uma fatia de parede, agora servindo de muro ao quintal do padre, como excêntrico apêndice á igreja. E como humilha a construção moderna aquele resíduo da passada!...

O Mercado é novo, estilo cafona. Sortimento não tem, a não ser de bebidas, no que é farto, principalmente quanto a cachaça, cerveja, vermute.

Na atual Extremoz, desfigurada pelos cobiçosos que lhe destruíram as construções coloniais fazendo escavações infrutíferas, e ludibriada pelos políticos que lhe acenavam com progressos materiais cuja concessão se interrompeu no momento exato em que os votos foram obtidos, nessa Extremoz atual, desfigurada e ludibriada, de bom mesmo só encontrei a vendinha de d. Luísa Morais, instalada bem ao lado do Mercado, sob a sombra generosa de uma imensa mangueira antiga. Simpática e viva, d. Luisa sabe informar e agradar.

Dignos das tradições de Extremoz são também os grudes de d. Joana do Café, a quem visitei em busca dos ditos. E fiquei pensando, enquanto os devorava com delicia, que nada mais restará de Extremoz no dia em que deixarem de existir, também, os grudes de d. Joana do Café”.[1]

O texto transcrito a cima é uma crônica de viagem contundente e melancólica, na já citada revista Careta em 1959por Humberto Peregrino. O autor relata sua visita à histórica então vila de Estremoz com um tom que mistura desilusão, crítica político-social e um profundo saudosismo cultural.

O autor abre o texto com um desabafo forte: "Antes não tivesse ido a Extremoz para ver o que vi". O motivo de seu choque é a degradação do patrimônio colonial.

Ele relata que a antiga e bela igreja e o colégio jesuítico foram praticamente destruídos porque as pessoas "cavaram à volta" em busca de supostos tesouros enterrados pelos padres. Essa lenda do "ouro jesuíta" era muito comum no Brasil e, infelizmente, causou a ruína de muitos monumentos históricos.

O cronista lamenta que a arquitetura imponente do passado tenha sido substituída por uma igreja "pobre, reles" e um mercado de estilo "cafona", restando apenas ruínas (como o cruzeiro troncho e um pedaço da antiga cadeia que virou muro de quintal).

Um dos pontos mais interessantes do texto é a denúncia do cenário político da época, que hoje reconhecemos como o clássico clientelismo e o voto de cabresto.

Os fios elétricos "sem função" pendurados nas ruas servem como uma metáfora visual perfeita para as promessas de campanha que "estacaram nos fios" assim que as eleições passaram.

 O autor cita nominalmente o engenheiro e político Sampaio Correia, ironizando que a política "sempre deixou algo". A instalação da água encanada na cidade não foi um projeto de saneamento planejado, mas sim um subproduto da infraestrutura ferroviária usada pelo candidato para se autopromover e conseguir se eleger deputado.

 A  cidade foi "ludibriada pelos políticos que lhe acenavam com progressos materiais cuja concessão se interrompeu no momento exato em que os votos foram obtidos".

Após pintar um quadro sombrio de destruição e corrupção, o cronista encontra o verdadeiro valor de Extremoz nas pessoas comuns e nas tradições que resistem à margem da política oficial.Ele destaca a "vendinha de d. Luisa Morais", descrita como um espaço agradável e acolhedor sob a sombra de uma mangueira antiga.

O ápice afetivo do texto está nos famosos grudes de dona Joana do Café. O grude (uma iguaria tradicional da região, feita à base de goma de mandioca e coco) é visto pelo autor como a última fronteira da identidade local.

O texto termina com uma reflexão quase profética e poética: "nada mais restará de Extremoz no dia em que deixarem de existir, também, os grudes de d. Joana do Café".

O autor conclui que, quando a história material (os prédios, as igrejas) é destruída pela ganância e pelo descaso do Estado, a alma de um lugar passa a residir estritamente no seu patrimônio imaterial — nos afetos, na memória e nos sabores preservados pelo seu povo. É um registro histórico valioso sobre a transição dolorosa de uma antiga vila colonial para a modernidade negligenciada do interior brasileiro.

