domingo, 19 de abril de 2026

SOBRE A ARQUITETURA ANTIGA DA CATEDRAL DE MOSSORÓ

 

A imagem do Jornal A Ordem e restaurada e colorizada da Catedral de Santa Luzia, em Mossoró, oferece uma perspectiva fascinante da organização urbana e social da cidade em meados do século XX. Esta análise foca na transição para a modernidade que a imagem captura.

A imagem de 1936 estampava uma matéria sobre a instalação da Diocese de Mossoro e posse de seu primeiro bispo.

Evolução arquitetônica e estética

Nesta imagem, a Catedral aparece com sua volumetria clássica consolidada.

A verticalidade estava presente nas torres sineiras que dominavam o horizonte. O uso do creme nas paredes e branco nos detalhes ornamentais (como as molduras das janelas ogivais e as colunas) reforça a elegância neoclássica.

Observava–se o detalhe do frontão central com a imagem de Santa Luzia. A restauração destaca a limpeza das linhas arquitetônicas, que buscavam transmitir uma imagem de ordem e progresso, típica da elite mossoroense da época.

O entorno urbano: o "Coração" da Cidade

A foto revela que a praça e as ruas adjacentes eram o centro nevrálgico de Mossoró.

A presença de postes de madeira com múltiplos isoladores e fios cruzando a imagem é um forte indicador do avanço da eletrificação e possivelmente da telegrafia/telefonia. É o registro visual de uma cidade que se conectava com o mundo.

À esquerda, o prédio imponente ladeando a rua sugere a presença de grandes casas comerciais ou órgãos públicos. O estilo das janelas e sacadas de ferro segue a influência europeia adaptada ao Nordeste.

Nota-se o parapeito de proteção (gradil) e a arborização começando a tomar forma, indicando um planejamento de espaço público para o lazer.

Dinâmica Social

A presença de grupos de pessoas vestidas com roupas claras (para rebater o calor) e chapéus mostra que a área da Catedral era o ponto de encontro obrigatório. A calçada larga (o "passeio") era o palco das interações sociais após as missas ou durante o expediente comercial.

O solo ainda parece ser de terra batida ou um calçamento primário, lembrando que, apesar da modernidade dos prédios e da eletricidade, o pavimento urbano completo seria um passo posterior na história da cidade.

Simbolismo e identidade

A Catedral não é apenas um prédio religioso nesta imagem; ela é o símbolo da Diocese de Mossoró. Após 1934, com a instalação da diocese, o templo passou por melhorias para refletir sua nova importância hierárquica.

 A imagem colorizada nos permite sentir a "temperatura" daquela época: uma cidade ensolarada, em pleno crescimento econômico (impulsionado pelo algodão e sal) e profundamente ligada à sua fé.

Esta fotografia é um documento da Pujança Mossoroense. Ela mostra uma cidade que, mesmo no interior do Rio Grande do Norte, não era isolada, mas sim uma metrópole regional em formação, com uma arquitetura suntuosa que servia de moldura para a vida de seus cidadãos.

A imagem restaurada e colorizada retrata a Catedral de Santa Luzia, em Mossoró, em um registro histórico que remete à década de 1930. Esta igreja é o maior símbolo religioso e arquitetônico da cidade, e analisá-la sob a perspectiva de 1936 nos ajuda a entender a evolução urbana da "Capital do Oeste".

Aqui está uma análise detalhada baseada nos elementos da imagem e no contexto histórico:

Arquitetura e estilo

 A Catedral de Santa Luzia em Mossoró apresenta uma transição clara para o Neoclássico com elementos Ecléticos.

 As duas torres imponentes são terminadas em agulhas piramidais muito altas e delgadas. Em 1936, essas torres eram os pontos mais altos da cidade, servindo como guia visual para quem chegava das fazendas vizinhas.

O frontão triangular central é ladeado por volutas suaves, mas com uma sobriedade maior que o barroco tradicional, focando na verticalidade.

As janelas e portas possuem arcos ogivais suaves, sugerindo uma leve influência neogótica, muito comum em reformas de grandes catedrais brasileiras no início do século XX.

A Iluminação pública (o detalhe do Lampião)

Um detalhe fascinante na imagem é o lampião suspenso por fios no centro da praça.

