A revista Fon-Fon [1]
na seção Cartas Jagunças (anno III, n. 3, 1909), exibia uma poesia em que se
falava de um fato pitoresco ocorrido em Taipu-RN.Eis a baixo a poesia.A grafia
e a prosódia foram conservadas conforme constam no original.
Cartas jagunças
Subscripto:
José Tinoco Libório
No
distrito Federal,
Rua
do Hospicio chamada
Quas
na Avenida Central.
Carta aberta
-
Ceará Mirim, dois do andante
Meu
cumpade, seu Tinôco
vosmicê
zangou co’a gente
ou
fai da gente bem poço.
Já
la se vai trinta dias
qui
n’unten-o carta sua
Sá
Bebé, sua cumade,
P’ru
sua causa se amua.
A
afiada Janiquin-a
Ta
toda triste pensando,
Que
cumpade num se alembra,
Mais
della, e vévi chorando.
A
falla e pregunta e pede
Qui
eu li mande ahi sabê,
O
que é feito do cumpade,
Pruquê
deixou de escrevê.
Eu mesmo já tou cismado
No
qui foi que açucedeu
Dara-se
caso ( prugunto)
Qui
Tinôco adoeceu?
Mai
infim o mundo é todo,
Todo
cheiin-o de ingrato...
A
gente arrecebe um bêjo
E
arrecompensa em maus trato.
Esta
missiva de agora,
Seu
cumpade tem dois fin:
Açucegá
Janinquin-a
E
li falá, num de mim,
Mai
de argumas certa couza
Qui
no Taipú se passarum:
Cousas
do arco da veia,
Qui
a toda gente pasmarum:
Era
povo como o diabo,
Na
parada do Taipú,
Esperando
o boi de jogo
Bufá,
fazendo-chi-fú?
Cômes
e bébes, cumpade,
Já
se sabe n’um fartou;
Muita
menina de branco,
Qui
nosso hyno cantou.
Teve
Gente da Pelada,
Cá
do Çará tomen teve;
E
muitas otoridades...
Gunvernadô
La esteve.
Mas,
porém, tantas festança,
P’ró
que foi, vae próguntá,
Meu
cumpade curioso,
Qui
num sabe advinha.
Sabe,
pruqê? advin-e.
Advin-e
para que tantas
Festança
apreparada
Para
o Felismino Dantas.
O
nosso bom curuné,
Cunceituado
da terra
Em
que fala todo o mundo,
Qui
anda muito na berra.
Mas
deixe aqui registrá
Um
fato que aconteceu
Quando
o seu Guvernadô
No
Taipú, do trem dêceu:
Ai
seu Tinôco, que graça!
De
mata a dentro correu
Gente
cum medo do bicho
De
que seu doto deceu.
Foi
um sario peitado!
Cavalos
rédia partirum,
Espantado
co’o trenzi-o
Cuma
uns danado fugirun.
Na casa do curuné
Discursaram
seus dotô,
Mas
Feslimino é escovado,
Tomem
aos dotô brndô.
E
dixe no fin do brinde
Esta
cousa que agrado:
-Na
fulô do gerimum,
Li
saúdo, seu dotô.
Esse
cális vréimeiado,
Qui
brota na sua era,
Encho
do vinho, que é raro
D’uma
amisade sincera...!
E
... seu cumpade inté breve...
Inté pudé li escrevê;
Hoje
, n’um tenho mas tempo,
Vou
paceiá com a Bebé.
N’um
si isqueça: Janinqui-a
Deseja
sabe seu passo.
Num
demore sua vorta
E
arreceba meu abraço.
A carta é assinada por ‘Mané do
Riachão’ e trata de um acontecimento pitoresco quando da chegada do trem em que
muitas pessoas fugiram com medo do veiculo. A carta fala de uma homenagem
oferecida a um certo coronel Felismino Dantas ‘conceituado na região’ segundo
diz a referida carta.Diz o texto da
missiva que na ocasião vieram diversas autoridades da região e do estado
inclusive o governador.É citado a localidade da Serra Pelada, conhecida e
registrada na carta como somente ‘Pelada’.
[1] A respeito da referida revista,
foi uma revista brasileira surgida no Rio de Janeiro em 1907. Seu nome era uma
onomatopeia do barulho produzido pela buzina dos automóveis. Tendo como um de
seus idealizadores o célebre escritor e crítico de arte Gonzaga Duque, tinha no
enfoque dado a ilustração uma de suas principais características. Um grande
exemplo dessa premissa foi a colaboração do pintor Di Cavalcanti em 1914.1 A
revista, inclusive, tornou célebres ilustradores como Nair de Tefé, J. Carlos,
Raul Pederneiras e K. Lixto. Tratava principalmente dos costumes e notícias do
cotidiano e foi publicada até agosto de 1958.
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