 

 



[1] Careta ,ed.2644,1959,p.6.

SOBRE O MERCADO PÚBLICO DE ESTREMOZ

 

         O início da construção do mercado público da então vila de Estremoz remete ao ano de 1953 na administração do prefeito de Ceará-Mirim, Roberto Varela.

         Segundo a Tribuna do Norte para a construção do mercado de Estremoz, fora aberto em agosto de 1953 pela Câmara de Vereadores de Ceará-Mirim um crédito especial de Cr$ 50.000,00, cuja construção seria iniciada no mais curto espaço de tempo.[1]

         Esta informação registra justamente o momento de planejamento e anúncio da obra pela Câmara Municipal de Ceará-Mirim.

O valor mencionado de Cr$ 50.000,00 ajuda a reforçar o cenário de investimentos institucionais.

Não encontramos maiores informações a respeito do andamento das obras e de sua consequente inauguração.

Humberto Peregrino em crônica sobre Estremoz publicada na revista Careta em 1959 escreveu que: “o Mercado é novo, estilo cafona. Sortimento não tem, a não ser de bebidas, no que é farto, principalmente quanto a cachaça, cerveja, vermute”.[2]

Antigo mercado público em Estremoz.Sem indicação e data.

O citado cronista criticava duramente o resultado final da obra (classificando o edifício concluído como um Mercado novo, estilo cafona" e sem sortimento de mercadorias).

 A estrutura que aparece na foto possui fortes características arquitetônicas de prédios públicos e comerciais construídos entre o início e meados do século XX no interior do Nordeste, particularmente no Rio Grande do Norte.

   A julgar pelo padrão da fachada (com o topo em estilo platibanda recortada/escalonada) e a presença marcante de um poste de iluminação pública antigo bem à frente, o cenário se alinha perfeitamente com a identidade visual do antigo Mercado Público de Estremoz (historicamente grafado com "X", embora a pronúncia e registros antigos às vezes flutuem, porém, o correto é com “S”).

A platibanda (a parede que esconde o telhado) era muito utilizada para dar uma sensação de imponência e modernidade às sedes de mercados, prefeituras e galpões comerciais da época.

 A rua de terra batida, a fiação elétrica singular e a própria textura da imagem reforçam um registro fotográfico feito provavelmente entre as décadas de 1970 e 1980, capturando o cotidiano pacato da cidade fora do eixo monumental da estação ferroviária.

Diferente da imponente estação de trem da cidade (visto em registros da mesma época, onde o fluxo de pessoas e o comércio eram o foco principal), esta imagem traz uma perspectiva puramente comunitária e afetiva.

 Antigamente, os mercados públicos não eram apenas locais de compra, mas o verdadeiro coração social da cidade, onde as famílias moravam perto, as crianças brincavam na rua e a vida comunitária orbitava.

Em resumo, a imagem é um belíssimo registro de memória. Ela preserva não apenas as feições da infância daquela época, mas serve como documento histórico arquitetônico que ajuda a validar a paisagem urbana do antigo centro de Estremoz.

Reconstituição digital por inteligência artificial.



[1] Tribuna do Norte,08/08/1953,p.5.

[2] Humberto Peregrino in: Careta ,ed.2644,1959,p.6.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

SOBRE O MOTRIZ EM SÃO RAFAEL

     Essas imagens restauradas registram um momento de extrema relevância para a história ferroviária do Rio Grande do Norte que foi a inauguração do trecho ferroviário e da estação de São Rafael.

        O evento ocorreu oficialmente em 12 de janeiro de 1956, quando a administração da Estrada de Ferro Sampaio Correia (antiga Estrada de Ferro Central do RN) abriu ao tráfego o prolongamento que vinha desde a estação de Oscar Nelson.

            Analisando os detalhes históricos presentes no registro, destacam-se pontos fundamentais:

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial 

 A "Motriz"

       Como a inscrição da época já anunciava a "Chegada da 1ª composição", o trem inaugural que aparece cercado pela multidão é, na verdade, uma automotriz (popularmente chamada de "o motriz").   