Em 1936, Mossoró já vivia um processo de modernização. Esse tipo de iluminação central era comum antes da popularização dos postes de luz individuais em toda a extensão da praça.

A presença do lampião e da lua (ou um foco de luz forte) na foto original indica a importância da vida noturna e das celebrações noturnas (como a Festa de Santa Luzia) para a comunidade.

Cores e estética (creme e branco)

A escolha das cores creme e branco para a restauração é historicamente precisa para a época.

O branco era usado para destacar as colunas, frisos e detalhes ornamentais (as "molduras" da igreja).

O creme/bege preenchia os panos de parede, conferindo uma sensação de volume e suntuosidade. Essa combinação ajudava a manter o edifício mais fresco sob o sol escaldante do Rio Grande do Norte.

Contexto urbano e social

Naquela época, a Catedral não era apenas um local de culto, mas o coração do poder social de Mossoró.

 Nota-se o calçamento em pedras irregulares, o que era um luxo para a época, indicando que a área da Matriz recebia prioridade urbanística.

Em 1936, a Diocese de Mossoró era relativamente jovem (criada em 1934). Portanto, a imagem captura a igreja em seu novo status de Catedral, um período de grande orgulho para os mossoroenses, que viam sua cidade consolidar-se como sede episcopal.

A Catedral de Santa Luzia de 1936, como vista na restauração, representa uma Mossoró que desejava modernidade sem perder a tradição. Ela é robusta, vertical e organizada — um reflexo da pujança econômica que o algodão e o sal traziam para a região naquele período. Analisar essa imagem é ver o alicerce da identidade visual que a cidade mantém até hoje.


A Ordem, 26/O4/1936,p.1.

Exxelsior, 15/O1/1942, p.49.


Reconstituição digital por Inteligência Artificial.

Diario de Natal, 15/O3/1952,p.13



Ps.Permitida a reprodução desde que citado o blog.

SOBRE A MATRIZ DE NOVA CRUZ EM 1923

 

Em 1923 a revista de circulação nacional estampou em sua paginas imagens da cidade de Nova Cruz dentre as quais uma que revela uma parte interessante da historia da paróquia que foi  a remodelação da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Nova Cruz.

A leitura da imagem contida na referida revista e reconstituída por meio de Inteligência Artificial de forma não mostra uma construção inicial, mas sim o processo de ampliação e monumentalização de um templo já existente.

 Contexto histórico da matriz de Nova Cruz

A igreja matriz atual foi erguida no início do século XX, tornando-se um dos edifícios mais importantes da cidade, tanto arquitetonicamente quanto simbolicamente.

Isso indica que a foto de 1923 registra uma fase posterior, quando a igreja já consolidada passando por ampliação, reforma estética e atualização de linguagem arquitetônica,

Leitura da imagem: obra em andamento

A fotografia mostra claramente uma fase ativa de remodelação com andaimes laterais, intervenção estrutural ou acabamento, fachada já parcialmente pronta e torre direita mais avançada que o restante.

 Isso sugere obra por etapas, algo muito comum em cidades do interior, onde as construções dependiam de recursos progressivos da comunidade.

O Malho, 1923,p.28.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.

Transformação da fachada (o ponto-chave)

A fachada revela uma mudança significativa em relação a igrejas mais antigas,cujas características observadas são o frontão triangular bem definido, elemento central com óculo/relógio, presença de balcão sobre a entrada principal e janelas verticais com arcos.

 Aqui há uma clara intenção de modernizar e monumentalizar a igreja, afastando-se do modelo colonial simples.

Na imagem de 1923 apenas uma torre estava visível e mais desenvolvida, com estrutura alta com agulha (flecha). A outra torre não aparecia concluída

Isso pode indicar a construção ainda incompleta ou alteração de projeto durante a obra.

Historicamente, muitas matrizes passaram de projetos com duas torres para versões simplificadas por falta de recursos.

Estilo arquitetônico (eclético)

A igreja nessa fase é claramente eclética, reunindo diferentes influências. Do Neoclássico a simetria da fachada, o frontão triangular e a organização geométrica.

Do Neogótico (leve) a torre com agulha, verticalidade acentuada e janelas mais altas e esguias.

Da tradição colonial a planta longitudinal e as três portas principais

Essa mistura é típica do Nordeste no início do século XX, quando não havia um estilo único dominante.

