quinta-feira, 11 de junho de 2026

SOBRE A RESIDÊNCIA EPISCOPAL DE NATAL EM 1966

        Foi marcada para o dia 05/11/1966, às 17h30, a inauguração da residência episcopal, situada à rua Mipibu, n.º 441, vizinho à Escola de Engenharia.

    O Administrador Apostólico de Natal, dom Nivaldo Monte passaria a habitar, a partir daquele dia, essa nova residência, ofertada pelo Governo do Estado à Arquidiocese, por iniciativa do ex-Governador Aluísio Alves, que contou com unânime aprovação da Assembleia Legislativa.

    O programa de inauguração da residência episcopal foi o seguinte: bênção da casa pelo Administrador Apostólico Dom Nivaldo Monte; entrega oficial, pelo Governador Walfredo Gurgel; Missa e homilia na capela episcopal; e, por último, seria oferecido um coquetel aos presentes.

      Na imagem abaixo a residência episcopal da rua Mipibu.

Google Maps,2026.

    Este texto é um registro histórico valioso, provavelmente extraído de um jornal da época, que documenta um momento específico da vida pública e religiosa em Natal.

    A informação do jornal Tribuna do Norte ilustra uma interação institucional comum entre o Estado e a Igreja Católica naquela época. O fato de a residência ter sido ofertada pelo Governo do Estado, com a iniciativa de um ex-governador (Aluísio Alves) e a ratificação pela Assembleia Legislativa, reflete a relevância que a figura do Administrador Apostólico possuía no cenário social e político de Natal.

    O referido jornal cita personagens centrais na história do Rio Grande do Norte, como Dom Nivaldo Monte, uma figura marcante da Igreja no estado, que foi o segundo Arcebispo de Natal (1965-1988); Aluísio Alves, um dos nomes mais influentes da política potiguar no século XX.Foi governador do Estado entre 1961 e 1965 e o monsenhor Walfredo Gurgel, que foi governador do Estado que realizou a entrega oficial do imóvel.Seu mandato ocorreu de 1966 a 1969.

    A localização mencionada na Rua Mipibu, nº 441, vizinho à Escola de Engenharia situa o evento no bairro de Petrópolis. A Escola de Engenharia da UFRN, na época, era um marco educacional importante da cidade, o que reforça a centralidade e o prestígio da nova residência episcopal na infraestrutura urbana da capital.

    Seria os alunos da Escola de Engenharia que elaborariam o primeiro projeto moderno para a nova catedral de Natal.

     A descrição do programa (bênção, entrega oficial, missa e coquetel) revela o rigor cerimonial e o caráter festivo que eventos dessa natureza possuíam, tratando a inauguração como um compromisso oficial de agenda pública.

    O acontecimento em tela demonstra como a residência de um líder religioso era tratada como um bem de interesse público, evidenciando as alianças e o protocolo entre as autoridades civis e eclesiásticas daquele momento histórico.

O antigo palácio episcopal

    A residência de Dom Marcolino Dantas, ex-arcebispo de Natal, falecido em 1966, foi transformada num Centro de Evangelização, segundo ficou resolvido na reunião do Conselho Presbiteral realizada em maio de 1967.

      Diversos serviços de melhoramento seriam feitos no antigo Palácio Episcopal de Natal e no Centro de Evangelização seriam instalados cursos para pais (normas de batismo), para jovens (preparação para o casamento), etc.

      A experiência pastoral com a união das paróquias da Catedral e de Santa Terezinha teria além das suas reuniões no Centro de Evangelização, onde os cinco padres responsáveis pela administração da experiência também fariam refeições, podendo também residir um dos vigários.

      Na imagem abaixo o antigo palácio episcopal da rua Santo Antonio na Cidade Alta.



      Após o regresso de Dom Nivaldo Monte de Aparecida do Norte-SP seriam determinadas as obras de adaptação do antigo Palácio Episcopal da Arquidiocese de Natal.

