terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O FUZILEIRO DE TAIPU QUE MORREU EM NOVA YORK por Rostand Medeiros

       O relato a seguir foi escrito por Rostand Medeiros no site http://tokdehistoria.wordpress.com/ e a mim enviado logo após nosso encontro no IHGRN quando fazíamos pesquisas nos alfarrábios daquela instituição e na qual  aqui reproduzo por se tratar de uma interessante história  de um homem que saiu de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte, a então Vila de Taipu, na década de 1920 do século passado para servir à Marinha brasileira e que teve um fim trágico na cidade de Nova York nos Estados Unidos da América.

O FUZILEIRO DE TAIPU QUE MORREU EM NOVA YORK

           Hoje é até raro, mas no início do século XX a coisa mais normal para um jovem que desejava sair pelo mundo para conhecer outros povos, cidades e culturas, era seguir a bordo de algum navio. Natal tinha até mesmo uma Escola de Aprendizes de Marinheiros, onde rapazes, muitos deles vindos do sertão, adentravam esta unidade de ensino da Marinha do Brasil para aprender a arte da marinharia, ter uma profissão digna e sair singrando os mares.
             Foi o que aconteceu com o jovem Luiz Leite da Câmara, nascido em 1902, na cidade de Taipu. Luiz Leite provinha de uma família de certo prestígio na comunidade, visto ser sobrinho do então Presidente da Intendência de Taipu (cargo atualmente equivalente ao de prefeito), o fazendeiro Rozendo Leite da Fonseca, dono da propriedade Maracajá.
           Não consegui apurar como se deu a entrada do jovem Luiz Leite na Marinha. Não sei se ele passou pela antiga Escola de Aprendizes de Marinheiros de Natal, centro de ensino extinto na década de 1940. O certo é que o jovem de Taipu foi servir no chamado Batalhão Naval, o atual Corpo de Fuzileiros Navais, tradicional unidade de elite da nossa força naval, no ano de 1920, quando tinha apenas 18 anos.
          Se o sonho do jovem de Taipu era conhecer o mundo, ele então se realizou, pois neste mesmo ano ele seguiu como tripulante embarcado no navio encouraçado Minas Gerais para os Estados Unidos, mais precisamente, a cidade de Nova York.

Um Poderoso Monstro de Aço

           Para Luiz Leite ser um dos membros do Batalhão Naval nesta grande belonave, em uma missão no exterior, mostra que provavelmente ele deve ter se sobressaído entre seus companheiros, pois fazer parte da tripulação daquele navio era uma verdadeira honra.
          Ao ser concluido no estaleiro Elswick Shipyard, em Newcastle-on-Tyne, nordeste da Inglaterra, em janeiro de 1910, O Minas Gerais era considerado por analistas norte-americanos, junto com o encouraçado São Paulo, os dois mais poderosos navios de guerra do mundo. Tanto que a aquisição destas duas naves pelo Brasil desencadeou uma corrida armamentista naval entre nosso país, a Argentina e o Chile.
         No mesmo ano que a Marinha do Brasil recebeu o grande Minas Gerais, ele foi palco no dia 22 de novembro da conhecida Revolta da Chibata, quando marinheiros se amotinaram contra os vergonhosos maus tratos ainda existentes nas nossas naves de guerra, que incluíam chicotadas nos marujos.
          O Minas Gerais deslocava 19.280 toneladas, tinha 165 metros de comprimento e sua velocidade alcançava 21 nós. Possuía blindagens de proteção que tinha uma espessura que variava de 102 a até 305 milímetros (mm). Seu armamento principal eram 12 canhões de 305 mm, montados em seis torres de tiro independentes. Além destas armas o encouraçado possuía 22 canhões de 120 mm e 8 de 37 mm. Tal poder de fogo fez com que o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Argentina afirmasse que os dois encouraçados brasileiros  tinham poder de fogo suficiente para sozinhos destruirem as frotas de guerra do seu país e do Chile.
          No dia 15 de julho de 1920, quando o poderoso navio zarpou do Rio de Janeiro em direção aos Estados Unidos, o potiguar Luiz Leite Câmara era um dos cinquenta fuzileiros do Batalhão Naval a bordo, em meio a uma comunidade flutuante de quase mil homens.

