Vencendo o desafio das dunas COSERN daria energia a Galinhos em 1975.
Para chegar a Galinhos, a penúltima cidade a ser eletrificada no Estado do Rio Grande do Norte em 1975, antes da eletrificação de São Bento do Norte, foi preciso botes ou caminhões puxados por tratores, única forma de vencer 13 km de dunas.
O município de Galinhos é uma faixa de terra entrando no mar (peninsula), no litoral-norte do Estado. Para chegar até lá, a Cosern deslocou operários que trabalharam 20 horas diárias para que fosse possível a inauguração da luz eletrica da cidade em 02/02/1975.
Como Galinhos, outras cidades, especialmente São Miguel e João Dias, exigiram grandes esforços para receber a energia elétrica de Paulo Afonso. Os caminhões, com os postes de concreto, tiveram de vencer as estradas de pedra e lama das suas serras que deram nome aos municípios.
Os trabalhos de eletrificação de Galinhos estiveram ameaçados de não ser concluídos. Na última etapa do trabalho, apenas um trator conseguiu vencer as dunas que cercam a cidade, a leste e a sul. Um pescador de Galinhos, vendo tantas dificuldades, chegou a dizer: “no dia que eu vir luz em Galinhos, prometo vestir uma saia”. Hoje, certamente, ele estará na inauguração, registrou o jornal Tribuna do Norte.
Município desde 26/03/1963, desmembrado de São Bento do Norte, Galinhos tinha como principal atividade econômica a pesca, especialmente a do peixe-voador e a do peixe-galo. No seu perímetro urbano, existiam menos de 200 casas. Nelas, moravam 819 pessoas naquele ano de 1975.
O retrato da realidade
A cidade não possuia médico nem dentista. Se alguém precisasse de assistência médica era levado de barco a Guamaré e, em seguida, a Macau. A cidade dispunha de apenas três ruas. A sua população orgulhava-se de ter uma praça com o nome de Três Poderes. Nesta praça estavam a igreja, o grupo escolar e a prefeitura.
Nesta cidade a Cosern teve a maior dificuldade para a implantação da energia elétrica. Para transportar os postes de concreto, que pesavam cinco toneladas, os botes de Guamaré, a 10 km de Galinhos, eram insuficientes. Por isso, as dunas tiveram de ser enfrentadas por tratores. Por essas dunas foram transportados 350 postes.
Os caminhões atolavam, nos 13 km de dunas. Daí, foram precisos tratores para arrastar os caminhões. Para se ter uma ideia exata de Galinhos, basta saber que a campanha publicitária de apelo a poupança de gasolina não precisou chegar à cidade: lá, os seus habitantes não possuiam automóvel.
Tribuna do Norte,02/02/1975,p.3.
Os principais aspectos históricos e sociológicos destacados pela instalação da luz elétrica em Galinhos são:
A Geografia como barreira ao progresso
Galinhos foi descrita com precisão geográfica: uma estreita faixa de terra cercada pelo mar e por imensos campos de dunas móveis. O relato da epopeia de engenharia é impressionante — foi necessário arrastar 350 postes de concreto de cinco toneladas cada ao longo de 13 km de areia movediça.Caminhões atolavam constantemente e necessitavam do auxílio pesado de tratores, exigindo jornadas de trabalho exaustivas de 20 horas por parte dos operários. O nível de descrença da população local diante de tamanha dificuldade geográfica é sintetizado na anedota folclórica do pescador que prometeu vestir uma saia caso o vilarejo de fato recebesse energia elétrica.
O retrato do isolamento e da desigualdade regional
Os dados apresentados pelo jornal Tribuna do Norte mostram como Galinhos estava configurada em 1975 e funciona como um valioso censo socioeconômico daquela comunidade na década de 1970. O texto desnuda as duras carências de um município recém-criado (emancipado em 1963 de São Bento do Norte):
População reduzida: um perímetro urbano com menos de 200 casas e apenas 819 habitantes.
Infraestrutura mínima: uma cidade constituída de apenas três ruas e uma praça central (a Praça dos Três Poderes, que concentrava as parcas instituições locais).
Vulnerabilidade social extrema: a total ausência de médicos ou dentistas. Qualquer emergência médica obrigava um doente a ser transportado por vias marítimas até Guamaré e depois por terra até Macau.
A ironia do subdesenvolvimento
O parágrafo final da reportagem da Tribuna do Norte encerrava com uma contundente ironia crítica da realidade brasileira da época. O jornalista mencionava que uma campanha do governo federal voltada à economia de combustível (gerada pela Crise Internacional do Petróleo na década de 1970) era completamente inútil e desnecessária em Galinhos, pelo simples fato de que nenhum habitante da cidade possuía um automóvel. O meio de transporte local resumia-se a barcos, tração animal ou caminhada pelas dunas.
Em conclusão, o documento contido na Tribuna do Norte ilustra o papel da infraestrutura básica (no caso, a energia elétrica da usina hidrelétrica de Paulo Afonso) como o primeiro e mais crucial passo para a integração de comunidades historicamente isoladas ao restante do país.
A chegada da luz elétrica não apenas iluminou as três ruas de Galinhos, mas abriu as portas para que o município pudesse, nas décadas seguintes, desenvolver seu potencial econômico, o turismo e os serviços de saúde.
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