   Se antes o imóvel era a residência oficial do arcebispo (denominada como "Palácio Episcopal"), o imovel sofreu uma  transição para uma função mais comunitária e pastoral: o Centro de Evangelização.

   Isso é significativo, pois documenta o esforço da Igreja em ressignificar espaços que pertenceram a figuras históricas, transformando locais de moradia privada em centros de serviço pastoral para a comunidade.

     A  Igreja de Natal se organizava na época, com a criação de cursos de formação (batismo, casamento) e a integração entre paróquias (Catedral e Santa Terezinha). A menção aos "cinco padres" que dividiriam o espaço para refeições e residência mostra uma gestão centralizada e um esforço de "experiência pastoral" conjunta.

     Também reforça a importância de Dom Nivaldo Monte, mostrando que ele continuava a ser a figura central nas decisões sobre o patrimônio e a estruturação da Arquidiocese, aguardando o seu regresso de Aparecida do Norte para autorizar as obras de adaptação.

     Temos  aqui a história da residencia episcopal contada em duas etapas: a sua inauguração como a residência moderna (na Rua Mipibu) em Petrópolis) e a posterior destinação do "antigo Palácio Episcopal" (na rua Santo Antonio, na Cidade Alta), para fins educativos e administrativos de apoio às paróquias.

     No final da década de 1970 o antigo palácio episcopal da rua Santo Antonio passou a ser a residência episcopal de dom Antonio Soares Costa, bispo auxiliar de Natal.

     Já a residência episcopal da rua Mipibu foi transformada em seminário menor na década de 1980 devido o fechamento do Seminário São Pedro na av. Rodrigues Alves devido a crise de vocações daquele periodo.

 

SOBRE A CRIAÇÃO DA PARÓQUIA DE SERRA CAIADA

 

    Em 1956 se celebra os 70 anos da criação da paróquia Nossa Senhora da Conceição da cidade de Serra Caiada.

    Eis a seguir o resgate da memória dessa circunscrição eclesiastica da Arquidiocese de Natal.

    Por ato do Arcebispo Metropolitano de Natal, dom Marcolino Dantas, foi  criada em 06/01/1956 uma nova paróquia da Arquidiocese que foi a paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Serra Caiada. O território da nova paróquia  abrangia além do município de Serra Caiada, também, o município de Dr. Januário Cicco (atual Boa Saúe).

    A sede paroquial ficou sendo a cidade de Serra Caiada tendo sido a capela de Nossa Senhora da Coneição elevada a dignidade de igreja matriz.

    A paróquia de Serra Caiada foi a última criada por Dom Marcolino Dantas como arcebispo metropolitano de Natal, dentre as inúmeras por ele criada em sua gestão a frente da arquidiocese.

    A criação da paróquia de Serra Caiada documenta um aspecto administrativo fundamental da história da Igreja no Rio Grande do Norte: a expansão e a organização territorial das paróquias.

    A criação de uma paróquia não era apenas um ato administrativo, mas um marco de descentralização. Isso significava que a Igreja estava estruturando sua presença e assistência religiosa mais próxima da população em áreas do interior do estado.

    A menção a Serra Caiada e ao município de Dr. Januário Cicco (atualmente Boa Saúde) ajuda a situar geograficamente essa expansão na região Agreste do estado. É interessante notar como a jurisdição de uma única paróquia englobava mais de um município, prática muito comum devido à escassez de padres e à necessidade de cobrir extensões territoriais maiores.

Tribuna do Norte,24/03/1956,p.20.


Restauração por inteligência artificial.Pode conter alterações signficativas da imagem original.

    O ato de criação da nova circunscrição eclesiástica ajuda a compor um mosaico da atuação da Arquidiocese de Natal não apenas na capital, mas também na estruturação da vida social e religiosa nos municípios do interior potiguar.

