segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Taipu na revista Fon-Fon em 1909


            A revista Fon-Fon [1] na seção Cartas Jagunças (anno III, n. 3, 1909), exibia uma poesia em que se falava de um fato pitoresco ocorrido em Taipu-RN.Eis a baixo a poesia.A grafia e a prosódia foram conservadas conforme constam no original.

Cartas jagunças
Subscripto:
 José Tinoco Libório
No distrito Federal,
Rua do Hospicio chamada
Quas na Avenida Central.

 Carta aberta
- Ceará Mirim, dois do andante
Meu cumpade, seu Tinôco
vosmicê zangou co’a gente
ou fai da gente bem poço.

Já la se vai trinta dias
qui n’unten-o carta sua
Sá Bebé, sua cumade,
P’ru sua causa se amua.

A afiada Janiquin-a
Ta toda triste pensando,
Que cumpade num se alembra,
Mais della, e vévi chorando.

A falla e pregunta e pede
Qui eu li mande ahi sabê,
O que é feito do cumpade,
Pruquê deixou de escrevê.

 Eu mesmo já tou cismado
No qui foi que açucedeu
Dara-se caso ( prugunto)
Qui Tinôco adoeceu?

Mai infim o mundo é todo,
Todo cheiin-o de ingrato...
A gente arrecebe um bêjo
E arrecompensa em maus trato.

Esta missiva de agora,
Seu cumpade tem dois fin:
Açucegá Janinquin-a
E li falá, num de mim,
Mai de argumas certa couza
Qui no Taipú se passarum:

Cousas do arco da veia,
Qui a toda gente pasmarum:
Era povo como o diabo,
Na parada do Taipú,
Esperando o boi de jogo
Bufá, fazendo-chi-fú?

Cômes e bébes, cumpade,
Já se sabe n’um fartou;
Muita menina de branco,
Qui nosso hyno cantou.

Teve Gente da Pelada,
Cá do Çará tomen teve;
E muitas otoridades...
Gunvernadô La esteve.

Mas, porém, tantas festança,
P’ró que foi, vae próguntá,
Meu cumpade curioso,
Qui num sabe advinha.

Sabe, pruqê? advin-e.
Advin-e para que tantas
Festança apreparada
Para o Felismino Dantas.

O nosso bom curuné,
Cunceituado da terra
Em que fala todo o mundo,
Qui anda muito na berra.

Mas deixe aqui registrá
Um fato que aconteceu
Quando o seu Guvernadô
No Taipú, do trem dêceu:

Ai seu Tinôco, que graça!
De mata a dentro correu
Gente cum medo do bicho
De que seu doto deceu.

Foi um sario peitado!
Cavalos rédia partirum,
Espantado co’o  trenzi-o
Cuma uns danado fugirun.

 Na casa do curuné
Discursaram seus dotô,
Mas Feslimino é escovado,
Tomem aos dotô brndô.

E dixe no fin do brinde
Esta cousa que agrado:
-Na fulô do gerimum,
Li saúdo, seu dotô.
Esse cális vréimeiado,
Qui brota na sua era,
Encho do vinho, que é raro
D’uma amisade sincera...!

E ... seu cumpade inté breve...
Inté  pudé li escrevê;
Hoje , n’um tenho mas tempo,
Vou paceiá com a Bebé.

N’um si isqueça: Janinqui-a
Deseja sabe seu passo.
Num demore sua vorta
E arreceba meu abraço.

            A carta é assinada por ‘Mané do Riachão’ e trata de um acontecimento pitoresco quando da chegada do trem em que muitas pessoas fugiram com medo do veiculo. A carta fala de uma homenagem oferecida a um certo coronel Felismino Dantas ‘conceituado na região’ segundo diz a  referida carta.Diz o texto da missiva que na ocasião vieram diversas autoridades da região e do estado inclusive o governador.É citado a localidade da Serra Pelada, conhecida e registrada na carta como somente ‘Pelada’.




[1] A respeito da referida revista, foi uma revista brasileira surgida no Rio de Janeiro em 1907. Seu nome era uma onomatopeia do barulho produzido pela buzina dos automóveis. Tendo como um de seus idealizadores o célebre escritor e crítico de arte Gonzaga Duque, tinha no enfoque dado a ilustração uma de suas principais características. Um grande exemplo dessa premissa foi a colaboração do pintor Di Cavalcanti em 1914.1 A revista, inclusive, tornou célebres ilustradores como Nair de Tefé, J. Carlos, Raul Pederneiras e K. Lixto. Tratava principalmente dos costumes e notícias do cotidiano e foi publicada até agosto de 1958.

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