 Escala e ambição urbana

Comparada a igrejas mais antigas a fachada é mais alta e elaborada, há maior riqueza de elementos e o templo domina completamente a paisagem

Isso reflete o crescimento urbano de Nova Cruz e o desejo de afirmação simbólica.

A cena social (extremamente relevante)

A multidão reunida indica um evento religioso ou inauguração parcial, forte participação popular e a igreja como centro da vida coletiva.

A arquitetura aqui não é só forma, é expressão social e comunitária.

Interpretação da remodelação

Essa reforma representa uma transição de uma igreja funcional para um templo mais monumental, de estética simples  para linguagem mais “urbana” e de capela ampliada para matriz consolidada.

No mesmo ano em que a foto foi publicada e a matriz passava por essa remodelação a vila foi elevada a categoria de cidade.

A imagem registra um momento decisivo da história da matriz de Nova Cruz que foi o instante em que a igreja deixa de ser apenas um edifício religioso e passa a ser um símbolo de identidade urbana e progresso.

A arquitetura reflete exatamente isso: mistura de estilos, crescimento por etapas e busca por imponência — características típicas das grandes matrizes do interior nordestino no início do século XX.

Reconstituição digital por Inteligência Artificial.



Ps. Permitido a reprodução desde que citado o blog.

SOBRE A MATRIZ DE SANTANA DO MATOS EM 1942

 

A imagem publicada no jornal A Ordem de 1942 e restauradas por Ineligência Artificial da Matriz de Santana da cidade de Santana do Matos  revelam um templo em uma fase intermediária muito importante da sua evolução arquitetônica, já ampliado, mas ainda com características tradicionais do sertão.

Contexto histórico da igreja

A origem da igreja está diretamente ligada à fundação da cidade que surgiu a partir de uma capela votiva dedicada a Sant’Ana, construída após uma promessa durante uma seca, o que deu origem ao povoado.

Posteriormente, essa capela foi ampliada até se tornar matriz, com obras concluídas por volta de 1931, ou seja, poucos anos antes da foto de 1942.

A Ordem, O8/O8/1942, p.3.

Reconstituição digital de Inteligência Artificial.

Portanto, a imagem mostra a igreja ainda “recente”, praticamente na sua forma inicial de matriz ampliada.

 Composição arquitetônica

A igreja apresenta uma composição bastante clara e organizada com a fachada principal em estrutura simétrica com duas torres laterais, o corpo central com frontão triangular simples e três portas no térreo, alinhadas (tipologia clássica de matriz).

Essa organização indicava forte influência de modelos tradicionais, mas já com simplificação.

As torres são o elemento mais marcante da igreja em tela. Altas e esbeltas, reforçando verticalidade, são coroadas por agulhas piramidais (flechas) e aberturas em arco para os sinos.

Esse tipo de torre não é barroco puro, já indicava influência eclética com tendência ao neogótico simplificado, comum no início do século XX no interior nordestino.

Linguagem estilística

A igreja não era “pura” em estilo, ela mistura referências e elementos do barroco simplificado presente na organização da fachada e volumetria,, do Neoclássico presente na simetria e no frontão triangular e do Neogótico discreto presente nas torres mais pontiagudas e verticais

Essa mistura é típica de igrejas sertanejas reformadas no início do século XX, quando não havia um projeto acadêmico rígido, mas sim adaptações práticas.

Reconstituição digital de Inteligência Artificial, respectivamente.

Corpo da nave

A lateral visível indicava uma nave única alongada, paredes lisas, com poucos ornamentos, pequenas aberturas (ventilação e iluminação) e telhado em duas águas, típica de uma arquitetura funcional, adaptada ao clima quente e seco.

 Implantação e entorno

A igreja aparecia isolada em terreno amplo, cercada por estrutura simples (cerca de madeira) e com poucas construções ao redor

Isso reforçava o papel central da igreja na cidade e um estágio urbano ainda pouco consolidado em 1942

Leitura da fase construtiva (1942)

A foto Ordem registra um momento muito específico: a igreja de Santana do Matos já ampliada (pós-1931) e ainda sem as reformas posteriores dos anos 1950 (que introduziram elementos mais góticos mais marcantes).

 Ou seja, é uma versão “de transição” entre a capela original e a matriz mais desenvolvida.