O primeiro paróco

    A Paróquia de Serra Caiada criada a 6 de janeiro de 1956 por Dom Marcolino Esmeraldo Souza Danta teve como seu primeiro Vigário o Padre Antonio Villar Dantas, posteriormente transferido para a Arquidiocese de São Paulo-SP.

    De acordo com O Poti “Por ato do exmo. sr. Arcebispo Metropolitano, Dom Marcolino Dantas, vem de ser nomeado vigário da paróquia de Serra Caiada, recentemente criada, o revmo. pe. Antonio Vilela, ordenado em 1954”.

    A posse do primeiro vigário daquela paróquia, que abrangia também o município de Januário Cicco, foi festiva, realizando-se diversas solenidades. O povo daqueles municípios demonstraram assim seu contentamento pela criação de sua paróquia.

    Segundo o jornal A Ordem durante o seu paroquiato, Padre Vilela deixou a marca do seu zelo, expresso no trabalho social e pastoral que organizou.

     A paróquia de Serra Caiada, que tem como padroeira Nossa Senhora da Conceição, tinha ainda seis capelas visitadas frequentemente pelo vigário, as quais eram elas: Bom Jesus, Januário Cicco (Boa Saúde), Córrego São Mateus, Catolé, Guaraní e Gravatá.

     O recorte do jornal A Ordem preserva a memória do Padre Antonio Villar Dantas, o primeiro vigário. É interessante notar que o mesmo era conhecido pela menção "Padre Vilela", tanto no meio eclesiástico como localmente em Serra Caiada.

    A lista das seis capelas vinculadas à paróquia (Bom Jesus, Januário Cicco, Córrego São Mateus, Catolé, Guarani e Gravatá) ilustra bem a dinâmica de atuação da Igreja no meio rural e interiorano. O vigário precisava se deslocar constantemente para cobrir essas comunidades, o que explica a importância dessas visitas frequentes mencionadas no texto.

    A devoção a Nossa Senhora da Conceição como padroeira ajuda a entender a identidade cultural e religiosa estabelecida naquela comunidade local desde a sua fundação.

 O segundo vigário

     O segundo vigário de Serra Caiada, foi  o padre Teobaldo Dias Ferreira, que desde 10 de fevereiro de 1963 dirigia os destinos da comunidade.

    Conforme o jornal A Ordem continuando o trabalho do seu antecessor, Padre Teobaldo em três anos vinha procurando conhecer os problemas prioritários de sua paróquia para melhor adaptar uma pastoral.

    Vinha se preocupando com a catequese de crianças e de adultos, através dos círculos bíblicos, que estava iniciando.

    A catequese funcionava na matriz e nas escolas da Paróquia. Não  faltava uma preocupação pela pastoral familiar. A renovação litúrgica estava sendo realizada com boa aceitação da parte do povo.

    Para isso, o texto sagrado estava passando por uma modificação no seu recinto. O povo já participava bem da Santa Missa e de outras funções litúrgicas, através da dialogação e dos cânticos adaptadas.

     No campo social, havia um serviço de Cáritas organizado nas capelas da paróquia, além de uma maternidade que funcionava na sede paroquial para servir a comunidade e mantida pela mesma. O povo  ajudadava generosamente o vigário para reformas na casa paroquial.

    A paróquia de Serra Caiada fazia parte do IV zonal da pastoral do interior, sob a coordenação de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros e constituída das seguintes paróquias: São Paulo do Potengi, São Tomé, Santa Cruz, Coronel Ezequiel, São José de Campestre, Serra Caiada e Macaiba.

    Em 07/06/1966 realizou-se em Serra Caiada uma reunião que congregou os vigários e um grupo de leigos desse zonal. Esteve presente ao encontro o Administrador Apostólico de Natal, dom Eugenio Sales, acompanhado do Bispo de São Mateus, no Estado do Espírito Santo e de outros sacerdotes. A reunião de pastoral se encerrou com uma solene concelebração, à tarde, na Igreja matriz.