   Esse veículo a diesel representava a modernização do transporte de passageiros no estado, tendo sido destinado às linhas potiguares pelo Governo Federal no final da década de 1940.

          Na imagem restaurada a cima é possível ver a automotriz que realizou a inauguração da estação de São Rafael.

A estação de São Rafael

        O prédio da estação, visível à esquerda com sua grande cobertura para o pátio de manobras, tornou-se a estação terminal desse tronco da ferrovia.

     O prolongamento dos trilhos seguiu até as margens do Rio Piranhas, mas as obras foram abandonadas antes de cruzar o rio, consolidando São Rafael como o ponto final da linha.

           Na imagem restaurada a cima vê-se parte da estação em primeiro plano e ao fundo a casa do agente da estação, ambos submersos, assim como o foi toda a cidade da são Rafael no início da década de 1980.

 Um registro de uma cidade submersa

     Além do valor histórico-ferroviário, essa fotografia carrega uma carga emocional e memorialística imensa. A antiga cidade de São Rafael e a sua estação ferroviária foram completamente submersas na década de 1980 pelas águas da Barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves.

       A restauração traz nitidez à fisionomia do antigo prédio e à comoção da população local, que se reuniu em massa para celebrar a chegada definitiva dos trilhos, eternizando a memória da velha São Rafael que hoje repousa sob as águas.

Restauração digital por Inteligência Artificial 

Inauguração da estação de São Rafael.

O motriz na inauguração da estação de São Rafael.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

SOBRE O PRÉDIO DA CASA DE CÂMARA E CADEIA DE ESTREMOZ

     A partir da imagem histórica original e da reconstituição digital, podemos realizar uma análise arquitetônica e histórica detalhada deste que é um dos mais importantes símbolos do poder institucional colonial no Rio Grande do Norte que é a antiga Casa de Câmara e Cadeia da Vila de Estremoz.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.

Cartão postal, 1907.


Tipologia e função institucional

       O edifício segue o padrão clássico das Casas de Câmara e Cadeia, uma tipologia arquitetônica civil introduzida pela Coroa Portuguesa nas sedes de vilas e municípios. 

      A estrutura de dois pavimentos (sobrado) reflete uma divisão funcional e hierárquica rígida e estratégica.

Pavimento térreo (a Cadeia) 

        Destinado às celas. As janelas baixas, pequenas e fortemente protegidas por grades de ferro (ou redutos de cantaria) serviam para garantir a segurança, evitar fugas e isolar os presos, mantendo-os sob a vigilância constante da vila.

Pavimento superior (a Câmara)

 .     Onde funcionava o poder político e judiciário local (o Senado da Câmara e o Tribunal do Juiz). Era o espaço das decisões administrativas, audiências e assembleias. 

        A posição elevada simbolizava a supremacia e a soberania da lei e da ordem sobre a comunidade.

 Elementos arquitetônicos e Estilo

       O prédio apresenta uma transição sóbria entre o Barroco Tardio e o Filipino (Estilo Chão), adaptado à realidade material do Nordeste colonial:

A volumetria

     Um bloco quadrangular maciço, compacto e de linhas retas, projetado para transmitir imponência, solidez e perenidade.

 As Cimalhas e pilastras

      Os cantos do edifício são destacados por pilastras que emolduram a fachada, culminando em cimalhas pronunciadas logo abaixo do telhado, o que ajuda a quebrar a monotonia da alvenaria.

O Telhado

        Uma cobertura em quatro águas (pavilhão) com telhas de barro canal, arrematada por eiras e pontas levemente arqueadas nos cantos (beirais), típicas da tradição luso-brasileira para o escoamento das águas pluviais.

 O vão das janelas (sobrado)

      As duas janelas superiores chamam a atenção pelas molduras ornamentadas em arco de querena (ou arco contracurvado), com sobrevergas decoradas que conferem o único toque de leveza e erudição artística barroca à fachada principal.

 O brasão / heráldica

      Centralizado entre as duas janelas do pavimento superior, há um escudo ou cartela em relevo (talhado em pedra ou moldado em argamassa). Este elemento exibia as Armas Reais de Portugal ou o selo do Município, funcionando como a assinatura visual do Estado absolutista.