Interpretação arquitetônica final

A Matriz de Santana em 1942 pode ser definida como uma arquitetura religiosa sertaneja eclética com base colonial (planta e fachada) e influências do neoclássico e neogótico simplificado.

A igreja representava bem a evolução típica das matrizes do interior do Nordeste: nascendo como capela simples, crescendo com a cidade e incorporada a elementos de diferentes estilos ao longo do tempo.

Na imagem de 1942, ela ainda mantinha equilíbrio entre tradição e modernização, com destaque para as torres, que já apontavam para uma busca de maior monumentalidade mesmo em contexto rural.


Reconstituição digital de Inteligência Artificial, respectivamente.


Sobre a matriz

    Faltam elementos precisos quanto à idade do templo. Segundo registros dos primeiros livros, entretanto, já era matriz em 1823, quando vigário o padre João Teotônio de Souza e Silva.

    É possível que a igreja que se vê nas imagens restauradas e no jornal A Ordem tenha sido construída em 1897, pois até esse ano existiria apenas uma capelinha, doada por Manuel de Matos. Em 1914 foi a igreja melhorada, com paramentos de França.A configuração atual parece ter sido realizada já na década de 1950.

    Segundo o Diário de Natal com justos motivos orgulhava-se o santanense da sua igreja, que tem o nome da Senhora Santana.

    Tratava-se de templo velhíssimo, porém, otimamente conservado pelos vigários que por ali passaram, especialmente o  padre Alcides Pereira da Silva.

    A amplitude das naves, a beleza das imagens, os curiosos alto relevos do belo forro e a reunião de tantos outros detalhes de bom gosto, emprestaram à igreja de Santana, que como um marco de fé, naquelas longínquas paragens, se encontra a desafiar os anos, o merecido título de catedral do sertão.

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Ps.Permitida a reprodução desde que citado o blog.

SOBRE A ANTIGA IGREJA MATRIZ DE ANGICOS


A imagem mostrada pelo Jornal A Ordem em 1937 e restaurada e colorizada revelam detalhes preciosos da antiga Igreja Matriz de São José, em Angicos. Essa edificação é um marco da arquitetura colonial e religiosa do sertão potiguar.

Eis uma análise técnica e histórica baseada nos elementos visuais presentes nas imagens original e restaurada digitalmente.

Estilo arquitetônico e fachada

A igreja apresenta um estilo predominantemente colonial barroco tardio, com transição para o neoclássico, algo muito comum em construções religiosas do interior do Nordeste entre os séculos XVIII e XIX.

No frontão o elemento central superior é trabalhado em volutas (curvas), características do barroco, coroado por uma cruz.

Possuia duas torres robustas com terminação em pináculos piramidais revestidos de azulejos (ou padrões que os imitam), o que ajuda na conservação contra as intempéries e dá um toque estético clássico da herança portuguesa.

               A Ordem, 2O/O2/1937,p.1.


Antiga Matriz  de Angicos em 1937.Reconstituição digital.

As três portas de entrada com arco pleno indicam a nave principal, ladeadas por janelas no coro (nível superior), garantindo simetria e ventilação.

O edifício apresenta planta longitudinal simples, com nave única alongada e volume horizontal predominante. 

A fachada principal funciona como elemento de destaque vertical, criando contraste com o corpo mais baixo da nave.A fachada era simétrica e organizada em três eixos verticais, com três portas no nível térreo. O destaque maior eram  as duas torres sineiras, que reforçavam monumentalidade e caráter urbano do templo.

As torres possuem terminações em forma de agulha (piramidais), já indicando uma fase mais tardia do barroco, com influência neoclássica.

Os vãos das torres eram em arco, típicos para ventilação e propagação do som dos sinos.

Entre as torres, havia um frontão central com ornamentos mais contidos, sugerindo uma transição do barroco mais decorativo para uma linguagem mais sóbria.

A imagem restaurada permite identificar com mais clareza uma igreja de grande porte, típica do contexto colonial brasileiro, com forte influência do barroco tardio adaptado às condições locais.

Elementos decorativos

A ornamentação é relativamente moderada, onde havia a presença de volutas e molduras suaves na fachada,o uso de nichos ou elementos decorativos centrais.

  Isso indica um barroco já simplificado, comum em igrejas do interior nordestino, onde os recursos eram mais limitados.