A festa da Padroeira

    A festa de Nossa Senhora da Conceição em Serra Caiada anualmente celebrada em 8 de dezembro, tendo à frente de seu zeloso Vigário, Padre Teobaldo Dias Ferreira, onde toda a comunidade paroquial se movimentava para celebrar a sua padroeira, com interessante programa, que tinha como ponto alto as pregações do vigário durante o tríduo solene e se encerrando com procisão e missa solene.


Claudemir Souza, 2019.

Marcos Estrela, 2026.




SOBRE A REFORMA DO GRUPO ESCOLAR JOAQUIM NABUCO DE TAIPU EM 1962

         O Grupo Escolar Joaquim Nabuco foi criado em 08/01/1919 tendo seu prédio sido construido pela então Intendência Municipal (prefeitura) e doado ao Estado para que fosse instalado nele as escolas primárias (feminina e masculina) que haviam na vila de Taipu a época, tomando então o nome de Escolas Reunidas Joaquim Nabuco (a denominação de Grupo Escolar só era adquirida quando havia mais de duas classes no mesmo prédio).

     O prédio ao, ao que tudo indica só veio a ter uma reforma ou ampliação no governo de Aluizio Alves no começo da década de 1960.

    De acordo com o jornal Tribuna do Norte o governador Aluizio Alves estaria na cidade de Taipu no dia 30/01/1962 para a inauguração de melhoramentos realizados no Grupo Escolar Joaquim Nabuco 

   O referido jornal não detalha maiores informações a respeito desses melhoramentos que foram realizados no Grupo Escolar Joaquim Nabuco de Taipu, mas supomos que tenham sido efetivados a construção das dependências administrativas, o pátio, a cisterna, melhorias estruturais nas salas de aula e pintura do edifico.

 

Biblioteca IBGE.


Colorização por inteligência artificial.

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domingo, 7 de junho de 2026

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE EM 1962 (PARTE IV)

 

Encerrando a série sobre o Comando da Esperança nos municípios de Touros e Maxaranguape em 13/06/1962 a Tribuna do Norte registrou “vimos Touros — Barra Maxaranguape, dois pedaços de terra dividida, visão de mar, solidão e pobreza, que nos últimos trinta e cinco anos só duas vezes conhecera Governo do Estado trabalhando, pois, o ano todo e cada ano, dele só se apresentavam o fiscal dos impostos, arrecadando as últimas poupanças, o delegado, às vezes garantindo, às vezes ameaçando, e o agente político subornando consciência na véspera das eleições. Fora dessa rotina melancólica, só o Governo José Augusto (1927) construindo um Grupo escolar, e o Governo José Varella (1947) algumas escolas isoladas no interior e uma estrada. O resto era silêncio, na dor oprimida de um povo ao qual os homens públicos só abriam um caminho: vender-se em cada pleito eleitoral, como mercadoria cada dia mais desvalorizada, nas mãos dos chefes políticos eles próprios também vítimas”.[2]

       O Comando da Esperança levantou os seus problemas imediatos, em todos os setores da cidade e do interior.

      Ainda em junho de 1962, o Comando da Esperança convidaria a Assembleia Legislativa a descobrir, “na face ressurgida do povo, o encontro de suas esperanças, tantas vezes enganadas”.[3]

       Com esse programa de serviços de 100 dias foram realizados:

      No setor de estradas, praticamente inexistentes na região vias de comunicações, salvo carroçáveis em péssimo estado para o tráfego normal, mormente na estação chuvosa. Inicialmente, foi previsto o melhoramento das estradas, a fim de que ficasse assegurado o trânsito na quadra chuvosa. Posteriormente, face ao exame mais detalhado das mencionadas vias de comunicação, ficou resolvido a ampliação dos serviços.