Na Terra do Tio Sam

          Onze anos depois de construído, o Minas Gerais seguia para a sua primeira modernização, cuja ordem de envio do navio foi assinada pelo então Ministro da Marinha, Joaquim Ferreira Chaves, que por duas ocasiões havia sido governador do Rio Grande do Norte.
            Como o Brasil, país na época essencialmente agrícola, não possuía um estaleiro com capacidade para o reparo deste tipo de máquina, a solução foi seguir para o estaleiro da marinha norte-americana (U.S. Navy), localizado no bairro do Brooklyn, em Nova York.
             Em 22 de agosto, lentamente o grande e poderoso Minas Gerais deslizava pelas águas do Rio Hudson e logo passava ao lado da Estátua da Liberdade. Depois aproa apontou para o trecho do East River, onde se encontrava o seu destino, o estaleiro conhecido na cidade como Brooklyn Navy Yard.
             Deve ter sido muito interessante para o jovem de Taipu chegar a esta metrópole com mais de cinco milhões e meio de habitantes no início da década de 1920.
O destino da sua nave de aço ficava próximo a Manhattan e a ponte do Brooklyn. Uma posição extremamente privilegiada para quem se encontrava nesta grande cidade.
             A função do fuzileiro Luiz Leite e de seus companheiros era a guarda interna do navio, pois para todos os efeitos, o Minas Gerais era tecnicamente território brasileiro e sua segurança cabia a guarnição do Batalhão Naval.
             Os dias e meses foram passando. Conforme se aproximava o final do ano, a cidade esfriou e finalmente caiu a neve. Com o novo ano de 1921 os trabalhos de restauração e modernização continuaram no Minas Gerais a todo vapor. Entre as modernizações foram instalados armas antiaéreas e novos equipamentos de controle de fogo das baterias de canhões.
           Durante o período em que o fuzileiro potiguar esteve em Nova York, ele participou da tropa que representou o Brasil na inauguração da estátua equestre do herói latino americano Simon Bolívar. Este evento ocorreu no dia 19 de abril de 1921, no Central Park  e contou com a participação de Warren G. Harding, então presidente dos Estados Unidos.

O Fim

             Em 25 de junho de 1921, na primeira página do jornal “A Republica”, aparece uma nota intitulada “A morte de um marinheiro nacional”, onde os fuzileiros Augusto Teixeira de Oliveira e Melchidesech Silva Relly solicitam que o redator do jornal, Eloy de Souza, publique uma nota sobre a morte do fuzileiro Luiz Leita da Câmara. 
Eloy não se nega e o epitáfio é acompanhado de dados sobre o ocorrido e uma pequena biografia do potiguar de dezenove anos.
             Eles informam que Luiz Leite faleceu no dia 26 de maio, no hospital naval de Navy Yard, sem ser especificada a causa. Dois dias depois o corpo foi encaminhado para o Cemitério de Cypress Hills, na Avenida Jamaica, onde seus restos estão até hoje no túmulo de número 83.
             Grande parte da tripulação do Minas Gerais esteve presente. O comandante do Brooklyn Navy Yard, o Contra almirante John C. MacDonald ordenou que para o simples praça do Batalhão Naval brasileiro fosse realizado um enterro com todas as formalidades de praxe. Uma guarnição armada e a banda do encouraçado da marinha americana Pensilvânia, se fez presente para prestar as últimas homenagens.
             Augusto Teixeira de Oliveira e Melchidesech Silva Relly afirmaram que o fuzileiro potiguar, apesar da pouca idade, era muito respeitado pelo resto da guarnição do Minas Gerais , tanto fuzileiros, quanto os marinheiros.
Em outubro daquele mesmo ano o encouraçado Minas Gerais retornou para o Brasil. Ele seria desmontado na década de 1950.

           Em uma recente visita a cidade de Taipu, a cerca de 50 quilômetros, ao buscar resolver outras situações, aproveitei para tentar encontrar algum vestígio desta história, mas não descobri nenhuma informação foto e nem ninguém que soubesse algo sobre este jovem fuzileiro que jamais voltou para casa.

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