 Corpo da nave

A lateral da igreja revelava paredes espessas, provavelmente em alvenaria de pedra ou tijolo, uma sequência regular de portas e pequenas aberturas superiores (óculos ou janelas altas), garantindo iluminação e ventilação.A cobertura era  em duas águas com telha cerâmica.

Esse conjunto reforçava a funcionalidade e adaptação ao clima quente.

Inserção histórica e urbana

A matriz de Angicos cumpria papel central na formação da cidade, como era típico: a igreja funcionava como núcleo organizador do espaço urbano e da vida social. O largo em frente, ainda pouco urbanizado na foto, confirma essa lógica de implantação aberta, comum nas vilas sertanejas.

O templo segue um modelo bastante característico do Nordeste como a planta longitudinal simples (nave única), a ausência de transepto destacado e ênfase na fachada principal como elemento simbólico.

Esse tipo de igreja é herdeiro direto da tradição luso-brasileira, adaptada às limitações econômicas do sertão.

A fachada revelava um barroco já bastante contido, com transição para o neoclássico como a composição tripartida (três portas alinhadas), ofrontão central com decoração discreta e o uso de curvas suaves (volutas), porém sem excesso ornamental.

Esse tipo de simplificação é comum em igrejas do interior, onde não havia recursos para talha exuberante como nas capitais.

As torres sineiras eram os elementos mais marcantes do templo.

O grande destaque da igreja confirmado pela imagem  eram as duas torres laterais, simétricas, reforçando monumentalidade, coroadas por agulhas piramidais, típicas de reformas ou construções já do século XIX e aberturas em arco para os sinos.

Esse tipo de torre indica influência posterior ao barroco pleno, aproximando-se de soluções mais sóbrias e verticais.

Antiga igreja matriz de Angicos em 1937.Reconstituição digital.

O entorno e o pátio central

A igreja estava isolada, implantada em terreno amplo e aberto, o que era comum nas vilas coloniais. Isso sugeria papel central na organização do espaço urbano e possível existência de um adro ou praça frontal não totalmente estruturada na época da foto.

A restauração da imagem destaca a amplitude do Largo da Matriz. No passado, esse espaço não era apenas religioso, mas o centro da vida social e econômica da cidade.

O coreto/chafariz: À direita, nota-se uma estrutura octogonal que parece ser um antigo coreto ou chafariz, elementos centrais das praças históricas brasileiras.

Pavimentação: o piso em paralelepípedo e as grandes calçadas de pedra reforçam o aspecto de uma cidade que cresceu ao redor da fé.

A fotografia restaurada sugere uma fase anterior a grandes urbanizações com terreno ainda rústico, pouca arborização e igreja dominando completamente a paisagem

Isso reforça o papel simbólico da matriz como principal marco visual e religioso de Angicos naquele período.

Significado histórico

Angicos é uma cidade com forte tradição histórica (famosa mundialmente pelas "40 horas de Angicos" de Paulo Freire). A Igreja Matriz de São José é o símbolo máximo da resistência e da cultura do povo angicano.

 A escolha do branco com detalhes em ocre/amarelo nas molduras das janelas e cunhais é típica das construções coloniais, servindo para refletir o calor intenso da região do semiárido.

O armazém: ao fundo, à direita, aparece uma construção com telhado de zinco ou fibrocimento, que sugere a atividade comercial que muitas vezes se desenvolvia próxima às igrejas centrais.

Elementos sociais na imagem

A inserção de pessoas com trajes claros e chapéus na versão colorizada remete ao cotidiano do sertanejo e à importância de "ir à praça". A presença de flores (provavelmente agapantos ou similares na representação artística) traz vida ao cenário árido, sugerindo um momento de zelo e preservação do patrimônio.

A antiga matriz de Angicos representa um exemplo muito fiel da adaptação da arquitetura religiosa portuguesa ao sertão brasileiro: menos ornamentada, mais funcional, mas ainda mantendo elementos de imponência simbólica, especialmente nas torres e na fachada frontal.

    A igreja pode ser classificada como Barroco colonial tardio com influência neoclássica, especialmente nas proporções mais equilibradas e na redução de ornamentos, típica de uma arquitetura religiosa do Nordeste brasileiro entre os séculos XVIII e XIX, possivelmente com reformas posteriores.