        Assim, foram executadas as seguintes obras no setor:

  1. Touros-Cajueiro-São Miguel do Gostoso-Parazinho,

a) — piçarrado o trecho Touros-Cajueiro, no qual foi também, retificado parte do traçado;

b) — colocadas duas barreiras e melhorados os trechos Cajueiro-São Miguel do Gostoso-Parazinho;

  1. Touros-Boacica-Vila de Maxaranguape (Pureza)-Ceará Mirim

a) — piçarrado o trecho Touros-Boacica;

b) — melhorados os trechos Boacica-Vila de Maxaranguape-Ceará Mirim

  1. Touros-Punaú-Ceará Mirim

a) — piçarrados trechos nas alturas dos vales do Fonseca, Punaú e Catolé

b) — melhorados os demais trechos, construídas duas pontes e três boeiras

  1. Rio de Fogo-Santa Luzia de Touros (Saco) — Recuperada
  2. Pititinga-Maracajaú-Paz — recuperadas, construídos cêrca de três kms. de aterros e colocadas boeiras.
  3. Barra de Maxaranguape-Muriú

a) — construídos dois kms.

b) — melhorado e recuperado o restante

  1. Melhorados mais 200 kms. de estradas.

      O sistema escolar encontrava-se nas piores condições. Os prédios escolares estavam semidestruídos, muitas escolas estavam fechadas, outras com a construção paralisada, não existindo, além do mais, escolas em muitas localidades.

        Foram melhoradas as Escolas Isoladas de Carnaubinha (do Estado), Cana Brava, Tábua, Boqueirão, São José, Lagôa do Sal, Zumbi e outras.Em vias de instalação as escolas de Zumbi, Bebida Velha, Morros.Foram construídas Escolas Reunidas em São Miguel de Gostoso, Santa Luzia, Rio de Fogo e Pititinga e adquirido e adaptado um prédio em Baixinha.

      Os poucos móveis encontrados nas escolas foram recuperados e feitos ainda bureaux, carteiras e outros nas oficinas do Comando ou fornecidos pelo Departamento de Educação, dentre as quais novas carteiras para o Grupo Escolar de Touros.

            Na imagem abaixo a Escola Pública Estadual de Pititinga, uma das quatro construidas pelo governo Aluizio Alves, através do Comando da Esperança.

o O Poti, 23/09/1962,p.2.

Colorização por inteligência artificial.

       Com a intenção de melhorar as condições sanitárias da região, assolada pela cistosoma, helmitose, malária e outras enfermidades, foi inteiramente saneada Barra de Maxaranguape, com um sistema de fossas individuais, em 170 casas, estando em fase de conclusão o saneamento da cidade de Touros, a primeira cidade do Brasil totalmente servida por tal serviço.

       Ainda com esse objetivo, foi instalado em Touros um posto de saúde, provisório, que será substituído por um dos postos móveis adquiridos pelo Estado, com um raio de ação muito maior.

       Ao lado disto, estavam sendo construídos cinco poços tubulares com a cooperação do SEBP, em Touros, Rio do Fogo, Maracajaú, Pititinga e Barra de Maxaranguape, já tendo sido perfurados os de Touros, Barra de Maxaranguape e Maracajaú.

     Com o levantamento e orçamento já feitos, — com a cooperação do DNOCS, serão recuperados os poços tubulares de Umburana, Angico e Baixinha, todos na zona dos tabuleiros secos.

       Afora os serviços e obras acima referidas, vêm sendo concedidos através do Banco do Rio Grande do Norte, empréstimos a pequenos agricultores e pescadores, devendo serem vendidas, à prestação, 74 máquinas de costura, ao preço unitário de Cr$ 15.000,00, sem joia (penhora) e sem juros.

        Na imagem abaixo a Escola Pública de São Miguel do Gostoso, construida pelo Comando da Esperança no governo Aluizio Alves.

Diário de Natal,24/09/1962,p.4.