 Circulação e acesso lateral

        Um detalhe urbanístico e de segurança crucial é a escadaria externa de madeira na lateral direita do edifício. Para garantir o isolamento absoluto da cadeia (térreo), o acesso ao plenário da Câmara (superior) era feito externamente por essa escada, que levava a uma varanda ou alpendre protegido por guarda-corpo.

      Essa solução impedia o fluxo de vereadores, juízes e cidadãos comuns por dentro das áreas de carceragem, otimizando a segurança do edifício.

     O edifício da Vila de Estremoz é um valioso testemunho material do período em que o núcleo urbano se consolidou ao redor da antiga missão jesuítica de São Miguel de Guajiru. Ele materializa o momento em que a Coroa Portuguesa estabeleceu formalmente o aparato burocrático e jurídico na região.

Abandono e decadência 

      A imagem original é de um cartão postal de 1907 e como visto no mesmo o edifício já estava aquela época em avançado estado de abandono. Com a transferência da sede municipal para Ceará-Mirim em 1858 o prédio da Câmara e Cadeia de Estremoz deixou de ter utilidade pois na nova sede fora construída o prédio da Câmara (atual prédio da Câmara de Vereadores de Ceará-Mirim). 

    No entanto, há que ressaltar a nova sede municipal (Ceará-Mirim) deixou a antiga sede (Estremoz) em completo estado de abandono e desprezo no qual se resultou na completa ruína das antigas construção coloniais de Estremoz. Ninguém, ao longo do tempo fez nada para salvar Estremoz de sua decadência.Uma sucessão de erros irreparáveis.

        Na década de 1970 a Fundação José Augusto e o IPHAN restauraram e reconstruíram diversos monumentos históricos do período colonial no Rio Grande do Norte, porém nenhum foi reconstruído em Estremoz que foi a primeira vila criada no Rio Grande do Norte após a reforma pombalina. A primazia de Estremoz foi preterida e até hoje ninguém faz nada para reparar esse erro.

domingo, 31 de maio de 2026

SOBRE A DESTRUIÇÃO DA PONTE DE TAIPU EM 1964

        Essas imagens retratam um dos momentos mais marcantes e trágicos da história do Rio Grande do Norte que foi o colapso da ponte de Taipu sobre o rio Ceará-Mirim, destruída pela histórica e devastadora enchente de 1964.


Reconstituição digital por Inteligência Artificial 

Reconstituição digital por Inteligência Artificial 

Revista Manchete, 1964.

Revista Manchete,1964

Revista Manchete,1964.

      A ponte fora inaugurada em 03/04/1950 na antiga estrada que ligava Taipu a Baixa Verde, atualmente BR 406.

       O volume extraordinário de chuvas naquele ano fez com que o Rio Ceará-Mirim transbordasse com uma violência sem precedentes. A correnteza foi tão forte que literalmente partiu a robusta estrutura de concreto da ponte em três pedaços, como se fosse um castelo de areia, deixando o rastro de destruição visível na foto original.

         A destruição da ponte cortou a principal via de ligação terrestre da região, interrompendo o fluxo de mercadorias, o abastecimento e o transporte. Para um estado que dependia fortemente daquela rota para escoar a produção (especialmente a canavieira e a agrícola do vale), os prejuízos foram, de fato, incalculáveis.

      Além dos danos materiais e estruturais, as cheias desalojaram centenas de famílias ribeirinhas, inundaram plantações e vilarejos inteiros. Na memória do povo de Taipu e das cidades vizinhas, o ano de 1964 ficou gravado não apenas pelo cenário político nacional, mas pela devastação que redefiniu a geografia e a infraestrutura local.

         A imagem colorizada resgata de forma vívida a atmosfera dramática da época, destacando o contraste entre a calmaria do vilarejo ao fundo e o leito do rio transformado por uma das maiores catástrofes naturais da história potiguar.

     A imagem original foi publicada na revista Manchete em edição de maio de 1964.