Trata-se de um templo que combina monumentalidade simbólica (torres e fachada) com simplicidade construtiva (nave e laterais). A dualidade entre destaque frontal e sobriedade lateral é uma das principais características dessa arquitetura, refletindo tanto a tradição europeia quanto as adaptações locais.

Sendo a antiga matriz de Angicos, a leitura arquitetônica da imagem ganha ainda mais precisão dentro do contexto do interior nordestino do século XIX/início do XX.

Em resumo, esta igreja não foi apenas um templo, mas um documento histórico. A simetria das torres e a solidez das paredes de pedra e cal contam a história de uma época em que a arquitetura era feita para durar séculos e para ser o ponto de referência geográfico de toda uma região.

A igreja passou por uma remodelação pela qual transformou completamente o estilo e a arquitetura da matriz de Angicos, passando do antigo estilo colonial para o neogótico. Na remodelação por qual passou o templo optou-se por deixar a igreja com apenas uma torre central.

Antiga igreja matriz de Angicos.Reconstituição digital.



Ps. Permitida a reprodução desde que citado o blog.

sábado, 18 de abril de 2026

SOBRE O PRÉDIO DA ALFÂNDEGA DE NATAL

 

O prédio da Alfândega de Natal, retratado em sua versão histórica, é um exemplar significativo da arquitetura institucional brasileira do início do século XX. Sua estrutura reflete o esforço de modernização urbana e a importância econômica de Natal como porto comercial na época.

O novo prédio da Alfândega de Natal foi inaugurado em 25/O1/1929 em substituição ao antigo que se achava em ruínas.

Eis uma análise detalhada dos principais elementos arquitetônicos e do contexto:

Estilo arquitetônico

O edifício segue a linha do Ecletismo, que dominou as construções públicas no Brasil entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX. Esse estilo buscava referências em diversos períodos passados (como o Neoclassicismo e o Renascimento) para transmitir uma imagem de ordem, solidez e progresso.

A fachada é dividida de forma equilibrada, com janelas e portas distribuídas proporcionalmente em relação ao eixo central.

 O prédio possui dois pavimentos distintos, sendo o superior ligeiramente mais adornado, o que era comum para separar áreas de recepção e escritórios principais.

Reconstituição digital.

Reconstituição digital

                     Diário de Pernambuco, 24/12/1933, p.13.


Elementos de fachada

As janelas são altas (tipo guilhotina ou de abrir), essenciais para a ventilação e iluminação natural em uma cidade de clima quente como Natal. Cada janela é emoldurada por frisos que se destacam da parede lisa.

Nota-se que as quinas do edifício e as divisões das seções são marcadas por relevos que simulam colunas embutidas (pilastras), conferindo um aspecto monumental à estrutura.

No pórtico central a entrada principal é destacada por uma pequena sacada com balaustrada no andar superior, servindo como o ponto focal da fachada e reforçando a autoridade da instituição.

Solidez e funcionalidade

No topo, em vez de um telhado visível, temos uma platibanda (esse "muro" decorado que esconde o telhado). Isso era uma característica moderna para a época, afastando o visual colonial de telhas expostas.

Há uma clara distinção na base do prédio, muitas vezes feita de pedra ou reboco mais rústico, para proteger a estrutura da umidade e visualmente "aterrar" o edifício.

Antigo predio da Alfândega de Natal, atualmente Receita Federal.

Contexto urbano

A localização original (no bairro da Ribeira) era estratégica. A Alfândega precisava estar próxima ao Rio Potengi e ao porto, funcionando como a "porta de entrada" para mercadorias e a fiscalização tributária. O pavimento de paralelepípedos e a ausência de fiação aérea densa na foto sugerem o período de ouro do bairro, quando a Ribeira era o centro financeiro e social da capital potiguar.

Em resumo este prédio não era apenas um escritório fiscal; era um símbolo do Estado Federal em solo potiguar. Sua arquitetura sóbria, porém elegante, visava impor respeito e demonstrar a organização administrativa da República Velha.

 Atualmente, o prédio original passou por modificações e o contexto ao seu redor mudou drasticamente, mas mesmo o edificio preserva essa estética de "Natal de antigamente".

O edificio em tela integra o conjunto de prédio públicos construidos na Ribeira da decada de 192O/3O, os quais são considerados da "belle epoque" natalense.