Colorização por inteligência artificial.

       Se antes o texto das matérias da Tribuna do Norte tinham um tom mais institucional e jornalístico, estes novos conjuntos de reportagens traz um forte componente político, retórico e social.

      O início do texto é de uma densidade dramática e sociológica impressionante. O autor não poupa críticas à ausência histórica do Estado na região de Touros e Barra de Maxaranguape, resumindo os 35 anos anteriores a três figuras melancólicas e opressivas:

  • O fiscal de impostos: Que aparecia apenas para levar as "últimas poupanças".
  • O delegado: Que agia alternando entre a coerção e o medo ("às vezes garantindo, às vezes ameaçando").
  • O agente político: Que praticava abertamente a compra de votos ("subornando consciência na véspera das eleições").

     O texto denunciava como o cidadão do interior era reduzido a uma "mercadoria cada dia mais desvalorizada" nas mãos de chefes políticos, descrevendo a realidade do voto de cabresto e do clientelismo que sufocavam o Nordeste.

O documento estabelece uma linha do tempo útil para historiadores, citando que apenas duas vezes o Governo do Estado havia atuado ali no passado recente:

  • Governo José Augusto (1927): Com a construção de um Grupo Escolar.
  • Governo José Varella (1947): Com algumas escolas isoladas e uma estrada.

     Ao fazer isso, o governante da época (que executa o plano de 100/150 dias) se coloca explicitamente como o terceiro grande marco de ruptura e progresso da região.

     Enquanto os textos anteriores do referido jornal davam números gerais, este detalha a malha rodoviária que estava sendo criada ou recuperada. A menção ao "piçarramento" e à construção de pontes e bueiros nas alturas dos vales do Fonseca, Punaú e Catolé mostra o esforço técnico para impedir que as comunidades ficassem completamente isoladas durante a "quadra chuvosa".

    Topônimos que hoje são polos turísticos internacionais, como São Miguel do Gostoso, aparecem aqui como vilas isoladas que estavam recebendo suas primeiras ligações rodoviárias estruturadas e suas primeiras "Escolas Reunidas".

    O diagnóstico do sistema escolar era devastador: prédios "semidestruídos", escolas fechadas ou com obras paralisadas. A resposta do programa foi reconverter e adaptar prédios (como em Baixinha) e fabricar móveis nas próprias oficinas do Comando, evidenciando uma operação com traços de economia de guerra ou mutirão emergencial.

     O trecho final revelava que o "Comando" não agiu sozinho, mas funcionou como um articulador de agências de diferentes esferas:

  • SEBP (Serviço Especial de Saúde Pública) atuando na perfuração de poços.
  • DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas) mapeando os poços dos "tabuleiros secos" (regiões mais áridas afastadas do litoral).
  • O Banco do Rio Grande do Norte operacionalizando o microcrédito e o financiamento das famosas 74 máquinas de costura (com o valor nominal fixado em Cr$ 15.000,00, sem juros).

     O relato doo jornal Tribuna do Norte  é um manifesto de legitimação política através da ação social. Ele usa o contraste chocante entre o "velho Nordeste" (da opressão fiscal, policial e eleitoreira) e o "novo Nordeste" (do planejamento técnico, estradas e saneamento) para justificar a importância do Conselho Estadual de Desenvolvimento (CED) e o sucesso do plano de emergência de 100 dias.

SOBRE O COMANDO DA ESPERANÇA EM TOUROS E MAXARANGUAPE (PARTE V)

 

Previstas para serem concluídas em maio as ações do Comando da Esperança só ficaram prontas em setembro de 1962.

Segundo o jornal O Poti o Governo do Estado acabava de inaugurar a sua primeira realização no campo da descentralização administrativa, com os serviços em Touros e Barra de Maxaranguape, onde atuou, durante 150 dias, o "Comando da Esperança", sob a supervisão direta do Conselho Estadual de Desenvolvimento.[1]

A promoção constituiu um verdadeiro teste para a capacidade daquele novo órgão da administração estadual, posto que foi incumbido de operar em uma das áreas mais subdesenvolvidas do Rio Grande do Norte, a despeito de suas vastas possibilidades naturais.

Possuindo alguns vales úmidos e terras laboráveis com bons índices de produtividade a agricultura da região era das mais incipientes, moldada ainda nos métodos mais primitivos.

A outra área de atividades — a pesca, — se bem que exercida numa das mais ricas faixas pesqueiras do país, se processava, igualmente, sem a rentabilidade de esperar, dados os recursos rudimentares que vinha desafiando o desenvolvimento natural do homem, rumo ao progresso.

A situação sanitária era das piores, alcançando a xistossomose nível dos mais elevados de par com outros males oriundos da verminose, malária e outras enfermidades que, agravadas pela subalimentação, proliferavam em grande escala.

      Na imagem abaixo tipo de sanitário público dos que foram constuidos pelo governo Aluizio Alves na cidade de Touros. Sanitários constituíam das maiores necessidades do município, no campo da saúde pública, como meio de evitar a propagação do cistosoma.

O Poti, 23/09/1962,p.2.

         Na imagem abaixo uma caixa d´água, catavento e poço tubular público de Rio do Fogo, então distrito do municipio de Maxaranguape, construído pelo Comando da Esperança em cooperação do o SESP.

O Poti, 23/09/1962,p.2.

Com a criação do "Comando da Esperança" técnicos do CED se transportaram para a região e ali iniciaram o levantamento da área sob os seus múltiplos aspectos, implantando, em pouco mais de quatro meses, novas condições para o desenvolvimento de Touros e Barra de Maxaranguape.

Foram implantados dois sistemas de saneamento: o primeiro, em Touros (2.200 habitantes) do tipo usual nas grandes cidades, com depuradora OMS ligada à rede coletora e instalação de banheiros nos 414 prédios da cidade, que passou a ser a única no Brasil totalmente saneada; o segundo, em Barra de Maxaranguape, constituído por fossas individuais, atendendo a 172 residências.

O setor educacional mereceu particular atenção, com a recuperação do Grupo Escolar "Gen. Florencio do Lago", em Touros, e das escolas Rurais de Vila de Maxaranguape, Boacica, Maracajaú e Barra de Maxaranguape, conclusão e ampliação das escolas de Cajueiro e Peroba, melhoramento das escolas de Carnaubinho, Cana Brava, Tábua, Boqueirão, São José do Sal e Zumbi, instalação de escolas em Bebida Velha, Reduto, Rio do Fôgo e Pititinga e adaptação de um prédio para a escola de Baixinha.

Por outro lado, confeccionou-se 25 birôs e 170 carteiras, enquanto outras 230 eram recuperadas nas oficinas do Comando.

Intensivo trabalho foi feito para o melhoramento da rede de estradas carroçáveis da região, com piçarramento e outros serviços nas seguintes estradas: Touros-Cajueiro-São Miguel do Gostoso-Parazinho, Touros-Boacica-Vila de Maxaranguape-Ceará Mirim, Touros-Punau-Ceará Mirim, Touros-Boqueirão, Rio do Fôgo-Santa Luzia, Pititinga-Maracajaú-Paz e Barra de Maxaranguape-Muriú, abrangendo um total de mais de 350 km.

Tendo em vista a pequena área cultivada do Município, o Comando procedeu à abertura do escoadouro da lagoa Boqueirão, com o aproveitamento de mais 120 hectares de terras cultiváveis.

Em colaboração com órgãos federais, foram recuperados ou perfurados poços tubulares em Barra de Maxaranguape, Maracajaú, Pititinga, Rio do Fogo e Touros, para garantir o abastecimento d'água à população.

Face à inexistência de qualquer assistência médica, o Comando da Esperança, a título provisório, fez instalar um Posto de Saúde em prédio da Divisão de Caça e Pesca em Touros, que seria proximamente substituído por um dos postos móveis recentemente adquiridos pelo Governo, com gabinete médico e dentário, possibilitando assistência mais eficiente às populações rurais.

Embora em número limitado, concedeu-se financiamento a pequenos lavradores e pescadores, a título de incentivo a melhoria de sua produtividade, enquanto 74 máquinas foram distribuídas a costureiras pobres, com financiamento em quinze meses.

Vestuário e calçado foram distribuídos à 750 alunos do Grupo de Touros e das Escolas Reunidas de Boacica, Maracajaú, Vila de Maxaranguape e Barra de Maxaranguape.

O jornal O Poti documentava assim uma importante ação governamental de desenvolvimento regional e interiorização dos serviços públicos no Rio Grande do Norte, conduzida pelo "Comando da Esperança" sob a supervisão do Conselho Estadual de Desenvolvimento (CED).

É um testemunho histórico valioso sobre as dinâmicas socioeconômicas e as políticas públicas de meados do século XX no Nordeste brasileiro.

A atuação do "Comando da Esperança" por um período determinado (150 dias) reflete uma estratégia de choque de gestão. Em vez de esperar pelo crescimento orgânico ou por burocracias lentas, o Estado deslocou técnicos diretamente para o campo para realizar diagnósticos e aplicar soluções imediatas em várias frentes simultaneamente (saneamento, educação, saúde e infraestrutura).

O Poti traçava um perfil contundente das dificuldades estruturais da região de Touros e Barra de Maxaranguape antes da intervenção:

  • Economia arcaica: Uma agricultura moldada em "métodos mais primitivos" e uma atividade pesqueira sem rentabilidade, apesar do enorme potencial natural da costa.
  • Crise sanitária e social: Relata-se um cenário grave de saúde pública, com altos índices de esquistossomose (xistosomose"), malária, verminoses e desnutrição ("subalimentação").

Um dos pontos mais impactantes do relato do referido jornal  é a afirmação de que a cidade de Touros se tornou "a única no Brasil totalmente saneada" naquele momento, após a instalação de uma rede coletora com depuradora da OMS (Organização Mundial da Saúde) e banheiros em todos os 414 prédios urbanos. Para a época, garantir 100% de saneamento em uma sede municipal era um feito raríssimo no país, especialmente no interior do Nordeste.

O "Comando" atacou dois gargalos históricos da região:

  • Isolamento geográfico: A abertura e o piçarramento de mais de 350 quilômetros de estradas carroçáveis interligando distritos e municípios vizinhos (como Ceará-Mirim e São Miguel do Gostoso) foram fundamentais para o escoamento da produção e mobilidade da população.
  • Segurança hídrica: A perfuração e recuperação de poços tubulares em parceria com órgãos federais demonstram a necessidade de combater a escassez de água potável na região litorânea/agreste.

Além das grandes obras, o Poti mostra uma preocupação com a economia doméstica e a dignidade social através de:

  • Doação de roupas e calçados para estudantes.
  • Distribuição de máquinas de costura para "costureiras pobres" mediante financiamento, estimulando a geração de renda local.
  • Crédito/financiamento para pequenos lavradores e pescadores.

A matéria do jornal O Poti mostrava o otimismo técnico e o modelo de planejamento centralizado que marcaram as décadas de 1960 e 1970 no Brasil, onde o Estado assumia o papel de "indutor da modernização" em áreas historicamente esquecidas pelo poder público.

É um registro memorável da transição daquela região de um estado de "estagnação" para a integração econômica estadual.



[1] O Poti, 23/09/1962, p. 2 e 8.

[2] Tribuna do Norte,13/06/1962, p.3.

Tribuna do Norte,13/06/1962,p.3.

[3] Op.Cit.